Momentos Mágicos: Os Calvários
Nota Preliminar: A experiência relatada neste texto foi vivida há algum tempo, durante a visita à cache Os Calvarios [Mertola]. As memórias foram agora reavivadas pela leitura do trabalho Memórias do Contrabando em Santana de Cambas – Um Contributo para o Seu Estudo, da autoria do antropólogo Luís Filipe Maçarico, publicado pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas. Não tenho a certeza se foi este pequeno livro que inspirou o autor da cache, mas certamente serviu de material de apoio essencial. E foi esse mesmo exemplar que me chegou às mãos depois de ter sido “resgatado” da MAntune’s Book Box [Loures] por um amigo meu. Já que quando eu próprio lá estive não ia prevenido com o trade adequado.
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Era o último dia do ano. 2005 esgotava-se, com os seus últimos grãos a escorregarem por entre os dedos, à medida que se aproximava a hora da contagem descrescente. Nem me lembro onde estava nessa hora em que a histeria colectiva atinge os píncaros. Talvez na praia onde o fogo-de-artíficio não pára de me surpreender. Talvez em casa a ver um filme. Mas recordo-me que antes de dormir debatiamos o programa para o primeiro dia do novo ano de 2006. As opções em cima da mesa eram duas: ou iamos ver o Lisboa-Dakkar a Portimão, ou rumávamos à região de Mértola para uma cachada. A multidão que se adivinhava concentrada em redor das máquinas lá para os lados da capital do barlavento algarvio acabou por ser determinante. Isto de gentes em escesso é cousa muito má! Vamos lá então para a raia alentejana! Logo pela manhãzinha tomámos o caminho do Guadiana, com o primeiro troço a ser efectuado pela Via do Infante, onde a primeira surpresa do dia não se fez esperar. Parámos para abastecer de combustível, e o que vemos nós…. a estação de serviço está repleta de camiões apontados a Dakkar! É o milagre, senhores! Ali estão elas, as máquinas mais apetecíveis, numa exposição quase privada, com os intervenientes ao alcance da fala. Fotografamos, ouvimos as conversas. Circulamos sem barreiras, sem ter que pedir licença a mirones concorrentes. Partem uns, chegam outros. Entretanto, na autoestrada, os que não sentem necessidade de abastecer passam literalmente a assobiar. É o som do cardado de pneu todo-o-terreno com o peso de um camião carregado por cima, a uns 120 à hora. Impressiona. Não podemos ficar por ali toda a manhã, e também nós seguimos viagem.



Se os camiões foram observados de bem perto, no percurso que se segue ao final da Via cruzam-se conosco os “carros”. Os bizarros Mitsubishi, que provavelmente vencerão a competição dentro de alguns dias; e outros, mais convencionais. De todas as cores, marcas e nacionalidades. Vêm já marcados pela prova. Alguns, cobertos de lama. Surgem vindos de um nevoeiro que subitamente caiu sobre aquelas paragens. Com o mesmo assobio estranho. Chegamos a um cruzamento e notamos um certo ajuntamento de pessoas. Paramos um pouco, e vimos que era agora a vez das motas. Saem de um caminho de terra batida, talvez terminando alguma classificativa. Afinal, a díficil escolha revelara-se fútil. Viemos cachar e vimos o Lisboa-Strakkar no seu melhor!
Entretanto, a manhã ia avançando. Compreendemos que a jornada se limitaria a uma só cache, a mais prometedora, mas também a que iria tomar-nos mais tempo. Com facilidade chegámos ao ponto de estacionamento recomendado. E lá fomos nós, aventurosos, pelos penedos, afastando-nos da segurança do carro. O dia tinha nascido azul, e ali, no meio alentejano, confirmava-se a excelência climatérica: céu limpo, temperatura amena, fresca, mesmo, a convidar à práctica da marcha. A paisagem cativou de imediato. Talvez a luminosidade revestisse todas aquelas paragens de uma força positiva, mas a verdade é que a ribeira de Chainça encantava.

Mais por inépcia do que por desafio, não seguimos o percurso sugerido. O que nos privou da observação dos calvários assinalados, mas, por outro lado, nos poupou a uma boa parte da caminhada. Por ali andámos, descendo e subindo montes, atravessando a ribeira, que corria dócil, com águas pelo joelho. As coordenadas intercalares foram encontradas sem grandes problemas, mesmo com um certo desvio em relação aos números fornecidos. Na primeira, encontrei um escorpião espanhol (não, não é uma piada, é mesmo assim o nome desta espécie, que também se encontra no Algarve nos anos de maior secura) sob a pedra que estava no ponto zero. A segunda foi simplemente capturada sem luta. E por esta altura estávamos, por assim dizer, no coração do percurso. Já haviamos atravessado a fronteira diversas vezes, de botas na mão e calças arregaçadas. E desatei a pensar em como tudo se tornou simples para nós, filhos de uma época de rara paz e fartura no âmbito maior da História Humana. Ainda há quarenta anos, homens com idade para serem nossos pais ou avós ali andavam. Pisando os mesmos calhaus, olhando as mesmas oliveiras, calcorreando os mesmos trilhos. Mas não era um GPS que carregavam. Eram cargas de dezenas de quilos. E se olhavam para trás, não era para apreciarem a viagem, mas para tentar perceber se aquela não seria a sua última viagem, trespassados que podiam ser a qualquer momento pela bala de Mauser da Guarda, espanhola ou portuguesa. Tempos ao mesmo tempo tão distantes e tão próximos, que carregam uma mística que as gerações vindouras deverão preservar, proporcionando uma sequência adequada à tradição oral que persiste ainda mas que se encontra à margem da extinção. Foi arrepiante percorrer estes caminhos e conseguir por momentos sentir a experiência através de outrém. De repente, estava em meados da década de 30, e urgia sair do campo aberto. Antes que a Guarda carregasse, a cavalo. Podia sentir a clandestinidade da presença proibida naquelas paragens. E foi então que compreendi o significado real daqueles Calvários, que deram o nome a esta cache.

A terceira, proporcionou um dos momentos divertidos do dia: ali estávamos nós, após termos encontrado o contentor. A fome apertava, e decidimos descansar um pouco e despachar umas bolachas e umas laranjas. E ali estávamos nós, quietos, a observar as águas que passavam e um grupo de mulheres que mais à frente lavavam as entranhas de um porco abatido, quando uma delas se começa a dirigir para nós com passo certo. Curiosidade. Será que nos vem dizer qualquer coisa? Mantivémos o olhar preso naquele ponto negro que se aproximava até dar lugar à iamgem clara de uma mulher de meia idade. 100 metros. A criatura estaca. Baixa as calças e agacha-se, sem a percepção da nossa presença. E ali mesmo, alivia-se. Sorrisos. Despachado o assunto, retorna para junto das amigas, e vai a meio caminho quando as outras nos avistam e compreendem tudo. É a gargalhada geral, a chacota. E foi ainda a rir que nos afastámos para a grande final. A coisa parecia ir-se complicar, com o sinal algo fraco. Mas nesse momento, esta vista perspicaz avista um rasto de Manuelis Antunes Sapiens, bem claro, na vegetação. E já se sabe, onde há Manuelis Antunes Sapiens, há caches. Pelo que foi só seguir durante alguns metros aquele esteio e logo a caixa se revelou.
Depois, foi o completar do círculo, o regresso ao cachemobile e o retorno a casa, com uma mais faustosas barrigadas de Geocaching de que há memória. Durante muitos meses, mesmo para cima de um ano, esta Os Calvarios [Mertola] foi apontada como a nossa cache favorita, quando por tal nos perguntavam. Actualmente, com a proliferação de excelentes tesourinhos e com a adição de mais quatrocentas e muitas à nossa experiência de “achadores”, já se torna mais complicado distinguir uma de entre as várias de elevada qualidade que ocuparão sempre um lugar de honra na nossa memória. Mas aquela aventura na fronteira será sempre especial. Até pela trilogia mágica que constituiu: foi a nossa centésima, no primeiro dia do ano, e fomos os primeios a encontrá-la (aliás, no nosso primeiro FTF).
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Encontra-se de momento a explorar os arquivos Aventuras e desventuras de um geocacher português do weblog
Sim e não.
O tema estava na minha cabeça hà mais de uma ano; fazer uma cache dedicada ao contrabando (“Os Calvários”) e outra à emigração ilegal (“A Salto”). Mas quando comecei, a sério, a documentar-me para a “Os Calvários”, depressa deparei com o blog do autor do livro. Contactei-o, trocámos vários mails, expliquei-lhe o meu objectivo e logo obtive colaboração em vários aspectos, incluindo textos do livro ainda antes de o ter nas minhas mãos. A colaboração chegou ao ponto de me ter recomendado para uma entrevista com o Presidente da Junta de Freguesia de Santana de Cambas que me recebeu e conversou comigo, expliquei-lhe o Geocaching, mostrei-lhe documentação e depois levou-me ao local do ‘Calvário’, nos arredores das Minas de S. Domingos, e à indicação (no Ozi, no meu PDA) dos locais de passagem. Obviamente, comprei o livro apesar de o autor mo querer oferecer. Li o livro completo já depois da cache colocada e decidi partilhá-lo com outros deixando-o na cache onde o foram buscar.
Obrigado pelas excelentes memórias que aqui partilhaste. É realmente uma cache de que me orgulho. Foi pena o meu GPSr estar com aquele desvio naquele dia mas já corrigi a situação.
Já nao bastava a bela descrição da cacha, veio agora este rico texto, provocar ainda mais arrependimento de em Abril deste ano, na minha Mértola Tour, não ter conseguido arranjar coragem de, sózinho com a minha Vitória de 4 anos, percorrer estes caminhos de Calvários… estes e os outros, agora também do Manuelis Antunes Sapiens, dumas tais de Aventuras nas Lagoas.
Fica aqui acente na agenda da minha pobre memória RAM para uns próximos passeio.
Obrigado.
Abraços