Algarve – Uma Semana de Julho
O calor aperta, o Geocaching é temporariamente excluido. Entramos naquela altura do ano a que muitos chamam de “bom tempo” e que para mim é o “nunca mais acaba”. São dias horríveis, incomodativos, com temperaturas que retiram toda a vontade de viver. Um passo é um sacríficio. Trabalho corporal é impensável. Logo, sair por ai à procura de tesourinhos perdidos a mais de 20 metros de um carro com ar condicionado, torna-se complicado. Mas há excepções. Se a coisa estiver aqui à mão de semear, pode-se arranjar a coragem necessária para enfrentar a baforada de ar quente que nos agride assim que pomos um pé fora de casa.
Esta semana tive aqui por casa couchsurfers (www.couchsurfing.com); primeiro, um casalinho, constituido por uma islandesa e um inglês; vinham em trânsito, da pequena cidade espanhola onde têm vivido para a Islândia. Depois, um alemão que anda a palmilhar essa Europa à boleia. Por fim, um francês que se veio juntar involuntariamente ao alemão. Como quase sempre sucede, com todos eles fiz geocaching, deixando a semente do papacaches em todos eles. É sempre o mesmo: dá-se uma simples demonstração, é logo perguntar quanto custam os GPSzinhos mais baratos. Alguns, acabam por se tornar mesmo practicantes, registados e activos. Outros nem por isso. Mas já uma mão cheia deles foram recrutados.
Desta feita, com os primeiros, não tive oportunidade de efectivamente procurar caches. Levei-os a algumas aqui muito perto que costumam servir de cobaias para estas coisas, e pronto. Já os segundos, embarcaram conosco numa micro-expedição. De Vilamoura, direitinhos a Espanha, onde a um só tempo fui “buscar” um FTF e adicionar o país vizinho ao meu mapa de “founds”. Parador of Ayamonte foi o destino inicial. As vistas e ambientes não foram na generalidade uma novidade. Mas o ponto onde a cache foi inserida é genial. A perspectiva visual é global, das melhores que se poderiam obter, e o container está colocado de uma forma excelente, garantindo-lhe uma elevada segurança num ponto onde tanta gente vai. É obra! Eu, que não sou rapaz de me dar com espanhóis, não conhecia naturalmente o local. Mas a minha companhia, experiente nestas coisas de cruzar fronteira, também nunca tinha ali ido. É o costume. O Geocaching proporcionou o conhecimento de um belo local que de outra forma permaneceria na penumbra.

Já em Portugal, fomos ao segundo FTF do dia, em Santa Rita [Tavira]. Trata-se de uma multi-cache simples, de resolução fácil e esforço físico reduzido, mesmo num dia quente de verão. O que é bom. Todas as medidas foram tomadas pelo criador deste desafio para que ninguém saia daquelas paragens de mãos a abanar, ou seja, sem encontrar a dita cache. O que é igualmente bom. Multi-cache clara, sem margem para dúvidas, com duas soluções alternativas, e uma dica clara. A sua descoberta ficou a cargo das minhas visitas. Dei-lhes o GPS para as mãos e deixei-os gozar por inteiro a maravilhosa sensação do achado. E que apreciado foi !

Hoje, Quarta-feira, com o meu feudo já por minha inteira conta, foi tempo de recuperar forças, descontrair, usufruir de uma intimidade perdida nos recentes dias. Ao fim da tarde o tédio já se tinha tornado insuportável. E, entre a indecisão de me deixar cair nos braços da inércia e me manter por aqui a desempenhar as inutilidades costumeiras, e a possibilidade de aderir à ideia de procurar a cache Seaside Paradise, a balança acabou de pender para a segunda possibilidade.
Já pouco faltava para o pôr-de-sol quando sai de casa. o que não seria um problema dada a curta distância até às coordenadas da cache. Por esta hora a temperatura já é um pouco mais suave. Fui de moto 4, devagar, apreciando o fresco sopro do vento. Complicado foi encontrar um acesso à cache. Passo para cima, passo para baixo. Nada. Por todo o lado há “Propriedade Privada”, “Acesso Restricto”. É o símbolo do Algarve que não suporto. Ou o que suporto ainda pior que o resto. Por fim, desisto, e vou até à praia. Felizmente a maré está baixa e aventuro-me pelo areal. Se estivesse cheia, este teria sido um Not Found. Encontro um bom acesso e trepo um pouco. Acabo por encontrar o container no pior local possível: aquele pedaço que qualquer pessoa que passe na praia consegue ver. Não gosto mesmo nada de caches que não têm uma dica que facilite as coisas. Hoje, tive sorte. Encontrei rapidamente, mas poderia não ter corrido tão bem, porque no raio aceitável de desvio havia milhentas possibilidades.
Na volta, enquanto caminhava pela praia, apreciei os aromas de verão, que me levaram até tempos em que suportava melhor o calor. Olhei o astro-rei. Tinha pensado em gozar o pôr-do-sol sobre o mar. Tolinho. Nesta terra do Sul não há cá nada disso, que o poente é a este e para esse lado só há terra. Voltei já a noite caia. Foi um finalzinho de tarde agradável, a fechar uma das raras semanas de geocaching local.
Um muito longo P.S. – Pensava eu que a semana ficava por aqui. Isso era se não andasse por ai um Prodrive a desafiar. Pronto, foi assim…. desafiei-o eu, afinal. Encontrámo-nos no cafezinho (caraças de bordel aquele, com aspecto de santa tasca de província, um gajo pede descuidadamente uma sandes mista – péssima – acompanhada de dois Ice Teas e uma água… dá cá quase €7. Apre!!!) no sopé da Rocha da Pena. Quer dizer. Na realidade já à saida de Salir, passe a fonética redundância, tinha o chato atrás de mim no seu Audi. E portanto, dizia eu, lá estivémos um bocado à conversa no café com ares de esplanada na marina de Vilamoura, até que decidimos ir à cata de Rocha Rock. Uma microcache no meio do campo? Cheira desde logo a esturro. Depois, o fumo adensa-se quando se verifica que se encontra a apenas 260 m de uma outra cache, já existente, e que não traz absolutamente nada de novo. Como cereja em cima do bolo, foi criada por um viajante, que deverá ter alegado que a prima ou o amigo vive mesmo ali ao lado e fará a manutenção. Um presseposto “legal” cujos resultados, como se tem visto na práctica são nulos. O Prodrive e o Jr arrancaram a pé uns segundos antes. Segui-os na Moto 4 com um amigo do Jr. à pendura. Quando cheguei a eles já tinham o cilindro na mão. Pelo menos não nos fez perder tempo.
Mais uma sessão de conversata, e o espectro do rolo da massa pairava sobre a nuca do Prodrive, que, mesmo assim, com tão séria ameaça, aceitou ainda o desafio de nos irmos à que prometia ser o prato principal deste finalzinho de tarde agradável: Cerro dos Negros. Onde ele ficava sabia eu. É o enorme monte que parece velar Salir, vítima de um sinistro incêndio no ido ano de 2003, que o despiu, tornando-o numa sombra da colina verde que era. Já chegar lá seria outra fruta. O batedor, elemento provido da viatura de todo o terreno, ou seja, eu, aventurou-se em todos os trilhos que aparentavam orientar-se na direcção correcta, concordantes com o ponteirinho do GPS. Tentou-se o primeiro… após algumas centenas de metros, afastava-se, serpenteando para os lados da localidade; o segundo revelou-se logo uma falsa aposta… logo ali estreitava, de tal forma que tive que o descer às arrecuas, uma manobra sempre complicada e arriscada, sobretudo com ângulos deste tipo. O terceiro, por fim, revelou-se o correcto. Cheguei ao topo! Fabuloso! Voltei abaixo, para levar as boas-novas aos outros. O Prodrive ainda tentou subir a primeira rampa, para poupar alguma trabalheira ao grupo. Mas foi complicado e ali ficou o carro, quase no topo, mas sem poder mexer-se sem mais um metro. Apiedei-me então deles, e a Bombardier transformou-se na “carrêra” das 8. Vai para cima? Faça favor de se acomodar. O primeiro cliente foi o Prodrive, com os seus 85 kg, que juntos aos meus, se constituiam já como um bom desafio ao motor de 400 cc. Mas a coisa correu bem. Deixei o passageiro lá em cima, vi, abaixo buscar os outros dois, a uma assentada. De novo para cima. Claro, o lobo já se tinha ido ao cordeiro, que jazia esventrado a um canto. Ficámos por ali ainda um bocado a apreciar o sol que se punha por trás das serranias. Para baixo, que é sempre muito mais complicado, levei apenas um dos ligeirinhos. Os outros foram a pé, até porque para o peão se aplica o princípio inverso: a descer todos os santos ajudam.


Filed under: Jornada Nacional | 2 Comments
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Obrigado Ricardo pela excelente caçada conjunta. Memorável!!
Obrigado pela visita ao meu cache. Espero que tenha apreciado a vista e já a gora a dificuldade da subida também.
Bons caches
Daraopedal