Operação Verde Minho – Dia 1
O dia começou por volta das 9:00. Primeira paragem: No Paço do Terreiro [Lisboa]. Trata-se de mais uma cache numa zona da cidade já ricamente povoada, mas nem por isso está a mais. Quem não quer lidar com transportes públicos fará bem em ir até lá num dia de fim-de-semana logo pela manhã. Estacionar sem espinhas é luxo raro na baixa lisboeta, mas foi o que sucedeu nesta solarenga manhã. Breve caminhada até à bemposta praça e, depois de um olhar em redor para perceber em que direcção o GPS apontava, mais uns quantos passos. A cerca de trinta metros tinha o olhar fixo no container. Os muggles em redor, como é suposto suceder em tais circunstâncias, não se interessaram pelos movimentos desta figurinha. Tenho lido nos logs desta cache sobre as dificuldades colocadas pela presença de pessoas. Ali, não reconheço que este factor seja um problema. É a grande cidade, selva urbana, no seu esplendor, expoente máximo de um urbanismo cruel, que rouba identidades. Aqui, as pessoas são transparentes. Ninguém se interessa se um maluco qualquer fizer algo estranho. E até não é assim tão bizarro, o que esta cache exige. Portanto, atalhando conversa, esta não foi a cache mais rápida que já fiz, porque num outro caso detectei o container com a mesma celeridade… só que ia em passo de corrida. Gostei desta criação do Team Hulkman, que revela uma maturidade na criação de caches urbanas e honra um dos pontos nobres da nossa cidade com um tesourinho.

Seguimos a linha ribeirinha, ao encontro do desafio seguinte. Quando era pequeninito, costumava passar férias no Guincho. Daquelas férias que, com o sentido de tempo único que as crianças têm, pareciam durar um ano. O caminho fazia-se pela Marginal, e os meus olhos, ansiosos de informação, observavam aqueles fortes. Eram uma mão cheia deles, e registava-os a todos na memória, escutando as conversas dos adultos, que falavam de uma tal prisão de Caxias, e, durante muitos anos, acreditei que esta se encontrava estabelecida numa das edificações pintadas de amarelo ocre que se debruçavam sobre as arribas. Foi portanto com interesse que me aproximei desta cachada, apesar de logo me ter apercebido que este não se encontrava entre o rol de fortes que me intrigava e que marcou um canto da minha memória da Marginal. Parqueada a viatura, não foi complicado chegar até à área a bater. Procura para cima, procura para baixo. E aparece um muggle no topo da arriba. Coisa estranha, dada a natureza do local e a hora matinal. Pára a pesquisa, trepo, porque deixei a mochila com bens preciosos lá em cima. Quando chego, não o vejo. Puxo a bagagem mais para baixo e reata-se a procura. Passado um pouco, ali está ele outra vez, espreitando. Rapaz novo, de boné preto e óculos escuros. Todo muito “tunning”. Mas desaparece uma segunda vez, e de bom augúrio foi, porque logo após a danadinha foi encontrada. Uma boa cache, estrategicamente localizada, oferecendo um desafio razoável e mostrando um bocadinho interessante de Portugal. Ah! O link: Fontainhas “micro” Beach [Oeiras].



A cidade de Oeiras fica mesmo ali ao lado, e foi o nosso destino seguinte. Cascata dos Poetas [Oeiras] foi uma bela surpresa. Arriscámos muito, deixámos o TomTom decidir o percurso para chegar à cache. Em determinado momento não quisemos abusar da sorte e, estando a uns meros duzentos metros do ponto de parqueamento recomendado, encostámos. O recinto, já o estávamos a ver. Encontrar a entrada é que poderia ser um desafio, que afinal veio a ser solucionado com rara facilidade, por um muggle com o falar arrastado e os olhos inflamados a insinuar um estatuto de ganzado profissional. Fumasse lá o que fumasse, deu as indicações correctas, e logo nos vimos da parte de dentro. Ali, montava-se um espectáculo. Rapaziada técnica andava em azáfama, extendendo cabos, testando equipamento de som. Ficámos a saber à saída que uma das figuras maiores da música portuguesa contemporânea, Teresa Salgueiro, actuaria no local mais ao serão. Mas para já concentremo-nos na cache. Que gostei bastante, pela surpresa do local. Que bizarro, que inesperado. Belo jardim, cenário perfeito de filmes de outros tempos. Muito fotogénico. Uma pena que pela natureza da cachada estivesse limitado à câmara de bolso. O container apareceu rapidamente, mercê de uma dica sensata, que não deixa margem para dúvidas. Bem colocada, deixando o geocacher ao abrigo da mugglaria comum, mesmo em dias de muito movimento.
As duas caches seguintes foram colocadas pelo mesmo dono. Ou donos, que isto de ser team implica um estatuto plural. Não há nada a fazer, não sou compatível com o estilo de esconder dos Golden Team. Por mais voltas que dê à cabeça, não imagino o que leva um owner a colocar caches em locais movimentados (eu disse movimentados? Não… movimentadissimos!) sem um local evidente e, pior ainda, sem uma dica. Será o gosto por ver desaparecer as suas caches? Porque na realidade, incentivar uns malucos a executar as suas momices à vista de todos, é o mesmo que dizer que se pretende que todos se sintam curiosos pelo local, pelas actividades estranhas, e, em última instância, por aquela caixinha que o senhor estranho foi buscar às escondidas. Ora quer GT Oeiras Park e GT Carcavelos Beach estão mesmo a pedi-las. São expostas, com audiência garantida, especialmente no segundo caso. E, não sendo propriamente simples, têm garantidos longos minutos de actividades suspeitas por cada “found”. Em média, claro. A segunda, até já a tinha procurado há uns tempos. Caiu à segunda. Mas apenas porque hoje levava uma dica. Aquela dica que deveria ser dada desde logo e não o é.
Fizemos depois um pequeno desvio, até à Vila Romana de Freiria [São Domingos de Rana]. O carro foi muito maltratado, coitadinho, no acesso ao local da cache. Não deve ter gostado, e nós também não. Vista nas fotografias a Vila Romana parece ser interessante. Mas como no local não há vistas, fica a cache, que per se não tem interesse em absoluto. Há contudo que tirar o chapéu à mestria do esconderijo, que a oculta de olhares indesejáveis sem complicar em demasia a vida ao geocacher… apesar de alguns testemunhos em sentido contrário.
M.A.N. – Movimento Anti Nós [Estoril] é uma cache obviamente diferente, pela criatividade colocada na sua apresentação. Neste ponto, aconselho todos os que não tiveram oportunidade de o ver, de clickar ali no linkzinho e a dar uma vista de olhos, porque vale a pena. Chegar até à zona da cache a partir da anterior foi uma brincadeira de crianças graças à ajuda inestimável da Catarina. Perdidos por mil e uma ruas, não sei quantos cruzamentos depois, uma série infindável de semáforos após chegámos a um ponto que talvez fosse o de estacionamento, ou não. Mas dada a curta distância à cache, foi ali que o carrito ficou. Subimos uma rampa e demos conosco no meio de um green de golf. Um par de homens de taco na mão olham-nos com desconfiança. Divididos entre a vontade de atalhar pelo percurso mais evidente, bem pelo meio da relva do campo, e o receio de sermos brindados com umas valentes bordoadas daqueles resplandecentes tacos, optámos pela via mais radical: desafiando a falta de hospitalidade dos golfistas lá fomos, para logo depois sairmos da área “proibida” e entrar pela mata. Chegar à cache foi mais simples do que se poderia pensar e encontrar o container foi “caldo de galinha”. A volta foi apenas um pouco facilitada pelo reconhecimento do terreno proporcionado à ida, e ainda deu para ver um lagartão que mais parecia uma iguana e nos cruzarmos com uma enorme família britânica que ia ao golf.

Estando no Estoril, o objectivo seguinte era a trilogia Oliveira, ali para as falésias do cabo da Roca. Via Malveira da Serra foi um instantinho. E com duas pessoas a navegação torna-se mais simples. Enquanto um conduz, o outro vai ajustando o Google Earth no laptop, e não há acesso adequado que escape. A cache do Roger [Orion's Belt] foi a primeira a cair, e local previamente eleito para o piquenique almoçadeiro. Ainda é um saltinho entre o ponto em que o mortal dos cidadãos deixará o cachemobile e a cache. A linha recta engana um bocado, porque o zigzag para baixo está lá. E lá iamos nós, trilho abaixo. quando o meu companheiro de expedição exprime uma loucura premonitória: “- o que calhava bem agora era um Geocacher de cachemobile TT que passasse ai e nos desse boleia”. Ora não tinha ainda passado dois minutos antes desta previsão alucinada, quando ouvimos o barulho inconfundível de um rodado a resvalar no leito pedregoso do caminho. Afinal não eram geocachers, nem nos deram boleia (também, não pedimos). E ainda bem! Porque o surrealismo personificado em condutor passou por nós a assoprar. Num caminho onde rolar a 10 km/h seria exagerado, passa por nós uma pickup largada bem a 30 km/h, a tempos quase desgarrada pela falésia abaixo, por momentos com duas rodas no ar, a saltar, a bater nos socalcos. Uma visão incrível, única, e com aspecto de se repetir todos os dias. Acabámos por chegar, ainda mal acreditando que o veículo tinha logrado terminar o percurso em segurança. O ponto final é um assombro, com mais uma daquelas vistas para as águas cristalinas, com rochas a fazer lembrar o postalito de Lagos, e com dois brindes: a ruína que se encontra mesmo antes da cache e, lá mais abaixo, as cabanas dos pescadores, activas e bem activas, onde ao espreitar notámos uma pequena reunião para ai com uns oito homens. Na água, bem perto das falésias, evoluia uma minúscula embarcação, na faina que se crê ser de todos os dias. Ali ficámos sentados, a disfrutar das sandes mirabulantes que a minha companhia havia preparado, já com a bem dissimulada cache ali no chão, à beira, aguardando pelo fim de refeição para receber as merecidas atenção. Logbook assinado, container devolvido ao abrigo, e agora é que são elas, que subir não é o mesmo que descer. Iamos a meio do momento mais extenuante da jornada quando começamos a ouvir: “nhic, nhic, nhic”. E pronto. Já não bastava a pickup enlouquecida, agora era uma moto 4 de trabalho que vinha por ali abaixo, numa velocidade bem mais moderada, apesar de ter outras capacidades bem mais adequadas para a função. Extremamente movimentada, a “estrada”, hoje!

A ideia era passar para a cache seguinte da trilogia família Oliveira, mas a consulta ao Google Earth não foi célere e acabámos por parar inadvertidamente nas proximidades da que seria a última, segunda a ordem natural da geografia: Mother’s cache [Milky Way]. Esta dilui-se um pouco nas semelhanças com Duarte’s cache [Alpha Centauri]. As vistas são basicamente as mesmas, o terreno é semelhante. Enfim, valem pela passeata. A segunda, mais complicadota de encontrar o container. Mas mais por azar: de todos os locais possíveis das redondezas, aquele em que a caixinha se abrigava deve ter sido o último a ser visitado.

Ainda naquela zona, procurámos Ursa [Sintra]. Aquilo que seria uma caminhada ainda considerável atalhou-se para uma quarta parte da distância graças à teimosia do meu companheiro de caçada, dono de um pobre cachemobile. Enterrou-nos lá por uns caminhos, contra todos os conselhos do grilo falante de serviço, este que vos escreve, e só se ouviam as silvas a divertirem-se com a pintura azul metalizada da chapa. Eu, já só tapava os olhos e dizia “- Tirem-me deste filme que este gajo é maluco.” Bom, quanto à cache, recomenda-se. Representa mais um passeio bem junto ao magno oceano que banha a costa ocidental portuguesa, imponente, azul, aromático. As gaivotas circundam, nervosas. Talvez estejamos demasiado perto dos seus ninhos, que contudo parecem estar concentrados nos dois enormes rochedos que se eguem a algumas dezenas de metros da costa. Ali sim, é que deveria estar uma cache, para homens de barba rija a sério. Quanto a esta, chegados ao local, deixou-se descobrir sem delongas.

Perto da Praia Grande, visitámos duas caches a um só tempo: GT Dino’s Lunch Box e DP/EC-Footprints in the sand. A primeira, daquelas a sério, como quase todas, com uma caixinha para encontrar e livro a assinar. Encontrada com facilidade depois de uma muitissimo agradável caminhada por caminhos de areia, quase ao lusco-fusco, num percurso repleto de aromas que penetram a mente, libertando recordações associadas. Férias, de outros tempos, namoricos e catrapiscos, aventura e… nostalgia. A segunda, é para mandar eMail ao owner com a resposta correcta à questão colocada no enunciado. A fazer lembrar os tempos das caches virtuais, não muito populares em Portugal, mas cuja existência passada é ainda recordada abundantemente noutras comunidades geocachers da Europa. Ali sim, vimos as pegadas. Nem de outra forma poderia ser, pois sem a observação atenta, não se poderia dar a cache como encontrada. Um local duplamente interessante, com vistas priviligiadas sobre a Praia Grande, que por acaso nunca foi sitio que frequentasse, mas deve dizer muito a uma multidão de boa gente. Entretanto, o meu companheiro, geógrafo de serviço, que pelas suas credenciais estava encarregue de solucionar a charada das pegadas, entra em êxtase. Isto de levar um surfista de tempos livres a sítios com vista para o mar pode ser perigoso. Em vez de ouvir a desejada solução para o problema, só ouvia comentários às ondas e aos pontinhos negros que ao longe evoluiam nas suas cristas. Cheguei a pensar empurrar o tratante falésia abaixo, mas salvou-se a tempo, cantando a necessária direcção da marcha da bicharada pré-histórica.


Quase para o fim da jornada, deixámos o prato principal: Peninha e sobretudo kit sobrevivencia-peninha. A primeira demorou a aparecer. Vista, nem vê-la. De resto, não teria sido necessário vir a esta cache para gozar do deslumbrante panorama que da Peninha se avista em dias de calmaria. Por isso, parece-me altamente redundante e de todo desnecessário, tendo em conta a existência de mais duas caches, que por si, já quase colidem. Já a segunda, anunciava-se de desafio atrevido. Ao ler todos aqueles logs, atemorizei-me. Sou rapaz ajuizado, respeitador de perigos. Sou assim mesmo. Já a malta das Moto 4 me acha um chato. Passo o dia a queixar-me das imprudências, a dar negas aos desafios inconscientes que me lançam. De tal forma que já desisti de sair com eles para a montanha. Ora por isso mesmo, já vinha com pouca disposição de procurar efectivamente esta cache. “Outros que arrisquem quebrar o pescoço”, ia eu pensando. Mas, claro, tinha que dar uma vista de olhos, avaliar eu próprio o terreno. As condições climáticas eram adversas: nevoeiro e muito vento. Mas… foi um caso de chegar, ir lá, recolher o container e assinar o logbook. Sem espinhas. O meu colega, mais atrevidote, escolheu uma abordagem diferente. Foi até à base da “parede” e correu por ali acima, feito homem-aranha. Eu, optei por uma aproximação norte-sul, sem grandes problemas.
A ida à Peninha foi complementada com um brinde-surpresa: no local rodava-se um filme. O parqueamento estava cheio de estruturas temporárias, e quando deixávamos o local toda a equipa iniciava o jantar num enorme refeitório-tenda. Ali perto, entre as árvores, os supostos enforcados pendiam, sinistros, já mergulhados nas trevas anunciadas.
De volta a Lisboa, onde a minha boleia teve a gentileza de me largar, ainda fomos a O Segredo, o que se constitui como uma dupla excepção nos meus padrões de actuação enquanto geocacher. Primeiro, porque era já de noite, e não me agrada practicar o jogo sem usufruir em pleno da experiência visual que só a luz diurna oferece. Segunda, porque se trata de uma cache com charada, coisa que em absoluto não faço. Mas como a minha companhia já tinha resolvido o enigma, e visto que tanto insistiu para a irmos tentar, acedi. E ainda bem, porque soube mesmo bem. Terei que respeitar o espírito da cache e ficar-me por aqui. Que pena não ser uma cache normal, sem tretas para descobrir.
E sabem que mais? A Operação Verde Minho acabou aqui. No dia seguinte, dirigi-me ao balcão da Budget para levantar o carro que tinha reservado para a viagem para norte. Nada de reserva. Algum incompetente trocou tudo, voltei para trás. Game Over.
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Olá Ricardo “Torgut”,
Embora já tenham passado dois anos e uns trocos, só agora tenho oportunidade de agradecer os teus comentários acerca das nossas caches que, visitaste nesta missão incluída na “Operação Verde Minho”.
Esperamos que os locais que escolhemos tenham sido do teu agrado e, te tenhas divertido a procurar as caches.
Muito obrigado pelas visitas
Um abraço.
Paulo (carolangelpaul)
Nota: A “Cascata dos Poetas” foi a primeira cache que escondemos.