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Os Bons Muggles

De Wikipedia “Muggle“:

Muggle, a term from the Harry Potter book series by J. K. Rowling, refers to a person who lacks any sort of magical ability and was not born into the magical world. It differs from the term Squib, which refers to a person with one or more magical parents yet without any magical ability, and from the term Muggle-born (or the more offensive mudblood), which refers to a person with magical abilities but without magical parents.”

No mesmo artigo, um pouco mais à frente, pode-se ler aquilo que quase todos os geocachers sabem: que o termo foi adoptado pelos practicantes deste nosso jogo para designar todos os humanos que não conhecem a magia de andar com um GPS na mão à procura de caixinhas, em suma, que nunca ouviram falar em tal coisa como Geocaching.

Todos nós tememos os “muggles”, essas criaturas ávidas de deitar a unha aos nossos tesouros mais queridos e estropiá-los das formas mais aviltantes. Quantas vezes chegámos a um ponto zero, cheios de vontade de assinar mais um gratificante “found”, apenas para ver os restos mortais daquilo que foi um dia uma garbosa cache, esventrada, com folhas de logbook afogadas em lama, um lápis aqui, um velho brinquedo acolá, tudo espalhado, à mercê dos elementos? E quem faz essas coisas? Pois é, quase sempre os malvados “muggles”.

Ora como a natureza maléfica daqueles que não conhecem o mundo da magia do Geocaching é amplamente reconhecida, decidi escrever este artigo para divulgar uma sub-espécie, infinitamente mais rara, a que chamarei de “os bons muggles”. Testemunhos dos seus actos podem ser recolhidos em inúmeros logs, que, contudo, se perdem das dezenas de milhares que anualmente são gerados. Muitos dos que me lêem nunca se depararam com um tal relato, e por isso escrevo estas linhas, onde falarei dos “bons muggles”.

Um dos tipos de “bons muggles” mais frequente é o residente. Falo das criaturas que moram nas imediações de uma cache, ou que por qualquer razão frequentam o local. Mais cedo ou mais tarde interpelam um geocacher, que, intimidado, lhes confessa tudo sobre o nosso jogo e sobre a cache que ali o trás. Ou descobrem, por si próprios, o que está por detrás daquela pedra que tantos estranhos remexem antes de abandonarem a área com um sorriso mal disfarçado nos lábios. Com o tempo ganham coragem, começam a interagir conosco, a indicar a direcção certa, tornam-se adeptos do jogo na qualidade de espectadores activos. Há casos em que raro é o log que não refere a aparição do “senhor” de sempre, de dedo esticado, apontando o spot prontamente, de expressão malandra, cúmplice. Muitas vezes são “muggles” reformados, habituados a passar os dias à espera de nada, debatendo-se na solidão que se renova a cada nascer do sol. E é com uma espécie de alegria que vêem aproximar-se mais um daqueles jovens de máquina na mão, com quem sabem poder ter dois dedos de conversa, antes de regressarem às suas rotinas que mais não são do que uma manta a aquecer o frio da vida que foi. Respeitem-nos! São “bons muggles”. E ajudam-nos.

Outro género de muggles que por vezes se revela benévolo provém dos “profissionais”. O jardineiro é um dos piores tipos de “muggle” mas é certo que alguns existem com coração de ouro. Recordo-me de me aproximar de uma cache, em Lisboa, convencendo-me que não a poderia procurar tamanha era a brigada de jardineiros que trabalha na zona. Acabei por descobrir que o esconderijo se encontrava num ângulo morto e joguei-lhe a mão. Encontrei o contentor e tenho a certeza que minutos antes este tinha sido inspecionado por um jardineiro que o colocou carinhosamente no seu ninho. Considerando a profundidade da limpeza envolvente, só poderá ter sido assim. Noutra ocasião, em Praga, onde vivia, uma equipa da “Câmara” abateu uma enorme árvore que se encontrava doente, e com ela, a cache que repousava no seu interior. Descobrindo-a, deram-se ao trabalho de contactar o owner, que mais tarde a levantou nos serviços municipais. As forças policiais fornecem alguns destes “bons muggles”.  A Jewell of Saphire (GCED4F) foi uma das melhores caches que já encontrámos. E um dos condimentos para o sucesso da jornada foi um delicioso log que lá fomos encontrar. À primeira vista nada havia de suspeito na última assinatura existente no logbook: GNR. Afinal de contas, se há uma banda de rock com esse nome, porque não um geocacher? Mas quis o destino que o olhar recaísse sobre essa entrada do livrinho e que as palavras começassem a fazer um sentido muito próprio. Não, não se tratava de um geocacher. A assinatura era mesmo deles, da instituição, essa mesmo, A Guarda Nacional Republicana tinha encontrado a cache. E a explicação estava toda lá: que alguém os tinha alertado para movimentações suspeitas naquele local ermo – vá-se lá entender como, pois “ermo” para descrever o sítio é favor e não se imagina como alguém poderia estar por ali presente para testemunhar as episódicas idas e vindas dos geocachers – e que eles tinham vindo cumprir a sua obrigação. Inspeccionado o local, o contentor foi descoberto e transportado para o posto. Ali, algum dos agentes da autoridade terá lido a stashnote e, reparando no endereço do website, consultou-o até compreender o conceito. Resultado: a cache foi devolvida ao seu devido lugar, com o tal log em que para além da narrativa dos acontecimentos constava uma frase de parabéns pela ideia e de boa sorte para o jogo. Ah! E ainda foi efectuado trade, tendo encontrado entre as prendinhas um calendário da GNR .

Deixem-me falar agora do “ex-bom muggle”. Não, não é que a sua bondade tenha expirado. O que sucedeu é que ao encontrar uma cache por acidente, sabe-se lá como, leu com atenção a “stashnote”. Chegou a casa e ligou-se à Internet. Visitou o geocaching.com. Achou tudo aquilo interessante…olhou para o smartphone, ali em cima da secretária e… tornou-se um geocacher! São mais do que a maioria de nós pensa. De tempos a tempos tropeço numa narrativa, geralmente na primeira pessoa, que dá conta de mais um “ex-bom muggle” feito agora geocacher. Quem diria, considerando as probabilidades.

E depois há um “bom muggle ocasional”, que tropeça numa cache no mais perfeito dos acasos, examina-a, segue o seu caminho, por vezes deixando para trás um pormenor requintado. Lembram-se do Boris, o emigrante, sabe-se lá de onde, talvez da Ucrânia, talvez da Moldova, que pendurou um container em local seguro com uma nota singela, traçada pela sua mão:  “I Love Portugal” ?

Bem, mas deixem-me agora fazer uma confissão: este artigo foi inspirado por um “muggle” específico, que não se enquadra em nenhuma destas categorias. Trata-se do Lázaro. E quem é o Lázaro? É o guardião e melhor amigo da minha cache Cerro do Botelho.  Já não me lembro qual foi a primeira vez que ouvi falar nele. Alguém me disse que um “muggle” local tinha encontrado esta cache por acidente e que a tinha transformado em objecto de adoração. Ri-me. Depois, muito mais tarde, passei por lá e percebi o que me tinham querido dizer. O bom do Lázaro passa regularmente naquele lugar ermo, e invariavelmente deixa um “log” no livrinho. Ao principio pensei que era aborrecido, um muggle estar assim a usar precioso espaço do logbook. Mas depois comecei a ler, e os sorrisos que aquelas puras mensagens me despertaram valeram bem os logbooks que terei que gastar. São inscrições do tipo “Bom dia a todos os amigos, hoje o dia está muito bonito. Lázaro”. “Olá, voltei aqui outra vez e está tudo bem. Lázaro”. “O Lázaro veio visitar”. Como se não bastasse o interesse que dedica à minha cache, agora criou um pequeno monumento. A sério! Ora vejam lá a foto que se segue….

Uma saída depois do sol-posto é uma experiência nova para o geocacher iniciado. Chegada a noite tudo parece diferente, e os processos habitualmente empregues na caçada depressa se revelam inúteis. É complicado obter mentalmente pontos de referência. A noção de distância torna-se difusa. Os mais assustadiços sentem-se nervosos com as sombras que os envolvem e que parecem ganhar vida. E depois de chegados ao local onde a cache se encontrará escondida, a escuridão dificulta a procura. Na cidade, apesar da calma reinante e do natural decréscimo de muggles às horas tardias, o Geocacher tende a sentir-se inseguro, enquanto os viandantes pontuais o observam com expressão desconfiada.

Em termos mais pragmáticos, talvez a principal desvantagem do Geocaching seja a privação da experiência visual. Sem luz solar, o Geocacher não pode apreciar o meio envolvente. É por esta razão que procuro limitar as minhas saídas nocturnas a locais que já conheço sobejamente ou a caches desenhadas para funcionar pela noitinha. De resto, é preciso ter algum estofo para enfrentar o desconforto instintivo que a noite causa no comum dos mortais. Uma caminhada por um trilho serrano às duas da manhã faz disparar os níveis de adrenalina no corpo, especialmente se o geocacher seguir sozinho. Os ruídos naturais são absorvidos de outra forma, o restolhar da vegetação pode causar um sobressalto. A escuridão torna-se ameaçadora. Mas tudo isto contribui para o carácter único da experiência. Afinal, porque carga de água nos deixaríamos arrastar para uma caminhada destas a horas indecentes, senão pela emoção da procura da caixinha?

Claro que existem saídas mais simples, em meio urbano ou em caches à beira da estrada, durante as quais o geocacher nunca perde o contacto com o habitáculo acolhedor do seu cachemobile. Aí, a fruta é outra. Tendem a ser expedições para acumular mais umas quantas caches à lista de achamentos, e não tanto para apreciar os locais para os quais os seus criadores pretenderam chamar a atenção. Podem seguir-se à paródia de um jantar de Geocachers, ajudar a ultrapassar uma noite de insónia ou preencher um par de horas em aberto na nossa agenda. Mas por regra são caches procuradas, por assim dizer, para encher chouriços, para a desbunda.

Contudo, existem notáveis excepções, e essas são representadas pelas caches especificamente concebidas para serem caçadas de noite. Em princípio, considerando as suas características e as técnicas empregues, nem poderão ser “atacadas” em pleno dia. É que o uso de fitas reflectoras ao longo de um percurso exige escuridão quase total, e, já agora, uma lanterna capaz de produzir um foco de luz intenso. Com estes ingredientes estão asseguradas algumas experiências notáveis. A alteração dos ambientes costumeiros resulta na geração de emoções novas, e não é raro os velhos praticantes guardarem umas quantas cachadas nocturnas entre as suas memórias mais acarinhadas.

No plano técnico, há a acrescentar que a procura de um contentor à luz de lanterna transforma o simples em complicado e o complicado em simples: se por um lado a perda da noção do espaço evolvente pela privação de luz dificulta a pesquisa, também é verdade que a utilização de uma lanterna incrementa os níveis de concentração na análise da pequena área que iluminamos a cada momento. Além disso, as fortes sombras projectadas, por estranho que pareça, tornam mais fácil identificar elementos estranhos, nomeadamente quando as caches se encontram escondidas em muros, meios rochosos ou árvores.

Nunca é demais sublinhar que os cuidados de segurança devem ser duplicados numa caçada nocturna. Um passo em falso pode projectar o geocacher por uma ribanceira da qual a existência nem suspeita, ou fazê-lo mergulhar num poço a céu aberto que se mantém na obscuridade até ser tarde demais. E depois, há a eterna questão dos muggles, esses velhos “inimigos” do geocacher. Se a discrição deve ser uma constante no comportamento do caçador de caixas, pela noite a recomendação ganha outro significado. As pessoas estão mais alertas para movimentações estranhas, e o foco da lanterna é um indicador de actividades que à luz do dia passariam completamente despercebidas. Já não se encontra apenas em causa a segurança da cache. É preciso respeitar os habitantes locais, pormo-nos na sua situação: certamente que se habitássemos num local ermo, nos sentiríamos preocupados e mesmo angustiados se de tempos a tempos sentíssemos estranhos chegar a altas horas da noite, munidos de lanternas, e internarem-se nos matos ali mesmo à beira da casa, desenvolvendo sabe-se lá que actividades. De novo, respeito e civilidade impõem-se no comportamento do geocacher. Se cachar de noite, seja discreto, para bem do jogo e por respeito para com o próximo.

P.S. – Não, este artigo não foi redigido segundo as regras do Acordo Ortográfico.

Quando, a meio de uma viagem pelos Balcâs em Novembro último, o meu Dakota 20 começou a dar sinais de doença, fiquei preocupado. Depois, na sequência de quase duas semanas a lutar pela vida, finou-se. A memória interna parou de pulsar, para não mais voltar. E deixou-me, para ali perdido, numa terra desconhecida, sem referências, sem rumo… e sem saber como o substituir.

O mercado de unidades GPS é uma coisa depressiva. A Garmin reina, num regime de quase monopólio, depois de a Magellan, à custa de tiros sucessivos nos pés, se ter afundado sem salvamento à vista. E se tal sucedeu, não foi por mérito da concorrência, leia-se, da Garmin, mas sim porque o vigor com que disparou contra os seus pés foi superior.

Portanto, ali estava eu, em terras de Herzegovina, a pensar nestas coisas. Como é triste não ter uma alternativa, e ser assim empurrado para um novo negócio com uma marca cujo último equipamento, para além de plasticamente arruinado de forma precoce (ao fim de 20 meses o revestimento emborrachado do Dakota foi pelando até ficar apenas o plástico do chassis) morreu de forma estranha e com precisão cirúrgica: um mês depois de expirar a garantia.

As hipóteses em cima da mesa foram sendo adicionadas e retiradas ao sabor das descobertas feitas. Dakota 10 a 150 Eur… Oregon 450 a 300 Eur… Oregon 550… ai que isto já está a ir longe de mais… 400 Eur… hummm 374 Eur… melhor…. e porque não um Montana por 400 Eur? Porque é grande para caramba e este modelo não tem câmara. Bem, para o final ficaram os extremos: ou ia gastar quase nada num Dakota 10, que afinal é o que eu tinha menos a bússola de três eixos e o slot de cartãpo de memória (que nunca usei) ou ia gastar uma pequena fortuna num suposto topo de gama (ou será que o Montana é que o é….?).

Acabei por curar a consciência repetindo-lhe que isto é afinal o maior gosto que tenho na vida (não só Geocaching como viajar, andar na natureza, Waymarking) e que um dia não são dias. E foi assim que me tornei proprietário de um Garmin Oregon 550.

Não sei se foi da fase da Lua ou de ter ainda a carteira dorida, mas o primeiro dia de utilização deixou-me de mau-humor com a máquina. Se calhar esperava mais pela diferença de preço. Portanto, com o dinheiro que gastei neste Oregon 550 podia ter comprado TRÊS Dakota 10!! Mas, vejamos o que fiquei a ganhar em relação a apenas um desses:

  • Slot de cartão de memória;
  • Bússola de três eixos;
  • Câmara fotográfica;
  • Maior superfície de visualização;
  • Aplicação para cartuchos Wherigo;
  • e ainda… Uma garantia Garmin Portugal, porque o outro viria de França (Pixmania)

Certamente existirão pormenores que escaparam a este apanhado. Mas depois há também os factores opostos, que seriam dispensáveis: menor autonomia, peso e tamanho superiores. O peso foi aliás uma das coisas que me desagradou no primeiro momento, tamanha é a diferença em relação ao Dakota que costumava andar comigo. O seu aumento está longe de ser proporcional à melhoria do tamanho do screen! Pelo menos que signifique uma maior robustez e que daqui a dois anos não ande a apanhar bocadinhos deste Oregom do chão, como sucedeu com as borrachas do seu predecessor. Quanto à menor automomia, e, claro, às dimensões, são o preço a pagar pela maior área de screen.

E de que forma essa área reforçada melhorou o meu Geocaching! Senti-me que nem um rei, sentadinho no lugar do morto do cachemobil, que nem operador de AWAC, monitorizando todas as caches, estradas e estradecas num raio de não sei quantos quilómetros, de forma clara e ampla! Portanto, mesmo naquele primeiro dia de cepticismo amargo, esse foi um ponto claro a favor do Oregon. A área melhorada de screen conta, e muito!

Associada a esta melhoria, está a alta definição (quando comparada com a linha Dakota) destes screens. É um gosto para a vista, reforçado pelo brilho extra que se torna evidente. Não há dúvidas, a forma como este Oregon lida com a rivalidade da luz solar é muito aceitável. Está caída por terra uma das razões dos detractores dos GPS com touchscreen. Se já com o Dakota esse foi um problema que raramente me afectou, a questão fica despachada com os melhoramentos conseguidos nestes Oregon mais recentes.

Mas o que de facto fez pender a compra a favor deste Oregon adquirido a peso de ouro foi a sua câmara. Os 3.2 megapixels não significam nada. Nunca fui gajo de prestar atenção aos números, prefiro atentar nos resultados. E, por isso, procurei encontrar algumas imagens tiradas por um Oregon 550, tendo gostado do que vi. Já com ele na mão, fiz os meus testes e mais feliz fiquei. Para o tipo de equipamento, a câmara funciona que nem uma maravilha. Mais, para uma utilização on-screen, em muitos casos não noto grandes diferenças em relação à minha Nikon D90.

Se a qualidade das fotografias é razoável, não seria anda sem a feature que realmente me conquistou; a georeferenciação automática, ou seja, a inclusão das coordenadas nas imagens recolhidas, numa área invísivel do ficheiro gravado, que pode ser acedida mais tarde. As vantagens desta brincadeira davam por si só para um artigo. Vou portanto resumir: o meu Waymarking é agora uma maravilha… em qualquer lado que aviste um ponto de interesse, pimba, 3 ou 4 fotografias de ângulo e aproximação variada, e posso seguir viagem sem me preocupar com mais nada. Levo ali tudo para fazer um Waymark, com a vantagem de que, sendo os ficheiros JPG relativamente pequenos, posso fazer o upload das imagens sem perder tempo a processá-las, nomeadamente a reduzi-las para ficarem com um tamanho razoável. Depois, isso de marcar waypoints à passagem de algo cuja localizção pretendemos recordar, já era. Agora, tiro logo uma fotografia, e fico com as coordenadas e com a memória visual para não haver enganos. O mesmo quando largo um TB. Era sempre um drama. Passava a vida a meter as mãos pelos pés, a trocar as caches onde tinha deixado TB’s. Not anymore. Fotografia, já está. Claro que antigamente também podia tirar-lhes uma fotografia. Mas se um GPS está sempre comigo quando “cacho”, o mesmo não se pode dizer de uma câmara. Bem, agora pode-se. Escusado será dizer que é possível lidar com as fotos da mesma forma com que se abordam waypoints. Ou, em alternativa, adicionar uma foto a um waypoint.

Já que falo de imagens, tenho que abordar outra melhoria que este GPS trouxe ao meu Geocaching. Deixei de ser uma potencial vitima para os maniacos que colocam da hint: “ver foto spoiler”. Mesmo o que um tipo gosta de ler, quando está perdido no meio de um mar de calhaus no meio de nenhures. Ah está bem, foto spoiler, claro… [fazer um passe de magia … voilá… aqui está ela, tirada da manga! Pronto.  Mas o que anteriormente era um cenário de ficção, agora torna-se possível, graças ao visualizador de imagens incorporado no Dakota 550 (atenção que ouvi dizer que a última actualização para os Dakota inclui esta funcionalidade). Contudo é preciso avisar: raras coisas são simples quando se lida com a Garmin. Para ter acesso de forma funcional às fotos spoiler, é quase preciso tirar um curso superior, usar GSAK, instalar um número variável de scripts e por fim correr o POILoader.

Para terminar, não pude resistir a dar uma vista de olhos à lista de coisas que gostava de ver mudadas no meu ex-Dakota, que redigi apenas umas semanas antes dele “morrer”. Cerca de metade delas continua por se concretizar neste Oregon:

  • Que os favoritos e as caches e tudo o mais passem a funcionar como ficheiros estruturados numa hierarquia de pastas, tal e qual como sucede num sistema operativo e como era no Magellan Explorist. Pode-se assim abrir e fechar ficheiros, gerindo o que se necessita a cada momento e evitando o caos do tipo “tudo ao molho” causado pelo actual sistema.
  • Que se possam gerir as Geocaches da mesma forma como se faz com os Waymarks. Ou pelo menos permitindo apagá-las.
  • Seria óptimo poder manter mais do que um grupo de estatísticas dentro de um mesmo profile. Por exemplo, gosto de ver estatísticas referentes às minhas caminhadas, mas em dias em que me desloco a pé e de carro isso torna-se impossível.
  • Não custava mesmo nada permitir “gravar” as estatísticas, até para arquivo e posterior consulta.
  • Que a lista de caches encontradas se possa ordenar como quisermos, ou, se não puder mesmo ser, que seja ordenada por ordem de achamento e não por distância ao ponto actual, o que é quase absurdo. E digo “quase” porque pelos vistos há alguém na Garmin que vê alguma lógica nisto.
  • Que não fosse preciso desatar a correr para que a lista de Geocaches mais próxima nos mostrasse a setinha a apontar a direcção de cada uma delas.

O que é verdade é que agora ando sempre em pulgas para ir para o terreno e dar uso a esta máquina. E também ganhei um novo alento para a práctica do Geocaching, algo que tinha andado arredado das minhas vontades nos últimos meses.

Lista de Pedidos ao Pai Natal para um Garmin Dakota melhor

  • Que os favoritos e as caches e tudo o mais passem a funcionar como ficheiros estruturados numa hierarquia de pastas, tal e qual como sucede num sistema operativo e como era no Magellan Explorist. Pode-se assim abrir e fechar ficheiros, gerindo o que se necessita a cada momento e evitando o caos do tipo “tudo ao molho” causado pelo actual sistema.
  • Que se possam gerir as Geocaches da mesma forma como se faz com os Waymarks. Ou pelo menos permitindo apagá-las.
  • Seria óptimo poder manter mais do que um grupo de estatísticas dentro de um mesmo profile. Por exemplo, gosto de ver estatísticas referentes às minhas caminhadas, mas em dias em que me desloco a pé e de carro isso torna-se impossível.
  • Não custava mesmo nada permitir “gravar” as estatísticas, até para arquivo e posterior consulta.
  • Que a lista de caches encontradas se possa ordenar como quisermos, ou, se não puder mesmo ser, que seja ordenada por ordem de achamento e não por distância ao ponto actual, o que é quase absurdo. E digo “quase” porque pelos vistos há alguém na Garmin que vê alguma lógica nisto.
  • Que existissem garantias de que o paperless Geocaching nunca deixava uma pessoa apeada. Há poucas coisas mais frustrantes do que chegar ao local de uma Earthcache um Multicache e descobrir que as questões a responder não aparecem no GPS porque existe demasiado texto.
  • Que existissem garantias que nenhuma cache crashava o GPS ao carregar a descrição, como actualmente sucede com algumas situações.
  • Que não fosse preciso desatar a correr para que a lista de Geocaches mais próxima nos mostrasse a setinha a apontar a direcção de cada uma delas.
  • Que o limite (artificial, imposto por decisão “política”) de Geocaches fosse elevado
  • Que os materiais usados fosse de melhor qualidade de forma a não ter um Dakota com a cobertura em borracha toda pelada ao fim de menos de dois anos de utilização.


Vistas da primeira cache encontrada

Corria a Primavera de 2004, que já deixava adivinhar um Verão quente e seco. Há apenas dois anos tinha-me mudado para a casa na franja da serra do Caldeirão, junto à qual criei posteriormente a cache Cerro do Botelho. Um dos meus vizinhos – e nestes ambientes, um vizinho pode estar a 700 metros de distância como era o caso – tinha-me mostrado um dos seus “gadgets”, um GPS de mão Garmin eTrex Legend. Fiquei fascinado com as possibilidades. E como sempre acontece nestas situações, passado poucos dias encomendei o meu próprio dispositivo. Foi então que, ao procurar esclarecer uma dúvida na Internet, dei de caras com uma referência a “Geocaching”. Depois, foi encontrar o website oficial, que ainda hoje utilizamos, e entusiasmar-me com o conceito.

Não sei quantas caches existiam no Algarve por essa altura. Talvez umas 15 ou 20. Dessas, umas 5 estariam num raio de acção razoável, a partir de casa. Entretanto, 2004 estava a ser um ano cheio de novidades. O GPSr seria uma adição menor, quando comparada com a primeira moto 4 da casa, uma Polaris Trailblazer 250 cc com motor a dois tempos, que ainda hoje conservo como “backup”.  Ou o Suzuki Samurai, actualmente encostado, com necessidade de uma reparação de escovas de motor de arranque. Foi um Verão glorioso, assombrado pelo enorme incêndio, talvez o maior do último século em Portugal, que lavrou descontroladamente durante sete dias, percorrendo, numa diagonal, cerca de 120 km. E foi precisamente nesses dias negros que encontrei a minha primeira cache.

Com um moinho de vento no caminho do sinistro, lá para o concelho de Almodôvar, as saídas de moto 4 para controlar o rumo das coisas eram permanentes. Na realidade, as chamas passaram por cima do moinho, que tinha acabado de ser recuperado, sem causar danos de monta. Mas se nos primeiros dias a nossa preocupação incidia apenas sobre esse projecto paralelo na serrania alentejana, ao fim de uma semana as chamas começavam a aproximar-se de forma ameaçadora de casa, e isso seria um caso mais sério. Por fim, quando uns 4 ou 5 km nos separavam do incêndio, um esquadrão de meia dúzia de pesados Canadair, num ribombar incessante entre curtas indas e vindas do oceano para Alportel, acabaram por debelar, por fim, as labaredas. No dia seguinte, ao fazer um reconhecimento dos estragos, encontrei um cenário de guerra… na aldeia de Alportel uma coluna de viaturas de bombeiros sem fim estendia-se, com dois e até três camiões de largura, enquanto os soldados da paz se estendiam num descanso merecido por todos os recantos sombreiros: sobre bancos, sob bancos, em cima das viaturas, no seu interior ou simplesmente no chão.

Portanto, foi na sequência desta experiência dantesca, com o terraço da piscina ainda coberto de cinzas e com o sol a aparecer de novo sobre a nuvem de fumo que durante dias a fio o obscureceu, que partimos para a primeira cache. Já não sei porque foi aquela a escolhida. Seria talvez a mais próxima? Nas imediações de Loulé, serra acima, na estrada que leva a Salir, encontra-se um alto. Aí, num moinho em ruínas com um especial no seu topo, o Afonso Loureiro havia plantado uma micro cache: a 16 (silly name, isn’t it) [Loulé]. Uma explicação, reirada da “listing”:

Porquê 16?, Bom, este moinho serve de ponto de referência no controlo de falhas geológicas em todo o Algarve, com GPS. Geralmente os pontos de referência estão montados nos marcos geodésicos. Nessa altura têm o nome do marco. Nalguns casos, há mais que uma falha entre dois marcos e é necessário um ponto noutro local, que recebem números como nome. É o caso deste. Para estudar a falha que passa a Sul de Loulé materializou-se um ponto neste moinho. Recebeu o nome poético de 16. É uma espécie de homenagem ao trabalho desenvolvido na minha faculdade.
Se subir ao topo do moinho verá um anel de inox chumbado no lado Sul. Serve para fixar a antena GPS exactamente no mesmo sítio, de campanha para campanha. Afinal de contas procuram-se deslocamentos de alguns milímetros.

Para ser sincero, deverei admitir que não guardo uma memória especial desse dia, nem das emoções sentidas ao avistar a caixinha. Era mais uma tarde de um início de Verão tão preenchido. O local era desconhecido para nós. As vistas impressionaram. Depois, foi entrar na estrutura semi-destruida e procurar. Recordo-me que foi simples. Num instante o container foi avistado. Era um “film canister”. O momento não foi tão mágico como seria de imaginar, considerando o entusiasmo que me manteve no jogo até aos dias de hoje.  Estava-se no dia 31 de Julho. No primeiro de Agosto, encontrei a minha segunda cache, Fonte da Taipa, que ainda existe, ao contrário da maioria que fui encontrando nesse primeiro ano. Depois, no decorrer desse mês, mais duas, apenas. Ao fim de um ano e meio, atingi a histórica marca de … 100 caches encontradas. E era isto um início cheio de excitação.


A logar a segunda, Fonte da Taipa

Pode parecer mal a um Papacaches escrever sobre Waymarking, uma práctica que toca uma zona cinzenta para um geocacher purista. Afinal de contas, os fundamentalistas clamam que é necessário um objecto físico para ser encontrado, um logbook para rubricar, e o Waymarking cai na margem da heresia: não há nada para além de um ponto a alcançar. Bem, até há… mas isso é outra conversa.  Mas vamos lá… comecemos pelos momentos ternos, pelo amor…

O Waymarking tinha tudo para ser um enorme sucesso. Foi apresentado pela Groundspeak como um novo reino onde as antigas caches virtuais, banidas sem efeitos retroactivos das terras do Geocaching, se podiam reagrupar e renascer de forma perfeita. Falava-se, nada mais nada menos, do mundo no GPS. Uma directoria cósmica, umas “páginas amarelas” de pontos de interesse à escala planetária. Não soa tão bem, até agora? A mim sim. Quando vi o Waymarking.com pela primeira vez fiquei pasmado com o que me era prometido. Pois se um tipo era maluquinho pela aeronáutica e ia viajar, digamos, a Praga, só tinha que dar uma vista de olhos e verificar que categorias tocavam esta sua área de interesse. Depois, era fazer o download dos pontos catalogados na zona de Praga, e uma vez na cidade, seguir a setinha do GPS, não para procurar uma cache que poderia ou não ser interessante, mas para atingir o Museu da Força Aérea ou observar o velho Dakota que se encontra nas imediações do terminal aeroportuário.

Mas as maravilhas do Waymarking não se esgotavam na oferta da informação a viajantes e locais. Esta, a informação, não surgia por geração expontânea, era necessário que os próprios participantes recolhessem dados e imagens para a abertura de mais e mais pontos de interesse. E, digo-vos, existe um prazer por descobrir à espera de quem nunca experimentou criar um Waymark. Arranjar os vários blocos de texto, adicionar imagens, prever a ficha tal como a comunidade a verá e enviar o “pacote” para aprovação é um momento agradável, culminado pelo e-mail mágico: “a sua Waymark foi aprovada”. São tão lindinhas, tão bem arranjadas. Dão vontade de continuar a criá-las pela noite dentro, até cair para o lado. E além disso, o viajante encontra no Waymarking uma forma de partilhar as maravilhas a que assistiu no decorrer das suas expedições, algo que é muito mais complicado com o Geocaching, no qual se pressepõe uma disponibilidade de regressar aos locais para prestação de manutenção às suas criações.

E isto leva a um outro ponto: o magnífico interface que foi construído para esse outro website da Groundspeak. Pessoalmente, estou convicto que a coisa foi concebida por terceiros, em regime de “outosourcing”. Não reconheço no waymarking.com um estilo da equipa da Groundspeak, que não costuma ter aquela competência gráfica e funcional. Posso até estar enganado neste aspecto, mas muito me surpreenderia. Mas o que importa é que com um website tão apelativo e com tantas possibilidades, é fácil deixarmo-nos atrair para o “jogo”.

E ficam assim explanados os factores que me levam a regressar, periodicamente, ao Waymarking, ficando algum tempo, até que os aspectos negativos acabam invariavelmente por me afastar por mais uma temporada mais ou menos alargada. E que razões são essas, que me atiram para fora desses balões mágicos, desses períodos de graça? Talvez sejam as mesmas que impediram o Waymarking de se tornar num êxito, empurrando-o para um limbo de abandono, onde apenas os mais entusiastas resistem de forma continuada, e onde nem a Groundspeak parece arranjar energias para mexer com ele.

O factor mais elementar parece-me ser o caos em que se geraram as categorias. Numa antevisão do que Jeremy irish tinha guardado para nós nas Challenges, o poder foi entregue ao povo, e as categorias de Waymarks foram sendo criadas por votação popular. Ora considerando o peso que os EUA têm nestas actividades, não demorou muito a surgirem categorias perfeitamente rídiculas para os povos de todo o mundo, para além dos Norte-Americanos (por exemplo, o que dizer de uma “Blue Star Memorial Highway Markers”?); talvez pior que isso, tendo a mesma origem, foi o bloqueio a que categorias naturais para um Europeu ou um Sul-Americanos foram barradas pelos Norte-Americanos (por exemplo: Cafés Clássicos). Ora isto tem contornos ainda mais retorcidos, se considerarmos que um dos três factores sob os quais o voto deve ser ponderado é precisamente a universalidade da categoria sugerida. Ficará por explicar, à luz desse factor, como é que foram surgindo, por exemplo, coisas como “Ronald McDonald Houses”. Ou seja, de repente, muitas das categorias que se pretendiam universais, ou seja, cuja criação de Waymarks poderia suceder em qualquer ponto do Globo, eram de coisas que apenas aos EUA diziam respeito. E estou em crer que esta prepotência afastou desde logo os europeus.

Depois, há a relação de dependência para com os administradores das categorias, que origina frustrações constantes: por vezes passam-se semanas até um Waymark ser aprovado; outras vezes, é declinado de forma extemporânea, sem razão efectiva; nos piores casos, houve categorias que foram deixadas virtualmente ao abandono pelos seus administradores.

Outro dos pontos fracos do Waymarking incide sobre certas vulnerabilidades funcionais do interface do website. É pouco compreensível que não existam os equivalentes aos “pocket query” do Geocaching, mas a verdade é que se um jogador viajar até uma cidade, não poderá fazer o download de todos os Waymarks lá existentes, nem mesmo dos Waymarks de uma categoria específica. Estranhamente, terá que fazer o download de cada página apresentada na listagem.

Portanto, caros amigos, é entre estas duas forças, uma positiva e outra negativa, que a minha relação com o Waymarking se tem dividido ao longo de todos estes anos. Há alturas em que me dá uma vontade enorme de criar Waymarks, de assinalar a visita a locais já catalogados… depois, um dia, colido de forma mais violenta com as indecências do sistema e afasto-me a coxear, revoltado com as vulnerabilidades de um sistema que podia ser perfeito mas não é. E esta semana, depois de uma mão cheia de meses de afastamento, inspirado pelo espectro que pairou pelo Geocaching com a chegada da praga das Chalenges, entrei numa nova fase de encantamento. Até quando durará, não faço ideia.


No cume

Há caches assim, entram no imaginário de uma pessoa, agarram-se como lapas, e só são exconjuradas quando encontradas. Por vezes, deixado esse momento para trás, dissipam-se, perdem o seu lugar não só nos sonhos do geocacher, mas também na memória, e, aos poucos, de ponto que se vai reduzindo com a passagem do tempo, terminam num pequeno nada. Contudo, há as outras, as que com a sua conquistam se solidificam, fazem-se monumento, impassível ao efeito dos anos vindouros. Essas, são as caches mito, objecto de histórias repetidas, ganhadoras de fama intemporal. Não há muitas. Cada vez vão nascendo menos dessa estirpe, mas, em Portugal, um grupo de geocachers surge associada à descoberta de uma mão cheia desses locais mágicos, e à sua partilha através da criação de caixinhas. O seu nome? Greenshades.

Bem ou mal, a minha base de dados indica a existência de dez criações deste grupo de autores. Encontrei seis, uma delas entretanto arquivada. E dessas, cinco foram experiências únicas, inolvidáveis. A última, The Nest of Jonathan Livingston Seagul, “caiu” recentemente.


A caminho, saltos e traulitada

Já não me recordo quando nem como. A verdade é que ficou combinada uma pequena expedição à Costa Vicentina, com passagem pelas caches que se atravessassem pelo caminho a partir de Vilamoura. Na realidade, de Costa Vicentina a expedição teve pouco, quiçá porque muito se interpôs, pequenas paragens, desvios menores. Algumas caches banais e um par de “assim assim”, até chegarmos às imediações do prémio grande do dia: The Nest of Jonathan Livingston Seagull.

Não se rola muito para além de Vila do Bispo antes de se deixar o asfalto. Desde esse ponto são 4 km numa linha recta. Durante os minutos que demoramos a vencer essa distância a minha mente está absorta, dividida entre a paisagem bravia que se vai desenrolando diante dos nossos olhos e a reflexão sobre os anos que este momento demorou a acontecer. Quando cheguei ao mundo do Geocaching, no Verão de 2004, esta cache já tinha nascido há mais de um ano. Atemorizado pelas quatro estrelas e meia de classificação de terreno, fui adiando uma visita. Depois, o emaranhado de caminhos de terra batido e o facto de nem sempre andar por aquelas paragens com uma vitura TT, contribuiram para o atrasar de uma expedição que ameaçava tornar-se um fantasma caminhando eternamente à minha frente. Os relatos na primeira pessoa não ajudavam. Que era impressionante, que era a melhor cache em Portugal… ora eu, aprendida que estava à custa de experiência própria que o que geralmente era considerado bom não era coisa para me agradar, fui tomando estes testemunhos como uma derradeira advertência. Mas, por outro lado, o bichinho não deixava de roer. Não faço ideia se era curiosidade, se era o alter ego do eu prudente a querer falar mais alto. O que sei é que durante estes sete anos, a imagem de uma falésia de cume afiado e água espumosa a fustigar as suas faces me vieram à ideia de forma espaçada mas presistente. Quando oProdrive me convidou para esta expedição – logo ele, um dos maiores entusiastas desta cache – sabia que seria feito. E foi assim,  comigo a matutar no receio, mais feito respeito do que pânico, das alturas, que chegámos ao local.

O Atlântico. Essa entidade omnipresente em quase todas as manifestações culturais deste nosso povo. O mar,  essência da portugalidade – a que muitos chamarão agora de tuganismo, ou coisa que o valha – e alma deste país. É acima de tudo o poder desta massa infinita, estendida a perder de vista, que domina aquelas paragens. E se for cego, o ribombar das vagas nas duras rochas não me deixará ao engano. É o mar que ali está. Mesmo assim, se não tiver esse sentido, será o vapor carregado de perfume a que chamamos de marezia que trará a mensagem. É o mar que ali está. Em poucos locais da nossa bela costa se consegue sentir esta presença quase etérea. Lembro-me de me sentir pequeno, muito pequeno, em dias de tempestade no cabo da Roca ou nos areais do Guincho. Mas hoje não é dia do rei Inverno juntar forças com o todo poderoso mar. É simplesmente um dia de verão, plácido em todo o lado, menos neste canto, onde as águas, atiçadas pelo soprar de um vento ululante (ou será o oposto…?) atacam sem cansaço a terra.


Green… shades

Os meus companheiros de viagem apontam-me a direcção. Eles já lá estiveram. Eu sou o convidado de honra, o iniciado da Irmandade do Rochedo, com o coração a bater desordenadamente perante emoção e desafio. Vamos lá então. Sigo em último na linha de caminhantes que se estende por umas dezenas de metros. Somos seis, mas apesar de tudo o seguir na cauda não se prende com o receio que pudesse sentir. Gosto sempre de caminhar atrás, para apreciar ao meu ritmo a envolvência. Fotografar sem empatar, e, depois, sem necessitar de mal-dizer a perna curta com que os meus genes me dotaram. Continuamos a andar, em frente, depois, curva ascendente em cotovelo, e a mesma linha numa cota mais acima, e de repente estamos lá. O quê? É só isto? Tanta algazarra, tantos medos passados, tanta fama, tantas estrelas por causa disto? Soubesse eu que o desafio físico era tão reduzido e já há muito tinha vindo acertar contas com este meu papão quase privado. Mas se a provação não foi a esperada, a experiência foi muito mais. Metafísica. O dia estava a correr mal. Algumas caches muito mal amanhadas e um par de DNF’s imediatamente antes. E poucas encontradas. Muito tempo entre elas, demasiado à procura de cada uma. Bastaram contudo alguns minutos neste ambiente e todas as mágoas de alma foram lavadas. Mais houvesse e teriam, também elas, ido, arrastadas pelo caudal curandeiro daquela terapia sensorial. É simplesmente magnífico, e, sei disso sem que uma palavra tivesse sido proferida, todos os constituintes do grupo sentiram o mesmo. Silêncios partilhados, olhos fixos nas águas.  Até ser tempo de voltar para trás.

Antes da abordagem a esta cache, tinhamos conduzido o cachemobile por caminho menos acertado, e demos por nós no promontório anterior (de quem vem de sul). Foi um óptimo erro, porque me permitiu apreciar o desafio de uma certa distância, apreciando a dimensão global da coisa, com o trilho, lá em baixo, muito pequeno, insignificante. Depois, encarrilhando a viatura na estrada acertada fomos gracejando: que ali calhava mesmo bem uma cache para  que a The Nest of Jonathan Livingston Seagull não padecesse das dores desgastantes da solidão de noites a fio, apenas ela a sua precária base sólida e as águas todo em redor, à espera, sempre à espera, das próximas mãos humanas que a libertassem, mesmo que por apenas um mero par de minutos, tempo necessário para uma exploração breve de conteúdos e uma rubrica no livro de registos.


A Greenshades começa aqui e acaba lá em cima, mesmo no topo

Vinhamos já de regresso ao carro, deixando o estreito trilho para trás e abordando o trecho que se desenvolve em terrenos perfeitamente sólidos. O Prodrive tinha parado, olhar apreciativo, fixo na majestosidade daquela outra massa rochosa. E eu sabia o que lhe ia na ideia. Como é, vamos a isto? A mim, incomodava-me um pouco a proximidade de uma outra cache, e logo uma senhora gigante do nosso Geocaching, uma a que muitos chamam – e com toda a justiça – de a melhor de Portugal. Hesitei, hesitei muito. Mas deixei-me arrastar pela emoção do momento, tão especial, que ali se vivia. Vamos lá então a isto. Ele, foi lá acima, ao carro, buscar um “container” sempre preparado para estas ocasiões. Metade do grupo ficou ali, aguardando, roubando mais umas golfadas daquele ar único. A outra metade, avisada pelo Prodrive, foi aparecendo. E juntos esperámos pela chegada da nova cache.

Há duas formas de se vencer o desafio novo que naquele dia foi criado. A mais curta, é mais radical, e nenhum de nós a tentou: é uma questão de conduzir até ao ponto a que inicialmente chegámos, antes de percebermos que estávamos no acesso errado à The Nest of Jonathan Livingston Seagull. Há um trilho logo desde ali, mas estreito, sinuoso e desprotegido. A outra, que escolhemos, parte do acesso à cache que tinha acabado de encontrar, e inicia-se com uma abordagem simpática, no meio de uma vegetação incrivelmente verde, progredindo depois para o promontório onde se caminha com o mar pela esquerda. É também um espaço exíguo, mas faz-se bem, e onde a coisa se torna mais periclitante, existe uma corda de auxílio. Logo à frente, todos os outros prosseguiram, mas eu, que não gosto muito de alturas, acobardei-me e deixei-me estar. Vi o último elemento do grupo dobrar a esquina que parecia ser para o fim do mundo conhecido, e fiquei sozinho. Estava frio. Apesar de em todo o território de Portugal Continental estar um calor abrasador, ali, estava de facto frio. O vento soprava, arrastando consigo partículas de água gelada, e recuei um pouco, procurando uma nesga de sol. Nisto vi-os, lá em cima, a acenar para mim. E nesse momento, vi também uma outra possibilidade de ascensão, que implicava os super poderes de uma cabra alpina, mas que não implicava vistas para precípicios. Cheguei quando eles já desciam, mas ainda a tempo de chegar à conversa com o Billy VespasFriendsAlgarve, que me passou o GPS para a mão. Sem fazer ideia de onde o container estava, apenas com as coordenadas e um GPS, senti legitimidade para encontrar esta nova cache, claro, sem me passar pela ideia reclamar um FTF, esse vago conceito que deixou de ter piada depois de tantos o levarem tão demasiadamente a sério. Concluido o acto, desci por onde tinha subido, desta vez com o Billy a acompanhar-me. Logo, nos juntámos aos outros. Iamos ainda debatendo quem seria o progenitor oficial da nova cache e qual o nome a dar-lhe. Eu, expressei um certo constrangimento na situação: sentia que de certa forma tinhamos acabado de usurpar o merecido protagonismo da  The Nest of Jonathan Livingston Seagull. E foi então que o Prodrive atirou a sua sugestão de baptismo, que venceu todas as minhas resistências: vamos criar um tributo aos Greenshades. Vamos chamar-lhe simplesmente Greenshades? Excelente! Até pela dupla significância: não sei se mais alguém se apercebeu das tonalidades esverdeadas do mar naquele dia. Green… shades….

Nesse dia ainda encontrámos mais 2 ou 3 caches. Mas seriam pouco mais que nada, surgindo na sequência desta experiência. Aliás, nada voltaria a ser como era. A  The Nest of Jonathan Livingston Seagull lá ficou, mas, agora, nos termos em que o Prodrive  Jr colocou as coisas, agora com a irmã-gêmea dedicada aos GreenShades.


Terminada a magia, prestes a partir

P.S. – Participaram nesta expedição, para além de mim, o Prodrive, organizador e condutor; Zaya, minha metade de equipa quando me decido a fazer Geocaching em equipa; Billy, meia VespaFriendsAlgarve; Prodrive Jr, cujo nume diz tudo; Andrea, Couchsurfer, não Geocacher, que me abrigou um dia em Milão e agora veio devolver-me a visita.

Quando os primeiros computadores pessoais apareceram no nosso mercado, há cerca de 25 anos, corri a procurar financiamento familiar e, seguidamente, para a loja. Chamava-se Euro PC Schneider, e estou certo que muitos ainda se lembrarão deste modelo, que durante algum tempo sofreu a concorrência do PC1 da Olivetti. Criavam-se naquele dia os aliçerces de um terrível conflito interno que desde essa altura me tem corroído as entranhas: de um lado, uma intrínseca preguiça mental e uma incapacidade de encontrar pouco mais do que um fiozinho de inteligência lógica na minha mente; do outro lado, um amor pela informação e pela sua racionalização e organização, enfim, mais ou menos o que em termos técnicos se chama “epistemologia”.

Tudo isto para dizer que quando chegaram as caches Whereigo, fruto de um casamento feito divórcio entre o gigante do mercado de unidades GPS de aventura e a Groundspeak, senti imediatamente um arrepio: sabia que mais sangue ia correr dessa ferida eterna, criada no dia em que, com a desculpa (parcialmente honesta) de que era preciso para os meus estudos universitários em História, entrou lá em casa o primeiro PC em que pus as unhazinhas. Pois então, Whereigo. Criar uma uma aventura interactiva que culminaria numa cache e  cujos limites eram apenas a imaginação do seu criador. Um conceito tentador, quase irresístivel.

Com entusiasmo, fiz o download do software oficial de desenvolvimento dos cartridges (denominação original para as aplicações Whereigo). Deu-me alguns problemas. Já não me recordo dos detalhes, mas ao fim de algum tempo cansei-me e coloquei-a de lado. Foi muito depois que, nem sei porquê, me mordeu de novo o bichinho. Talvez porque tenha descoberto uma nova aplicação, alternativa, ou talvez tenha descoberto esta opção por me ter ferrado o vício outra vez. O seu nome: Urwigo (pelo menos mais uma alternativa está dísponivel – o Earwigo – que se trata de um programa baseado exclusivamente na web. O seu uso é reservado, mas pode ser obtido acesso contactando o geocacher sTeamTraen).

A criação de programas alternativos talvez diga algo sobre os problemas com a aplicação original que, vítima ela própria do divórcio entre a Garmin e a Groundspeak, se encontra, aparentemente  para sempre, em fase Alpha. Já me disseram mais do que uma vez que o principal problema na criação de uma cache Whereigo reside na qualidade da ideia de base. No meu caso, foi imediato. Assim que comecei a brincar com o programa, pensei durante dois segundos e veio-me a inspiração: iria projectar memórias da minha meninice, numa justaposição com o presente, num cenário espacial delimitado pela aldeia onde passei tantos momentos felizes, de seu nome, Sapataria. Naquela aldeia, localizada a cerca de 30 km a Noroeste de Lisboa, tinha a minha família adquirido algumas propriedades. Com regularidade iamos todos até lá, passar uns dias. Mais tarde, quando os meus pais se separaram, passei a visitar o meu pai que lá permaneceu alguns anos. Entre os 20 e os 27, visitava a última casa que conservávamos quando queria passar algum tempo com uma das namoradas que passaram pela minha vida por essa altura. Depois, acabou. A família decidiu largar esse último bastião, e eu, na flor da vida e cheio de energia, centrado noutras realidades, encolhi os ombros e concordei.


A mesma pessoa, o mesmo local. 37 anos de permeio.

Portanto, no que toca à cache e à aventuar interactiva, apesar da ideia ter chegado sem esforço, tinha ainda que a validar em diversos vectores antes de começar a levá-la a sério:

  1. Não  visitando o local há quase 20 anos, será que mantinha ainda o que então me encantava? Será que havia viabilidade para construir uma aventura em dois layers temporais, ou as mudanças destas duas últimas décadas teriam minado essa possibilidade de forma letal? Ultrapassei estas dúvidas com um exame atento da fotografia aérea disponível no Google Earth. Para grande surpresa, as mudanças estruturais foram reduzidas.
  2. Será que conseguiria reunir, em qualidade e quantidade, material gráfico que pudesse ser utilizado na concepção da aventura gráfica? Os meus arquivos pessoais tinham algumas fotografias dessa época. Estamos a falar dos primeiros anos da década de 70 no século passado. Uma altura em que felizmente o meu pai tinha o seu gosto pela fotografia ao rubro, no qual envolveu o meu irmão mais velho. Assim, um telefonema à minha irmã angariou logo uma dúzia de imagens da Sapataria nesses tempos, seguidas por mais um par de dezenas, que ela obteve do nosso mano.
  3. E quanto à manutenção da cache final? Tentei delegar na minha irmã (a pessoa que comigo partilha uma ligação emocional à aldeia) mas ela recusou. Que tinha criado uma barreira de segurança emocional, que se recusava a reavivar memórias perdidas, a enfrentar as mudanças na Sapataria, a arriscar estilhaçar recordações sagradas. Mas a verdade é que, por fim, acedeu, e, mais para a frente, acompanhou-me mesmo na recriação do percurso que funcionou como teste final desta Whereigo.



Instantâneos da vida quotidiana numa pequena aldeia da região saloia em meados dos anos 70

Viabilizado o projecto no plano teórico, era tempo de tomar algumas decisões práticas:

  1. Iria ao local recolher elementos para a construção da aventura ou trataria de tudo remotamente, recolhendo coordenadas e apurando o percurso através do Google Earth. A Sapataria fica a uns 350 km da minha base em Portugal. Estava excitado com a ideia de colocar o projecto a rolar, e sem possibilidade de me deslocar lá nas semanas seguintes. Decidi-me pela opção menos fiável, mas mais simples e imediata: construiria toda a aventura sem visitar o local, e quando estivesse tudo pronto, faria uma simulação no terreno, na perspectiva do jogador, e apuraria o que fosse necessário apurar.
  2. Em que língua escreveria os textos da aventura? Idealmente, criaria um “cartdridge” em português e um outro com uma versão internacional em inglês. Pensei nisso, cheguei a decidir nesse sentido, mas mudei de ideias, mais por força prática do que por decisão ponderada. É que começei a escrever em inglês, e quando olhei apercebi-me da trabalheira que seria criar tudo aquilo em modalidade bílingue. De resto, se tivesse que optar apenas por uma língua, seria sempre pela que daria acesso  à cache a jogadores de todo o mundo. Mesmo que não acreditasse que muitos se aventurariam na Sapataria.
  3. Qual seria a extensão do passeio? Bem… deixei a aventura correr por si. Se quando chegasse ao fim do desenvolvimento visse que tinha ficado exageradamente curta ou demasiado longa, adaptaria algo para corrigir os desvios. Mas acabei por ficar satisfeito com o resultado final, que saiu de forma natural: 4 ou 5 km, uma distância a percorrer em 2 ou 3 horas. Razoável para uma tarde ou uma manhã de Geocaching sem pressas, como se pressepõe que será o estado de espírito ao abordar uma Whereigo.

Depois, em termos de decisões, foi uma torrente. Mas de carácter mais operacional, cuja descrição não tem cabimento num texto destes, e cuja maioria, de resto, já foi esquecida. Um dos principais problemas ao construir uma aplicação Whereigo é que estamos a trabalhar com um programa que não conhecemos, e cujo funcionamento e possibilidades temos que descobrir à medida que avançamos. Mesmo agora, que consegui concluir a “Sapataria”, teria que começar do ponto zero se me decidisse a avançar para a construção de uma segunda aventura Whereigo. É muito diferente dominar um programa que utilizamos todos os dias do que ter um conhecimento práctico aprofundado de software com que lidámos durante uns dias e depois foi colocado na prateleira.

Assim, sem um plano delineado no papel, como faria um bom informático de gema, a criação desta Whereigo foi constítuida de avanços e recuos, à medida que iam sendo descobertas as possibilidades (muitas) e as limitações (poucas) do software. Alguns detalhes ameaçaram conduzir-me à loucura. Mas melhor ou pior as coisas foram avançando e o projecto foi ganhando forma, cada vez mais sólida, mais volumosa, até ter sido dado por concluida a fase doméstica.

Na teoria, a coisa estava acabada. Os passos do geocacher tinham sido ensaiados no emulador para PC vezes sem conta. Tudo batia certo, como um relógio suiço. Mas estava ciente que certamente muita coisa me estava a escapar. Havia tantos detalhes, tantas variáveis. De certeza que não era possível cobrir tudo, prever todas as possibilidades. Mas de momento nada mais havia a fazer.



Eu, quase há quarenta anos atrás, e as nossas casas

Visitei a minha irmão, numa pequena aldeia nas imedições da Ericeira. E juntos fomos à Sapataria. Não só era necessário testar no terreno a cache Whereigo, como precisava de recolher imagens modernas que poderia ainda incluir na aventura interactiva. E depois, claro, era preciso plantar no local final o contentor com o logbook e os tarecos usuais. O dia foi bem escolhido. Os deuses da metereologia presentearam-nos com uma tarde cheia de sol e temperatura amena, ideal para a pequena caminhada que viria a suceder. A minha irmã, super excitada com tudo aquilo. O Geocaching não era novo para ela, mas a ideia de partilharmos as nossas memórias familiares com o resto do mundo tinha-a deixado eufórica, e quando começou a jogar (ela foi a cobaia em absoluto – dei-lhe o aparelho para as mãos, expliquei-lhe os rudimentos e deixei as coisas correr…) e a ver as imagens e a ler os textos ninguém mais a conseguiu agarrar.


A minha irmã e braço direito neste projecto, a meio do teste final

Quando chegámos ao ponto final, estava positivamente surpreendido: de tanta coisa que podia ter corrido mal, e apenas num ponto havia um pequeno “encravanço”. Algumas imagens não apareciam na ordem devida, mas tudo isto eram arestas simples de limar. Claro que ainda havia espaço para problemas posteriores, mas agora teriam que ser geocachers a detectá-los, com a rodagem natural do jogo. Para já, estava terminado. Depois de encontrar um nicho adequado para abrigar o contentor, sabia que a cache estava pronta para ser submetida para publicação.

Hoje, quase um ano depois, esta cache tem 50 founds, 2 DNF’s. Uma média GCVote de 4,5 e 21% de logs marcaram-na como “Favorite. Sobretudo, foram registados logs de grande qualidade, que me encheram de alegria e motivação. Poucos foram os problemas assinalados: é certo que em determinado momento, existe um pequeno “andar para trás e para a frente” que é capaz de resultar desinteressante para quem procura a cache, e que estarei disposto a eliminar quando me sentir com coragem para reentrar nos meandros técnicos de uma Whereigo; há também o aspecto desta Whereigo ser apenas uma cache, e não seguir os principios das cartrdidges… eu explico: segundo o conceito inicial, uma Whereigo (não sendo obrigatoriamente uma cache) deveria, uma vez completada a aventura, ser “desbloqueada” com uma chave obtida na última fase, fornecida pelo programinha; ora no estado para o qual o Wherigo, como projecto autónomo, regrediu, considero perfeitamente irrelevante este aspecto de “desbloquear” o cartdrige. A cache é que importa, e as coordenadas são dadas como prémio no final da aventura.

Surpreende-me que não tenham surgido problemas técnicos, nomeadamente incompatibilidades. Uma Whereigo pode ser jogada com recurso a um GPSr Garmin habilitado (Colorado, Oregon), com um PDA com PocketPC ou com telemóveis com Symbian (perdoe-me se me esqueci de algo). Ora eu testei apenas com o meu Nokia 5800, e correu tudo bem. Esperava que viessem a surgir problemas com outras combinações de hardware, mas tal nunca sucedeu. Tanto melhor.

Agora, começa-me a aflorar a ideia de partir para uma sequela. Depois das recordações da meninice na Sapataria, as memórias da adolescência nas férias de Verão em Vila Nova de Milfontes. Uma outra Milfontes, onde não existia uma ponte sobre o Mira, onde apenas existiam duas pequenas pensões e um restaurante, onde a estrada acabava no barbacã e o passeio até ao farolinho se fazia a pé, pela areia.

Log Finito

Estou aqui a escrever com uma mão, enquanto com a outra esfrego molho de piri-piri no corpinho. É que já sei que com este texto se vão acender as fogueiras da Santa Inquisição do Geocaching, porque vou ousar violar um dos Mandamentos que sem se perceber bem quando e como, chegaram para ordenar na dita comunidade portuguesa: Não Criticarás! [seguido da ladainha, "porque cada um joga o jogo como quer"].

Assim sendo, enquanto me tempero para a assadela, vou escrever sobre algo que ultimamente me tem revoltado (como não há palavra nos Evangelhos, também conhecidos como Guidelines, então é porque está bem aos olhos da comunidade): o desprezo pela poupança de espaço nos logbooks. Podia até ser, mas no caso não é tanto a piedade pela mancha verde amazónica que me move nesta crónica. É mais o respeito pelo trabalho de quem cria caches e se compromete a assegurar a sua manutenção. O que implica uma deslocação ao local de cada vez que alguém, bem ou mal, reporta o fim de um logbook.

Ora vamos imaginar o botar de uma caixinha num local, digamos, a 30 km da residência, com um logbook lá dentro todo catita, com linhas numeradas, de 1 a 60. Sessenta logs é muito log. Se for bem longe das grandes áreas urbanas (o que aliás aumenta as probabilidades do owner viver bem distanciado da sua cache) é coisa para levar 2 ou 3 anos a esgotar o logbook, e se tudo correr bem, durante esse tempo não é preciso visitar o local para efectuar manutenção. Será?

Seria! Se um número demasiado grande de jogadores não usasse o limitado espaço do papel como se de uma cornucópia mágica se tratasse. No Algarve, vi um logbook com capacidade para 120 entradas, devidamente delimitadas por linhas individuais e até numeradas, ser consumido por apenas quatro logs até à linha 40! E, desta vez, nem foi preciso o recurso ao autocolante. Tudo escrito à mãozinha. Não pensem os mais optimistas que este pessoal usou 10 linhas para um testemunho sentido da experiência. Não, a coisa era mais do género TFTC em letras garrafais, e na diagonal, como se quisesse ter a certeza que o desperdício era maximizado.

Mais recentemente, na minha voltinha anual até Tomar, voltei a reparar no mesmo, mas desta vez o espaço era abusado com o uso do autocolante. Que se usem autocolantes nos logbooks é-me perfeitamente indiferente. Que se usem autocolantes deste tamanho em logbooks destas dimensões, já é uma coisa diferente. A área onde uma pessoa colocou um log, é a que eu necessito para dez dos meus logs. Feitas as contas até às últimas instâncias, comportem-se todos assim, e um owner terá que substituir dez vezes mais logboks. Alguém acha isto bem ou razoável. Eu não.


Hesitei antes de obscurecer a identidade do artista. Mas como é um campeão de números bem conhecido da nossa praça e não pretendendo dirigir um ataque pessoal a alguém com quem nunca tive nenhuma interacção, fica assim. É só para reflexão.

12 e 13 de Junho de 2011

Este artigo é dedicado ao meu amigo Gustavo Prodrive, que faz anos no dia da sua publicação. Tá a ficar velho o gajo, mas é um puto.

Passar o tempo em Portugal numa região com pouca animação “geocachiana” é uma estopada. As caixinhas estão basicamente todasencontradas, e quando surgem umas quantas novas, há que as racionar, consumir com cautela, mas mesmo assim chega a altura em que nada há para fazer num raio de várias dezenas de quilómetros.  E é nesses momentos de desespero que nascem as “tours”. Ora por esta altura do ano, quando a queda de chuva não é esperada e as temperaturas sobem, foi tempo de juntar dois “hobbies”: cachar e andar de moto 4. Desafiámos uma equipa de Geocachers, os Pancinhas, e um amigo que nada tem a ver com o jogo mas é maluco por moto 4. Três viaturas, cinco pessoas.

Como os Pancinhas são de Beja, arrancámos apenas nós e o nosso amigo a partir do Algarve. Eram 17 horas e o plano previa a pernoita no nosso moinho de vento, um pouco antes de Almodôvar. Mas a viagem fez-se a tão bom ritmo, mesmo com duas paragens para caches, que acabámos por decidir prosseguir até Beja onde chegámos já de noite. Antes de prosseguir a narrativa, um destaque para a cache Contador de água em Entradas, que muito agradou. O local é idílico, e aquela hora, com o sol mesmo a desaparecer no horizonte, a luz alaranjada a pintar daquela cor quente toda a paisagem alentejana, numa harmonia completa com as temperaturas atmosféricas que se fizeram sentir durante o dia… as andorinhas a rasar o espelho de água, desedentando-se com habilidade, recolhendo o precioso líquido em pleno vôo. E para melhorar o cenário, só mesmo encontrar uma cache descomplicada, que nos saltou para as mãos em menos de nada. Depois, foi sair dali para fora, com pena, antes dos locais começarem a nutrir demasiada curiosidade por aquele conjunto de máquinas diabólicas, que tinham passado bem defronte dos seus narizes.

Chegados a Beja fomos convidados pelos Pancinhas para um agradável jantar, a que se seguiu uma pequena cachada a pé pela cidade, antes de nos recolhermos, em busca de um necessário descanso antes do início da aventura a sério.

O dia começou como acabou o anterior: a procurar umas quantas caches urbanas em Beja, todas encontradas sem dificuldades de maior, quase todas bem colocadas, quase todas em locais interessantes. Depois, atravessar o Guadiana, passar por Serpa, mais um par de caches antes de iniciar o “power trail” Ramal Moura-Pias. Esta série de nove caches andava-me a piscar o olho há que séculos. Mas é tão fora de mão para mim (e para a maioria dos jogadores, diga-se de passagem). Hoje estava perto, as constelações alinhavam-se, os augúrios era positivos…  só que a tentativa de chegar à primeira de nove destruiu as ilusões: atingir o ponto zero foi o cabo dos trabalhos, mesmo de moto 4… e no local, procurada a cache por quatro pessoas durante tempo demais, e nada apareceu… decidi cancelar esta extensão da expedição. Foi assim que Moura foi riscada do nosso mapa para estes dias, assim como as desejadas 9 do Ramal Pias-Moura.


Foi então hora de tomar contacto com um dos dois pratos principais desta expedição: a letterbox Rio Grande do Sul. Esta aventura, organizada pelo ajsa (& Golfinha) vai buscar o conceito de “roadbook”, uma série de páginas com indicações detalhadas de um percurso a seguir, com viragens, pontes e outros elementos marcados com as distâncias quilométricas entre si. Ao longo do trajecto idealizado, vamos encontrar algumas caches acessíveis a todos, mas a maior parte das dez caches que estão integradas na “prova” só se tornam acessíveis a quem percorrer as suas diversas etapas.

Tinha previsto concluir esta complexa tarefa no final do primeiro dia, mas as coisas foram-se atrasando (são 55 km, maioritariamente em estradões de terra batida, com um tempo de conclusão previsto de 3:30 horas – isto não contando com as paragens para as caches e para apreciar a paisagem e detalhes que vão sendo descobertos à medida que se avança). Antes de mais, uma nota informativa para candidatos: fazer isto num veículo ligeiro ronda o impossível, e decididamente a tentativa deverá ser reservada a quem se estiver a borrifar para a saúde do seu quatro rodas rasteiro. Há mais alguns problemas a referir: nenhuma das nossas três viaturas concorda com as distâncias medidas pelo owner aquando da preparação do percurso, e logo no primeiro curto trajecto se sentiu uma diferença de 25% (as nossas motas marcaram mais 25% do que o indicado). A partir dai as distâncias mencionadas no roadbook passaram a ser meramente indicativas, e tive que me concentrar nos aspectos descritivos. Complicou-se.




As etapas foram sendo percorridas, com dúvida aqui e acolá (logo no início o nome da quinta está mal indicada no roadbook, o que pode causar alguma confusão), indicando-nos o caminho a percorrer, o que fizémos com grande deleite. Não é fácil para os adeptos destes “raids” encontrar trajectos coerentes e contínuos, afastados do asfalto. Assim, foi uma maravilha ganhar a um só tempo um fio director para uma passeata deste tipo, e, ao mesmo tempo, ter um número razoável de caches para encontrar.

A presença do Guadiana é quase uma constante, sobretudo no que diz respeito aos locais das caches. Entre elas, os caminhos tendem a afastar-se do grande rio, levando-nos a passar junto a “montes” e pequenas aldeias, a cruzar vaus e pontes, a conhecer misteriosos moinhos de água e outros edíficios que foram importantes para alguém um dia.

O dia aproximava-se do fim, e era necessário começar a pensar onde montar o acampamento. Olhos bem abertos para os locais mais prometedores quando… chegamos ao fim da etapa 5 e apercebemo-nos quão perto estamos do ponto de partida, bem junto à ponte que cruza o rio, de Beja para Serpa (ou vice-versa). Tivemos ainda tempo para concluir a pequena etapa complementar, chamada de Radical, mas nada Radical para quem estava a usar moto 4. A zona era aliás já cohecida, visitada, há muitos anos, para encontrar uma outra cache que por essa altura ali existia.


Ora estava na altura crítica: era mesmo preciso montar as tendas antes que a luz do dia se extinguisse por completo. Mas estávamos tão perto da civilização que era desencoranjante, e, de certa forma, perigoso. Adormecer ao som dos camiões a cruzarem a ponte sobre o Guadiana não era propriamente o meu ideal de uma noite diferente na natureza. Acabámos por optar por uma solução de compromisso: Parque de Campismo de Serpa. Não sei se no final de contas foi uma escolha satisfatória ou não: aguardava com ansiedade esta noite de campismo, só nós, as motas e a natureza, na melhor das harmonias, tão a ver, assim como se vê nos filmes… mas as coisas acabaram por ser diferentes, e não houve apenas desvantagens na ida ao parque de campismo.

Depois dos mais lavadinhos tomarem os seus duches fomos dar uma volta pela localidade. Já ali tinha estado há uns anos, na minha primeira expedição de moto 4 a maior distância, na altura a solo. E tinha gostado de Serpa, das suas ruazinhas intimistas, do seu castelo, do aqueduto, enfim, de toda a atmosfera. Desta vez foi um pouco diferente: éramos mais, e além disso havia festa. Na praça central um enorme palco, e para o serão, música mexicana. Deliciámo-nos durante algum tempo com a artista que actuava, e depois acabámos a noite com bebidas frescas numa esplanada mais recatada, fora do centro.

De manhã relativamente cedo, as tarefas esperadas: desmontar tendas, enrolar sacos cama, acomodar tudo nas grelhas das máquinas. Depois, o café da manhã. Não para mim, que não bebo tal coisa, mas as queijadas de requeijão que fui descobrir, ah credo, aquilo foi uma barrigada… duas logo na altura,  mais quatro para levar. Ainda hoje fico a salivar quando aqueles deliciosos bolos me vêm à ideia.

Terminadas as formalidades matinais, seguimos directamente para onde tinhamos deixado o percurso na véspera. Mas as coisas começaram a correr mal pouco depois: é verdade que encontrámos o local ideal para acampar… tivéssemos nós arriscado mais um pouco e procedido para a etapa seguinte e a noite teria sido muito diferente, bem na natureza, longe de cafés e duches e de todas essas modernidades. Mas mais não encontrámos: entre a etapa 7 e a 8 tudo descarrilou! O ponto 9 da etapa 7 foi o último a ser encontrado com certeza… daí para a frente nada mais fez sentido. Encontrámos a cache que fechava essa etapa, mas sem qualquer ideia de onde iniciar a 8… e assim perdemos a Rio Grande do Sul, apesar de com algum discernimento termos conseguido apanhar a lógica do percurso mais à frente, ganhando acesso à cache bónus. Éramos cinco cabeças a tentar resolver a etapa 7 mas nenhum de nós conseguiu interpretar o roadbook.

Concluída a Rio Grande do Sul sem grande glória, seguimos directamente para a segunda aventura que o ajsa (& Golfinha) nos disponibilizaram para este grande fim-de-semana: Safari Guadiana. De permeio, uma complicada cache em Cabeça Gorda (Flora Alentejana – O Sobreiro); não que esta tenha algo de errado… mas foi tramado para lá chegar, o suficiente para desistir das outras duas caches em redor da mesma localidade, porque se o tempo se continuasse a gastar aquele ritmo, quando saísse de lá já não teriamos tempo de concluir a segunda aventura antes do fim-de-semana terminar.


Se a Rio Grande do Sul tinha sido muito apreciada, este segundo projecto do mesmo “owner” bateu todas as marcas. O método aplicado é completamente diferente. Para o Safari Guadiana não é necessário seguir um “roadbook”, mas é preciso usar um “track” feito de “waypoints”, e é a partir da numeração desses “waypoints” que o geocacher vai ganhando acesso às coordenadas das sucessivas caches. Ora isto não é só uma excelente forma de ir providenciando coordenadas finais, de forma clara e descomplicada… resulta também mais divertido do que o roadbook, para mim, claro, mas creio que objectivamente o é: com um roadbook nas mãos o prazer em explorar este Alentejo desconhecido dilui-se na necessidade de interpretar a cada momento as indicações impressas. Depois, existe uma nota de stress introduzida na aventura, o medo de falhar uma saída, de não compreender uma passagem (como aliás veio a suceder, tal como narrado acima)… é preciso manter um olho no conta quilómetros, outro nas páginas… e entretanto, conduzir. Com tudo isto senti que não aproveitei da melhor forma os percursos oferecidos. Já o Safari Guadiana oferece um cenário precisamente oposto… com o caminho a seguir pespegado em frente do nariz, pude apreciar todo o percurso, sentir os aroma quentes das estevas detectar os movimentos furtivos das aves de rapina. Por outro lado também preferi o circuito não circular. Compreendo perfeitamente as vantagens de um circuito circular, mas a mim resultou algo frustrante vencer barreiras durante todo o dia, rabinho duramente massajado, braços cansados… e chegar ao fim da jornada e dar comigo basicamente no mesmo sítio. O Safari Guadiana confere uma sensação de “viagem” que resultou melhor.

Da série de oito caches desta aventura, falhámos uma, manifestamente complicada, conforme está aliás expresso na classificação do nível de dificuldade. Eventualmente tê-la-iamos encontrado, mas o dia aproximava-se do fim, e era ainda uma longa viagem até casa, que seria feita já de noite. Todas as outras foram achadas sem problemas, em locais preciosos, num percurso excelente que nos agradou a todos. Terminado já muito perto de Mértola, foi com algum gosto que senti de novo o asfalto rolar debaixo das quatro rodas da mota. Mas estava cansado. Foram 800 km em dois dias e meio. Acabámos por pernoitar em Almodôvar, em casa de familiares, e seguir muito cedo para o Algarve, já no dia seguinte, mas com novas forças.

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