A Velha Tia

Volta não volta, lá os incautos olhos deste que vos escreve se descuidam e caem sobre as letras gordas de um Correio da Manhã ou, pior ainda, de um 24 Horas. Se não é isso, então num momento de distração o “telejornal” da TVI fica um pouco mais do que devia. E, expondo-me dessa maneira, não são poucas as vezes que me arrisco a ficar com a ideia de que a Internet é obra do chifrudo, que entre bits e bytes se encontram bolsas de enxofre e que quem se aproximar dessa obra da malvadeza arrisca, no mínimo, a arder nas chamas eternas do Purgatório, já aqui, nesta vida terrena, sem ser tão pouco necessário ir ao Juízo Final. Uma espécie de prisão preventiva, sem possibilidade de liberdade com termo de residência. O que é no mínimo estranho, pois cá para mim, com esta visão limitada que não se pode comparar à de tão iluminados “jornalistas”, me parece uma ferramenta bem benigna. Entre outras coisas que, imagino, fariam sorrir o Criador, permite a famílias afastadas por espaços fisicamente inultrapassáveis manterem um contacto sadio, a fazer lembrar outros tempos. E isto para dizer que hoje, à conversa virtual com a minha irmã, recebi notícias sobre a velha tia Nazaré.
Ora a boa da tia, do alto dos seus honrados oitenta e dois anos, não prescinde das leituras de qualidade e de quase todas as coisas boas da vida. Há coisa de três anos, já incomodada por não poder degustar a boa cozinha a que se habituou, resolveu colocar um ponto final na deficiência mecânica impeditiva e toca de gastar uma pequena fortuna num implante quase total de dentinhos… novos em folha, para de novo poder trincar o tal assado no forno. E hoje, pelo que fui sabendo, as catatuas irmã e tia foram às pizzas, ao que se seguiu uma sessão de Harry Potter no Vasco da Gama, e, por fim, o alongar da tarde à conversa nos jardins do Parque das Nações.
” – E o que é que tudo isto tem a ver com Geocaching?”, perguntará o impaciente leitor com muita pertinência. Já lá vamos. Estamos a chegar agora a esse ponto. É que vindas de outros temas, as damas desataram a falar do Potter, e vai dai, da piada dos muggles, termo aparentemente saído da enorme capacidade criativa da escritora J. K. Rowling. E nisto, a mana lembra-se de contar à tia sobre esta nova mania do delfim da ninhada, até porque ela própria, nos seus actuais cinquenta e cinco, tem sido convidada e participante activa em algumas tours.
Então, pelo que me dizem, a cara da velhota iluminou-se, naquela expressão que só alcançamos quando algo de especial nos atinge na alma. E, conhecendo-a um pouco, não é complicado perceber-se porquê. Na minha tenra juventude, ela era a tia enigmática do Algarve. Sabia tudo sobre literatura policial. E reparem, quando digo tudo, é tudo mesmo! Portanto, mistérios, pesquisas, charadas, eram e são com a velha Nazaré. Logo, não será de estranhar que mesmo agora se tenha apaixonado de imediato pelo jogo a que alguns chamam desporto. Num misto de excitação juvenil e da frustração de quem, mal ou bem, vai compreendendo as limitações das décadas que se acumulam em cima dos ossos, conta-me a mana que ela só dizia que tinha pena de ter a idade que tem, porque senão quem era já uma geocacher era ela. E assim terminou: “-Mas isso é mesmo algo que tem a ver comigo! Sempre tive atracção por esse estilo de coisas!”
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