Cada cache nova no Algarve cai-me como uma gota de água em solo sequioso. Isto está tudo encontrado e mais que encontrado, de forma que quando chega ao verão e desata por ai gente a criar coisinhas, é uma alegria. Hoje fui-me às mais recentes, ambas surgidas nos últimos dois dias, e que aventura e desventura foi!

Já no finalzinho da tarde peguei na cachemobile Bombardier e fiz-me à estrada. Ir até à zona da praia dos Tomates de viatura motorizada é um desatino. O percurso que a pé se aproxima dos 2 km, transforma-se em 16 km, e isto tendo em conta muito andamento em terra batida, o que para uma moto 4 é ouro sobre azul, mas não terá muita piada para os rasteirinhos. Mas lá se fez, e rumo a Seaside Heights [Albufeira]. Por esses caminhos de pó observei um rebanho à antiga, a remoer a pouca erva que ainda resiste à secura, com um velho pastor a zelar pela bicharada, e quatro cães estrategicamente colocados nos extremos de um quadrado imaginário; espantoso como o instinto lupino destes animais é desde há muito aproveitado para proteger o gado, e quão bem o fazem!

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Como é meu apanágio, não usei waypoints adicionais, de forma que não faço a menor ideia da localização do parqueamento recomendado. Deixei a viatura onde me pareceu bem e lá fui, a corta mato. Dei logo com uma urbanização fantasma, cuja construção terá sido abruptamente detida, provavelmente por embargamento municipal da obra. Um mimo. Ainda estou a pensar em criar ali mesmo uma cache. A coisa tem o seu quê de interesse, não há dúvida. Passado um bocado estava na falésia, uns bons metros acima de onde devia estar, ou seja, na praia. Ainda avaliei o terreno, tentando calcular o desvio lateral que teria que fazer para chegar lá abaixo, e pareceu-me demais. Assim, fui-me aproximando do ponto zero a uma altitude superior, já a contar que teria que fazer o percurso duas vezes, entrando na praia por onde deveria sair. Mas precisamente ali onde está o primeiro ponto existe um trilho no declive, prontamente aproveitado.

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Primeiro container encontrado com facilidade, coordenadas introduzidas no GPS. Por onde se desce, sobe-se. Sem problemas. O percurso fez-se então totalmente pela falésia. Maravilhoso. O sol já se punha, lá bem a oeste. As cores do mar, da areia e da argila do declive ganhavam um valor extraordinário, banhadas pelo dourado destes últimos raios do dia. Algumas pessoas, poucas, cruzaram-se comigo. Num ponto alto, um jovem homem contemplava a paisagem com ar compenetrado de quem pensa nas tampas que a vida lhe tem dado. Lá em baixo, no areal, crianças brincavam ainda, quando toda a gente se tinha já retirado, para o jantar de rotina que se advinha depois de um bom dia de praia. Enquanto avançava em direcção ao ponto final, ia pensando na facilidade com que o que nos é habitual perde valor. Vendo as coisas nessa perspectiva, não admira que a bifalhada seja conduzida ao êxtase nas terras do Algarve, e que tanto apreciem a sua semanita de retiro no exótico Portugal.

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Já não estava longe quando vi as coisas a darem para o torto. Ali mesmo, um cavalheiro ajoelhava-se aos pés de uma dama, como se lhe rogasse perdão por um qualquer pecadilho conjugal. Lá das suas desavenças não sei, mas o que era certo é que o pequeno drama se desenrolava a poucos metros da cache, e se não se encontrasse uma célere resolução para o que quer que fosse, arriscava-me a procurar de noite. Vá lá que a vergonha assomou, e perante esta visita incómoda os dois desandaram, trilho abaixo. E assim deitei-lhe a unha, com uma facilidade idêntica à que experimentei no primeiro ponto.

O retorno foi um pouco mais apressado, que calculava o tempo de luz que teria disponível para procurar a Praia da Falésia [Vilamoura], e a coisa não estava brilhante. Felizmente que tinha marcado o ponto de estacionamento, o que poupou algum tempo de marcha, que decorreu agora em linha quase recta. Mas o “melhor” estava para vir. Chegado à mota… nada de chave. Foi-se. Perdida por ali, entre falésias e areia. Esgotada a última esperança, revistada duplamente a mochila, devassadas todos os vincos da sua intimidade, lembrei-me que o telemóvel estava quase sem carga. Um SMS para o Prodrive com as coordenadas foi enviado, mas quando me preparava para estabelecer ligação a fim de explicar a natureza da situação… finito. Acabou-se o telemóvel. A aventura já a tinha tido, a desventura estava a decorrer. Bem, nada a fazer. É pôr pés ao caminho que dali a Vilamoura ainda são uns quilómetros. E depois, claro, pelo meio há uma cache a encontrar, sem luz, sem lanterna. 

Devo aqui confessar que conhecia a localização desta cache, pois tinha vindo ajudar em alguns detalhes da sua criação. Mas isso é um pormenor, porque de noite as coisas são diferentes. A coisa lá se fez sem grandes azares. Encontrada… com um FTF já averbado no logbook. Só dava para sorrir. Acontece. Agora no Verão não me dão mesmo tréguas no meu território.

E lá fui eu, pela noite dentro, escuridão, andando, marchando, a bom passo. Praia da Falésia. Marina. Chego ao bar de um amigo, onde posso finalmente colocar o meu telemóvel à carga e fazer as chamadas de emergência que se impunham. O Prodrive estava a acabar de jantar em Almancil e pôs-se a caminho para com a família me fazer um pouco de companhia enquanto não me chegava o socorro adequado com uma segunda chave. E lá estivemos, em conversa, pela noite dentro. Uma jornada complicada, que me proporcionou um dos momentos inesquecíveis de Geocaching.

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2 Responses to “E vão mais duas”  

  1. 1 Bringer

    Ena! Grande aventura!

    Parece que o geocaching é propenso a estas coisas. :-)
    As fotos ficaram muito boas!

    Obrigado pela visita à Seaside Heights. Espero que tenhas gostado.

    Abraço!

  2. Caro Torgut

    Já somos velhos conhecidos dos tempos de ouro do “IRC” sou aqui de Quarteira, penso que te lembras de mim … miau
    sou uma novata no geocaching ontem (10/08/2007) encontrei o meu primeiro tesourinho na companhia de uns amigos de leiria que me puseram o bichinho… e hoje fui logo comprar um GPS.
    Tive conhecimento deste “hobbie” atravez da SIC numa reportagem … assim que vi achei interesante, ontem caiu de para-quedas a oportunidade.
    Andamos (eu o marido e o piqueno filhote hihihi) a investigar e a recolher informação,qualquer dia começam a chover novas descobertas para o nosso belo Algarve.
    beijokas a tua Mulher
    Magy
    (vespafriendsalgarve)


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