Um dia de sol, bem raro nesta parte do mundo. Logo, um apelo irrecusável para sair e passar o máximo de tempo fora das quatro paredes. Geocaching. Uma parte da cidade ainda por “trabalhar”: Hostivar, um conjunto de bairros tipicamente de subúrbio, uma espécie de Olivais de Praga. Pelo caminho, entrar e sair do eléctrico para limpar umas quantas rebeldes que tinham sido deixadas para trás. Por lá, é caminhar num meio urbano tristonho, de uma cidade que foi em tempos risonho e hoje está decadente. A cada prédio, a cada espaço verde, fica a sensação dos fantasmas de outros tempos. Das pessoas que foram aqui felizes e já não o são. Das esperanças e expectativas construidas, feitas em pó no correr dos anos, que se foram acumulando, maltratando corpos e destruindo ilusões. Hoje as lajes daqueles relvados estão cobertas com as folhas que vão caindo das árvores plantadas. Antes seria diferente concerteza, com as correrias da miudagem, rebentos da geração que primeiro abordou estas partes.

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E assim, uma após outra, as caches na linha de fogo foram caindo. Até à penúltima, dois containers notáveis, mas nada de verdadeiramente interessante, feitas as contas. Mas para o fim estava guardado o melhor bocado. Depois da tarde passada entre mongos urbanos, é com gosto que me aproximo de um pequeno bosque. Mas quando chego à orla e vejo o trilho que se interna entre as árvores, em direcção à cache, começo a ficar verdadeiramente fascinado. O Outono é sempre bonito nestas paragens, mas aquele pedaço específico é do melhor que tenho visto. As cores são indescritiveis, e a falta da câmara fotográfica é um erro imperdoável. Pondero regressar, munido do aparelho. Não importa que o local seja o fim do final de Praga. É belo para além de qualquer adjectivo. A luz entra em mil diagonais, filtrada pela folhagem resistente, já castanho dourado, mas ainda pendente, agarrada a uma última réstea à vida que já foi, sem saber ainda que logo estarão também no solo, ombro a ombro com as companheiras de um Verão glorioso. O tapete estaladiço que cobre o caminho é um espelho do céu possível, o que é formado pelas ramagens sobre as nossas cabeças.

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Chego a um primeiro cruzamento onde o trilho se multiplica, mas a direcção a seguir é evidente. A paisagem diversifica-se, torna-se verde por um momento, é um pequeno prado que se atravessa antes de mais um mergulho na densa floresta deixada intacta pelo monstro da edificação, um fenómeno tão presente nesta grande urbe que é a capital dos Checos. E nisto estou lá, junto à cache. A “hint” dita: “debaixo da pedra”. E vejo-a, a magna laje, ali mesmo. Mas… não… “wrong one”. Esta é a laje sepulcral de um qualquer animal de estimação, certamente um cãozito que por estes caminhos costumava passear com o seu dono, e encontrou aqui a sua derradeira residência. Está lá tudo… a laje encabeçada por uma cruz com uma coroa de azevinho e uma incrição… mas… esperem… o nome do animal é GC1HFH6. Acreditam que nem em checo um animal se pode chamar GC1HFH6? Pois é! É a cache. Acabaram-se as palavras, é  o melhor container que já vi… ficam as imagens.

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Não é todos os dias que reencontramos TB’s que já nos passaram pelas mãos, especialmente se entretanto já se passaram anos, mas foi isso que me sucedeu com o Big Nut, que em Junho de 2007 trouxe do centro de Portugal para o Algarve. Não fazia eu ideia que um par de anos volvidos havia de me saltar para as mãos e logo nas vésperas de uma viagem. E foi assim que este TB foi parar à cache Assumption Of Our Lady, em Malta.

Entretanto, andava eu por essa ilha, quando me salta para as mãos o TB Globus, que parece que queria regressar à República Checa, depois de umas voltinhas pelo mundo. Ora caiu mesmo na pessoa certa, já que ia passar apenas 10 dias em Portugal entre a visita a Malta e o regresso à Europa Central. Mas como as coisas se harmonizaram nesse sentido, adicionei um toque de requinte ao regresso desse TB. Não só o trouxe para o seu país de origem, como o deixei na cache (Alta Vista III) onde tudo começou, onde ele foi largado há mais de três anos.


O doce arquipélago mediterrânico de Malta está longe de apresentar condições ideais para a práctica do Geocaching: as acessibilidades internas são delicadas, com a utilização de viatura própria a ser dificultada pela condução pela esquerda e pelo mau estado da rede viária, e com um serviço de transportes públicos relativamente abrangente mas de periodicidade muito espaçada. A este cenário junta-se um calor que chega a ser atroz, e que se estende pelo Outono adentro.

Por outro lado, as ilhas têm um potencial sub-aproveitado. Existem cerca de 60 caches, quase todas tradicionais. Mas poderiam – e deveriam – ser muito mais. Desde o património histórico até à malha urbana, passando pelo espaço rural e a espectacular costa, Malta está repleta de locais que bem mereceriam umas caches, à luz dos valores vigentes em Portugal. Ironicamente, algumas das que foram criadas estão localizados em recantos de interesse bem duvidoso.

Não existe muita gente a criar caches em Malta. São 3 ou 4 nomes recorrentes, e de resto, quase todos são estrangeiros. A condição física dos contentores acaba por sofrer com isto. Encontrei vários bastante mal-tratados, que certamente não resistirão ao próximo inverno, sendo que em dois casos, a tampa não existia de todo.

Durante a minha estadia, encontrei cerca de 1/3 das caches existentes em Malta na altura. Sobretudo na costa norte, ironicamente a menos interessante, mais urbana. Com base nesta experiência, apontaria as mais marcantes experiências:

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Assumption Of Our Lady; uma pequena capela perdida no meio da paisagem rural maltesa, extremamente pictoresca. Ali ao lado um residente ofereceu-nos água fresca, apenas porque imaginou que podiamos ter sede.

Jensen’s Lookout; não era para ser procurada, mas passávamos no autocarro ali mesmo perto, no fim de um cansativo dia. E no vai-não-vai, acabámos por correr para a saída. Em boa hora! Toda a área envolvente é adorável, natural, transpirando a verdadeira alma maltesa. No páteo da igreja a rapaziada disputava dois desafios de futebol em simultâneo. As vistas são excelentes, e perto da cache existe uma pequena esplanada altamente recomendada.

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Enter The Dragon; uma multi-cache descomplicada numa das zonas mais turísticas de Malta, mas mesmo assim muito recomendável. Encontrei-a num dia de temporal no mar, o que lhe conferiu uma magia especial. A segunda parte da cache desenrola-se numa marina de luxo, aberta ao público mas tão disfarçada que os turistas não a encontram. Um espectáculo.

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Selmun Palace; um edificio palaciano, numa área remota. Da paragem de autocarro até lá serão cerca de 900 m, nos quais podem ser vistas algumas casas genuinas. O palácio não pode ser visitado, mas a vista exterior vale a pena por si.

St Paul’s View; da cache anterior vai-se a pé até esta, encontrando-se pelo caminho antigas instalações militares que podem ser exploradas livremente. De resto, trata-se de um excelente percurso pedestre.

As duas coisas mais alucinadas que me sucederam a fazer Geocaching em Malta:

  • Aproximar-me de uma cache, escondida numa densa rede de trepadeiras e arbustos junto a uma estradinha sem movimento, e ver pintado no chão em tinta cor-de-laranja: GEOCACHE. Pronto. Isto é que é um spoiler in loco.
  • Uma cache escondida dentro de um pub. Impossível de encontrar sem perguntar ao barman. E foi ali mesmo que me esqueci do meu GPS. Já a caminho do aeroporto decidi ir tentar esta, depois de já ter a informação que seria necessário entrar e perguntar pela cache. O Dakota novinho em folha ficou lá e eu vim embora. Só dei por isso no autocarro a caminho do aeroporto. Felizmente (até ver) o pessoal é honesto. Chegado ao aeroporto, entrei no free wi-fi, detectei o nome do pub e saquei o telefone. Liguei e o barman foi à procura e encontrou ou meu GPS. Agora aguardo que um amigo meu maltês vá lá buscá-lo e mo envie por correio.

Dakota 20

Dakota 20

Aspectos Físicos

Trata-se de uma unidade bastante pequena, quase cabendo no interior de uma mão fechada (e com certos meninos há-de caber mesmo). Para muitos, isto é uma vantagem. Eu até preferiria que fosse um pouco maior, e não apenas para ter uma área de screen superior…. é pequeno demais, pronto. Perde-se mais facilmente, não se agarra tão bem. Aparentemente, segundo as especificações oficiais e alguns “testers” mais corajosos, é completamente à prova de água, mas mesmo assim não convém deixá-la cair borda fora, porque flutuável não é. Tem um aspecto resistente. Resta apurar se o é, e, também neste caso, peço desde já desculpa aos leitores: não sou eu que irei arremessá-lo contra as paredes, ou mesmo largá-lo da minha mísera altura. Terei que limitar as apreciações ao aspecto. Como disse, resistente. E compacto.

Esteticamente, e nisto as coisas são altamente subjectivas, gosto. O tom tristonho do chassis cinzento escuro ganha um pouco de alegria pelos “fios” laranja escuro que marcam a “frame”. Tem um aspecto sóbrio mas a côr restitui-lhe o balanço estético.

A entrada para a ligação mini-USB encontra-se atrás, devidamente protegida por uma pala de borracha que se abre e fecha sem qualquer esforço, não se antevendo danos causados por uso continuado. Se isso vier a acontecer, dá para perceber que a peça se encontra fixa por dois parafusos, e provavelmente pode ser adquirida em avulso.

Logo abaixo, a tampa que dá acesso à cavidade das pilhas. Também ela se retira e coloca com extrema facilidade. Por baixo, o slot para o cartão micro SD (até 8 Gb). Incluido na embalagem está um fio para se levar a unidade ao pescoço, ou presa a algo… no meu caso, adicionei-lhe um mosquestão, adicionando funcionalidade extra.

Screen

Primeira página do menu... personalizada para GC

Primeira página do menu... personalizada para GC

Antes de comprar esta unidade estava bastante preocupado com a legibilidade do screen no exterior. A realidade revelou-se bastante acima das expectativas. Em utilização comum, apenas ao observar o mapa numa escala menor senti algumas dificuldades. Claro que andando na rua, o screen não apresenta o aspecto belissimo que pode ser visto nas imagens capturadas. Mas em termos funcionais, pouco ou nada perde. Mas estou convencido que o relacionamento entre o utilizador e o screen será sempre influenciado por experiências anteriores. Quem nunca usou PDA’s ou outros dispositivos de ecrã táctil, é capaz de ficar negativamente impressionado.

Ocupando quase totalmente a área frontal da unidade, o screen não será tão amplo como os da linha Oregon, mas mesmo assim é bastante aceitável, especialmente comparando com os eTrex.

O brilho de fundo pode ser intensificado ou reduzido, através de um toque ligeiro no botão de ligar o GPS, que o levará a um menu de controle do brilho (onde também poderá activar a função de ecrã bloqueado).

A interacção táctil é positiva. Apenas o scroll de páginas de caches levanta certas dificuldades. Quer a descrição quer o registo de logs podem ser extensos, e não existe uma barra de scroll… tem mesmo que se ir passando lentamente com o dedo.

Comportamento em Campo

Sendo a minha terceira unidade GPSr, não notei diferenças de vulto na sua eficácia; aparentemente, ou por estar em dias menos bons quando fiz testes comparativos, perde um pouco em precisão para o Magellan eXplorist 400 que tenho agora como uniade de backup. Mas uma coisa mínima. Se em cima da cache o eXplorist dá zero metros, o Dakota dá 2 metros.

A rapidez de aquisição de sinal é muito boa. Na maioria dos casos, quando o GPS emerge da rotina de arranque, já tem sinal activo. De resto, o bom relacionamento da unidade com os satélites nota-se até dentro de casa, onde geralmente é adquirido sinal, mesmo que exista apenas uma janela na sala.  Menos agradável tem sido a perfomante da bússula de três eixos. Se calhar era eu que tinha demasiado expectativas. Já me via a saber para que lado estava a cache mesmo antes de arrancar com o carro. Mas não. Para além da necessidade constante de calibração, eu não confiaria na indicação desta bússola para nada. Em termos prácticos, resolvi colocar-lhe o rótulo de inútil, e deixar de a usar.

Geocaching

O Geocacher deverá começar por preparar um ficheiro GPX. Pode ser um Pocket Query puro ou um ficheiro exportado, por exemplo, do GSAK. Depois, é colocá-lo no folder adequado, onde pode conviver com outros do mesmo tipo e já está: ao ligar o GPS as caches constantes desse ficheiro (juntamente com as dos outros que estão no mesmo folder) aparecerão na lista de caches mostrada na unidade. Se não estiver para estar a gerar ficheiros GPX, note-se que pode simplesmente usar o website do Geocaching para enviar caches directamente para o Dakota.

Uma vez no campo, pode aceder à lista, que aparecerá ordenada por proximidade, mas com toda a facilidade pode pesquisar introduzindo o nome ou parte do nome de quaqluer cache. Escolhendo uma, esta será mostrada no mapa, e se for aquela mesmo que quer procurar, deverá clickar no botão Go. Para usar a bússula, terá que fechar esse screen e voltar ao menu, escolhendo ai a ferramenta bússula (ou qualquer outra que desejar). A qualquer momento poderá consultar a descrição da cache, assim como a hint ou os longs anteriores. Para isso, é regressar ao menu principal e carregar na opção Geocaches, onde terá esses elementos à escolha. Além disso, poderá marcar a cache como encontrada, DNF, necessitando de manutenção ou “unattempted”.  Marcar o status das caches na altura poderá dar um jeitão quando chegar a casa, mais tarde. É que os “fields notes” são uma maravilha. Ligando o GPS ao computador e entrando no Geocaching.com, poderá então fazer o upload dos dados, acedendo a uma página onde a sua actividade diária está desde logo alinhada. Acabaram-se os esquecimentos de logs!

Além disso, se estiver a usar o “dashboard” do perfil Geocaching, a qualquer altura pode visualizar o número de caches encontradas nesse dia (a bem dizer, desde a última vez que fez reset aos dados).

Tão a ver... ele indica: o Torgut encontrou 4 hoje !

Tão a ver... ele indica: o Torgut encontrou 4 hoje !

Descrição de uma cache, início

Descrição de uma cache, início. Para baixo, o texto.

Extras

Para além das habituais ferramentas (bússula, mapas, planeador de rotas, marcação de waypoints, dados da viagem, track manager, etc) o Dakota oferece uns extrazinhos, demasiadas vezes inúteis. Aqui estão, com uma ordenação subjectiva, do mais relevante para o mais supérfluo:

  1. Waypoint averaging, que dá um jeitaço aos Geocachers na altura de colocar uma caixinha. Já testei, e com grande sucesso. Logo de seguida simulei a procura da cache com um Magellan e fui dar com ela tendo indicação de zero metros para o ponto.
  2. Calculadora, sempre preciosa para ir a multi-caches e algumas caches mistério.
  3. Sol e Lua, horas a que se põem e se levantam. Pode dar jeito para alguma planificação, mas nunca senti necessidade.
  4. Gráfico de altitude, que mostra a evolução do nosso percurso consoante a altitude.
  5. Cronómetro. Bastante completo mas… quantas vezes o usaremos?
  6. Despertador. Humm se não tivermos um telemóvel com despertador (alguém não tem?) não é mau. Barulhento quanto baste e funciona mesmo que tenhamos desligado a unidade.
  7. Man overboard. Marca um ponto e automaticamente coloca-nos em rota de retorno.
  8. Cálculo de área. Como o nome indica, permite-nos calcular a área no interior do perímetr que acabámos de plamilhar. Será útil para alguns, completamente desnecessário para a maioria. E daqui para a frente entramos no campo das funções totalmente inúteis.
  9. Hund and Fish; Nunca percebi a sua utilidade real, mesmo para caçadores e pescadores.
  10. Calendário. Pura e simplesmente isso, como se fosse um calendário de papel, daqueles que se usavam há muitos anos.
  11. Sight’NGo: ainda não consegui perceber o que é isto e para que serve.
  12. Share Wirelessly: mais um sinal de que os engenheiros da Garmin perdem demasiado tempo a desenvolver inutilidades, tempo esse que podia ser bastante melhor empregue. De facto, é já a seguir, que vou encontrar ali na rua outro Geocacher, que, coincidência, tem um GPS desta gama, a que, coincidência, me convém mesmo passar um waypoint. Tende juizo!

Ora quantas janelas eram... ?

Ora quantas janelas eram... ?

Notas Diversas

Coisas que me ocorrem, assim de repente. Quase toda advêm da inevitavel comparação com a unidade que usava anteriormente. Umas más, outras boas. E ainda algumas que são simples considerações:

  • A unidade funciona com pilhas, que é coisas que eu detesto, aparentemente ao contrário da voz corrente. A verdade é que após cinco anos de Geocaching, todas as vezes que fiquei apeado por falta de energia na unidade, foi com aparelhos a pilhas. Fosse porque elas se descarregaram a uma velocidade inesperada, porque as qe tinha trazido para repôr estavam afinal sem carga, ou porque as perdi, ou porque contava comprar e me esqueci ou não encontrei à venda… ou porque fui de fim-de-semana e o carregador ficou em casa, ou ficaram todas as pilhas recarregáveis esquecidas… em suma, DIABOS CARREGUEM A PORRA DAS PILHAS! Tendo que viver com elas, posso dizer que umas boas pilhas alcalinas duram cerca de 15 horas. Não tive oportunidade de realizar testes com outro tipo de pilhas, mas parece que é importante dizer ao GPS (não é falando tolinhos, existe mesmo um local para isso no sistema de menus) que tipo de pilhas se está a usar.
  • Acho adorável o GPS manter em memória a cache para onde queremos ir, mesmo depois de ter sido desligado. Para os utilizadores de Garmin, isto será um facto adquirido e estarão a estranhar o entusiasmo. Mas o eXplorist, fruto de um “golpe de génio” dos seus engenheiros, esquece a informação de cada vez que se desliga… ah… mas não se estiver em routing de estrada, o que salienta que a falha é um bug que resistiu a anos e anos de bug fixs.
  • O conceito de “Perfis”, não sendo uma novidade em máquinas Garmin, é-o para mim. E coisa muito conveniente o é. Podem-se escolher opções, comportamentos, côres para os perfis pré-definidos, e criar perfis adicionais.
  • Horrível, mas já sabido, é a impossibilidade de gerir os dados (tracks, waypoints, geocaches) em ficheiros e folders separados, abrindo-se estes e fechando-se segundo as conveniências. Estava mal habituado, porque esta é uma das (poucas) maravilhas da linha eXplorist. Pois não tem lógica que se mantenha as caches do Minho separadas das do Algarve,  a lista dos nossos restaurantes favoritos em redor de casa, dos pontos a visitar durante a viagem que se avizinha a Malta, ou dos locais que se achou lindissimos na visita ao Egipto o ano passado? Para a Garmin é tudo coisa para o mesmo saco, mas eu digo NÃO! É uma porcaria, assim.
  • Fiquei entusiasmado quando vi a funcionalidade de “route planning”. Pensava que isso podia eliminar a última necessidade de papel e caneta, a de escrevinhar o alinhamento de caches a visitar num dia. Mas afinal não. Há uma coisa que deita isso a perder: é que chegado a um dos pontos da lista, o GPS passa automaticamente para o próximo, o que para o Geocacher não interessa para nada, porque uma coisa é chegar à área e outra é encontrar a caixinha.
  • A função de captura de écrã dá jeito, mas porque diabo é que os ficheiros são .bmp em vez do comum, mais do que standard .jpg?

Em Suma

Não há muito mais a acrescentar a tudo o que foi escrito. Sinto que preciso de mais rodagem para formar uma opinião sólida sobre a unidade, mas para já estou satisfeito. Talvez porque os aspectos negativos estavam já previstos e fui encontrar várias surpresas agradáveis. Diz-se que uma das vantagens dos Dakota é serem fruto de um processo de apuramento da mais antiga linha Oregon. E é bem capaz de ser verdade. Na realidade, não há muitas diferenças entre uns e outros, exlcuindo o 550, topo dos Oregon, também ele lançado recentemente e usufruindo deste processo de corecções. O meu GPS veio dos EUA. Custou cerca de 250 Eur. Há quem diga que está caro para o que oferece. Eu não concordo. Mesmo assim, se fosse hoje, provavelmente teria ido para o Dakota 10. A bússula de três eixos revelou-se uma decepção, e o espaço de memória interna parece ser suficiente para uma utilização regular.

Alguma dúvida adicional, deixem “Comment”.


Prefácio: as técnicas descritas podem revestir-se de graus distintos de subjectividade, e, em última instância, serem desaconselhadas por alguns com perspectivas distintas. Trata-se portanto de uma colecção de conselhos de cunho pessoal e não dogmático. Ah! O título fala em cache física porque se refere a tesouros com um contentor, que têm uma existência real e palpável. Não é uma alusão à ciência química… digo… física.

Lição 1: As linhas condutoras. também conhecidas como guidelines, para os amigos. Justas ou injustas, se não forem respeitadas a cache não será publicada, kaput, finito, the end. É por isso o único passo verdadeiramente imprescindível. Ler aqui as guidelines.

Lição 2: O contentor. Altura de desfazer uns pseudo-dogmas que com o tempo se ajeitaram entre nós: que eu saiba nada é obrigatório na altura de criar a caixa e respectivos conteúdos. A stashnote (papelinho onde se explica o que é o Geocaching, caso a nossa criação venha a cair nas mãos do inimigo), as prendinhas, e, sobretudo, o saco de plástico. O que é preciso é um logbook. E mais nada. Tudo o mais vem por dedicação e amor, não por obrigatoriedade:

  • Pois que se coloque o livrinho para os logs dentro de um contentor, e que este seja uma obra prima de criatividade ou um tupperware da melhor qualidade. Caixas de metal são má ideia devido à facilidade com que a ferrugem as começa a roer.
  • Algo para o visitante escrever as suas impressões poderá dar jeito. Uma esferográfica, caneta, lápis… sendo que este último é mais resistente a tudo, e dimensionável segundo o tamanho do contentor,  recomendo-o. Já agora, seja lá o que for, não lhe fará grande diferença viver fora do saquito de protecção extra em que quase todos botamos o logbook… e assim se evitar que o bico do elemento de escrita rompa esse plástico.
  • Que se imprima a folhita a explicar o que é o Geocaching, de preferência em português e inglês, para que o achador casual da cache possa resitir à tentatação de a magoar.
  • Que se ponham lá para dentro uma colecção de prendinhas capazes de interessar à maioria das pesssoas, sem esquecer que algumas coisas são interditas à luz das linhas condutoras. Nada de camisinhas de Vénus, que as crianças podem ficar curiosas fora de tempo; nada de caramelos ou outras coisas para comer, que a bicharada vai concerteza danificar a cache para chegar até elas.
  • Até se podem deixar artigos de manutenção antecipada dentro da caixinha: lápis extra, sacos de plástico de reserva (vide ponto seguinte), um segundo logbook.
  • Se for conveniente, que se envolva tudo num saco de plástico. Não porque é costume, por favor. O saco de plástico é boa ideia se ajudar a camuflar a cache. Um saco de plástico cinzento para uma cache escondida entre rochas cinzentas é boa ideia. Eventualmente, apesar de algumas teorias em contrário, é capaz de ajudar a proteger da água da chuva. Mas nesse caso, será uma patetice colocar um saco a envolver uma cache deixada num buraco onde nunca chega água: nem precisa de camuflagem nem de protecção, e só se está a criar um naco de lixo que com o tempo se começará a desfazer e a espalhar por ali. Ah! Se o cenário aconselhar à colocação de um saco, nem pensar em dar nós! Para além de irritar toda a gente, pode entrar para a lista negra do MAN (Movimento Anti-Nós, liderado pelo mullah Portelada). E não queremos que lhe acontença… isto!

Lição 3: Selecção. Agora que a caixinha está pronta, há que a botar no ninho. Não vou aqui falar do local onde criar uma cache, que isso cada um sabe da sua vida. Mas uma vez que está decidido a partilhar com a comunidade um local que gosta, não há razão para que o ponto exacto do esconderijo não seja cuidadosamente pensado. Por exemplo, não existe nenhuma razão para a deixar em linha de vista directa para a entrada de uma esquadra de polícia (já encontrei três nessas condições), de uma vigia de incêndios ou da portaria onde se abriga um agente de segurança. Olhe bem em seu redor e imagine o local noutras circunstâncias. Se é Domingo, as coisas poderão ser diferentes aos dias de semana. Depois, considere o impacto ambiental que a invasão de geocachers terá no ponto. Há uns anos, quando tinhamos visitas nas nossas caches de tempos a tempos, não era preciso especiais preocupações neste aspecto. Actualmente, com as caches a poderem ter mais de uma dezenas de “founds” no primeiro dia, e centenas por mês, é preciso imaginar o que esses pares de pés todos poderão fazer a um canteiro, a um jardim… e o que esses pares de mãos todas poderão causar a um muro de pedra centenário. Sobretudo nas cidades, tente encontrar um local à prova de destruição. Mesmo duzentos geocachers totalmente educados e sensibilizados não poderão evitar de deixar marcas, no seu todo.

Lição 4: Informação. Até pode parecer que agora só falta preparar a página com toda a informação sobre a nossa cache. Reparou na palavra “toda”? Pois bem. Como sabemos não e obrigatório nem nada que se pareça, mas disponibilizar informação sobre o local onde está a cache ou o evento a que alude, seja ele uma igrejinha ou a marcação do local onde se deu uma batalha é coisa simpática. Mas para além do “background” é vital que não se esqueça de fornecer todos os dados essenciais à acção do geocacher. Se a área só está acessível dentro de um determinado horário, se uma maré bloqueia o acesso durante parte do dia, se ir de calções é sentença de morte para a patinhas… tudo isso importa, e muito ao geocacher, e tenho cá para mim que mantê-lo na ignorância até ao momento em que ele chega apenas para constatar que não poderá alcançar a cache é mau.

Lição 5: Universalidade. O ideal é que todos falássemos Esperanto. Mas o mundo não é ideal e a generalização linguística sempre foi vista como uma ameaça à soberania e ao poder dos Estados, bem secundados pelos seus cidadãos. Assim, ao longo dos tempos, o latim, o francês e o inglês, por esta ordem, foram constítuidos línguas francas na nossa civilização. Hoje, como se entendem os finlandeses, árabes e croatas, os russos, portugueses e coreanos, os chineses, peruanos e húngaros? Quando uns viajam até aos outros, esperarão que se fale na sua língua materna? Deverão aprender a língua? E quando aqueles recebem estes, é legítimo esperarem que tenham aprendido a sua língua? Não, não e não. As fronteiras demoram segundos a serem cruzadas, aprender uma língua leva anos. Mas comunicar é vital. Como é possível articular este problema? Aprendendo pelo menos a língua franca, que nos nossos tempos, goste-se ou não, é o inglês. E no Geocaching, é a mesma coisa. O jogo é universal, criado e baseado num país de língua inglesa, e com um website em inglês. Criar uma cache sem uma versão internacional, perceptível pela esmagadora maioria dos viajantes é mau. Raia o banditismo se a ausência for fruto de uma bacoca convicção nacionalista ou qualquer outra ainda mais rebuscada. É apenas inconveniente no caso de se dever a distração ou incapacidade linguística. Para resolver este último problema, não faltam voluntários para a ajudar na tradução, aproveite a boa vontade alheia. Porque, quanto mais não seja, um dia poderá ter a possibilidade de procurar cache num outro país e não vai gostar de ser tratado como tratou os outros. Ah! Tradutores automáticos, esqueça. Os resultados são simplesmente anedóticos.

Lição 6: Manutenção. Digam lá o que lhes parece mais correcto: quando se pensa em “criar um filho”, está-se a falar de uma noite em que nos deu o cio e lançámos a nossa semente em ventre fértil (ou vice-versa) deixando uma barriguita a crescer durante nove meses, ou de anos a fio a cuidar de um ente desprotegido que precisa da nossa atenção constante? É a segunda não é? Pois então com as caches é a mesma coisa. Criar implica cuidar. Não é só deixar para lá a caixa e ir à vida. É preciso assumir o compromisso. Aquela cache vai precisar do nosso cuidado paterno. Não se mudam as fraldas, mas muda-se o logbook. Não precisa de roupa nova à medida que cresce, mas precisa de containers novos à medida que os anteriores se vão partindo. De resto, tudo isto consta das linhas condutoras. Esperar que os outros tomem conta das nossas criações é tão injusto como contar com os vizinhos para cuidarem das nossas crianças.

Lição 7: Coordenadas. Parece evidente. E é. Ao criar uma cache tem de fazer todos os possíveis para publicar as coordenadas correctas. Mas de tão evidente que é, mesmo assim, às vezes as coisas sucedem de forma diferente. Recolher as coordenadas através de ferramentas como o Google Earth, NÃO! Os resultados podem ter variações de dezenas de metros em relação ao ponto real. Se usar um GPS como deve ser (para estes efeitos), não se limite a tirar as coordenadas. Faça-o várias vezes, anotando-as sempre. Aproxime-se várias vezes. Desligue o GPS e torne a ligar. Deixe-o a marinar em cima da cache durante uns minutos e depois tire a coordenada. Por fim, faça a média de todos os valores obtidos. A gente agradeçe.

Lição 8: Maluqueiras, não! Publicar uma cache antes dela estar no local ou botar as coordenadas sem as verificar, NÃO. Parece claro mas a experiência diz que nem toda a gente se lembra disso. Resultado: hordas de pessoal a ir à procura no sítio onde a cache ainda não vive, ou a trepar uma encosta cobertinha de silvas enquanto a caixa se abriga debaixo da aba de um moinho no monte oposto, a rir-se de tudo aquilo.

Lição 9: Adaptação. É preciso meter uma coisa na cabeça: por vezes aquilo que para nós parece evidente, não o é para a esmagadora maioria das pessoas. Isto, no contexto corrente, significa que talvez cometamos erros na criação da nossa cache, erros esses que só serão descobertos pela interacção real com o “mercado”. O que é necessário é saber reconhecer que onde há muito fumo é capaz de existir fogo, e se ao fim de 20 logs, 10 referem um problema, talvez o que neles é indicado seja merecedor da nossa atenção e correcção. Uma cache classificada com 2 estrelas de grau de dificuldade que tem tantos “not founds” como “founds” se calhar é na realidade mais díficil do que isso, e não custa nada reconhecer o erro e corrigir. Se quando fomos deixar uma cache não sucedeu nada de especial, mas se os geocachers repetem nos logs o aparecimento de cães ameaçadores na área, talvez devamos considerar mudá-la de local. É preciso adaptar o nosso fruto inicial ao feedback que vamos recebendo nos logs.

Lição 10: Dar tempo ao tempo. Se começou a practicar Geocaching há pouco tempo, é boa ideia ganhar algum calo nestas andanças antes de criar. Os benefícios da aprendizagem são parte do senso comum, e quanto mais caixinhas encontrar mais aprenderá sobre a arte de bem criar uma cache. Se não conseguir refrear o entusiasmo e partir logo para as suas próprias criações, as probabilidades de cometer erros de palmatória elevam-se. E não há nexexidade. Nem para si, nem para os outros. O Geocaching não vai a lado nenhum, estará aqui à sua espera passado uns meses, quando já tiver visto de tudo e aprendido por experiência própria como se cria, mal ou bem, uma cache.


Passaram-se quatro dias. Noventa e seis horas, mais coisa menos coisa. E a dor continua. Naquele malfadado muro da cidade de Tavira quedou-se o meu fiel amigo de tantas cachadas. O heróico Magellan Explorist 500, que me acompanhou na descoberta de mais de duas mil caches e na frustração de umas quantas dezenas de DNF. Juntos, cruzámos doze países, voámos sobre as nuvens, percorremos milhares de quilómetros de carro. Lembro-me como se fosse hoje o momento em que lhe toquei pela primeira vez: foi em Praga, num apartamento alugado, em Outubro de 2006. O meu amigo Nelson, que voou dos EUA para se me juntar naquela cidade encantada trouxe-mo. Devo reconhecer que os primeiros meses de convivência não foram fáceis. Mas depois do período de adaptação soube que tinha ali um amigo para sempre… ou assim o pensava.

Prefiro não matutar o que está ele a fazer neste momento, onde se encontra pousado, em poder de quem… que tenha uma ainda longa vida, cheia de aventuras, antes de ser atraiçoado por um segmento da sua placa electrónica ou de se afundar num qualquer rio.

Estes últimos dias têm sido de intenso estudo, sob o qual procurei afogar o pesar. A vida terá que prosseguir, e assim dito, significa que um substituto deveria ser encontrado. Para já, tratei de encontrar não um, mas dois. Amanhã, se tudo correr conforme planeado, terei um irmão um pouco mais pobre deste Explorist 500. Será o modelo 400, cuja única diferença, assim de repente, reside no “screen” monocromático e na côr da unidade. De cinzento escuro passarei a verde, das cores passarei a um mundo a preto e branco. Mas a herança que me deixou o amigo perdido será ao menos aproveitada: carregador de isqueiro, base para o carro, base para a moto 4, estojo. Aqui, sei com o que conto, para o mal e para o bem.

Contudo, como me refugiei numa dinâmica frenética para esquecer a dor, não me fiquei por aqui. A caminho vem também o modelo mais recente da Garmin, e provavelmente do mundo do GPS: o Dakota 20. Uma espécie de Oregon mais pequeno, com um screen mais luminoso, mais leve, com maior autonomia energética. Em comparação com o topo da linha Oregon, o 550, fica a perder pela ausência de uma máquina fotográfica, por não lidar com o fenómeno WhereIGo e… pouco mais. Acrescentaria, assim de memória, a impossibilidade de definir imagens de fundo, o screen mais pequeno – também com vantagens inerentes – e a ausência de um visualizador de imagens.

Dakota 20

Dakota 20

Com o meu cunhado em viagem de trabalho nos EUA – bem, na realidade sendo piloto, uma viagem de trabalho é mais no percurso até lá, do que propriamente no país de destino – tive uma oportunidade imediata de comprar material a preço reduzido. Certo, perdi os mapas originais de Portugal que acompanham as unidades comercializadas por cá, assim como um procedimento simplificado em caso de problemas técnicos com o GPS. Nada de verdadeiramente problemático. E poupei umas centenas de Euros. Foi apesar de tudo um momento de tensão, quando ele me telefonou. “Olha, tenho aqui na mão um Oregon 400 e um Dakota 20. Custa isto e isto… queres ou não”. Só pedi dez minutos para reflexão, usados numa visita rápida para recapitular a materia num par de websites, depois, a esmagadora indecisão…. e… que se lixe, se me arrepender posso sempre tentar revender isto em Portugal.


A alvorada foi literal. O sol acabava de nascer quando abri os olhos e fui de imediato agraciado com o espectáculo inesquécivel do imenso laranja que cobria em toda a sua extensão a albufeira de Alqueva. Levantar o arraial da noite foi rápido, e ainda os galos de uma quinta distante anunciavam o novo dia, já nós rodávamos em direcção à primeira cache do dia.

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Assim num repente “limpámos” as caches que me restavam encontrar naquelas orlas das águas da barragem: Struthio camelus [Alqueva], Grupo de Forcados [Amieira] e Marina da Amieira [Portel]. Já Miradouro do Monte [Amieira] resultou num DNF, esperado à partida, mas que se veio a revelar frustrante conforme explicarei mais à frente. A primeira série de caches da manhã ofereceram-nos perspectivas distintas deste mundo que é a albufeira do Alqueva. Em todos os seus braços e extensões encerram-se dezenas de pequenas comunidades, recantos maravilhosos, paisagens de sonho. Já rodei durante quilómetros e quilómetros em seu redor, já visitei castelos, corri sobre pontes e encontrei aldeias artificiais. E sei que estou longe de esgotar tudo o que a região do Alqueva tem a mostrar a um viandante. Ficarei a aguardar novas caches, essas incansáveis guias do ignorante forasteiro. Em busca destas três caches, mais da que ficou por achar, impressionou-me o número e variedade de cabeças de gado espalhadas pelos campos. Aquilo eram porcos e bodes, ovelhas e vacas, touros e cabras. Sobre as caches, individualmente, senti-me intrigado pela da marina por duas razões distintas: que vida tem aquela porto de águas doces, fruto de um investimento que se sente avultado, vazia às dez horas da manhã de um Sábado de sol resplandecente…? Quem são os seus clientes, como consegue subsistir pelo pobre volume de negócios que despudoradamente mostra a quem lá se desloca? Ali, perdida no meio do nada, um carro parado, provavelmente propriedade do funcionário de serviço… Depois, tal como na noite anterior, foi o achamento de uma cache repetidamente dada como desaparecida pelos Geocachers anteriores, e, da mesma forma, achada imediatamente, colocada de forma simples no rigor das coordenadas indicadas. Como é possível?

De saída do Amial, a tal cache não encontrada. Também com uma série de DNF’s prévios. E desta vez não aconteceu um milagre. Exactamente no indubitável ponto zero, um espaço mesmo à medida de um tupperware, à sombra de uma pequena rocha… vazio. Pronto. Procurou-se por mais um pouco, sem grande convicção, tamanha era a evidência encontrada e o número sem fim de esconderijos possíveis num perímetro mais alargado. E de partida fomos. Veio-se a saber mais tarde que o owner tinha reposto a cache cujo desaparecimento tinha de facto justificado alguns dos DNF’s iniciais, mas não os últimos. E foram relidas duas velhas lições que qualquer Geocacher deveria conhecer:

  1. O facto de encontrarmos aquilo que pensamos serem vestígios de uma cache desaparecida não significa nada e não deverá interferir com a nossa atitude na procura. Aprendi isto há já muito tempo, e revejo de tempos a tempos em logs lidos ao caso o erro repetido geração após geração de Geocachers.
  2. A existência de uma série de DNF’s anteriores têm o valor que têm, e que por vezes é nulo como demonstram os nossos achamentos de três caches nessa situação nas últimas doze horas.

E pronto. Seguia-se Barragens dos Álamos (I,II,III) [Amieira-Portel]. Mais lições a salientar:

  1. As barragens são umas cabras. De um dia para o outro fazem desaparecer estradas, planícies, acessos.
  2. Quem não sabe disso são os auxiliares do geocacher. TomTom e Google Earth. Ambos a induzir em erro. Um, a mandar por caminhos que já não existem, o outro a mostrar uma realidade que deixou de ser há pelo menos um par de anos.

E com isto queimámos um bom número de litros de gasóleo e quase um par de horas. Foi enervante sim senhora. E frustrante. Mas diga-se que esses sentimentos negativos só serviram para realçar a alegria de sentir que finalmente tinhamos encontrado o caminho certo. O problema, que não se veio a confirmar, era já outro: se encontrámos o acesso por tentativas, depois de muitos para trás e para a frente, como é que iamos sair dali, já que os auxiliares electrónicos estavam assumidamente perdidos? Felizmente a coisa revelou-se pacífica, e passámos à próxima cache depois de facilmente encontrarmos esta.

Foi uma longa tirada de 50 km. A paisagem mudou. Deixámos para trás as vastas planícies e as imponentes barragens. O terreno tornou-se mais acidentado. Quase de passagem, fomos à Lucefécit. Ficará para sempre como a cache dos coelhos, tamanho era o número daqueles animais que pululavam para todos os lados quando chegámos ao ponto final. Decididamente esta cache encontra-se na praça central da cidade dos coelhos. E, por acaso, ainda deu algum trabalho. Por mera falta de sorte. De todos os possíveis pontos, calhou que aquele que escondia a caixa foi o último a ser verificado.

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Explorámos em seguida a área de Borba e Vila Viçosa – BAT04 – Batalha De Montes Claros – Borba, Ermida Nª Sra de Vitória -Barro Branco- Borba, Glória, BH39 No Reino do Vinho e do Mármore [Borba], Aldeia de Ciladas, Museu do Mármore – Vila Viçosa, A View To The East [Elvas].

A primeira; nada a ver, excepto um padrão comemorativo. Nem a batalha pude sentir, com os seus terrenos cortados pela estrada, onde os carros passavam céleres, como que zombando dos cavalos seus antepassados, que, quiçá, naquele mesmo local foram veículos de esventramentos e decapitações, o relinchar substituido pelo roncar discreto dos motores e as espadas trocadas pelos volantes.

A segunda; uma obra que rasga o pavimento alcatroado sem mais. Quem quiser passar que o faça a pé. Felizmente o destino era mesmo ali à frente, que se apoquentem os que querem ir mais adiante. Da ermida pouco se pode ver. Dá a sensação que se tornou casa de habitação. O que é certo é que alberga um muggle, curioso, claro. Quis a sorte que outro muggle viesse a passar, e que ambos se entretessem milagrosamente um com o outro e ainda comigo, enquanto o companheiro de tour aproveitava a aberta para tratar do “negócio”. Nos entrementes fiquei a saber que o marco de pedra ali defronte, semelhante nas aparências um marco geodésico primordial, servia de ponto de orientação às tropas que noutros tempos aqui se concentravam, numa área “quente”, frente a frente com o inimigo de tempos de guerra e de paz. O espanhol, que rondava, espreitava uma aberta para ameaçar a soberania Portuguesa e vergar este povo à semelhança do que logrou fazer com catalães, galegos, bascos.

A terceira; um pequeno cantinho de Portugal, sem nada de especial para além de muita harmonia e sossego.

A quarta; uma pesadelo de condução em Borba. Divertida, interessante. Mas a segunda prova… isso não se faz! Valeu o segundo elemento do tour, porque por mim tinha-me vindo embora de mãos a abanar. Fica para o registo que mais uma vez o Geocaching cumpriu uma das suas missões primordiais. Nunca tinha vindo a Borba, e não fosse o jogo provavelmente morreria nesse estado. Assim, passei por aquelas ruas, observei os detalhes, apreciei uma forma de vida urbana tão diferente da de outras partes de Portugal. Por fim, acabámos a cache num pedaço lindissimo, incomodados por um estranho muggle. Mas eu conto os detalhes: assim que saimos do asfalto e tomámos o curto troço de terra batida que levava à cache, um homem já de certa idade que ia pela estrada acima, inverteu logo a marcha e veio até nós. Os cumprimentos foram trocados, mas nada mais. Ali estava ele, a rondar, a seguir-nos. Separámo-nos para iludir o predador, e assim, depois de muita manobra, foi possível encontrar a cache. Mas a alma penada não descolava. Acabei por o ignorar o melhor que pude, disparei dezenas de vezes a máquina fotográfica. E já a sairmos o Vespas apresentou a sua tese que depois de um momento de reflexão me pareceu adequada: aquilo ali deve ser local de engate e o indíviduo vinha à procura de qualquer coisa. Não levou muito.

A quinta; um espectáculo! O que dizer da visão de duas carcaças arquitectónicas, jazendo lado a lado, à beira da estrada? Uma igreja e uma escola primária do Estado Novo. Ali se juntaria a comunidade proveniente dos lugarejos inomináveis das redondezas, com todo o sentido: os petizes iam à escola, os mais velhos cumpriam os seus deveres religiosos. Eram outros tempos, e como entes do antigamente, à falta de cemitério para estas coisas, ficaram por ali, aquela igreja e aquela escola, para deleite dos que vêm de longe, olhos postos numa seta e num contador de distância.

A sexta; uma estação de caminhos-de-ferro desactivada que foi reabilitada e alberga hoje, orgulhosamente, o Museu do Mármore. A exposição não vi nem poderia ver. Nem gosto de museus, nem estava aberta. Mas o envolvimento é uma agradável surpresa, não só pela recuperação já citada como pelas peças deixadas no espaço exterior, usado como fiel depositário daquelas volumosas testemunhas do passado, maquinaria que teve o seu tempo de glória e que contudo é ainda capaz de arrancar um sorriso dos… que vêm de longe, olhos postos numa seta e num contador de distância.

A sétima; mais um momento alto. Se mais não houvesse, uma capela (ou ermida, ou igreja – nunca aprendi as diferenças) com vista para o rio seria já o motivo para uma cache ali plantada e respectiva deslocação. Mas não, aquilo era apenas um frugal aperitivo comparado com o prato principal. Que dizer do impacto súbito, assim que o carro atinge o cume? Uma ponte centenária, de vários séculos, estropiada pela mão assassina do Espanhol, jaz ainda no lugar onde se estendia quando era nova e cumpria as funções para que tinha nascido. Quebrada no seu ponto mais vulnerável, bem no centro da travessia. Um monumento tão majestoso quanto inesperado. Apenas imagens poderão fazer justiça ao que ali foi visto, e não as que tirei, que nem tinha equipamento nem engenho para registar nos pixels aquilo que os olhos viam. Quanto à cache, uma aventura… não encontrávamos! Anda para trás, para a frente… procura em cima, procura em baixo. Verificar as coordenadas… não temos! Só mesmo as do GPSr. Telefonar… não podemos! Não há rede. Por fim foi encontrada, um achamento filho bastardo da sorte, tendo como pai o empenhamento. A mais de 20 metros do que pensávamos serem as coordenadas.

A próxima paragem era Elvas, onde se abrigavam cinco ou seis caches à espera de serem encontradas. Mas fizemos uma. Por enquanto. É que ficou decidido que assim como assim, já que estávamos ali tão perto, iamos a Badajoz e já vinhamos. Na Forte de Santa Luzia [Elvas], que fizemos num pulinho, li um dos logs mais curiosos de sempre, que não resisto a transcrever:

Não gostamos do caminho para a cache. Estava muito calor e a vegetação insistia em roçar nas pernas…nada agradável. Pelo que desistimos de procurar!

Ainda com o riso a morrer, foi cantar “Ó Elvas Ó Elvas, Badajoz à Vista” (que saudades daqueles tempos agitados de 1975…) e ir para onde os nossos olhos apontavam.  Badajoz não teve muita história. Foi mesmo para “picar o ponto”.  El puente de Cantillana foi a primeira e porventura a mais agradável. Pontes paralelas com histórias diferentes são sempre interessantes. Depois, Alcazaba [Badajoz], debaixo de um avassalador calor. E de seguida, as três do parque de Tres Arroyos (Parque de Tres Arroyos, 3 Arroyos – Ermita de San Isidro e 3 Arroyos – Mirador de Badajoz). De seguida, o regresso à Pátria, e ainda a Elvas.

Enquanto o Vespas se dessendetava numa tasca ali ao lado, fui à Elvas – Railroad Station. Foi tão ou tão pouco complicada que ainda o GPS não tinha ganho sinal já eu estava a recolocar a cache no seu esconderijo depois de assinar o logbook. Em Forte da Graça – Elvas levei o companheiro ao desespero. Ele bem queria ir embora, mas eu, quando encontro locais abandonados, não largo tão facilmente. E este, dentro do género, era bem mais interessante que a média. Ao subir em direcção ao forte cruzámo-nos com um carro civil conduzido por um militar que nos deitou um mau olhado. Tudo bem. Mais à frente vimos sinais de trânsito que proibiam a passagem a viaturas civis… mas aquilo parecia tão calcinado que, juntando à informação existente no texto da cache, decidimos prosseguir, e acabámos por parar à entrada do forte. Dali foi achar a cache, mas em boa hora decidi espreitar o portão entreaberto… ah! Então pode-se entrar! E está abandonado. Pelo menos o primeiro recinto, que mais acima se ergue, imponente, aquilo que parece ter sido a casa do comando, um palacete erigido no topo. Impedido de satisfazer a curiosidade na totalidade, explorei sequiosamente todos os compartimentos daquele sector franco. Ficou-me na retina aquilo que parecia ser a antiga messe… um bar, uma lareira, um espaço que deveria ter mesas nos seus tempos aúreos. Percorri as muralhas – apesar de imaginar que exista um nome mais correcto, visto que longe iam os tempos dos castelos e ameias quando esta estrutura foi erguida. Apreciei a vista que se disfruta daquele ponto elevado, mas o interior manteve-se mais chamativo e ainda consegui dar mais umas voltas antes do Vespas começar a apitar, lá fora, já roido até ao limite pela impaciência.

BAT02 – Batalha das Linhas de Elvas não cativou. Marca o campo de batalha e é tudo. A verdade é que não se sentem os fantasmas desse passado glorioso no local. A envolvência terá mudado bastante nestes últimos séculos, porque parece apenas um pedaço menos interessante de terra. O Aqueduto da Amoreira – Elvas já há um bom bocado que me andava a intrigar, pois onde quer que fossemos, tinhamos vista para ele. E esta cache veio em boa hora para nos proporcionar uma observação de perto. Por fim, para encerrar o capítulo “Elvas”, fomos a Fortificações – Projecto Alentejo [Elvas]. O bizarro é que o visitante pensa estar a subir para o castelo, e espera encontrar a qualquer momento um parque de estacionamento para a partir dai progredir a pé. Mas não. A calçada sobe, sobe e não pára, e nisto estamos ao pé da cache e a estrada segue. Enquanto o Vespas tratava da cache foi tentar desvendar o mistério do caminho sem fim e deparo-me com um cenário inesperado: afinal aquilo era a entrada para a cidadela, e do lado de lá do derradeiro portão, mais cidade se encontra.

Campo Maior. Para mim é desde logo associada ao saudoso Campomaiorense, clube de futebol que durante alguns anos militou na Divisão maior do nosso futebol, e que envergava as côres do meu coração. Entretanto, caiu em desgraça financeira, o Grupo Nabeiro retirou o apoio e foi o seu fim. Hoje foi dia de vir conhecer a localidade, e fiquei encantado. As pessoas com que interagi, simpáticas. As ruas, bonitas. A Coca-Cola que bebemos na esplanada da praça principal, fresquissima. As caches, encontradas.  O calor deve ter tido algo a ver com a desertificação das ruas nesta tarde quente de Sábado. Apenas alguns velhotes se sentavam em frente a suas casas, olhar perdido, talvez flutuando por outros tempos, entre memórias de momentos que não voltam e a espera do dia final, que tarda em chegar. E por ali fomos, progredindo naquelas ruas dominadas pelo branco que pretende reflectir o implacável sol que em Campo Maior parece brilhar de forma mais intensa. Numa praça secundária encontrámos Campo Mayor e junto ao castelo, Castel Cache. Terminado o “trabalho”, já à saída, parámos por uns minutos num Intermarché, para comprar o jantar improvisado que haveria de chegar mais tarde, quando montássemos o acampamento para a noite, em parte ainda por definir.

Na Barragem do Caia o Vespas banhou-se, já ao cair do dia, com o Sol bem baixo, a lamber o horizonte. E pouco depois, “Villa” Lusitano-Romana [Monforte] foi encontrada, como mera formalidade, uma vez que as ruínas se encontravam já encerradas e de fora não se via nada.

Chegada a Portalegre, cidade tristemente marcada por inúmeras caches deixadas ao abandono. Talvez tantas, ou quase, como as que foram encontradas activas. Era já noite cerrada. Apesar do plano prevêr a busca às caches de Portalegre no dia seguinte, era ainda cedo para dormir a sentiamos ainda bastante energia. E vai dai, porque não, vamos fazer mais umas quantas até se fazerem horas da deita. Devo reconhecer que não me agrada a ideia de Geocaching nocturno. Gosto de ver as coisas condignamente, e por vezes abro excepções quando conheço bem os locais, o que nem se podia aplicar a Portalegre. Mas o companheiro de viagem estava decidido e pronto, seja, uma vez não são vezes. A primeira foi o  Miradouro da Serra cuja cache deu bastante trabalho, chegando-se a pensar rubricar um DNF. Mas ao cair do pano, e já com alguns muggles  no local (ao chegarmos tinhamos o miradouro todo por nossa conta), ela acabou por se revelar. De seguida tentámos a sorte com outro miradouro, mas neste não fomos tão felizes (também, lixou-se, que no dia seguinte logo pela manhãzinha, rendeu-se). Ah! Foi o Miradouro de São Cristovão [Portalegre]. Depois saimos da cidade, com mais um par de caches sob mira e já atentos a um eventual cantinho adequado para a deita. Foi assim que chegámos à Senhora da Penha [Portalegre] e depois à One for the Road (119).  Pensámos que a Senhora dos Mártires [Crato] seria a última da noite, mas não tinhamos ainda encontrado o pouso para a noite. E então… olha… vamos ver o topo da Serra de São Mamede, há lá uma cache e a vista deve ser um espectáculo… ideal para passar a noite. E assim foi… percorremos toda a distância de volta a Portalegre, que atravessámos, e iniciámos a subida da serra, guiados pelo fiel TomTom. Tinhamos ainda interrogado uns gaiatos sobre a existência de um McDonalds na cidade – o Vespas queria enfardar e eu poderia fazer bom uso da Wi-FI Sapo – mas nada feito. Hamburgueres, só nos cafés da praça principal, diziam eles. E assim esquecemos essa variante ao plano e fomos mesmo serra acima.

O clima no topo era algo sinistro. Algumas daquelas instalações faziam ruídos – ventiladores, ares condicionados e outros equipamentos – e uma delas parecia mesmo habitada. Na torre do guarda a escuridão era absoluta e não podiamos ter a certeza de não estar a ser observados, mas como não se encontrava nenhum veículo por ali concluimos que não havia turnos nocturnos na guarida de vigia. Depois, foi encontrar a cache… e ai começou uma cena digna de filme de terror. A aqui deixou o meu log oficial contar a história:

Ao colocar a mão para a retirar começo a ouvir um som estranhissimo. Um restolhar vindo do plástico que a envolvia, como se este ganhasse vida e me ameaçasse. E quase assim era, de forma mais literal do que o imaginável. Do seu interior começaram a surgir insectos – daqueles que parecem uns micro-lacraus e a que alguns chamam de bicho-sapateiro. De início não me apercebi da extensão de do problema mas quando fui buscar um pau para tentar “manusear” aquilo, a coisa tornou-se surreal. Do seu interior jorraram – e este é o termo correcto – dezenas de milhares deles. Atrás, encontrava-se uma pelicula com pelo menos um centímetro de profundidade deles, e debaixo, então nem é bom pensar… era um “cobertor” feito de insectos. Parecia um filme de horror!!

Conseguimos sacar o saco, separá-lo do container, que com facilidade limpámos enquanto viamos com alivio que a bicharada não tinha penetrado o interior. Depois foi ir até ao carro para logar e pensar no que tinha sucedido. Impossível repôr a cache no mesmo lugar. Tivemos que a mudar ligeiramente, sem saco de plástico a envolver, cerca de 7 a 10 m.

Estava o dia concluido. Procurámos um local aberto e mais seguro, e encontrámos um estreito caminho que nos conduziu ao ponto ideal. A vista era gloriosa, quase a mesma que no topo, e milhões de estrelas brilhava. Dormir foi simples, depois de uma ceia que soube como um manjar dos deuses.


A escuridão caía já sobre estas paragens quando abandonámos o Algarve. Eu e o companheiro de expedição, VespasFriendsAlgarve. A noite deveria ser passada algures nas imediações da barragem de Alqueva, mas antes de lá chegados, algumas caches deveriam ser encontradas. A viagem fez-se, célere, até à vila da Vidigueira, já Alentejo adentro. Era um serão de festa, como aliás o seria mais à frente. Os ócios das longas noites de Inverno eram agora quebrados, levados ao esquecimento, pelo tépido convite ao sair de casa, esticar as pernas, pôr a conversa em dia com vizinhos e amigos. E quando assim é, quem paga é o Geocacher, que sobre si tem os olhos de toda uma comunidade em trânsito perpétuo. Mas, já diziam os excelsos avós, “quem não deve, não teme”. E é com esse pedaço de ancestral sabedoria que sempre abordo locais pejados de muggles. Estava contudo escrito que nessa noite, nem toda a ousadia do mundo trariam à luz dos candeeiros a Azeite – Alentejo [Vidigueira]. De tudo se fez, ali, durante uns bons vinte minutos. A ausência da caixinha fez soar o tique-taque do relógio, no seu cruel avançar, e logo a equipa de ocasião decidiu cortar a torneira do tempo que se escoava, e partir.

Logo ali á frente, eleva-se a serrania do Mendro, base de emissores de rádio e antenas de telecomunicações, visiveis no breu nocturno apenas pelos pontos vermelhos que os marcam quando nada mais se vislumbra. O receio era algum, porque as paragens eram ermas e o texto assustava. Não se sabia em que condições se iriam encontrar as vias, e quando teria que ser ultrapassado a pé, sob as luzes trémulas das lanternas de mão. Afinal o tracto revelou-se simples, com uma ascensão quase directa até ao ponto mais alto e a viatura parada a escassos metros do ponto zero. As sombras das estruturas levantavam-se, imponentes, ao abrigo de uma escuridão que mais fazia antever do que efectivamente ver. E o desafio Radio Mendro [Vidigueira] foi vencido.

O destino seguinte seria Portel. Local já conhecido de outras visitas geocachianas, mas onde duas novas caches se tinham entretanto erguido. De novo, alguma apreensão. Os logs falavam de perigo e dificuldades imensas. Mas, tal como no ponto anterior, nada de especial se opôs aos dois cavaleiros da Ordem de São Gps. Em Castelo de Portel II as ameaças adivinhadas pela leitura das experiências anteriores foram identificadas, mas não entedidas. Porque após deixar o carro num parque de estacionamento das imediações, para o qual o TomTom nos conduziu com eficácia suiça, nos esgueirámos com ares clandestinos pelas ruelas de acesso ao castelo até chegar ao ponto zero. Ali, encontrar a cache foi questão de segundos. Sem sentir qualquer perigo nem dificuldade. De dia, talvez o problema residisse nos passeantes e habitantes locais, que ficariam inevitavelmente intrigados por tão inusitadas movimentações. Mas de noite, logrando passar despercebidos e gozando do deserto das imediações, sentimos que raramente uma cache foi encontrada em malha urbana de forma tão simples. A segunda paragem nesta localidade ocorreu já à saida, onde se encontra a Ermida de S. Brás [Portel]. Só não foi feita à melhor tradição drive-in porque não acreditámos. Quanto ao episódio, não pode ser narrado sob o risco de denunciar a natureza da cache. Hilariante. Apenas isso.

Já a meia-noite se aproximava, e a verdade é que após o mau agouro de um DNF inicial, as coisas até tinham corrido notoriamente bem. Estavam para vir duas caches (Memorial Alqueva [Moura] e Mira Lagos [Alqueva]) que, também elas, levantavam alguns receios, porque estavam pejadas de DNF’s recentes. Contudo, a boa fortuna estava conosco para ficar. Ambas foram encontradas em questão de segundos. Não pude deixar de pensar… como é possível que um Geocacher não encontre umas caches tão simples, sob todas as perspectivas? Coordenadas bem apuradas, hint reveladora e… contentor no devido lugar.

Para terminar, deixámos O Matilheiro [Alqueva]. E porquê? Porque os logs louvavam a beleza do ponto final, e também nós demandávamos um derradeiro local para a noite, um abrigo seguro e ao mesmo tempo belo para nos acomodarmos e esperarmos pelo dia seguinte. Não nos arrependemos. Depois de visitado o local inicial, perto do qual mais uma festa local entretinha a comunidade, apurámos as coordenadas finais e para lá fomos. A vista era interessante mas algo aquém do esperado. A cache foi encontrada sem delongas, e, estando num ermo caminho de  terra batida cujos horizontes deixavam antever as águas da barragem, decidimos explorar um pouco mais. E que boa idea foi! Ao fim de umas centenas de metros alcançamos um amplo terreiro com plena vista sobre a albufeira do Alqueva. O espaço ideal para passar a noite. O companheiro de viagem acomodou-se na caixa da carrinha, e eu fiz “a cama” a céu aberto. O sono, esse, demorou a chegar. Os carros que passavam na estrada distante faziam um ruido perturbador, que tão forte era, na noite serena. Depois, os cães de uma qualquer quinta, e pelo som eram muitos, pelejavam sem parar, com ladrar irado e feroz. Ao fim de algum tempo o vento fez a sua aparição, criando sombras e barulhos assustadores. Finalmente, vergado pelo cansaço de um serão intenso, pude gozar de um sono ligeiro, interrompido a tempos pelos sons que despertavam uma mente deixada em alerta natural.


Os tons melífluos da música de Diana Krall embalam-me, enquanto escrevo estas linhas, e, com um vislumbre, confirmo sobre o parapeito da janela à minha frente que a chuva continua a cair. A luz amarelada de um candeeiro de mesa tinge o tampo de trabalho com uma tonalidade em perfeita conformidade com o ambiente. Do meu lado esquerdo um pequeno aquecedor eléctrico esforça-se por combater o frio que se entranha por cada ranhura, por cada superfície do apartamento. Não, decididamente o tempo não está para brincadeiras. Hoje não é dia para cachar. E o leitor não imaginará o significado que esta simples conclusão encerra. Não se limita a estabelecer uma relação de causa-efeito entre as condições metereológicas e a impossibilidade de se sair lá para fora com um GPS na mão. É de facto uma conclusão. É um ciclo de setenta e um dias que termina. Quase dois meses e meio. E, durante esse período de tempo, todos os dias, sem excepção, o Papacaches – não o impostor, mas sim este que vos escreve – saiu lá para fora e foi-se a elas.

Setenta e um dias. Cinco países. Duzentas e quarenta e oito caches. Tudo começou em finais de Setembro. Depois de algumas interrupções, que serviram, por assim dizer, de exercícios de aquecimento, foi no dia 28 desse mês que se iniciou o ciclo que duraria até hoje. Primeiro dia em terras da República Checa, que aproveito para visitar um museu que se encontra aberto ao público apenas durante o Verão. É uma oportunidade única, pois na chamada época alta não posso estar afastado de Portugal. A “jóia da coroa” do Museu Técnico do Exército é o chamado “tanque cor-de-rosa”. A história conta-se em poucas palavras: com a aproximação do fim dos dias do regime comunista, em finais da década de 80 do século passado, um artista emergente, ainda estudante, decide juntar um grupo de amigos e pintar de cor-de-rosa um tanque de guerra que se encontrava exposto numa praça da cidade de Praga, em homenagem aos militares soviéticos que  “libertaram” a capital do país, em 1945.  O artista dava pelo nome de David Cerny -  hoje um nome bem conhecido – e a acção foi conduzida pela calada da noite. No dia seguinte, as autoridades, chocadas com a afronta, devolveram as cores devidas à velha máquina de guerra. Mas a malta das Belas-Artes não se ficou, e alguns dias volvidos, pimba, ai está o cor-de-rosa de novo. Por fim o Estado cedeu, e no local do tanque (que se encontra actualmente exposto no Museu) foi erigida uma fonte. A cache do tanque cor-de-rosa: Ruzovy Tank.

A gestão das caches durante estes setenta e um dias foi feita de forma cuidadosa. Com base em Praga, mantive as caches mais próximas de casa para dias em que pudesse estar fisicamente diminuido. Não me podia esquecer que nas duas séries que tentei anteriormente foi a gripe que me fez desistir da brincadeira. Desta vez a bicharada não atacou, e passei os dois meses de Praga em boas condições físicas. Mas outros elementos me suscitavam alguma prudência, mantendo sempre esta reserva em locais de excelente acessibilidade: podia chegar um nevão, ou dias com temperaturas bastante abaixo de zero. Ou, simplesmente, aquelas alturas em que não apetece sair de casa.

Nos dias solarengos parti para as orlas da grande cidade, para os bosques que envolvem Praga. Nessas alturas dei-me ao luxo de “consumir” mais do que uma cache. Três, quatro… cinco, por vezes. Sem abusar, para não esgotar os recursos. Porque apesar de se encontrarem cerca de mil caches num raio de sete quilómetros do centro da cidade, um bom número delas não me está acessível (algumas, por serem mistérios que não estão ao meu alcance; outras, por se tratarem de multi-caches com versão apenas em checo)… e de qualquer modo, há três anos que “caço” nesta coutada, e a zona já não está de todo virgem.

Mas não foi apenas Portugal e Rep. Checa que me viram encontrar caches neste ciclo infernal. Os dias passados em Cracóvia, na Polónia, não foram especialmente produtivos (o tempo não ajudou e o jogo tem fraca presença nesse país), mas o ritmo manteve-se. Na Suécia as coisas correram bastante bem. Uma semana em Nikoping e Estocolmo revelou um Geocaching de excelente nível, muito bem implantado, e quase sempre com consideração pelo viajante que não domina a língua local. Por fim, de regresso a Portugal, houve tempo para alcançar duas caches nas imediações do aeroporto de East Midlands, no Reino Unido.

As memórias destes dois meses e meio são extensas, e está fora de questão apresentá-las num espaço de comunicação com estas características. O resumo está feito, resta realçar mais uns quantos fragmentos desta enorme tela. Certo dia, as actividades sociais foram tão intensas que já a noite tinha caido e nenhuma cache se encontrava ainda capturada. Isso não seria um grande problema, numa cidade repleta de contentores adequados para cachadas nocturnas se…. não estivesse já com uma grande bebedeira. Quiseram os deuses que um ténue fiozinho de lucidez me iluminasse com a memória de uma micro-cache mesmo ali a duzentos metros do pub. E quando chegou à hora de sair, ali vou eu, com passo quase certo mas mente muito turva, direito à esquina por onde pressentia o cheiro a cache. A coisa podia ter corrido muito mal, e o ciclo teria terminado ali. Mas há destes dias em que a sorte nos bafeja, e no primeiro sítio onde jogo a mão, sinto de imediato o doce contacto do plástico. Adversidade ultrapassada! A cache alcóolica:  Prazske legendy – O Lokytkovi.

Noutra ocasião, deixo o tempo correr, e quando dou por mim, são quase meia-noite, já estou um bocado “alegre” e não existem caches na zona. Mas o que tem de ser, tem de ser, e não obstante o frio que se fazia sentir, lá vou eu, a pé, para um percurso de cerca de três quilómetros, cidade dentro, direito à cache mais próxima, que por sinal já tinha resultado num DNF no ano passado. De novo a sorte acompanhou-me, porque a meio caminho “encontrei” um eléctrico nocturno que me encurtou a marcha, e, chegado ao local, a danadinha revelou-se com relativa facilidade. 

E pronto… para não me estender, está contada esta história. De como passei setenta e um dias consecutivos a encontrar caches. Porque adoro ver os números subir e superar os meus próprios limites. Um pouco de tudo é saudável. Já dizia o nutricionista, e eu, tomo a liberdade de extender o princípio ao Geocaching.


Praga, Primeiro de Outubro de Dois Mil e Oito. Saio para a ronda diária. Estou decidido a bater o recorde pessoal de dias consecutivos a encontrar caches, que se cifra actualmente em vinte e seis. Mas isso é um assunto que agora não interessa para nada. O que importa é a multidão! Pois é, uma pessoa já não pode andar às caches sossegadas, mesmo que não tenha combinado nenhuma caçada conjunta. Chego à primeira mesmo a tempo de ver um grupo de pessoas esconder o contentor. Mesmo ali debaixo dos meus bigodes. Nem se deram ao trabalho de olhar em redor. Ah pois é bébé, é assim que elas se vão, é quando não se tem o mínimo de cuidado com os muggles. Mas vá, sigamos, que isto estamos aqui hoje é para falar na multidão.

Chego à segunda do plano, a uns quatrocentos acidentados metros de distância. E é ai que esta alma fica parva. No meio do nada, quer dizer, de bosques e mais bosques sem nada de especial ou de interesse para as gentes humanas, está ali um cacho de pessoas, sem mais nem menos. Dois de bicicleta, dois a fazerem que namoram e um encavalitado numa árvore. Tudo às caches. Palavra de honra. Felizmente que tinha as coordenadas desactualizadas. Fui-me dali, curioso com tanta actividade. E quando me apercebi do erro, já só lá estavam os que faziam que namoravam, e que mesmo assim continuavam com o teatro. Tenho para mim que tinham o contentor nas mãos. Porque quando se afastaram fui encontrá-lo justamente onde se tinham instalado.

Bem, sigo para a terceira, trabalhosa, até porque ando manco e tive muito que trepar colina acima. Já quase de noite encontro-a, log feito, venho para baixo e que vejo eu. Outra vez os pinga-amor, desta feita para cima, quando já vou eu na rota descendente. Bem feita que cheguei primeiro, agora só tenho pena de não poder ter a desforra completa e fazê-los sofrer da forma como me fizeram a mim.

E dou o dia por completo. O que não sabia é que ia estar na caminha, bem quentinho, já perto da meia-noite, quando recebo um mail: nova cache em Praga. Onde? Ooops… a 400 metros de casa. Levanto-me e vou tentar o FTF ou não? Sim ou não? Sim. E quando decido está decidido. Foi sair a correr, quase com as calças na mão. A sorte bafeja-me: um eléctrico passa-me em frente quando me aproximo da paragem, de forma que 200 dos 400 são feitos a grande velocidade. O local conheço, claro, somos vizinhos. Assim que me aproximo ouço logo um Dobry Den, que é como quem diz, “boa noite”. Raios. Tenho já concorrência. Acaba por ser ele a encontrar a caixinha num local onde eu já tinha passado a mão, e depois de encetada a conversa, em bom inglês, concordamos em partilhar o apetecido FTF. Mas… qual FTF qual carapuça. Já lá estão… CINCO nomes. E esta hein? Em 15 minutos de vida, ou lá o que foi, a dona cache já levava 7 founds. É obra. Digo mesmo mais… é uma multidão que sufoca, esta comunidade de geocachers de Praga.