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Durante a anterior estadia consegui um número interessante: 26 dias consecutivos a cachar. Agora estou de volta, e decidido a ultrapassar este registo, mesmo ciente que a invernia está ai, e que a Europa Central, no que toca a estas coisas de clima, não é para brincadeiras.
Seja como for, já lá vão cinco. E hoje “cairam” duas caches. Inesperadamente o plano diário foi todo alterado. Uma súbita vontade de proceder a um reconhecimento prévio dois projectos que prometem muitas dores de cabeça arrancaram-me ao percurso cuidadosamente estudado: primeiro, uma cache que implica entrar no sistema de esgotos da cidade, percorrer 600 metros por catacumbas de aspecto atemorizador, com água pelos joelhos e sem luz para além da que transportar comigo; para o grand finale, está previsto o regresso ao mundo dos vivos através de uma daquelas tampas que vimos por qualquer cidade e que surgem frequentemente em filmes de acção… como este promete ser; segundo, algo aparentemente mais simples, mas que não deixa de estar marcado com quatro estrelinhas e meia de terreno, talvez porque implica uma escalada relativamente complicada em frente a uma multidão que passa numa das estradas mais movimentadas de Praga.
Assustado? Não… lá nos veremos. Mas para já falemos do que se fez hoje. MB#4-Albertov trouxe-me a um local mágico apesar de puramente urbano. Não lhe chamarei um bairro. É antes uma área. E nela se encontram universidades, residências de estudantes, um hospital, umas quantas igrejas. Bizarro, diferente. Entramos, sem nos apercebermos, por um acesso secundário. Aquelas ruas estão desertas, e os enormes edíficios, a fazer lembrar a nossa arquitectura Estado Novo, em toda a sua majestosidade rodeiam-nos. Depois, desembocamos numa via mais movimentada, e o ambiente torna-se mais normal. Sobretudo são estudantes que passam por ali. E ainda bem, porque não têm cara de quem se vá preocupar se desatarmos a subir a postes de trânsito… e nós cá sabemos bem para quê. Foi divertido. Modéstia à parte, uma lição de stealth Geocaching. Uma máquina fotográfica, uma atitude despreocupada e algumas palhaçadas e os actos mais comprometedores ganham uma naturalidade inofensiva que permite o resgate e a devolução do contentor.
A seguir vamos experimentar uma multi-cache com um enunciado algo complicado. IEEE 802.11. Implica contar umas letras e uns números, mas mais incomum, é necessário reconhecer as redes Wi-Fi que cobrem o ponto zero e retirar elementos de uma delas. Com muito receio, chegamos a um resultado final. A fé é pouca, porque as dúvidas na recolha dos dados e a morosidade dos cálculos elevam as probabilidades de estarmos na posse de coordenadas finais erradas. Mas não. Graças à dica, soubemos de imediato que não tinhamos falhado quando nos aproximámos do local. O único problema passou a ser o pau de putos que preparavam um charro a poucos metros do local prometido. Mas como os checos não são latinos, continuaram na sua tarefa sem nos fitar mais que um par de segundos, e cada um de nós levou a bom porto a sua barca. Esta cache valeu pela relativa originalidade – na realidade já tinha feito uma multi baseada em Wi-Fi bem mais interessante, a CZFree #1 – e por um passeio ilustrativo da “cultura” Panelack. É este o nome dado aos enormes blocos de apartamentos de aspecto tristonho, literalmente cinzentões, que predominam em numerosas zonas da cidade. Foram construidos em série nas décadas dos anos 50 e 60 do século XX, traduzindo a ambição do sistema em anular a individidualidade dos cidadãos: prédios iguais, apartamentos semelhantes. Sem distinções, em nome de um regime totalitário e igualitário.
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Agosto, Caches Poucas
Quem atente na colecção de elementos estatísticos patentes no meu “profile”, não poderá deixar de notar a evidente quebra na actividade “geocachiana” que todos os anos ocorre nos meses de Verão, especialmente em Agosto. A verdade é que este vosso amigo não casa com calor. E com gente. Muita gente, por todo o lado. Assim, Agosto torna-se altura de sentar, respirar fundo e esperar que passe. Até que as temperaturas amenas regressem e a multidão se desvaneça.
Mesmo assim, surge sempre a oportunidade de fazer o gosto ao vício. De resto, o ano de 2007 ficará marcado pela amena época estival, com valores muito abaixo do esperado, que apesar de tudo permitiram alguma actividade geocachiana no pico do Verão.
11 de Agosto
Ontem foi o dia da Armona. Na companhia do team Hulkman, partimos à descoberta desta ilha, de que tanto ouvimos falar, mas que nunca haviamos visitado. A verdade é que, apesar de já me encontrar por estes paragens há quase uma década, ainda não tinha encontrado oportunidade de visitar nenhuma destas ilhas da Formosa: nem Culatra, nem Farol, nem Armona.

A ideia era procurar a cache, rubricar um FTF conjunto, e passar um resto de tarde de praia relaxado, reservando para o serão uma jantarada em tasco que cá conheço. As coisas não começaram da forma mais tranquila. Rendez-vous no Fórum Algarve, onde deixámos a moto4, e embarcámos no cachemobile Hulkman. O caminho para Olhão era evidente. Já o ponto de embarque para a ilha nem tanto, e muito menos em dia de Festival do Marisco. Lá acabámos por descobrir as direcções correctas, mas estacionado o rasteirinho e percorrida pedonalmente a distância até ao cais, chegámos a boa hora de ver o ferry acenar-nos um pouco sentido adeus. E lá ia ele. Há mais daqui por sessenta minutos. Isso é que era bom! E para que é que servem os táxis fluviais, para além de nos levar dinheiro? Isso mesmo, para nos poupar a uma hora inteirinha de espera.
A ilha não agrada à primeira vista. A construção com perfil clandestino abraça o visitante desde o momento em que este desembarca e não o larga durante cerca de um quilómetro, distância percorrida por um caminho claustrofóbico, constituido por toscos blocos de cimento, assentes na areia entre duas fiadas infindáveis de barracões e casas mais ou menos suspeitas. à medida que o cais fica para trás, o bulício humano abranda. E, para o fim, com a chegada à praia, estão reunidas as condições para a reconciliação com a Armona.
A cache, essa, foi encontrada sem delongas. Foi avistada em passo de chegada, num FTF mais do Hulkman. Colocação com linha de vista directa de algumas casas, e demasiado perto do posto da GNR para o meu gosto. Os guardas podem não ver a actividade dos geocachers das suas janelas, mas por formação e feitio gostam de investigar movimentos estranhos, e, imagino, de forma exponencialmente elevada quando estes se desenrolam a poucos metros do seu ninho.
E por esse dia as coisas ficaram por ai. Seguiu-se um período de praia pouco agradável, com o vento constante e a areia no ar, que se infiltrava em tudo, lenta mas inexoravelmente. Nem as bolas de berlim do Hulkman escaparam a tal castigo. Depois, o regresso, no maciço ferry convencional, para a noite acabar em jantarada, com sardinhas assadas e entrecosto em cima da mesa.
12 de Agosto
Domingo. Enquanto todos se arrastam até à praia, nós escapulimo-nos em direcção oposta, para o interior, onde algumas recentes caches nos desafiam. À saída de casa está instalada a confusão: é preciso coordenar movimentos. O team Hulkman anda por ai, no terreno. Tentamos harmonizar os movimentos de forma a encontrarmo-nos e fazer pelo menos um par de caches em conjunto, o que não virá a ser possível apesar de surgir a oportunidade para um célere cumprimento em Castle [Tavira]. Com o Kidloco combinamos em O azul de Cacela Velha, logo a seguir, com um timing mal calculado a exigir uma correcção por SMS.
Portanto, o primeira paragem da jornada é em Tavira. Algo à pressa parqueamos o cachemobile nomeado para hoje, a Mitsubishi Strakar, e seguimos em passo apressado para o ponto zero. São locais conhecidos, que não exigem uma apreciação considerável. Chegámos ao local onde os Hulkman nos aguardam para dois dedos de conversa enquanto o container sai do esconderijo, com dificuldade nula. Tentamos mais uma vez combinar movimentos para um posterior encontro em Bureau de Change, mas torna-se evidente que será quase impossível encontrar uma solução forçar à confluência em percursos tão dispares.

A paragem que se segue é em Cacela, pouco mais à frente. O Kidloco já lá anda, de volta do ponto zero, mas ainda sem sucesso. Com três as coisas facilitam-se e rapidamente o container é avistado e recolhido sob as “barbas” de três inglesas que por ali estão, já intrigadas com as nossas pesquisas. É uma cache que, também pelo seu tamanho, não coloca nenhumas dificuldades ao geocacher no que toca à mugglaria. Por mais que os hajam, ali em redor, a coisa pode sempre fazer-se descansadamente e com segurança máxima.

Para grande pena nossa, a casinha de petiscos que tanto apreciamos, mesmo ali à beira do largo da igreja, encontra-se encerrada, provavelmente devido aos preparativos da festa grossa que já se adivinha no coração da aldeia. Um palco está a ser montado, e quando deixamos o local cruzam-se conosco carros com equipamento de som e instrumentos musicais. De qualquer forma o Verão não é a melhor altura para visitar Cacela Velha. Por outro lado, o local pode-se aproximar do conceito de paraíso na Primavera tardia ou no Outono inicial. Na realidade é uma das raras localidades algarvias que, sendo costeira, mantém um toque intimista, inalterado, genuíno. A exploração turística restringe-se a um par de restaurantes, e como não há praia, a coisa mantém-se quase intocada pela avalanche descaracterizadora. A aldeiazinha resume-se a uma meia dúzia de ruas, todas extremamente pictorescas, dominadas pelo azul do céu, do mar, e das pinturas. Depois, há a igreja e o forte, que era da Guarda Fiscal e agora é da GNR. Localizado em ponto estratégico, com vistas ilimitadas para um mar que se perde em direcção a Marrocos, este posto revela-se ideal para a vigilância que se pretende.


Altamente recomendado é o petisco em estabelecimento cujo nome me escapa, mas que se caracteriza pela esplanada em mobiliário escuro, justamente no largo da igreja. Não tem que enganar. Sugiro o chouriço assado, enorme, servido sobre a chama que o próprio cliente extinguirá quando achar por bem. A dose de conquilha é generosa e muito apetitosa. Os preços são baixos, com o primeiro a custar €5,50 e a segundo a valer €6. A imperial custará €1, assim como o belo pão caseiro que dá para a refeição toda. Os queijos também não são nada de deitar fora!
Ali à beira da 125 ficou a nossa Strakar. Até Percurso Aldeia Nova [Monte Gordo] prosseguimos na viatura do Kidloco. À chegada, um dos momentos altos do dia; estando um carro atravessado a ocupar por inteiro a única sombra existente na clareira, sai-se o nosso companheiro de aventura com mais ou menos com a seguinte: – “Tinha que ser um algarvio, claro, sem consideração nenhuma pelos outros”. Ora foi a oportunidade de estar calado perdida de forma mais cruel. Porque vamos a ver, e afinal o carro não deixava margem para dúvidas: na matrícula, a referência a um stand no Porto, e no vidro de trás um autocolante com os dizeres “Sou do Norte carago!”. Gargalhada geral, claro. O Kidloco ainda tentou a impossível saída airosa com um -”Claro, é inteligente, arranjou a melhor forma de usar a sombra”. Mas não “colou”.
Ainda sob os risos deste episódio iniciámos a curta caminhada, que nos levou à zona da cache com rapidez. É um pequeno passeio em zona de pinhal, que parece ser uma alternativa válida para chegar à praia sem grandes preocupações com trânsito e estacionamento. Encontrada. Regressamos, e recolhemos o nosso cachemobile.
A última cache para nós será Bureau de Change, já bem para o interior, onde chegamos depois de rolarmos durante um bom bocado por estradas estreitas e sinuosas que atacam a primeira linha de montanha. Decidimos deixar o rasteirinho do Kidloco à entrada do percurso de terra batida no sopé da colina onde adivinhamos a cache e prosseguimos na viatura mais vocacionada para este piso. A meio caminho arriscamos a marcha bruta em direcção ao pico. A verdade é que vimos a descobrir que o estradão contorna o monte até atingir o cume. Mas ainda bem que nos enganámos, porque a caminhada até ao topo foi divertida e bem capaz de nos limpar o pulmão… apesar de dolorosa para quem se apresentou com calçado menos próprio para a ocasião.

Lá em cima a vista é deslumbrante. Rica, variada, com o azul do mar a sul, em contraste com o amarelo da erva seca que cobre a paisagem mais próxima. O melhor momento do dia. A cache estava bem disfarçada, e por estranho que pareça ainda demorou um tudo nada a ser descoberta. Terminada esta caçada, ainda passámos por Santa Rita [Tavira], apenas para fazer companhia ao nosso parceiro de viagem, pois já tinhamos averbado esta cache ao nosso “curriculum” há coisa de um mês.
13 de Agosto
Na véspera, ao chegar a casa já noite avançada, fui notificado da criação de uma nova cache nas imediações: Respeitem o Ludo. Tratei logo de agendar a visita para a manhã de hoje, mesmo cedinho. Só que ao acordar, o cedinho era também fresquinho, e como a ideia era ir até ao local de Moto 4, fiz-me caro e desvinculei-me do projecto. Acabei por lá ir já para o meio da manhã, deixando o carro a cerca de 1 km, de forma intencional, para usufruir de uma caminhada com o tempo agradável que se registava. E que bom foi ! Lá segui pela estrada abaixo até às imediações da cache. Internei-me nos caminhos florestais, encontrei o container com facilidade e, em vez de regressar, continuei o passeio em direcção ao Ludo. Pouco depois virei à esquerda, em direcção ao aeroporto, e caminhei durante mais um quilómetro em linha recta, por entre as salinas e comportas, repletas de aves de todos os tamanhos, entre as quais os notáveis flamingos que se deixam observar sem falsa timidez. De resto esta cache pode ser uma porta de entrada para alguns pontos de interesse na zona do Ludo. Pode inclusive ser um ponto de início para uma jornada pedestre que poderá incluir outras caches das redondezas, como o Travel Bug Hotel “Flamingo” (Faro Airport) e Quinta do Lago [Loulé], Foi de facto um excelente final de manhã, com uma actividade que decorreu perfeita em todos os quadrantes.
A cache revelou ligeiras vulnerabilidades próprias de um novo elemento, inexperiente, que não resistiu à tentação de publicar a sua própria criação practicamente sem ter encontrado, ele próprio, um número considerável de “tesourinhos”. O container encontrava-se bastante exposto, e com algum desvio em relação às coordenadas finais. Nem uma coisa nem outra em proporções preocupantes. Dei um jeitinho no sentido de disfarçar um pouco mais o esconderijo, e quanto ao desvio, acaba por ser irrelevante dada a natureza do terreno. Seria contudo prejudicial num meio mais cerrado ou com patamares verticais. O que me desagradou muito, foi ver nascer mais uma cache sem a devida versão internacional. É preciso repetir uma vez mais que o Geocaching não é um jogo português para portugueses; é uma actividade global, internacional, para os cidadãos do mundo.
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E vão mais duas
Cada cache nova no Algarve cai-me como uma gota de água em solo sequioso. Isto está tudo encontrado e mais que encontrado, de forma que quando chega ao verão e desata por ai gente a criar coisinhas, é uma alegria. Hoje fui-me às mais recentes, ambas surgidas nos últimos dois dias, e que aventura e desventura foi!
Já no finalzinho da tarde peguei na cachemobile Bombardier e fiz-me à estrada. Ir até à zona da praia dos Tomates de viatura motorizada é um desatino. O percurso que a pé se aproxima dos 2 km, transforma-se em 16 km, e isto tendo em conta muito andamento em terra batida, o que para uma moto 4 é ouro sobre azul, mas não terá muita piada para os rasteirinhos. Mas lá se fez, e rumo a Seaside Heights [Albufeira]. Por esses caminhos de pó observei um rebanho à antiga, a remoer a pouca erva que ainda resiste à secura, com um velho pastor a zelar pela bicharada, e quatro cães estrategicamente colocados nos extremos de um quadrado imaginário; espantoso como o instinto lupino destes animais é desde há muito aproveitado para proteger o gado, e quão bem o fazem!
Como é meu apanágio, não usei waypoints adicionais, de forma que não faço a menor ideia da localização do parqueamento recomendado. Deixei a viatura onde me pareceu bem e lá fui, a corta mato. Dei logo com uma urbanização fantasma, cuja construção terá sido abruptamente detida, provavelmente por embargamento municipal da obra. Um mimo. Ainda estou a pensar em criar ali mesmo uma cache. A coisa tem o seu quê de interesse, não há dúvida. Passado um bocado estava na falésia, uns bons metros acima de onde devia estar, ou seja, na praia. Ainda avaliei o terreno, tentando calcular o desvio lateral que teria que fazer para chegar lá abaixo, e pareceu-me demais. Assim, fui-me aproximando do ponto zero a uma altitude superior, já a contar que teria que fazer o percurso duas vezes, entrando na praia por onde deveria sair. Mas precisamente ali onde está o primeiro ponto existe um trilho no declive, prontamente aproveitado.
Primeiro container encontrado com facilidade, coordenadas introduzidas no GPS. Por onde se desce, sobe-se. Sem problemas. O percurso fez-se então totalmente pela falésia. Maravilhoso. O sol já se punha, lá bem a oeste. As cores do mar, da areia e da argila do declive ganhavam um valor extraordinário, banhadas pelo dourado destes últimos raios do dia. Algumas pessoas, poucas, cruzaram-se comigo. Num ponto alto, um jovem homem contemplava a paisagem com ar compenetrado de quem pensa nas tampas que a vida lhe tem dado. Lá em baixo, no areal, crianças brincavam ainda, quando toda a gente se tinha já retirado, para o jantar de rotina que se advinha depois de um bom dia de praia. Enquanto avançava em direcção ao ponto final, ia pensando na facilidade com que o que nos é habitual perde valor. Vendo as coisas nessa perspectiva, não admira que a bifalhada seja conduzida ao êxtase nas terras do Algarve, e que tanto apreciem a sua semanita de retiro no exótico Portugal.
Já não estava longe quando vi as coisas a darem para o torto. Ali mesmo, um cavalheiro ajoelhava-se aos pés de uma dama, como se lhe rogasse perdão por um qualquer pecadilho conjugal. Lá das suas desavenças não sei, mas o que era certo é que o pequeno drama se desenrolava a poucos metros da cache, e se não se encontrasse uma célere resolução para o que quer que fosse, arriscava-me a procurar de noite. Vá lá que a vergonha assomou, e perante esta visita incómoda os dois desandaram, trilho abaixo. E assim deitei-lhe a unha, com uma facilidade idêntica à que experimentei no primeiro ponto.
O retorno foi um pouco mais apressado, que calculava o tempo de luz que teria disponível para procurar a Praia da Falésia [Vilamoura], e a coisa não estava brilhante. Felizmente que tinha marcado o ponto de estacionamento, o que poupou algum tempo de marcha, que decorreu agora em linha quase recta. Mas o “melhor” estava para vir. Chegado à mota… nada de chave. Foi-se. Perdida por ali, entre falésias e areia. Esgotada a última esperança, revistada duplamente a mochila, devassadas todos os vincos da sua intimidade, lembrei-me que o telemóvel estava quase sem carga. Um SMS para o Prodrive com as coordenadas foi enviado, mas quando me preparava para estabelecer ligação a fim de explicar a natureza da situação… finito. Acabou-se o telemóvel. A aventura já a tinha tido, a desventura estava a decorrer. Bem, nada a fazer. É pôr pés ao caminho que dali a Vilamoura ainda são uns quilómetros. E depois, claro, pelo meio há uma cache a encontrar, sem luz, sem lanterna.
Devo aqui confessar que conhecia a localização desta cache, pois tinha vindo ajudar em alguns detalhes da sua criação. Mas isso é um pormenor, porque de noite as coisas são diferentes. A coisa lá se fez sem grandes azares. Encontrada… com um FTF já averbado no logbook. Só dava para sorrir. Acontece. Agora no Verão não me dão mesmo tréguas no meu território.
E lá fui eu, pela noite dentro, escuridão, andando, marchando, a bom passo. Praia da Falésia. Marina. Chego ao bar de um amigo, onde posso finalmente colocar o meu telemóvel à carga e fazer as chamadas de emergência que se impunham. O Prodrive estava a acabar de jantar em Almancil e pôs-se a caminho para com a família me fazer um pouco de companhia enquanto não me chegava o socorro adequado com uma segunda chave. E lá estivemos, em conversa, pela noite dentro. Uma jornada complicada, que me proporcionou um dos momentos inesquecíveis de Geocaching.

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A Velha Tia

Volta não volta, lá os incautos olhos deste que vos escreve se descuidam e caem sobre as letras gordas de um Correio da Manhã ou, pior ainda, de um 24 Horas. Se não é isso, então num momento de distração o “telejornal” da TVI fica um pouco mais do que devia. E, expondo-me dessa maneira, não são poucas as vezes que me arrisco a ficar com a ideia de que a Internet é obra do chifrudo, que entre bits e bytes se encontram bolsas de enxofre e que quem se aproximar dessa obra da malvadeza arrisca, no mínimo, a arder nas chamas eternas do Purgatório, já aqui, nesta vida terrena, sem ser tão pouco necessário ir ao Juízo Final. Uma espécie de prisão preventiva, sem possibilidade de liberdade com termo de residência. O que é no mínimo estranho, pois cá para mim, com esta visão limitada que não se pode comparar à de tão iluminados “jornalistas”, me parece uma ferramenta bem benigna. Entre outras coisas que, imagino, fariam sorrir o Criador, permite a famílias afastadas por espaços fisicamente inultrapassáveis manterem um contacto sadio, a fazer lembrar outros tempos. E isto para dizer que hoje, à conversa virtual com a minha irmã, recebi notícias sobre a velha tia Nazaré.
Ora a boa da tia, do alto dos seus honrados oitenta e dois anos, não prescinde das leituras de qualidade e de quase todas as coisas boas da vida. Há coisa de três anos, já incomodada por não poder degustar a boa cozinha a que se habituou, resolveu colocar um ponto final na deficiência mecânica impeditiva e toca de gastar uma pequena fortuna num implante quase total de dentinhos… novos em folha, para de novo poder trincar o tal assado no forno. E hoje, pelo que fui sabendo, as catatuas irmã e tia foram às pizzas, ao que se seguiu uma sessão de Harry Potter no Vasco da Gama, e, por fim, o alongar da tarde à conversa nos jardins do Parque das Nações.
” – E o que é que tudo isto tem a ver com Geocaching?”, perguntará o impaciente leitor com muita pertinência. Já lá vamos. Estamos a chegar agora a esse ponto. É que vindas de outros temas, as damas desataram a falar do Potter, e vai dai, da piada dos muggles, termo aparentemente saído da enorme capacidade criativa da escritora J. K. Rowling. E nisto, a mana lembra-se de contar à tia sobre esta nova mania do delfim da ninhada, até porque ela própria, nos seus actuais cinquenta e cinco, tem sido convidada e participante activa em algumas tours.
Então, pelo que me dizem, a cara da velhota iluminou-se, naquela expressão que só alcançamos quando algo de especial nos atinge na alma. E, conhecendo-a um pouco, não é complicado perceber-se porquê. Na minha tenra juventude, ela era a tia enigmática do Algarve. Sabia tudo sobre literatura policial. E reparem, quando digo tudo, é tudo mesmo! Portanto, mistérios, pesquisas, charadas, eram e são com a velha Nazaré. Logo, não será de estranhar que mesmo agora se tenha apaixonado de imediato pelo jogo a que alguns chamam desporto. Num misto de excitação juvenil e da frustração de quem, mal ou bem, vai compreendendo as limitações das décadas que se acumulam em cima dos ossos, conta-me a mana que ela só dizia que tinha pena de ter a idade que tem, porque senão quem era já uma geocacher era ela. E assim terminou: “-Mas isso é mesmo algo que tem a ver comigo! Sempre tive atracção por esse estilo de coisas!”
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Momentos Mágicos: Os Calvários
Nota Preliminar: A experiência relatada neste texto foi vivida há algum tempo, durante a visita à cache Os Calvarios [Mertola]. As memórias foram agora reavivadas pela leitura do trabalho Memórias do Contrabando em Santana de Cambas – Um Contributo para o Seu Estudo, da autoria do antropólogo Luís Filipe Maçarico, publicado pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas. Não tenho a certeza se foi este pequeno livro que inspirou o autor da cache, mas certamente serviu de material de apoio essencial. E foi esse mesmo exemplar que me chegou às mãos depois de ter sido “resgatado” da MAntune’s Book Box [Loures] por um amigo meu. Já que quando eu próprio lá estive não ia prevenido com o trade adequado.
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Era o último dia do ano. 2005 esgotava-se, com os seus últimos grãos a escorregarem por entre os dedos, à medida que se aproximava a hora da contagem descrescente. Nem me lembro onde estava nessa hora em que a histeria colectiva atinge os píncaros. Talvez na praia onde o fogo-de-artíficio não pára de me surpreender. Talvez em casa a ver um filme. Mas recordo-me que antes de dormir debatiamos o programa para o primeiro dia do novo ano de 2006. As opções em cima da mesa eram duas: ou iamos ver o Lisboa-Dakkar a Portimão, ou rumávamos à região de Mértola para uma cachada. A multidão que se adivinhava concentrada em redor das máquinas lá para os lados da capital do barlavento algarvio acabou por ser determinante. Isto de gentes em escesso é cousa muito má! Vamos lá então para a raia alentejana! Logo pela manhãzinha tomámos o caminho do Guadiana, com o primeiro troço a ser efectuado pela Via do Infante, onde a primeira surpresa do dia não se fez esperar. Parámos para abastecer de combustível, e o que vemos nós…. a estação de serviço está repleta de camiões apontados a Dakkar! É o milagre, senhores! Ali estão elas, as máquinas mais apetecíveis, numa exposição quase privada, com os intervenientes ao alcance da fala. Fotografamos, ouvimos as conversas. Circulamos sem barreiras, sem ter que pedir licença a mirones concorrentes. Partem uns, chegam outros. Entretanto, na autoestrada, os que não sentem necessidade de abastecer passam literalmente a assobiar. É o som do cardado de pneu todo-o-terreno com o peso de um camião carregado por cima, a uns 120 à hora. Impressiona. Não podemos ficar por ali toda a manhã, e também nós seguimos viagem.



Se os camiões foram observados de bem perto, no percurso que se segue ao final da Via cruzam-se conosco os “carros”. Os bizarros Mitsubishi, que provavelmente vencerão a competição dentro de alguns dias; e outros, mais convencionais. De todas as cores, marcas e nacionalidades. Vêm já marcados pela prova. Alguns, cobertos de lama. Surgem vindos de um nevoeiro que subitamente caiu sobre aquelas paragens. Com o mesmo assobio estranho. Chegamos a um cruzamento e notamos um certo ajuntamento de pessoas. Paramos um pouco, e vimos que era agora a vez das motas. Saem de um caminho de terra batida, talvez terminando alguma classificativa. Afinal, a díficil escolha revelara-se fútil. Viemos cachar e vimos o Lisboa-Strakkar no seu melhor!
Entretanto, a manhã ia avançando. Compreendemos que a jornada se limitaria a uma só cache, a mais prometedora, mas também a que iria tomar-nos mais tempo. Com facilidade chegámos ao ponto de estacionamento recomendado. E lá fomos nós, aventurosos, pelos penedos, afastando-nos da segurança do carro. O dia tinha nascido azul, e ali, no meio alentejano, confirmava-se a excelência climatérica: céu limpo, temperatura amena, fresca, mesmo, a convidar à práctica da marcha. A paisagem cativou de imediato. Talvez a luminosidade revestisse todas aquelas paragens de uma força positiva, mas a verdade é que a ribeira de Chainça encantava.

Mais por inépcia do que por desafio, não seguimos o percurso sugerido. O que nos privou da observação dos calvários assinalados, mas, por outro lado, nos poupou a uma boa parte da caminhada. Por ali andámos, descendo e subindo montes, atravessando a ribeira, que corria dócil, com águas pelo joelho. As coordenadas intercalares foram encontradas sem grandes problemas, mesmo com um certo desvio em relação aos números fornecidos. Na primeira, encontrei um escorpião espanhol (não, não é uma piada, é mesmo assim o nome desta espécie, que também se encontra no Algarve nos anos de maior secura) sob a pedra que estava no ponto zero. A segunda foi simplemente capturada sem luta. E por esta altura estávamos, por assim dizer, no coração do percurso. Já haviamos atravessado a fronteira diversas vezes, de botas na mão e calças arregaçadas. E desatei a pensar em como tudo se tornou simples para nós, filhos de uma época de rara paz e fartura no âmbito maior da História Humana. Ainda há quarenta anos, homens com idade para serem nossos pais ou avós ali andavam. Pisando os mesmos calhaus, olhando as mesmas oliveiras, calcorreando os mesmos trilhos. Mas não era um GPS que carregavam. Eram cargas de dezenas de quilos. E se olhavam para trás, não era para apreciarem a viagem, mas para tentar perceber se aquela não seria a sua última viagem, trespassados que podiam ser a qualquer momento pela bala de Mauser da Guarda, espanhola ou portuguesa. Tempos ao mesmo tempo tão distantes e tão próximos, que carregam uma mística que as gerações vindouras deverão preservar, proporcionando uma sequência adequada à tradição oral que persiste ainda mas que se encontra à margem da extinção. Foi arrepiante percorrer estes caminhos e conseguir por momentos sentir a experiência através de outrém. De repente, estava em meados da década de 30, e urgia sair do campo aberto. Antes que a Guarda carregasse, a cavalo. Podia sentir a clandestinidade da presença proibida naquelas paragens. E foi então que compreendi o significado real daqueles Calvários, que deram o nome a esta cache.

A terceira, proporcionou um dos momentos divertidos do dia: ali estávamos nós, após termos encontrado o contentor. A fome apertava, e decidimos descansar um pouco e despachar umas bolachas e umas laranjas. E ali estávamos nós, quietos, a observar as águas que passavam e um grupo de mulheres que mais à frente lavavam as entranhas de um porco abatido, quando uma delas se começa a dirigir para nós com passo certo. Curiosidade. Será que nos vem dizer qualquer coisa? Mantivémos o olhar preso naquele ponto negro que se aproximava até dar lugar à iamgem clara de uma mulher de meia idade. 100 metros. A criatura estaca. Baixa as calças e agacha-se, sem a percepção da nossa presença. E ali mesmo, alivia-se. Sorrisos. Despachado o assunto, retorna para junto das amigas, e vai a meio caminho quando as outras nos avistam e compreendem tudo. É a gargalhada geral, a chacota. E foi ainda a rir que nos afastámos para a grande final. A coisa parecia ir-se complicar, com o sinal algo fraco. Mas nesse momento, esta vista perspicaz avista um rasto de Manuelis Antunes Sapiens, bem claro, na vegetação. E já se sabe, onde há Manuelis Antunes Sapiens, há caches. Pelo que foi só seguir durante alguns metros aquele esteio e logo a caixa se revelou.
Depois, foi o completar do círculo, o regresso ao cachemobile e o retorno a casa, com uma mais faustosas barrigadas de Geocaching de que há memória. Durante muitos meses, mesmo para cima de um ano, esta Os Calvarios [Mertola] foi apontada como a nossa cache favorita, quando por tal nos perguntavam. Actualmente, com a proliferação de excelentes tesourinhos e com a adição de mais quatrocentas e muitas à nossa experiência de “achadores”, já se torna mais complicado distinguir uma de entre as várias de elevada qualidade que ocuparão sempre um lugar de honra na nossa memória. Mas aquela aventura na fronteira será sempre especial. Até pela trilogia mágica que constituiu: foi a nossa centésima, no primeiro dia do ano, e fomos os primeios a encontrá-la (aliás, no nosso primeiro FTF).
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Algarve – Uma Semana de Julho
O calor aperta, o Geocaching é temporariamente excluido. Entramos naquela altura do ano a que muitos chamam de “bom tempo” e que para mim é o “nunca mais acaba”. São dias horríveis, incomodativos, com temperaturas que retiram toda a vontade de viver. Um passo é um sacríficio. Trabalho corporal é impensável. Logo, sair por ai à procura de tesourinhos perdidos a mais de 20 metros de um carro com ar condicionado, torna-se complicado. Mas há excepções. Se a coisa estiver aqui à mão de semear, pode-se arranjar a coragem necessária para enfrentar a baforada de ar quente que nos agride assim que pomos um pé fora de casa.
Esta semana tive aqui por casa couchsurfers (www.couchsurfing.com); primeiro, um casalinho, constituido por uma islandesa e um inglês; vinham em trânsito, da pequena cidade espanhola onde têm vivido para a Islândia. Depois, um alemão que anda a palmilhar essa Europa à boleia. Por fim, um francês que se veio juntar involuntariamente ao alemão. Como quase sempre sucede, com todos eles fiz geocaching, deixando a semente do papacaches em todos eles. É sempre o mesmo: dá-se uma simples demonstração, é logo perguntar quanto custam os GPSzinhos mais baratos. Alguns, acabam por se tornar mesmo practicantes, registados e activos. Outros nem por isso. Mas já uma mão cheia deles foram recrutados.
Desta feita, com os primeiros, não tive oportunidade de efectivamente procurar caches. Levei-os a algumas aqui muito perto que costumam servir de cobaias para estas coisas, e pronto. Já os segundos, embarcaram conosco numa micro-expedição. De Vilamoura, direitinhos a Espanha, onde a um só tempo fui “buscar” um FTF e adicionar o país vizinho ao meu mapa de “founds”. Parador of Ayamonte foi o destino inicial. As vistas e ambientes não foram na generalidade uma novidade. Mas o ponto onde a cache foi inserida é genial. A perspectiva visual é global, das melhores que se poderiam obter, e o container está colocado de uma forma excelente, garantindo-lhe uma elevada segurança num ponto onde tanta gente vai. É obra! Eu, que não sou rapaz de me dar com espanhóis, não conhecia naturalmente o local. Mas a minha companhia, experiente nestas coisas de cruzar fronteira, também nunca tinha ali ido. É o costume. O Geocaching proporcionou o conhecimento de um belo local que de outra forma permaneceria na penumbra.

Já em Portugal, fomos ao segundo FTF do dia, em Santa Rita [Tavira]. Trata-se de uma multi-cache simples, de resolução fácil e esforço físico reduzido, mesmo num dia quente de verão. O que é bom. Todas as medidas foram tomadas pelo criador deste desafio para que ninguém saia daquelas paragens de mãos a abanar, ou seja, sem encontrar a dita cache. O que é igualmente bom. Multi-cache clara, sem margem para dúvidas, com duas soluções alternativas, e uma dica clara. A sua descoberta ficou a cargo das minhas visitas. Dei-lhes o GPS para as mãos e deixei-os gozar por inteiro a maravilhosa sensação do achado. E que apreciado foi !

Hoje, Quarta-feira, com o meu feudo já por minha inteira conta, foi tempo de recuperar forças, descontrair, usufruir de uma intimidade perdida nos recentes dias. Ao fim da tarde o tédio já se tinha tornado insuportável. E, entre a indecisão de me deixar cair nos braços da inércia e me manter por aqui a desempenhar as inutilidades costumeiras, e a possibilidade de aderir à ideia de procurar a cache Seaside Paradise, a balança acabou de pender para a segunda possibilidade.
Já pouco faltava para o pôr-de-sol quando sai de casa. o que não seria um problema dada a curta distância até às coordenadas da cache. Por esta hora a temperatura já é um pouco mais suave. Fui de moto 4, devagar, apreciando o fresco sopro do vento. Complicado foi encontrar um acesso à cache. Passo para cima, passo para baixo. Nada. Por todo o lado há “Propriedade Privada”, “Acesso Restricto”. É o símbolo do Algarve que não suporto. Ou o que suporto ainda pior que o resto. Por fim, desisto, e vou até à praia. Felizmente a maré está baixa e aventuro-me pelo areal. Se estivesse cheia, este teria sido um Not Found. Encontro um bom acesso e trepo um pouco. Acabo por encontrar o container no pior local possível: aquele pedaço que qualquer pessoa que passe na praia consegue ver. Não gosto mesmo nada de caches que não têm uma dica que facilite as coisas. Hoje, tive sorte. Encontrei rapidamente, mas poderia não ter corrido tão bem, porque no raio aceitável de desvio havia milhentas possibilidades.
Na volta, enquanto caminhava pela praia, apreciei os aromas de verão, que me levaram até tempos em que suportava melhor o calor. Olhei o astro-rei. Tinha pensado em gozar o pôr-do-sol sobre o mar. Tolinho. Nesta terra do Sul não há cá nada disso, que o poente é a este e para esse lado só há terra. Voltei já a noite caia. Foi um finalzinho de tarde agradável, a fechar uma das raras semanas de geocaching local.
Um muito longo P.S. – Pensava eu que a semana ficava por aqui. Isso era se não andasse por ai um Prodrive a desafiar. Pronto, foi assim…. desafiei-o eu, afinal. Encontrámo-nos no cafezinho (caraças de bordel aquele, com aspecto de santa tasca de província, um gajo pede descuidadamente uma sandes mista – péssima – acompanhada de dois Ice Teas e uma água… dá cá quase €7. Apre!!!) no sopé da Rocha da Pena. Quer dizer. Na realidade já à saida de Salir, passe a fonética redundância, tinha o chato atrás de mim no seu Audi. E portanto, dizia eu, lá estivémos um bocado à conversa no café com ares de esplanada na marina de Vilamoura, até que decidimos ir à cata de Rocha Rock. Uma microcache no meio do campo? Cheira desde logo a esturro. Depois, o fumo adensa-se quando se verifica que se encontra a apenas 260 m de uma outra cache, já existente, e que não traz absolutamente nada de novo. Como cereja em cima do bolo, foi criada por um viajante, que deverá ter alegado que a prima ou o amigo vive mesmo ali ao lado e fará a manutenção. Um presseposto “legal” cujos resultados, como se tem visto na práctica são nulos. O Prodrive e o Jr arrancaram a pé uns segundos antes. Segui-os na Moto 4 com um amigo do Jr. à pendura. Quando cheguei a eles já tinham o cilindro na mão. Pelo menos não nos fez perder tempo.
Mais uma sessão de conversata, e o espectro do rolo da massa pairava sobre a nuca do Prodrive, que, mesmo assim, com tão séria ameaça, aceitou ainda o desafio de nos irmos à que prometia ser o prato principal deste finalzinho de tarde agradável: Cerro dos Negros. Onde ele ficava sabia eu. É o enorme monte que parece velar Salir, vítima de um sinistro incêndio no ido ano de 2003, que o despiu, tornando-o numa sombra da colina verde que era. Já chegar lá seria outra fruta. O batedor, elemento provido da viatura de todo o terreno, ou seja, eu, aventurou-se em todos os trilhos que aparentavam orientar-se na direcção correcta, concordantes com o ponteirinho do GPS. Tentou-se o primeiro… após algumas centenas de metros, afastava-se, serpenteando para os lados da localidade; o segundo revelou-se logo uma falsa aposta… logo ali estreitava, de tal forma que tive que o descer às arrecuas, uma manobra sempre complicada e arriscada, sobretudo com ângulos deste tipo. O terceiro, por fim, revelou-se o correcto. Cheguei ao topo! Fabuloso! Voltei abaixo, para levar as boas-novas aos outros. O Prodrive ainda tentou subir a primeira rampa, para poupar alguma trabalheira ao grupo. Mas foi complicado e ali ficou o carro, quase no topo, mas sem poder mexer-se sem mais um metro. Apiedei-me então deles, e a Bombardier transformou-se na “carrêra” das 8. Vai para cima? Faça favor de se acomodar. O primeiro cliente foi o Prodrive, com os seus 85 kg, que juntos aos meus, se constituiam já como um bom desafio ao motor de 400 cc. Mas a coisa correu bem. Deixei o passageiro lá em cima, vi, abaixo buscar os outros dois, a uma assentada. De novo para cima. Claro, o lobo já se tinha ido ao cordeiro, que jazia esventrado a um canto. Ficámos por ali ainda um bocado a apreciar o sol que se punha por trás das serranias. Para baixo, que é sempre muito mais complicado, levei apenas um dos ligeirinhos. Os outros foram a pé, até porque para o peão se aplica o princípio inverso: a descer todos os santos ajudam.


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Operação Verde Minho – Dia 1
O dia começou por volta das 9:00. Primeira paragem: No Paço do Terreiro [Lisboa]. Trata-se de mais uma cache numa zona da cidade já ricamente povoada, mas nem por isso está a mais. Quem não quer lidar com transportes públicos fará bem em ir até lá num dia de fim-de-semana logo pela manhã. Estacionar sem espinhas é luxo raro na baixa lisboeta, mas foi o que sucedeu nesta solarenga manhã. Breve caminhada até à bemposta praça e, depois de um olhar em redor para perceber em que direcção o GPS apontava, mais uns quantos passos. A cerca de trinta metros tinha o olhar fixo no container. Os muggles em redor, como é suposto suceder em tais circunstâncias, não se interessaram pelos movimentos desta figurinha. Tenho lido nos logs desta cache sobre as dificuldades colocadas pela presença de pessoas. Ali, não reconheço que este factor seja um problema. É a grande cidade, selva urbana, no seu esplendor, expoente máximo de um urbanismo cruel, que rouba identidades. Aqui, as pessoas são transparentes. Ninguém se interessa se um maluco qualquer fizer algo estranho. E até não é assim tão bizarro, o que esta cache exige. Portanto, atalhando conversa, esta não foi a cache mais rápida que já fiz, porque num outro caso detectei o container com a mesma celeridade… só que ia em passo de corrida. Gostei desta criação do Team Hulkman, que revela uma maturidade na criação de caches urbanas e honra um dos pontos nobres da nossa cidade com um tesourinho.

Seguimos a linha ribeirinha, ao encontro do desafio seguinte. Quando era pequeninito, costumava passar férias no Guincho. Daquelas férias que, com o sentido de tempo único que as crianças têm, pareciam durar um ano. O caminho fazia-se pela Marginal, e os meus olhos, ansiosos de informação, observavam aqueles fortes. Eram uma mão cheia deles, e registava-os a todos na memória, escutando as conversas dos adultos, que falavam de uma tal prisão de Caxias, e, durante muitos anos, acreditei que esta se encontrava estabelecida numa das edificações pintadas de amarelo ocre que se debruçavam sobre as arribas. Foi portanto com interesse que me aproximei desta cachada, apesar de logo me ter apercebido que este não se encontrava entre o rol de fortes que me intrigava e que marcou um canto da minha memória da Marginal. Parqueada a viatura, não foi complicado chegar até à área a bater. Procura para cima, procura para baixo. E aparece um muggle no topo da arriba. Coisa estranha, dada a natureza do local e a hora matinal. Pára a pesquisa, trepo, porque deixei a mochila com bens preciosos lá em cima. Quando chego, não o vejo. Puxo a bagagem mais para baixo e reata-se a procura. Passado um pouco, ali está ele outra vez, espreitando. Rapaz novo, de boné preto e óculos escuros. Todo muito “tunning”. Mas desaparece uma segunda vez, e de bom augúrio foi, porque logo após a danadinha foi encontrada. Uma boa cache, estrategicamente localizada, oferecendo um desafio razoável e mostrando um bocadinho interessante de Portugal. Ah! O link: Fontainhas “micro” Beach [Oeiras].



A cidade de Oeiras fica mesmo ali ao lado, e foi o nosso destino seguinte. Cascata dos Poetas [Oeiras] foi uma bela surpresa. Arriscámos muito, deixámos o TomTom decidir o percurso para chegar à cache. Em determinado momento não quisemos abusar da sorte e, estando a uns meros duzentos metros do ponto de parqueamento recomendado, encostámos. O recinto, já o estávamos a ver. Encontrar a entrada é que poderia ser um desafio, que afinal veio a ser solucionado com rara facilidade, por um muggle com o falar arrastado e os olhos inflamados a insinuar um estatuto de ganzado profissional. Fumasse lá o que fumasse, deu as indicações correctas, e logo nos vimos da parte de dentro. Ali, montava-se um espectáculo. Rapaziada técnica andava em azáfama, extendendo cabos, testando equipamento de som. Ficámos a saber à saída que uma das figuras maiores da música portuguesa contemporânea, Teresa Salgueiro, actuaria no local mais ao serão. Mas para já concentremo-nos na cache. Que gostei bastante, pela surpresa do local. Que bizarro, que inesperado. Belo jardim, cenário perfeito de filmes de outros tempos. Muito fotogénico. Uma pena que pela natureza da cachada estivesse limitado à câmara de bolso. O container apareceu rapidamente, mercê de uma dica sensata, que não deixa margem para dúvidas. Bem colocada, deixando o geocacher ao abrigo da mugglaria comum, mesmo em dias de muito movimento.
As duas caches seguintes foram colocadas pelo mesmo dono. Ou donos, que isto de ser team implica um estatuto plural. Não há nada a fazer, não sou compatível com o estilo de esconder dos Golden Team. Por mais voltas que dê à cabeça, não imagino o que leva um owner a colocar caches em locais movimentados (eu disse movimentados? Não… movimentadissimos!) sem um local evidente e, pior ainda, sem uma dica. Será o gosto por ver desaparecer as suas caches? Porque na realidade, incentivar uns malucos a executar as suas momices à vista de todos, é o mesmo que dizer que se pretende que todos se sintam curiosos pelo local, pelas actividades estranhas, e, em última instância, por aquela caixinha que o senhor estranho foi buscar às escondidas. Ora quer GT Oeiras Park e GT Carcavelos Beach estão mesmo a pedi-las. São expostas, com audiência garantida, especialmente no segundo caso. E, não sendo propriamente simples, têm garantidos longos minutos de actividades suspeitas por cada “found”. Em média, claro. A segunda, até já a tinha procurado há uns tempos. Caiu à segunda. Mas apenas porque hoje levava uma dica. Aquela dica que deveria ser dada desde logo e não o é.
Fizemos depois um pequeno desvio, até à Vila Romana de Freiria [São Domingos de Rana]. O carro foi muito maltratado, coitadinho, no acesso ao local da cache. Não deve ter gostado, e nós também não. Vista nas fotografias a Vila Romana parece ser interessante. Mas como no local não há vistas, fica a cache, que per se não tem interesse em absoluto. Há contudo que tirar o chapéu à mestria do esconderijo, que a oculta de olhares indesejáveis sem complicar em demasia a vida ao geocacher… apesar de alguns testemunhos em sentido contrário.
M.A.N. – Movimento Anti Nós [Estoril] é uma cache obviamente diferente, pela criatividade colocada na sua apresentação. Neste ponto, aconselho todos os que não tiveram oportunidade de o ver, de clickar ali no linkzinho e a dar uma vista de olhos, porque vale a pena. Chegar até à zona da cache a partir da anterior foi uma brincadeira de crianças graças à ajuda inestimável da Catarina. Perdidos por mil e uma ruas, não sei quantos cruzamentos depois, uma série infindável de semáforos após chegámos a um ponto que talvez fosse o de estacionamento, ou não. Mas dada a curta distância à cache, foi ali que o carrito ficou. Subimos uma rampa e demos conosco no meio de um green de golf. Um par de homens de taco na mão olham-nos com desconfiança. Divididos entre a vontade de atalhar pelo percurso mais evidente, bem pelo meio da relva do campo, e o receio de sermos brindados com umas valentes bordoadas daqueles resplandecentes tacos, optámos pela via mais radical: desafiando a falta de hospitalidade dos golfistas lá fomos, para logo depois sairmos da área “proibida” e entrar pela mata. Chegar à cache foi mais simples do que se poderia pensar e encontrar o container foi “caldo de galinha”. A volta foi apenas um pouco facilitada pelo reconhecimento do terreno proporcionado à ida, e ainda deu para ver um lagartão que mais parecia uma iguana e nos cruzarmos com uma enorme família britânica que ia ao golf.

Estando no Estoril, o objectivo seguinte era a trilogia Oliveira, ali para as falésias do cabo da Roca. Via Malveira da Serra foi um instantinho. E com duas pessoas a navegação torna-se mais simples. Enquanto um conduz, o outro vai ajustando o Google Earth no laptop, e não há acesso adequado que escape. A cache do Roger [Orion's Belt] foi a primeira a cair, e local previamente eleito para o piquenique almoçadeiro. Ainda é um saltinho entre o ponto em que o mortal dos cidadãos deixará o cachemobile e a cache. A linha recta engana um bocado, porque o zigzag para baixo está lá. E lá iamos nós, trilho abaixo. quando o meu companheiro de expedição exprime uma loucura premonitória: “- o que calhava bem agora era um Geocacher de cachemobile TT que passasse ai e nos desse boleia”. Ora não tinha ainda passado dois minutos antes desta previsão alucinada, quando ouvimos o barulho inconfundível de um rodado a resvalar no leito pedregoso do caminho. Afinal não eram geocachers, nem nos deram boleia (também, não pedimos). E ainda bem! Porque o surrealismo personificado em condutor passou por nós a assoprar. Num caminho onde rolar a 10 km/h seria exagerado, passa por nós uma pickup largada bem a 30 km/h, a tempos quase desgarrada pela falésia abaixo, por momentos com duas rodas no ar, a saltar, a bater nos socalcos. Uma visão incrível, única, e com aspecto de se repetir todos os dias. Acabámos por chegar, ainda mal acreditando que o veículo tinha logrado terminar o percurso em segurança. O ponto final é um assombro, com mais uma daquelas vistas para as águas cristalinas, com rochas a fazer lembrar o postalito de Lagos, e com dois brindes: a ruína que se encontra mesmo antes da cache e, lá mais abaixo, as cabanas dos pescadores, activas e bem activas, onde ao espreitar notámos uma pequena reunião para ai com uns oito homens. Na água, bem perto das falésias, evoluia uma minúscula embarcação, na faina que se crê ser de todos os dias. Ali ficámos sentados, a disfrutar das sandes mirabulantes que a minha companhia havia preparado, já com a bem dissimulada cache ali no chão, à beira, aguardando pelo fim de refeição para receber as merecidas atenção. Logbook assinado, container devolvido ao abrigo, e agora é que são elas, que subir não é o mesmo que descer. Iamos a meio do momento mais extenuante da jornada quando começamos a ouvir: “nhic, nhic, nhic”. E pronto. Já não bastava a pickup enlouquecida, agora era uma moto 4 de trabalho que vinha por ali abaixo, numa velocidade bem mais moderada, apesar de ter outras capacidades bem mais adequadas para a função. Extremamente movimentada, a “estrada”, hoje!

A ideia era passar para a cache seguinte da trilogia família Oliveira, mas a consulta ao Google Earth não foi célere e acabámos por parar inadvertidamente nas proximidades da que seria a última, segunda a ordem natural da geografia: Mother’s cache [Milky Way]. Esta dilui-se um pouco nas semelhanças com Duarte’s cache [Alpha Centauri]. As vistas são basicamente as mesmas, o terreno é semelhante. Enfim, valem pela passeata. A segunda, mais complicadota de encontrar o container. Mas mais por azar: de todos os locais possíveis das redondezas, aquele em que a caixinha se abrigava deve ter sido o último a ser visitado.

Ainda naquela zona, procurámos Ursa [Sintra]. Aquilo que seria uma caminhada ainda considerável atalhou-se para uma quarta parte da distância graças à teimosia do meu companheiro de caçada, dono de um pobre cachemobile. Enterrou-nos lá por uns caminhos, contra todos os conselhos do grilo falante de serviço, este que vos escreve, e só se ouviam as silvas a divertirem-se com a pintura azul metalizada da chapa. Eu, já só tapava os olhos e dizia “- Tirem-me deste filme que este gajo é maluco.” Bom, quanto à cache, recomenda-se. Representa mais um passeio bem junto ao magno oceano que banha a costa ocidental portuguesa, imponente, azul, aromático. As gaivotas circundam, nervosas. Talvez estejamos demasiado perto dos seus ninhos, que contudo parecem estar concentrados nos dois enormes rochedos que se eguem a algumas dezenas de metros da costa. Ali sim, é que deveria estar uma cache, para homens de barba rija a sério. Quanto a esta, chegados ao local, deixou-se descobrir sem delongas.

Perto da Praia Grande, visitámos duas caches a um só tempo: GT Dino’s Lunch Box e DP/EC-Footprints in the sand. A primeira, daquelas a sério, como quase todas, com uma caixinha para encontrar e livro a assinar. Encontrada com facilidade depois de uma muitissimo agradável caminhada por caminhos de areia, quase ao lusco-fusco, num percurso repleto de aromas que penetram a mente, libertando recordações associadas. Férias, de outros tempos, namoricos e catrapiscos, aventura e… nostalgia. A segunda, é para mandar eMail ao owner com a resposta correcta à questão colocada no enunciado. A fazer lembrar os tempos das caches virtuais, não muito populares em Portugal, mas cuja existência passada é ainda recordada abundantemente noutras comunidades geocachers da Europa. Ali sim, vimos as pegadas. Nem de outra forma poderia ser, pois sem a observação atenta, não se poderia dar a cache como encontrada. Um local duplamente interessante, com vistas priviligiadas sobre a Praia Grande, que por acaso nunca foi sitio que frequentasse, mas deve dizer muito a uma multidão de boa gente. Entretanto, o meu companheiro, geógrafo de serviço, que pelas suas credenciais estava encarregue de solucionar a charada das pegadas, entra em êxtase. Isto de levar um surfista de tempos livres a sítios com vista para o mar pode ser perigoso. Em vez de ouvir a desejada solução para o problema, só ouvia comentários às ondas e aos pontinhos negros que ao longe evoluiam nas suas cristas. Cheguei a pensar empurrar o tratante falésia abaixo, mas salvou-se a tempo, cantando a necessária direcção da marcha da bicharada pré-histórica.


Quase para o fim da jornada, deixámos o prato principal: Peninha e sobretudo kit sobrevivencia-peninha. A primeira demorou a aparecer. Vista, nem vê-la. De resto, não teria sido necessário vir a esta cache para gozar do deslumbrante panorama que da Peninha se avista em dias de calmaria. Por isso, parece-me altamente redundante e de todo desnecessário, tendo em conta a existência de mais duas caches, que por si, já quase colidem. Já a segunda, anunciava-se de desafio atrevido. Ao ler todos aqueles logs, atemorizei-me. Sou rapaz ajuizado, respeitador de perigos. Sou assim mesmo. Já a malta das Moto 4 me acha um chato. Passo o dia a queixar-me das imprudências, a dar negas aos desafios inconscientes que me lançam. De tal forma que já desisti de sair com eles para a montanha. Ora por isso mesmo, já vinha com pouca disposição de procurar efectivamente esta cache. “Outros que arrisquem quebrar o pescoço”, ia eu pensando. Mas, claro, tinha que dar uma vista de olhos, avaliar eu próprio o terreno. As condições climáticas eram adversas: nevoeiro e muito vento. Mas… foi um caso de chegar, ir lá, recolher o container e assinar o logbook. Sem espinhas. O meu colega, mais atrevidote, escolheu uma abordagem diferente. Foi até à base da “parede” e correu por ali acima, feito homem-aranha. Eu, optei por uma aproximação norte-sul, sem grandes problemas.
A ida à Peninha foi complementada com um brinde-surpresa: no local rodava-se um filme. O parqueamento estava cheio de estruturas temporárias, e quando deixávamos o local toda a equipa iniciava o jantar num enorme refeitório-tenda. Ali perto, entre as árvores, os supostos enforcados pendiam, sinistros, já mergulhados nas trevas anunciadas.
De volta a Lisboa, onde a minha boleia teve a gentileza de me largar, ainda fomos a O Segredo, o que se constitui como uma dupla excepção nos meus padrões de actuação enquanto geocacher. Primeiro, porque era já de noite, e não me agrada practicar o jogo sem usufruir em pleno da experiência visual que só a luz diurna oferece. Segunda, porque se trata de uma cache com charada, coisa que em absoluto não faço. Mas como a minha companhia já tinha resolvido o enigma, e visto que tanto insistiu para a irmos tentar, acedi. E ainda bem, porque soube mesmo bem. Terei que respeitar o espírito da cache e ficar-me por aqui. Que pena não ser uma cache normal, sem tretas para descobrir.
E sabem que mais? A Operação Verde Minho acabou aqui. No dia seguinte, dirigi-me ao balcão da Budget para levantar o carro que tinha reservado para a viagem para norte. Nada de reserva. Algum incompetente trocou tudo, voltei para trás. Game Over.
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Operação Verde Minho – Dia 0
Antes de mais, note-se que passei a adoptar uma designação diferente para estas expedições de Geocaching. Os Tours já eram. Um bocado larilas. O meu passado militar falou mais forte. Doravante, serão “operações”. E mai nada. Esta, é uma grande misturada. É que tive que vir a Lisboa pedir uns papéis, e como eram precisos dois dias úteis para mos aviarem, e já que tava aqui, olha, decidi ir até ao Minho, que é mesmo aqui ao lado, pois então. Mas isso será viagem para Domingo. Portanto, hoje, aquecimento. Amanhã, arranque… e a seguir logo se verá.
Depois de tratar das burocracias, fui até à zona da Expo procurar Vasco da Gama [Lisboa]. Coisa fácil, em conformidade com a classificação mínima atribuida pelo owner. É daquelas caches que terá o seu interesse para o viajante, mas a rapaziada da zona fará por fazer. Na cidade de Lisboa, apenas um par de caches me surpreendeu, e esta, naturalmente, não foi uma delas.
Encontrado o container, assinado o log sobre uma relva quase ortopédica, foi a cache devolvida ao seu local devido, e parti para uma saladinha ali à frente, no Vasco da Gama. Um interlúdio justo num dia quente, antes da marcha “forçada” até Santo Eugenio [Olivais]. Pelo caminho passei em locais que me tocaram subtilmente no passado. Mas mais do que isso, senti a presença dos fantasmas de outros. Os Olivais tiveram o seu tempo. Foi, por coincidência, o meu. Mas espacialmente deslocado. Mesmo assim, cruzei-me pontualmente com esta realidade paralela. De forma que hoje, andando por aquelas ruas, consegui imaginar… quantas emoções vividas ali. Já vejo naquele pequeno jardim, a paixão declarada, a felicidade da correspondência, a juventude e os sonhos escondidos. Quantos corações bateram por ali, quanta naifada, cabeçada e sangue derramado. Quantas noitadas que acabaram acolá, escadas subidas aos tombos, vómito derramado, amargo, de cerveja. Esperanças perdidas, tontarias arrasadoras. Tanta vida, tanta energia, tantos passados, memórias de outros que sinto como minhas. E hoje, ao passar, são prédios velhos, com idosos e outros, todos de ar triste.
Agora passo à piscina dos Olivais. Foi ali que aprendi a apanhar e dar, semear negrume nos olhos, saborear o sangue na boca, em duros serões, treinos sérios de full-contact. Uns anos depois voltei ao local, para encontrar a Angelina sueca, afinal portuguesa de gema, uma presença feminina que ficou na lembrança, ainda hoje capaz de despertar um sorriso. E de repente, estou ali, no bairro da Encarnação. E para contar o papel do local no meu passado, é preciso recuar à grande festa de fim de ano, o último do liceu. Tudo organizado para se celebrar na Alfama do S. João, dia que ironicamente se comemorou ontem mesmo. A turma, ou melhor, a metade da “pesada”, seguiu em peso. Por ali se bailou e bebeu, riu e beijou, escadinhas acima e abaixo, experimentando os néctares de mil capelinhas. E então, ela apareceu: Paleta. Nem sei de onde veio, quem a trouxe. Mas o que não esquecerei é que quando o dia acordou, estávamos ainda juntos, sentados, no Rossio, à espera do primeiro autocarro. Uns dias depois, o primeiro encontro…. e onde… ? Na Encarnação. Foi uma noite “selvagem”. Naquele mesmo jardim onde hoje andei a contar bancos, reunimo-nos. Eu, a Paleta e o seu gang. Amigos, muito amigos, um grupo com ligações fortes. E por ali andámos, roubámos fruta, fugimos em apressada correria. Partilhámos passados, tão curtos mas tão ricos, naquela idade. Depois desse serão, não tornei a vê-la. Nem sei porquê. Mas dedico a descoberta dessa cache à recordação da doce Paleta.
Voltando à realidade. Não seria eu se não tivesse metido água nas contas. Os elementos até estavam certos, mas a matemática foi madrasta. À segunda verificação o local já fazia mais sentido, e lá estava o container, encontrado sem qualquer compasso de espera. Reformados, aquela hora, apenas algumas presenças em deslocação. Abençoei a minha decisão estratégica, tomada após a leitura atenta dos anteriores logs: pelas 20:30 o dia estava ainda em pleno, mas as pessoas já tinham partido. Apenas um grupo de jovens que se entretinham com um qualquer jogo me preocuparam, mas depois de obter a coordenada correcta, ficou claro que estaria fora do seu campo de visão. Uma cache bem formulada, escondida de forma sensata. A eventual existência de muggles é um risco com o qual o geocacher tem que conviver.
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Castro Marim

Não é todos os dias que saimos de casa para procurar uma cache. Porque isto de periferias tem os seus problemas, e um deles é o esgotamento de recursos. De Beja para cá contam-se pelos dedos das mãos as caches ainda por serem encontradas. Portanto, se a situação é de cachada relativamente local, mais do que um objectivo é uma infinidade.
Para a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim convidámos a Kitiara, que recolhemos em Cabanas de Tavira. Depois, foi mais um bocadinho até chegar à zona de Castro Marim. O acesso à zona da cache foi antecipado, e entrámos por um caminho inconsequente, que teve a enorme vantagem de nos permitir avistar uma sempre rara lontra, que nadava nas águas do sapal. Invertendo a marcha, regressámos ao alcatrão, para logo depois sair pelo caminho correcto. Parqueado o carro, depressa alcançámos a cache, que encontrámos sem incidentes. Durante todo o tempo que permanecemos na área, não avistámos um só muggle. Tranquilidade absoluta. Por ali ficámos uma boa meia-hora, estirados nos bancos, à conversa, a disfrutar do sol tépido, enquanto iamos observando a passarada que abunda em todas aquelas paragens.


Ainda démos um pequeno passeio a pé, de regresso ao cachemobil. Para fechar a tarde em grande parámos em Cacela Velha. É um lugar que de facto merece uma cache, e muito me surpreende que ainda ninguém se tenha chegado à frente nesse sentido. Mas isso agora não interessa para nada. O que quero partilhar com vocês é o magnífico local de morfos que encontrámos. Para ser sincero iamos a uma imperial. Mas depois de nos sentarmos naquela esplanada, tão castiça, tão bem composta, deu-nos a vontade do petisco. E vai dai, uma dose de conquilhas por €6, um chouriço por €5. E dos bons. Quer dizer. Os molúscos estavam à maneira, e o chouriço, assado à mesa, simplesmente delicioso. Claro que a ementa tem muitos outros petiscos. Ah! E as bebidas são também em conta: imperial a €1, Casal Garcia de 0,75 a €5,50. Muito recomendável, tudo isto! As coordenadas: N 37º 09.425 W 007º 32.771. E não digam que vão daqui.



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Tour Templários 2007 – Dia 5
No dia da partida, teve que se arranjar um tempinho para um desvio muito especial, mesmo à saída de Abrantes: S. Miguel do Rio Torto 3 (Abrantes) . Na véspera, já quase noitinha, estivémos ali com o Sal, mas não tinhamos a coordenada exacta conosco e a coisa complicou-se. Fomos forçados a desistir. Já hoje, com a localização determinada, foi chegar e encontrar. E o mais irónico é que no dia anterior um de nós tinha tocado naquela pedra e até estranhado um som a oco, até a sua atenção ter sido distraida por outra coisa. Bom. Vir do Algarve aqui para fazer um FTF é obra, mas foi o que sucedeu.

A viagem para sul foi feita com alguma pressão. Era necessário chegar a casa antes das 15:00h, o que não permitia mais cachadas. Contudo, dada a sua especificidade geográfica, conseguimos procurar e encontrar Ponte Romana de Vila Formosa. Uma bela cache, que nos mostra um monumento em magnífico estado de conservação. O container encontra-se localizado no melhor ponto para a observação da ponte. É incrível como um elemento deste tipo não está ainda protegido da utilização comum por parte do trânsito automóvel. Uma nota curiosa: mesmo ali ao pé encontra-se uma colónia enorme de coelhos. É toca atrás de toca, e cheguei mesmo a pisar um desses animaizinhos, que, provavelmente agachado, procuracva passar despercebido. Claro que quando inadvertidamente lhe toquei, arrancou a correr. Um espectáculo! E pronto, assim foi concluido o Tour Templários 2007.
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