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Archive for Maio, 2007

Nota Preliminar: A experiência relatada neste texto foi vivida há algum tempo, durante a visita à cache Bela Vista – Lisboa

A minha infância foi toda ela passada em Alvalade, que, como os geocachers lisboetas bem saberão, não é nada longe da Bela Vista.

A partir de 1974, com o refluxo dos portugueses estabelecidos em África que retornaram à metrópole, estabeleceram-se, numa cintura que teria o meu bairro como epicentro, uma série de zonas degradadas, habitadas por uma juventude muito pouco recomendável para a nossa rapaziada. 

Por essa altura frequentava eu a Escola Preparatória Almirante Gago Coutinho, localizada no bairro de vivendas que se estendia até à avenida com o mesmo nome, zona já muito próxima da actual Bela Vista. Não sei se na altura o nome era o mesmo. Provavelmente. Mas para nós, habitantes da boa Alvalade, o morro que entretanto foi rasgado para dar lugar à via que leva até à zona da Expo era a fronteira. Terra de ninguém, cercada de mitos obscuros. Era uma sombra, que olhávamos de longe, num misto de receio e curiosidade. Que gentes viveriam para trás daquela linha imaginária, para além da “ciganada” que descia à cidade para nos causar problemas? O que existiria nas terras do além? Por espantoso que pareça, foram precisos mais de vinte anos para que estas questões tivessem uma resposta.

O tempo foi passando e, por falta de oportunidade ou de curiosidade, nunca esclareci estas dúvidas. Uns anos mais tarde, já jovem adulto, ao frequentar a Escola Secundária de Olivais – Chelas, tive uma percepção vaga da localização relativa da Bela Vista. Mas só com o advento do Geocaching e com a noção espacial que ferramentas como o Google Earth oferecem é que compreendi inteiramente o que se encontrava para além do cerro “negro”.

Mais tarde, já depois de encontrada esta cache, o meu irmão mais velho ainda me contou algumas das suas expedições pelos campos daquelas paragens, que na sua meninice eram apenas isso… campos, cheios de aventuras e pretextos de brincadeiras. Mas isso são outras estórias.

Quando em Outubro de 2006 parti em busca desta cache, não carregava nenhuma expectativa. Era apenas mais uma operação de procura. Mas as coisas depressa tomaram outro rumo. As condições climatéricas eram perfeitas para a práctica do Geocaching, com o céu limpo e tempo fresco. Fui de Metro. Nunca tinha usado a “linha vermelha”. Tudo era novo. Encontrada a entrada do parque, desde logo foi notada a ausência de presença humana. Apesar da linda tarde, não se via vivalma, e o ambiente chegou a ser perturbador. Encontrado o primeiro ponto, a caminhada prosseguiu. E foi então, chegado ao cume, que se libertou toda aquela energia que só uma cache especial encerra. De repente, todas aquelas interrogações se desvaneceram. Dali de cima avistavam-se as referências maiores de uma juventude distante, para a qual aquele morro tanto tinha significado. Finalmente via o mundo com os outros olhos, os olhos do lado de lá. Era então dali que o “inimigo” nos observava. Ali estava, aos meus pés, toda  a “minha” Alvalade. A Dom Rodrigo da Cunha… mais adiante, a Igreja, e depois os edíficios mais altos, da Praça de Santo António e do Largo da Estados Unidos da América. Pelo meio, uma massa de telhados de difícil identificação. Um deles, provavelmente, o que foi meu, durante três décadas. Mas as maravilhas não se esgotavam naquele ângulo. Para o outro lado, o rio, o enorme Tejo, e os bairros desfavorecidos de Chelas e afins. Ali tão perto, ao alcance da mão. E pensar que, contando dezoito anitos, me senti como que enviado para o degredo quando me foi comunicado que teria que abandonar o doce Liceu Rainha Dona Leonor, no conforto do topo da minha rua, para rumar à distante e nebulosa Chelas…. para terminar, o aeroporto, em todo o seu esplendor. Que vista sobre a longa pista. Um ponto estratégico para os amantes da aeronáutica. E, acordado deste sonho, quando caminhava em direcção à saida do parque, ia pensando em todas as experiências adiadas anos a fio, que o Geocaching tinha precipitado, tal caixa de Pandora aberta. O Metro, esse ficou para trás. Quem precisa do metropolitano para chegar a Alvalade, agora que os mistérios do espaço se desvaneceram… ? 

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Foi no mês de Fevereiro de 2006 que tomámos contacto com verdejante Irlanda, terra de Guiness, de mar, de gentes hospitaleiras e… de muitas caches. Durante uma semana, ter-se-á celebrado a nossa chegada a terras de Sin Féinn (“nós mesmos” em gaélico) e fez-se sol! Bom, não terá sido bem assim, mas o milagre ocorreu na mesma: durante sete longos dias, não caiu uma gota de chuva, o que é algo único, sobretudo para um Fevereiro. Vim a saber, já na despedida, que se tratara da semana mais seca dos últimos 40 anos. 

Quem chega ao aeroporto de Dublin, poderá desde logo partir à descoberta de umas quantas caches, que se encontram num raio que se alcança com uma breve caminhada. No nosso caso, aguardando o vôo de ligação para Cork, onde iriamos ficar os primeiros quatro dias, aproveitámos para matar esse tempo morto encontrando duas caches e um irlandês. A primeira, Dublin Airport Bug Hotel, encontra-se nas imediações de um pequeno cemitério de outros tempos, descoberto recentemente, e que nos apresenta desde logo uma série de míticas cruzes celtas. Um pouco mais afastada, uma multi-cache simples,  Swords Castle, onde topei logo um senhor já com uma idade muito repseitável, que anotava qualquer coisa numas folhas impressas a partir do website Geocaching.com. Meti conversa, ficámos por ali no paleio por um bocado, e partimos juntos à descoberta do contentor. A pesquisa foi complicada, o relógio corria célere, e o nosso bom “anfitrião” viu-se na contingência de recorrer a uma sessão de helpdesk directa ao owner, mas que se revelou estéril. Já para além da hora limite de iniciarmos o caminho de retorno, finalmente o nosso amigo detectou a malfadada cache. Sim, leu bem: “para além da hora limite”. Teremos perdido o avião? Não. Isto graças ao nosso improviado guia, que enquanto nos conduzia ao aeroporto no seu confortável carro, nos explicava ódios antigos dos irlandeses e muitas pequenas histórias que absorvemos com sofreguidão.

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Um pequeno cemitério

Depois desta primeira experiência, percorremos o “countryside” do sudoeste irlandês à cata de muitos outros troféus. A extensa linha de costa é muito utilizada para a colocação de “tesouros”, mas as áreas montanhosas encontram-se também recheadas de caches. Devemos agradecer ao Geocaching a visita a um círculo de pedras (Drombeg Stone Circle), a fazer lembrar o lendário Stonehenge, mas com a magia a ser elevada pelo total isolamento. Naquele dia, éramos nós e a neblina, que abraçava os vestígios de milenar presença humana. Conhecemos a fenomenal praia de Inch (Dingle Dangle), num dia com uma luz única, a evocar o que no nosso imaginário é associado a aparições divinas. Fomos também conduzidos à pacata vila de Baltimore, onde um “beacon” (Beacon Point ) assinala a entrada de uma barra, tendo-se convertido um dos marcos turísticos daquela remota região.

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Um ambiente de misticismo no círculo de pedras de Drombeg

 

 

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O beacon de Baltimore, com uma cache mesmo ao lado
 

 

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A praia de Inch

 

Após a fase rural da visita, mudámo-nos para Dublin, onde naturalmente nos atarefámos na perseguição aos contentores. Trata-se de uma cidade medianamente servida de caches, com uma densidade talvez ligeiramente superior à de Lisboa, pelo menos na data em que a visitámos. Contudo, poucas experiências foram verdadeiramente gratificantes, e há uma história de grande frustração: tratava-se de uma multicache no jardim botânico, onde chegámos já pressionados pela hora de encerramento das instalações. A verdade é que conseguimos deslindar os mistérios e obter as coordenadas finais. E, para nosso deleite temporário, mesmo sobre o tempo limite! Seguindo a agulha do GPS, lá chegámos ao local. Nós e todos os funcionários do complexo! Era o parque de estacionamento interior, e, chegada a hora de soltura, todos se dirigiam para as suas viaturas, olhando-nos de soslaio. “Bom”, pensámos, “Isto há-de ter um fim”. A cache, já a estávamos a ver, escondida dentro de um tufo de erva, exactamente na posição que a “hint” afirmava estar. O problema é que ainda mal o último carro abadonara o recinto, já um segurança se acercava, ao longe. Nem lhe demos hipótese de chegar à fala. Saimos dali com um peso enorme sobre os ombros, com aquela amargura que só uma cache “roubada” debaixo das nossas unhas pode deixar.

Nem tudo foi decepcionante na estadia em Dublin. Um dia, talvez o penúltimo da nossa permanência no país, apanhámos o comboio interurbano a que chamam de DART, e saimos na penúltima paragem: Bray. Sabiamos que dali até ao final da linha, na cidadezinha de Greystones, havia um trilho ribeirinho de cerca de 5 km ao longo do qual iriamos encontrar três caches (All My Friends, Julskatten e Europe’s First) . E o melhor é que uma delas tinha um sabor especial: a primeira cache da Europa!!

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Joshua’s Tree

 

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A primeira cache da Europa

Foi de facto um passeio memorável, com um céu cinzento, plúmbeo, com ameaças soturnas de chuva a qualquer momento, que contudo aguentou a sua carga em nossa honra. O percurso é de uma beleza única, debruçado sobre um oceano que, sendo o mesmo, é tão diferente do nosso azul Atlântico. Ali toda a água mete outro respeito. E, de repente, é como se estivéssemos dentro de uma história de Enid Blyton. Está ali tudo: a típica paisagem britânica, a linhazinha de comboio, as escarpas a prometer aventura fácil. E a árvore, aquela impressionante árvore cantada por Bono em Joshua’s Tree, que esconde uma cache nas suas raízes (curiosidade: o vocalista dos U2 vive a algumas centenas de metros do local). Chegados a Greystones, encontramos uma “teahouse”, daquelas que só vimos no cinema, onde nos deliciamos com um chocolate quente, enquanto trocamos impressões sobre a jornada e observamos a fina flor da comunidade local tomando o seu chá vespertino.

Na hora da partida, o balanço: como se caracteriza o Geocaching na Irlanda? Para um português, oferece desde logo uma vantagem negada noutros países da Europa: a acessibilidade linguística. Se numa República Checa, numa Hungria, num Alemanha ou numa Holanda somos confrontados com a separação entre as caches que podemos “fazer” e as que não podemos, em virtude da disponibilização (ou não) de uma versão em inglês, na Irlanda nada é negado por barreiras na língua.

A quantidade de caches espalhada pelo país é apreciável, não chegando à densidade dos vizinhos ingleses, mas mesmo assim atingindo valores muito interessantes. A comunidade de practicantes parece ser restrita. Ao estudar as “caches” e respectivos “logs”, fica a sensação que são sempre as mesmas pessoas, quer a criar quer a encontrar. Coincidência ou não, quando uns meses mais tarde um geocacher irlandês andou pelo Algarve, o seu nome era bem familiar.

Talvez a ideia mais forte que fica numa análise resumida ao geoaching irlandês seja a discrepância entre o número de caches existentes e a actividade. Ou seja, olhando para um mapa, perante a densidade apreciável de caches, seria legítimo imaginar uma comunidade vasta e activa, mas não é isso que sucede. Fora da grande metrópole, muitas das caches que encontrámos tinham umas meras quatro ou cinco visitas por ano. E isso é-nos estranho.  

De resto, na forma, não existem grandes diferenças para o que encontramos por cá. Sobretudo em Dublin deparámo-nos com coisas curiosas, como uma nano-cache (“Let my Epitaph be written”) que se encontrava disfarçada de parafuso na base de um mastro, e com uma “ammo box” (The Phoenix) enterrada no meio de um extenso relvado (tão vasto que se duas pessoas se posicionassem em extremos opostos, não se veriam uma à outra… e garanto-vos que o terreno era bem plano) onde, em Setembro de 1979, uma multidão de mais de um milhão de pessoas, ouviu a missa celebrada pelo Papa João Paulo II.

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Phoenix Park

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Estas linhazinhas que se estão aqui a formar neste momento são fruto de uma semente que germinou num enorme frigorífico nos últimos quatro dias. E isto porque há outras coisas, para além da vingança, que se devem servir frias. Um comentário negativo a uma cache é uma delas. Pois é. Quem não der tempo ao tempo, arrisca-se a ser injusto e a cuspir uma dose letal de bom velho veneno sobre alguém que eventualmente não o merece. E, já agora, ainda à laia de preâmbulo fica desde já uma informação: não acredito no dogma que impede a crítica negativa a caches, não revejo nenhum laivo de santidade na figura dos owners e não aceito que se coloquem numa posição de imunidade porque criaram uma (ou mais) cache(s). No dia em que tal estigma se tornar um elemento definitivo no panorama do Geocaching, dedicar-me-ei a criar caches “large”, recheadinhas de cobras-capelo, e esperarei recolher os piedosos elogios que muitos logs dedicam a caches criadas de forma perniciosa à luz do senso-comum, ou, na pior das hipóteses, do meu próprio sentido de qualidade.

Dito isto, vamos à história. Quinta-feira, dia 17 de Maio. Dia de feriado municipal em terras de Loulé. Altura certa para uma expedição à outra parte da província, aquela a que chamam de barlavento. No meio do deserto que se tornou o Algarve no que toca a caches por encontrar, restam ainda alguns oásis, tragicamente localizados nos pontos mais distantes. Na “carteira” levavamos umas cinco destas raras referências. A primeira, escolhida quase ao acaso, era “My Bonnie Revised” Lagos area, Algarve. Iamos avisados para as dificuldades, atestadas pelas estrelinhas atribuidas pelo “owner” e pelas várias páginas de logs, lidos cuidadosamente. Na realidade, sentia-me preparado para deixar o locar com um DNF no saco, gratificado apenas por uma passeata à beira-mar numa bela manhã de Primavera. Isso, se especiais circunstâncias não se tivessem revelado, como veremos seguidamente.

 Contrariando involuntariamente o conselho do “owner” e por mero acaso, iniciámos a caminhada na praia de Porto de Mós, em direcção à Ponta da Piedade. Um desvio acidental conduziu o nosso cachemobile para este belo areal, e tentámos aceder, com sucesso, a um trilho que se avistava no alto do promontório, depois de passarmos diante dos olhos de umas largas dezenas de veraneantes com a natural roupagem de “combate”.

Lá em cima, esperáva-nos uma agradável caminhada de algumas centenas de metros, num trilho estreito e acidentado, mas seguro e bem delineado. As vistas, essas, eram magníficas. A bem populada Porto de Mós deu lugar a um oceano de águas translúcidas, entrecortadas por rochedos, numa imagem característica do Algarve, tantas e tantas vezes capturada em postais ilustradas e campanhas de divulgação turística. Depois, uma secreta prainha, com um singelo “habitante”, nudista, que se passeava despreocupado pela areia, de um lado para o outro, perfeitamente descontraido, apesar da nossa evidente presença lá por cima.

É por ali que se encontram as escadinhas, que conduzem a meia-encosta, para depois tornar a subir, levando novamente o caminhante para o topo do promontório. E o cenário repete-se. Mais oceano azul de águas limpas. Aves marinhas cruzam os céus. Beleza. Encanto. Um breve vislumbre de Paraíso. Entretanto, tinhamos encontrado os dois pontos intermédios desta multi-cache. Aqueles que ia psicologicamente preparado para falhar, e que afinal tão simples são. O problema veio a seguir. A cache final.

Não consigo compreender nem classificar a crueldade de uma coisa destas. O geocacher passa as provações de uma caminhada relativamente árdua e de duas provas intermédias de dificuldade perfeitamente justa, apenas para ir morrer na praia, enfrentando um “container” aparentemente “enterrado” numa área onde as buscas podem ser bem sucedidas ao cabo de alguns segundos… ou abandonadas sem glória depois de várias dezenas de minutos a procurar, com os braços fustigados por silvas, com suor a escorrer em bica, que provoca o característico ardor sobre as feridas e arranhões entretanto abertos na maltratada pele.

Consigo compreender o interesse de um container habilidoso, escondido de forma original, a apelar ao engenho do geocacher perseguidor. O que nunca entenderei é a razão de ser destas caixas, colocadas como prémio de quermesse, prontas a agraciar o caçador, não pela habilidade, mas pela puro acaso. Pode ser que a encontremos debaixo da primeira pedra levantada, ou da centésima; talvez estejam no primeiro buraco de arbusto em que enfiamos a mão e a cabeça, ou no décimo. Quando são o culminar de uma multi-cache já de si complicadota, então a situação toma contornos de verdadeira crueldade. E a isso, digo NÃO!

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E pronto. Quinhentas. Quinhentos momentos de click mágico. Quinhentas ocasiões especiais, sempre renovadas, nunca as mesmas, com o denominador comum daquela sensação inexplicável que Arquimedes colocou numa só palavra: Heureka! (1). Que venham outras tantas, ou mais ainda, até que a exclamação grega perca o sabor de até agora.

 Mas vamos começar pelo início, do dia, que das cinco centenas seria uma longa história. Fomos em demanda da Ponte Romana de Tôr [Loulé], uma cache da qual “vergonhosamente” haviamos deixado escapar o almejado FTF. A ponte em si, já a conheciamos, de cor e salteado, assim como a aldeia de Tôr. De resto, é uma região bem representada no Geocaching, com duas caches ali, quase ao alcance da mão. A localização deste contentor é perfeita, levando o visitante até ao ângulo mais abrangente para observação do monumento. Trata-se de uma cache “drive in”, que é como quem diz: pode-se levar a carripana mesmo até à “porta”. Depois, é procurar, o que não é de todo complicado. E “voilá”, “another one bites the dust”. #499. Moral da história: descobrimos o ponto ideal para se observar a ponte, sob a qual a ribeira de Tôr corria já timida, com o aproximar do tempo seco, num dia excelente para a práctica do Geocaching, solarengo, bem ameno.

Já a noite caia quando a oportunidade se proporcionou: já que estamos aqui e vamos passar por Faro, embora telefonar aos Al-Garb e perguntar-lhes se querem fazer-nos companhia enquanto procuramos a sua própria cache Vila Adentro [Faro] ? Assim foi. Encontro marcado no Fórum Algarve, dois ou três dedos de conversa e ai vamos nós. A cidadela de Faro é também nosso velha conhecida. Estivemos ali quando se realizou o Euro, e a cidade se embelezou, colorida com os tons laranja dos adeptos holandeses, e o amarelo e azul dos suecos, separados pelas afinidades naturais, mas todos juntos, na comemoração da festa do futebol, sem hostilidades nem provocações. Estivemos ali tantas vezes, como cicerones, mostrando o mais antigo bastião da cidade aos nossos visitantes, nacionais e estrangeiros. E para nosso próprio deleite, para fotografar, para visitar, para extender as pernas, para conhecer melhor os cantos secretos. Portanto, não se pode dizer que esta cache tenha sido reveladora. Por isso acedi a uma pesquisa nocturna, num serão tão pleno assim, o de Sábado da Semana Académica, com presença de Da Weasel e convergência unânime de gentes para a zona.  Apimentanço extra na pesquisa, sem problema de maior na fase de recolha de dados, levando a um palmilhar por ruas tantas vezes percorridas, a fazer honrar a memória de uma outra cache, que antes viveu ali, e que agora jaz arquivada. Os owners deram uma ajuda discreta, aqui e ali, e ouviram algumas críticas. É complicado quando não são dadas as coordenadas de pontos intermédios, deixando a tarefa de os encontrar apenas pela nomeação destes pontos. Pode não ser evidente para muitos o que é e onde fica o Paço Episcopal, por exemplo.

Encontrados todos os elementos necessários para a obtenção das coordenadas finais, ficámos agradados com a dispensa da matemática. Não é costume, mas soube bem. Desta vez não foi testada a velha Lei de Murphy que diz que existindo uma conta a fazer numa cache, o Torgut vai enganar-se em alguma coisa e procurar num sítio despropositado. Agora, há algo a assinalar: não só este foi o 500º contentor a ser encontrado, como foi aquele a que deitei a unha perante uma maior audiência. Entre o contigente policial distribuido por três enormes carrinhas do Corpo de Intervenção, os transeuntes e os que se enfileiravam no longo carreiro para comprar bilhetes para o recinto, um bom milhar de pessoas devia-se encontrar na minha linha directa de vista.

(1) Na realidade, em vez de “Found It” o website Geocaching.com deveria apresentar a hipótese “Heureka” como categoria de log. Senão vejamos a definição apresentada em Idiomsite.com: Meaning “I have found it!”, it is Derived from the Greek word “heureka”.

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O Geocaching na terra dos maguiares anda uma dó d’alma. Uma vez, já vai para dois anos, em Praga, encontrei um casalinho de geocachers de Budapeste. Ou diziam-se tal, porque a verdade é que cai na asneira de lhes passar uma moedinha para as mãos, daquelas que se registam no geocaching.com, e nunca mais ninguém ouviu falar dela. Era um tempo em que moedas havia duas: as americanas e as alemãs. Tão simples como isto. Mas mesmo assim, a tal moedinha levou sumiço. Dos húngaros não encontrei traço no website geocaching.com, e finalmente consegui apanhar a pista dos raptores, num projecto para consumo interno da Hungria, no qual existia um registo de utilizador com o mesmo nome que me tinha sido rabiscado no Moleskine de viagem. eMail enviado, para sempre sem resposta. Paciência. Mas isto para dizer que nesse breve encontro, a meia-encosta da colina Petrin, o tal pseudo-geocacher me recomendava de viva voz uma expedição a Budapeste para catar caches à grande e à francesa; ah e tal, que havia muitas e das boas, que devia ir, que ia ver o que era caçar “tupperwares” à séria. E aquilo foi um grilar que me ficou atrás da orelha.

Qual não foi portanto o meu espanto quando, de viagem já marcada, me debruço sobre o mapa de operações (vulgo Google Earth) daquela cidade, e vejo que afinal aquilo de caches está muito pobre. Daquelas que se vão a pé a partir da rede de transportes públicos urbanos, não chegavam a trinta. Parecido com as quinhentas de Praga, hein? Bom, pensei, trinta sempre é melhor do que nada. Vamos lá a elas. E fomos.

Nos primeiros dias aquilo ainda rendeu. Depois, esgotaram-se, e, infâmia das infâmias, nos dois últimos dias fez-se de tudo menos Geocaching, porque já não havia nada de viável para descobrir. Para esta secura precoce contribui bastante o facto de umas 70% das caches próximas do centro de Budapeste serem virtuais. E depois, daquelas virtuais que a coisa se limita a chegar ao ponto das coordenadas e já está. Algumas ainda tinham umas tarefas, uma recolha de elementos para obter uma tal de “password”. Afinal, essa palavra-chave apenas era requerida para fazer o registo da descoberta no website paralelo que eles têm, sendo de todo desnecessária para o “nosso” Geocaching. Aqui entre nós, a coisa é de tal forma que a rapaziada nem tem efectivamente que deslocar os ossos até aos locais destas caches virtuais. Os manganões pode chegar e dizer: “Sim, estive lá.” E pronto. Na maioria dos casos é tudo o que é preciso. Nem um boneco do local, nem uma palavra a atestar a veracidade da presença.

 

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Simplesmente estar aqui é tudo o que é preciso para “encontrar” uma cache

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Encontrar este túnel é por si uma cache, virtual, claro

 Depois, as outras, com presença física, estão para ali deixadas, ao triste abandono. Aquilo é logbooks e mais logbooks, empilhados em camadas sucessivas no interior das caixas, legados por visitantes piedosos que acharam por bem contribuir com a sua quota-parte para a sobrevivência das caches. As “prendinhas” são de uma pobreza franscicana. Moedinhas e TB’s? Nem vê-los ! Nem um só, para amostra e recordação desta incursão. Mas contudo estão por lá registados como tendo entrado. Alguém os levou e não cuidou do seu registo, pobres insectos viajantes, para sempre perdidos nas mãos de maguiar destemperado. E depois é a própria qualidade intrínseca da generalidade das caches, colocadas em locais que ilustram um fraco planeamento e um cuidado duvidoso na protecção dos “containers”. Enfim, aquilo que por cá chamamos simplesmente de “más caches”. Mas a cereja em cima do bolo é a cache que se encontra no Parque da Cidade: o seu owner decidiu movê-la, passou-a de micro a regular, cuspiu as novas coordenadas numa “note” lá pelos logs, e não se preocupou mais. Ao fim de vários meses, que creio constituirem já anos, as coordenadas oficiais da cache continuam erradas e o mais espantoso é que apesar de todos os justos protestos e reclamações, o “owner” continua paulatinamente a visitar o website e nada faz para corrigir a situação.

Para terminar, dá a ideia que passou por aquele país um raio mágico que tudo parou no tempo. As caches são as que são, como se estivessem para ali desde 2001 ou coisa do género, e nunca mais ninguém se lembrou de criar mais. Nos vários meses que durou o planeamento desta viagem, nem uma só novidade apareceu nas listagens. Parece que tudo o que havia para ser criado, já o foi… e que enorme injustiça isto é, numa cidade tão rica em locais de interesse, tão cheia de recantos onde a colocação de um “container” seria uma brincadeira de crianças. Tivesse eu uma varinha mágica e estou certo que num par de dias poderia semear por ali, contando só os percursos que a pé se fazem a partir do centro, umas duzentas ou mais caches.

Mesmo assim nem tudo é mau no Geocaching húngaro: todas as caches que estudámos apresentam uma versão em inglês, permitindo ao viajante partir em sua demanda; ao contrário do que sucede em Praga, e, cada vez mais, em Portugal.

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Primeira cache em Budapeste e uma das poucas “a sério”. Estava junto ao tronco
da árvore que se vê ao fundo. Acesso complicado. Muito ingreme.

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