Operação Verde Minho – Dia 0
Antes de mais, note-se que passei a adoptar uma designação diferente para estas expedições de Geocaching. Os Tours já eram. Um bocado larilas. O meu passado militar falou mais forte. Doravante, serão “operações”. E mai nada. Esta, é uma grande misturada. É que tive que vir a Lisboa pedir uns papéis, e como eram precisos dois dias úteis para mos aviarem, e já que tava aqui, olha, decidi ir até ao Minho, que é mesmo aqui ao lado, pois então. Mas isso será viagem para Domingo. Portanto, hoje, aquecimento. Amanhã, arranque… e a seguir logo se verá.
Depois de tratar das burocracias, fui até à zona da Expo procurar Vasco da Gama [Lisboa]. Coisa fácil, em conformidade com a classificação mínima atribuida pelo owner. É daquelas caches que terá o seu interesse para o viajante, mas a rapaziada da zona fará por fazer. Na cidade de Lisboa, apenas um par de caches me surpreendeu, e esta, naturalmente, não foi uma delas.
Encontrado o container, assinado o log sobre uma relva quase ortopédica, foi a cache devolvida ao seu local devido, e parti para uma saladinha ali à frente, no Vasco da Gama. Um interlúdio justo num dia quente, antes da marcha “forçada” até Santo Eugenio [Olivais]. Pelo caminho passei em locais que me tocaram subtilmente no passado. Mas mais do que isso, senti a presença dos fantasmas de outros. Os Olivais tiveram o seu tempo. Foi, por coincidência, o meu. Mas espacialmente deslocado. Mesmo assim, cruzei-me pontualmente com esta realidade paralela. De forma que hoje, andando por aquelas ruas, consegui imaginar… quantas emoções vividas ali. Já vejo naquele pequeno jardim, a paixão declarada, a felicidade da correspondência, a juventude e os sonhos escondidos. Quantos corações bateram por ali, quanta naifada, cabeçada e sangue derramado. Quantas noitadas que acabaram acolá, escadas subidas aos tombos, vómito derramado, amargo, de cerveja. Esperanças perdidas, tontarias arrasadoras. Tanta vida, tanta energia, tantos passados, memórias de outros que sinto como minhas. E hoje, ao passar, são prédios velhos, com idosos e outros, todos de ar triste.
Agora passo à piscina dos Olivais. Foi ali que aprendi a apanhar e dar, semear negrume nos olhos, saborear o sangue na boca, em duros serões, treinos sérios de full-contact. Uns anos depois voltei ao local, para encontrar a Angelina sueca, afinal portuguesa de gema, uma presença feminina que ficou na lembrança, ainda hoje capaz de despertar um sorriso. E de repente, estou ali, no bairro da Encarnação. E para contar o papel do local no meu passado, é preciso recuar à grande festa de fim de ano, o último do liceu. Tudo organizado para se celebrar na Alfama do S. João, dia que ironicamente se comemorou ontem mesmo. A turma, ou melhor, a metade da “pesada”, seguiu em peso. Por ali se bailou e bebeu, riu e beijou, escadinhas acima e abaixo, experimentando os néctares de mil capelinhas. E então, ela apareceu: Paleta. Nem sei de onde veio, quem a trouxe. Mas o que não esquecerei é que quando o dia acordou, estávamos ainda juntos, sentados, no Rossio, à espera do primeiro autocarro. Uns dias depois, o primeiro encontro…. e onde… ? Na Encarnação. Foi uma noite “selvagem”. Naquele mesmo jardim onde hoje andei a contar bancos, reunimo-nos. Eu, a Paleta e o seu gang. Amigos, muito amigos, um grupo com ligações fortes. E por ali andámos, roubámos fruta, fugimos em apressada correria. Partilhámos passados, tão curtos mas tão ricos, naquela idade. Depois desse serão, não tornei a vê-la. Nem sei porquê. Mas dedico a descoberta dessa cache à recordação da doce Paleta.
Voltando à realidade. Não seria eu se não tivesse metido água nas contas. Os elementos até estavam certos, mas a matemática foi madrasta. À segunda verificação o local já fazia mais sentido, e lá estava o container, encontrado sem qualquer compasso de espera. Reformados, aquela hora, apenas algumas presenças em deslocação. Abençoei a minha decisão estratégica, tomada após a leitura atenta dos anteriores logs: pelas 20:30 o dia estava ainda em pleno, mas as pessoas já tinham partido. Apenas um grupo de jovens que se entretinham com um qualquer jogo me preocuparam, mas depois de obter a coordenada correcta, ficou claro que estaria fora do seu campo de visão. Uma cache bem formulada, escondida de forma sensata. A eventual existência de muggles é um risco com o qual o geocacher tem que conviver.
Filed under: Uncategorized | 2 Comments
Procurar
-
Encontra-se de momento a explorar os arquivos Aventuras e desventuras de um geocacher português do weblog
Gostei do primeiro paragrafo… com que então “operações”… eheheheheh.
Aguardo pacientemente para ler as restantes partes desta operação.
“daquelas caches que terá o seu interesse para o viajante, mas a rapaziada da zona fará por fazer”.
Aí está uma coisa que eu não faço; fazer por fazer. Desde que, hà cerca de dois anos, me apercebi de que as caches apareciam a um ritmo superior à minha capacidade de as visitar, comecei a procurar apenas as que me interessam; ou é pelo local que não conheço ou é por algum detalhe que me interessou, dando sempre prioridade às caches …como dizer… rurais? não citadinas? fora dos aglomerados habitacionais? …bem, “no meio do mato”.
“fazer por fazer” soa-me a obrigação e, sinceramente, prefiro dedicar esses minutos a outros hobbies ou a fare niente. Roncar.
Roubar fruta das mercearias? Epah, isso era o meu hobby dos 10, 12 anos! Podia ter fruta em casa mas aquela que ganhava numa ‘operação’ de corre-apanha-corre-e come sabia melhor!