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Archive for Junho, 2007

Antes de mais, note-se que passei a adoptar uma designação diferente para estas expedições de Geocaching. Os Tours já eram. Um bocado larilas. O meu passado militar falou mais forte. Doravante, serão “operações”. E mai nada. Esta, é uma grande misturada. É que tive que vir a Lisboa pedir uns papéis, e como eram precisos dois dias úteis para mos aviarem, e já que tava aqui, olha, decidi ir até ao Minho, que é mesmo aqui ao lado, pois então. Mas isso será viagem para Domingo. Portanto, hoje, aquecimento. Amanhã, arranque… e a seguir logo se verá. 

Depois de tratar das burocracias, fui até à zona da Expo procurar Vasco da Gama [Lisboa]. Coisa fácil, em conformidade com a classificação mínima atribuida pelo owner. É daquelas caches que terá o seu interesse para o viajante, mas a rapaziada da zona fará por fazer. Na cidade de Lisboa, apenas um par de caches me surpreendeu,  e esta, naturalmente, não foi uma delas.

Encontrado o container, assinado o log sobre uma relva quase ortopédica, foi a cache devolvida ao seu local devido, e parti para uma saladinha ali à frente, no Vasco da Gama. Um interlúdio justo num dia quente, antes da marcha “forçada” até Santo Eugenio [Olivais]. Pelo caminho passei em locais que me tocaram subtilmente no passado. Mas mais do que isso, senti a presença dos fantasmas de outros. Os Olivais tiveram o seu tempo. Foi, por coincidência, o meu. Mas espacialmente deslocado. Mesmo assim, cruzei-me pontualmente com esta realidade paralela. De forma que hoje, andando por aquelas ruas, consegui imaginar… quantas emoções vividas ali. Já vejo naquele pequeno jardim, a paixão declarada, a felicidade da correspondência, a juventude e os sonhos escondidos. Quantos corações bateram por ali, quanta naifada, cabeçada e sangue derramado. Quantas noitadas que acabaram acolá, escadas subidas aos tombos, vómito derramado, amargo, de cerveja. Esperanças perdidas, tontarias arrasadoras. Tanta vida, tanta energia, tantos passados, memórias de outros que sinto como minhas. E hoje, ao passar, são prédios velhos, com idosos e outros, todos de ar triste.

Agora passo à piscina dos Olivais. Foi ali que aprendi a apanhar e dar, semear negrume nos olhos, saborear o sangue na boca, em duros serões, treinos sérios de full-contact. Uns anos depois voltei ao local, para encontrar a Angelina sueca, afinal portuguesa de gema, uma presença feminina que ficou na lembrança, ainda hoje capaz de despertar um sorriso. E de repente, estou ali, no bairro da Encarnação. E para contar o papel do local no meu passado, é preciso recuar à grande festa de fim de ano, o último do liceu. Tudo organizado para se celebrar na Alfama do S. João, dia que ironicamente se comemorou ontem mesmo. A turma, ou melhor, a metade da “pesada”, seguiu em peso. Por ali se bailou e bebeu, riu e beijou, escadinhas acima e abaixo, experimentando os néctares de mil capelinhas. E então, ela apareceu: Paleta. Nem sei de onde veio, quem a trouxe. Mas o que não esquecerei é que quando o dia acordou, estávamos ainda juntos, sentados, no Rossio, à espera do primeiro autocarro. Uns dias depois, o primeiro encontro…. e onde… ? Na Encarnação. Foi uma noite “selvagem”. Naquele mesmo jardim onde hoje andei a contar bancos, reunimo-nos. Eu, a Paleta e o seu gang. Amigos, muito amigos, um grupo com ligações fortes. E por ali andámos, roubámos fruta, fugimos em apressada correria. Partilhámos passados, tão curtos mas tão ricos, naquela idade. Depois desse serão, não tornei a vê-la. Nem sei porquê. Mas dedico a descoberta dessa cache à recordação da doce Paleta.

Voltando à realidade. Não seria eu se não tivesse metido água nas contas. Os elementos até estavam certos, mas a matemática foi madrasta. À segunda verificação o local já fazia mais sentido, e lá estava o container, encontrado sem qualquer compasso de espera. Reformados, aquela hora, apenas algumas presenças em deslocação. Abençoei a minha decisão estratégica, tomada após a leitura atenta dos anteriores logs: pelas 20:30 o dia estava ainda em pleno, mas as pessoas já tinham partido. Apenas um grupo de jovens que se entretinham com um qualquer jogo me preocuparam, mas depois de obter a coordenada correcta, ficou claro que estaria fora do seu campo de visão. Uma cache bem formulada, escondida de forma sensata. A eventual existência de muggles é um risco com o qual o geocacher tem que conviver.

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Não é todos os dias que saimos de casa para procurar uma cache. Porque isto de periferias tem os seus problemas, e um deles é o esgotamento de recursos. De Beja para cá contam-se pelos dedos das mãos as caches ainda por serem encontradas. Portanto, se a situação é de cachada relativamente local, mais do que um objectivo é uma infinidade.

Para a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim convidámos a Kitiara, que recolhemos em Cabanas de Tavira. Depois, foi mais um bocadinho até chegar à zona de Castro Marim. O acesso à zona da cache foi antecipado, e entrámos por um caminho inconsequente, que teve a enorme vantagem de nos permitir avistar uma sempre rara lontra, que nadava nas águas do sapal. Invertendo a marcha, regressámos ao alcatrão, para logo depois sair pelo caminho correcto. Parqueado o carro, depressa alcançámos a cache, que encontrámos sem incidentes. Durante todo o tempo que permanecemos na área, não avistámos um só muggle. Tranquilidade absoluta. Por ali ficámos uma boa meia-hora, estirados nos bancos, à conversa, a disfrutar do sol tépido, enquanto iamos observando a passarada que abunda em todas aquelas paragens.

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Ainda démos um pequeno passeio a pé, de regresso ao cachemobil. Para fechar a tarde em grande parámos em Cacela Velha. É um lugar que de facto merece uma cache, e muito me surpreende que ainda ninguém se tenha chegado à frente nesse sentido. Mas isso agora não interessa para nada. O que quero partilhar com vocês é o magnífico local de morfos que encontrámos. Para ser sincero iamos a uma imperial. Mas depois de nos sentarmos naquela esplanada, tão castiça, tão bem composta, deu-nos a vontade do petisco. E vai dai, uma dose de conquilhas por €6, um chouriço por €5. E dos bons. Quer dizer. Os molúscos estavam à maneira, e o chouriço, assado à mesa, simplesmente delicioso. Claro que a ementa tem muitos outros petiscos. Ah! E as bebidas são também em conta: imperial a €1, Casal Garcia de 0,75 a €5,50. Muito recomendável, tudo isto! As coordenadas: N 37º 09.425 W 007º 32.771. E não digam que vão daqui.

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No dia da partida, teve que se arranjar um tempinho para um desvio muito especial, mesmo à saída de Abrantes: S. Miguel do Rio Torto 3 (Abrantes) . Na véspera, já quase noitinha, estivémos ali com o Sal, mas não tinhamos a coordenada exacta conosco e a coisa complicou-se. Fomos forçados a desistir. Já hoje, com a localização determinada, foi chegar e encontrar. E o mais irónico é que no dia anterior um de nós tinha tocado naquela pedra e até estranhado um som a oco, até a sua atenção ter sido distraida por outra coisa. Bom. Vir do Algarve aqui para fazer um FTF é obra, mas foi o que sucedeu.

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A viagem para sul foi feita com alguma pressão. Era necessário chegar a casa antes das 15:00h, o que não permitia mais cachadas. Contudo, dada a sua especificidade geográfica, conseguimos procurar e encontrar Ponte Romana de Vila Formosa. Uma bela cache, que nos mostra um monumento em magnífico estado de conservação. O container encontra-se localizado no melhor ponto para a observação da ponte. É incrível como um elemento deste tipo não está ainda protegido da utilização comum por parte do trânsito automóvel. Uma nota curiosa: mesmo ali ao pé encontra-se uma colónia enorme de coelhos. É toca atrás de toca, e cheguei mesmo a pisar um desses animaizinhos, que, provavelmente agachado, procuracva passar despercebido. Claro que quando inadvertidamente lhe toquei, arrancou a correr. Um espectáculo! E pronto, assim foi concluido o Tour Templários 2007.

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Mais um dia que acorda cinzento, este, mais que os anteriores. O manto de núvens é homogéneo, e a chuva, parece não ir parar nunca. Mesmo assim saimos. Chegamos às imediações da primeira cache do roteiro (Parque de São Lourenço [Abrantes]) e parqueamos. Ficamos dentro do carro a ler enquanto as gotas de água ressoam no tejadilho. Por fim, o dilúvio amaina. Saimos, e percorremos a extensão que nos separa da cache sob chuva fraca. O parque é tristonho, num dia como este, e, tirando o grupo de idosos que se abriga no interior do café, não há mais ninguem nas redondezas. Caminhamos com passo certo, pelo terreno que, apesar de empapado é de transposição fácil. Atravessamos o campo de paintball e chegamos à cache. Fácil de encontrar. Por esta altura, mercê da água que se acumula na erva rasteira, já parece que atravessámos um ribeiro a vau. No caminho de volta há mais.

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O complexo desportivo de Abrantes tem mesmo bom aspecto, caramba! Aquilo é diversidade e qualidade, pelo menos para quem vê de fora. E, lá pelo meio, o tal campo de baseball (First Official Baseball Field in Portugal-Abrantes) que nos traz aqui. A visita é curta porque infelizmente não conseguimos ver grande coisa. O que eu gostava mesmo, mas mesmo, era de ter um ponto alto nas imediações, onde pudesse trepar e usufruir de uma perspectiva superior de tudo aquilo. Não havendo, paciência, fica a impressão geral, positiva. Ah! A cache foi encontrada facilmente, sem muggles nem desvios nas coordenadas. Venham mais destas!

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Para terminar o “trabalho” na cidade de Abrantes, deixámos o prato principal: Castelo de Abrantes. Esta multicache conduzirá o geocacher ao núcleo histórico da cidade. A primeira etapa foi feita a despachar, por duas razões: primeiro, a chuva persistia em cair; segundo, já conheciamos bem o castelo e a torre de menagem onde deviamos ir buscar as coordenadas finais para a conclusão da cache. Já a segunda parte, onde se encontra efectivamente o container, toca outra música: que magníficos jardins, de todo desconhecidos para nós! Que bonitos mantos floridos, de tantas cores e espécies! Belas rosas! E as aves… em vastas gaiolas ou simplesmente esvoaçando por ali, à solta, temperam uma já fausta refeição. Nem os cisnes faltam, esses animais sempre de respeito que não se coibem de atacar visitantes mais incómodos. Por perto, um par de jardineiros trabalham. Rapaziada nova, bem educada, com ar intelectualmente evoluido. Enquanto andamos por ali a cirandar, quase esquecidos da cache, partem, possivelmente para almoçar. E ficamos com aquilo tudo por nossa conta. Apreciamos cada detalhe, e quantos são eles! Certamente muitos pormenores nos escaparam, mas a vista, essa não, que é impossível de não reparar! Um local a visitar, sem dúvida alguma.

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Afastamo-nos agora de Abrantes. Vamos a caminho da Anta da Foz do Rio Frio [Ortiga]. Foi atribulado. O acesso correcto teimava em não aparecer e andámos por pistas e caminhos enlameados, com uma Strakkar a dançar no meio de tudo aquilo, como um barco ao sabor do mar da ondas. Consultámos várias vezes o Google Earth e acabámos por nos ir aproximando do local, certamente pelo lado mais complicado. Chegados ao sítio da cache fomos brindados com uma bela vista do rio. É a chamada dois-em-um: o geocacher não só descobre um vestígio pré-histórico de grande importância e em excelente estado de conservação, como tem direito a uma mirada com laivos de postal sobre o Tejo. Ah! Claro! Sair foi muito mais simples.

A cache seguinte no périplo de hoje era Vassouras de raposa. Uma cache escondida num pedacinho do Portugal rústico que temos. Nada de extravagâncias. Que isso de aldeias históricas e país profundo é algo que fica bem na TV, e, porque não, visitado pessoalmente, mas é côsa para inglês ver. Locais como este, oferecendo uma panorâmica da aldeia de Monte Penedo, mostram a ruralidade real. Como eu a conheci há trinta e tal anos, enquanto brincava nos campos junto à aldeia onde a minha família detinha algumas propriedades, nos arredores de Lisboa. É esta nota natural, que me encanta nesta cache. É mostrar o comum, que por o ser deixou de ser olhado com olhos de ver. Depois, há uma mais valia: o evidente amor que foi colocado juntamente com a cache. É algo que já testemunhei em outros “tesourinhos” e que tem o condão de transformar o banal em algo muito especial. De resto, já tudo ficou dito: a cache, nada tem a referir. Foi facilmente encontrada.

E agora é que a porca torceu o rabo, esclarecendo que a dita suína é a “Catarina”, a tipa que se escondeu dentro da caixinha preta que tenho fixa no pára-brisas da viatura e que vai consultando os mapas e dando as indicações por onde devo seguir a conduzir. E vai dai, a gaja resolveu mandar-me pela estrada mais sinuosa de que tenho memória. Tudo isto para chegar a From the Castle to the River [Belver – Gavião]. Digo desde já que na volta, para regressar a Abrantes, vim por uma estrada que percorri quase de olhos fechados, em metade do tempo. E atenção, que até já estava a meio caminho do local!

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Bem, a coisa fez-se. Chegados a Belver, passámos a assapar pelo acesso ao castelo, já que o GPS estava endoidecido e não nos indicou a direcção correctamente. Só mais abaixo, a meio da longa descida até ao rio comecei a desconfiar a parei o carro. Entretanto, dá-me fome, começo a petiscar qualquer coisa, mesmo ali, quando a Zaya diz: olha lá gente a andar junto ao castelo. Saco dos binóculos, novinhos em folha, e dou-lhes a estreia útil. É mesmo gente, e digo mais: casal novo com aspecto de não serem de cá. Passo os binóculos a ela, que logo diz: “hey! E andam a meter as mãos em buracos da muralha”. Pronto! Mais uns. São geocachers. Bem, vamos até lá então. Chegados ao local, passamos pelas personagens, começamos a passar os olhos pelas hipóteses, mas, claro, a coisa estava com eles. Lá sacámos as coordenadas para a cache final, e seguimos para lá, do outro lado do rio. Via-se mesmo onde era. Seguimos a estrada até ao parqueamento e o resto, foi a pé. Uns 600 metros. Tudo muito bonito, mas, devo reconhecer, estava ainda um bocado azedo com a estrada que nos trouxe até Belver. Algures ao longo de um extenso passadiço de madeira, encontrámos o ponto zero. A malandrinha é que estava mais complicado. Acabou por ser um membro do outro grupo, que lhe deitou a unha. O caminho de volta fizemo-lo em conjunto, conversando. Descobrimos amigos e locais em comum. O mundo é uma esfera mesmo pequenita!

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Agora, de regresso ao carro, a grande icógnita era: teremos que suportar de novo a tortura das curvas? A resposta, felizmente, foi: não! Um belo traçado de regresso a Abrantes onde fomos encontrar as belas caches de S. Miguel do Rio Torto. A primeira a ser “aviada” foi  S. Miguel do Rio Torto 1 (Abrantes). Encontrado o container com as coordenadas finais sem qualquer problema lá seguimos, estrada acima. A pé não, que isso cansa, mais ainda num dia tão pleno de aventura. A Strakkar esteve à altura das necessidades e trepou por ali acima, por entre algumas hesitações, a cada encruzilhada. No fim, a vista não decepcionou. É de facto uma panorâmica magnífica sobre o rio e sobre Abrantes, pontuada pela enorme tranquilidade do local. Excelente. Para baixo, avistámos uma lontra fugidia, uma sombra apenas, que escapuliu da estrada para as vegetação junto ao curso de água. Uma recordação que há-de ficar quando muitas outras caches tiverem sido esquecidas.

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Por fim, o prato forte do dia: S. Miguel do Rio Torto 2 (Abrantes). Depois de ler todos os logs, aproximei-me cheio de curiosidade. O local de início de percurso foi encontrado sem dificuldade e a aventura começou. De início, com um par de galochas na mão. Depois, vendo que o empecilho era superior à possível utilidade, deixei-as no topo de um rochedo, marcando o local no GPS. Inicialmente tive a companhia da outra metade do team, que, mercê de uma escolha errada do precurso, acabou por se atrasar e, por fim, decidiu voltar para trás. O cenário ao longo deste “caminho” é perfeitamente único. De repente, já não estamos em Portugal. Palmilhamos pela selva do Vietname, e sabemos que o Vietcong pode espreitar-nos. Por outro lado, aguardamos a qualquer momento a aparição dos homens de Kurtz que nos escoltarão até ao Horror. É este o ambiente. Deixa de fazer sentido usar a o termo “mato”. Aqui, é mesmo a selva. Sem jibóias e outros perigos ocultos, mas com toda a magia do inferno verde. São 810 metros em linha recta de viagem por este autêntico parque temático. A mim, levou-me 50 minutos na ida, e uns 35 na volta, sem a preocupação de acompanhar a evolução da outra metade da equipa e com o reconhecimento já feito. Suei em bica, acabei o percurso completamente encharcado. Da cintura patra cima,  pelos meus próprios fluidos. Em baixo, pela água do ribeiro. Às tantas, dei por mim a andar com água pelas canelas, com toda a naturalidade do mundo, como se fosse aquele o meu elemento natural. Calçado, ensopado.

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Quanto à cache, foi encontrada, a medo, com a ajuda preciosa da dica. E a medo porquê? Porque o local é arrepiante, chega a atemorizar. Ou talvez este receio advenha da coisa enorme que vi rastejar mesmo junto ao local onde pousei a mochila. Cobra não era, posso afirmá-lo. Mas do que se tratava, nunca saberei. A partir desse momento, a vontade de meter a mão em buracos escuros e húmidos em busca do container reduziu-se, e muito. Em suma, uma cache com lugar assegurado no meu pódium pessoal.

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Ao terceiro dia, a manhã fez-se a solo. Era uma meia-jornada plena de intenções, mas, como se veio a ver, as coisas que nem sempre correm bem detêm um poder grande, e pelo início da tarde apenas três caches tinham sido conquistadas. A primeira, ENCYCLOPAEDIA GALACTICA [Constância], fez-se sem espinhas. Directo a Constância, ignorar o TomTom que evidentemente não fazia a menor ideia da existência de toda a parte norte da vila e seguir a setinha do Magellan. Depois, passar a obedecer aos sinais que marcavam o centro Ciência Viva, e parquear o carro junto às instalações. Por um momento, ainda receei que a cache tivesse tido um destino dramático, ao ver os campos lavrados, mesmo ali, onde o ponto zero se encontrava. Mas foi apenas um susto e o container não tardou a aparecer.

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Dali a Camões [Constância] foi um saltinho. Numa manhã de 2ª Feira não há grandes problemas em econtrar um cantinho para deixar a viatura, e caminhar um pouco por aquelas ruelas cheias de estórias para contar é sempre um prazer. A esta localidade tinha vindo uma vez, há coisa de três anos, na companhia de Kitiara & Sal. Nem me recordo se já tinha travado conhecimento com o Geocaching. Mas lembro-me bem da bela refeição que partilhámos, numa esplanada à beira-rio que servia umas espetadas mistas divinais. Por essa altura, alcunhei Constância de “Capital Nacional do Lazer”. É que por todo o lado se viam pessoas retirando o que de bom se pode levar desta vida. Idosos passeando em grupo, famílias inteiras preparando o piquenique dominical, namorados trocando as intimidades que não se podem repetir, jovens e não tão jovens practicando desportos diversos. Enfim, pessoas, gentes em momentos de pleno prazer, com medidas diferentes, mas por todo o lado.

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Hoje, foi uma outra Constância que encontrei. A chuva ameaçava cair e a zona ribeirinha estava practicamente deserta. Na água, alunos de uma qualquer escola. Uns, recebendo lições de canoagem. Outros, aguardando a sua vez, simplesmente “reinavam”, chapinhando, brincando. “Está fria!”, “Ò stôra!”.  Entre as sombras do já sombrio espaço, um idoso espreitava, como que a medo, sabe-se lá com que ideias secretas: seria a inveja de uma juventude já tão distante que deixou de ter lugar na mirrante memória? Seria a perversa de observação “as garotas” mostrando o que nos seus melhores tempos se limitava a sonhos? Ou o abraço ao banal que mesmo assim vai sendo menos monotóno do que a paisagem devastada de um dia-a-dia cheio do nada? O que quer que fosse, levou o seu tempo, e, enquanto isso, não tem o geocacher outra hipótese que não seja aguardar. Nisto, um novo elemento se revela, dobrando vagarosamente uma esquina. Passo penoso, infinito. Chega junto ao primeiro e regressa. Nesta eternidade, o geocacher continua à espera. Agora, as coisas parecem compôr-se. O primeiro idoso passa nas minhas costas. A costa vai ficar livre, apesar da ameaça de um jardineiro que ao longe trabalha com uma máquina qualquer.  De repente, as condições para o desencadear da operação estão reunidas, e em menos de nada o contentor está nas minhas mãos. Vitória! Não terá sido à primeira tentativa, mas foi, mesmo assim, fácil. Despachadas as formalidades, voltou ao seu local de repouso, e eu, afastei-me, célere, que Constância hoje não estava bonita.

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 Encontrar o caminho para PASM – Parque Ambiental Santa Margarida foi facil, com o meu TomTom a colaborar nesta curta viagem. À chegada, já farejava os problemas. Crianças! Muitas! Aparentemente uma multidão de alunos tinha invadido o espaço. Estavam em todo o lado. Impossível fazer alguma coisa desta cache com as pestinhas à solta. Na primeira passagem pelo enhenho de água, um grupo de quatro ou cinco estavam de cabeça enfiada no poço numa qualquer actividade estranha. A torre de observação tinha a plataforma lotada. Sentei-me, a pensar na vida. Subitamente, um raio de esperança, quando as palavras “Vá meninos, vamos embora”, ecoaram na minha mente. Levantar! Depressa!

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Cruzei-me com a trupe nas escadas, e nesse momento, veio o balde de água fria. Algures, uma voz: “Já acabaste? Estava ali a fazer tempo para ir lá para cima com os meus”. Pronto. O sonho acabou. Sem grandes esperanças passo de novo junto ao primeiro ponto, onde agora uma turma inteira se reunia em redor de um “stôr”, sem dar hipóteses ao pobre geocacher. Sentei-me no carro. Batia o meio-dia. Decido esperar meia-hora. Volvido esse tempo, as crianças mantinham-se no Parque. Afinal, não ia haver pausa para almoço… ou ia? Já a dar a volta com o carro, vejo que a torre está vazia. Desligo atabalhoadamente o motor, pego no GPS e precepito-me para o local. Nem chego lá. O engenho de água está igualmente vazio. Encontro as coordenadas sem dificuldade, e acabo por conseguir concluir esta cache quando já a tinha dado por perdida.

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É agora hora de rumar a Tomar, onde recolherei a metade em falta do team. Nesta tarde teriamos que ir à Marinha Grande, comprar uns binóculos. Mas pelo caminho, claro está, seria sempre a “varrer”. Já juntos parámos em Pinga da boa [Ourém]. Trata-se de uma multi-cache, mas, observados alguns de subjectividade com um dos elementos solicitados, decidi nem tentar. A paragem seguinte foi em Fátima, para encontrar a cache os  Os 3 Pastorinhos [Fátima], sobre a qual não me vou deter. Ela, cache, está bem de sáude e recomenda-se. É o tema que me indispõe, e, neste momento, não estou com o meu stock de paciência teológica atestado, por isso passo a prosa.

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Na viagem até à Marinha Grande, passamos pela cidade de Leiria. Rogo a todos os leirienses que me lêem que não me levem a mal, mas a verdade é que se trata de uma cidade com que nunca simaptizei. Há coisa de dez anos vinha aqui muito; estórias de amor e amizades, que não vale a pena recordar agora. Desde então, a tempos, cruzo a cidade, e nunca se deu aquele click, aquele acto de conquista. Depois deste preâmbulo, para que a aposta na honestidade seja renovada, passo a narrar as descobertas: o parking spot para Leiria tem mais encanto… [Leiria] foi encontrado sem qualquer dificuldade. Seguiu-se uma curta caminhada por aquele espaço, até que, ao longe, se avistaram as paredes de escalada que anunciavam a proximidade do container. Com uma certa dose de sorte, este foi encontrado de imediato. Um ou outro muggle que passaram por perto foram iludidos pela máquina de fotográfica e pelo interesse demonstrado pelo curso de água que corria ali mesmo ao lado. Arrumada a cache no seu esconderijo e feito o caminho de regresso ao carro, parti para o Santuário de N.ª Srª Encarnação. O acesso correcto revelou-se após uma tentativa falhada, e a partir dai a aventura foi ensonsa. Não se passou nada de extraordinário: o santuário foi visitado, a partir de fora, e a cache encontrada sem incidentes.

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Devo confessar que o tempo apertava, já que a tarde ia avançando e tinhamos que estar na Marinha Grande a tempo de visitar a tal loja dos binóculos. Assim, decidimos procurar apenas mais uma cache antes de ligarmos o piloto automático rumo ao destino final, e nesta decisão pesou o facto de termos conhecido na véspera o owner daquela Senhora do Monte [Leiria]. E em boa hora tomámos esta decisão. Depois de uma curta e simples viagem a partir de Leiria, chegámos à ermida. Adorámos tudo nesta cache! O dia, depois de uma manhã algo cinzenta e por vezes chuvosa, tinha limpo gradualmente, e o sol já brilhava num céu parcialmente azul. A ermida é bonita, todo aquele espaço oferece uma vista espantosa, e a cache está bem escondida, sendo fácil ao geocacher deitar-lhe a unha, mas sendo bastante segura e abrigada da acção e da visão de muggles. Mesmo assim, tivémos “companhia” nesta caçada. Um par de jovens que chegaram de motorizada uns segundos à nossa frente enrolavam um charro. Coisa sem importância, uma vez que se mantiveram a uma distância respeitosa, e foram educados ao ponto de não demonstrarem curiosidade no que estávamos ali a fazer nós próprios.

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Aqui, é o momento de uma pausa na narrativa. Foi quase uma hora na Marinha Grande, a tratar do negócio anteriormente mencionado. Uma vez despachado o assunto, e como estes dias de Junho são longos, encontrámos tempo para mais duas caches. A primeira, Vale da Felicia (S. Pedro de Muel) é de elevada qualidade. Proporciona ao geocacher a descoberta de um maravilhoso mundo, ali tão perto, e tão dispar. De súbito, já não estamos na característica passagem da região, arenosa e dominada pelo pinhal, e entramos num ambiente a fazer lembrar as selvas da Indochina. O verde domina, como se tivessemos penetrado numa esmeralda em bruto, com tonalidades daquela côr num número a rondar o infinito. Posso imaginar a frescura que nos verões quentes este trilho mágico proporcionará aos aventureiros. Por uns instantes, imaginei encontrar-me num cenário de O Senhor dos Anéis, esperando ver a qualquer momento uma criatura mítica surgir por detrás de um qualquer tronco de árvore: seria um gnomo? Um duende? Um elfo? Não aconteceu, mas, se lá voltar, tornarei a virar-me a cada estalido de galhos, em procura de um encontro destes. Depois, o equilibrio: é uma caminhada com a extensão certa, coroada por uma cache que não resiste muito tempo à pesquisa, não havendo portanto grandes riscos de uma caçada frustrada.

 

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Para acabar o dia, fomos até PROJECTO VG – PATAIAS – [Alcobaça], ali tão perto, se sentindo já a frustração de não termos tempo para explorar as outras duas caches existentes em redor da localidade de Pataias. Já era muito tarde, a luz esgotava-se, o que deu uma certa aura de aventura à procura deste tesourinho. Só falhei uma vez o acesso adequado. E, de qualquer modo, quando passei por ele fixei-o mentalmente, de forma que falhando a primeira escolha, dirigi-me de imediato a este, na esperança de poder rodar até ao topo. Vã ilusão, porque a areia abundante me fez desistir a meia encosta, até porque não seria a hora mais agradável para ter um precalço, já ao cair da noite. Com os últimos metros a serem percorridos com tracção animal, houve lugar a uma certa decepção ao alcançar o ponto zero. O sol punha-se, e já imaginava a vista, do astro rei, deitando-se sobre as águas imensas do oceano. Mas não. Apenas pinheiros e mais pinheiros, sem mais nada. Pronto. Seja. Vamos regressar, que a viagem para Abrantes, onde pernoitaremos, ainda é longa.

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O dia acordou risonho, com um sol ainda tímido a espreitar por detrás do omnipresente manto plúmbeo. Coisa de pouca dura, e mal aproveitada, porque entre uma alvorada retardada, o pequeno-almoço prolongado e as higienes pessoais, já eram bem 10:30 quando se iniciou esta jornada. A primeira paragem,  alcancou-se sem grandes precalços, apesar de ter uma forte suspeita que a nossa “Catarina” (nome de baptismo do sistema de navegação TomTom) andou a fazer de gato sapato com este primeiro trecho da caçada. Entre não sei quantas estradas e caminhos municipais, pequenas aldeias com ruas estreitas e troços quase inexistentes, chegámos aos Moinhos da Pena [T. Novas]. Este era um destino de grandes expectativas, sobretudo para a minha companheira de equipa, que nutre verdadeira paixão por estas coisas de moinhos. Aquilo é moinhos de vento, de marés, de água e moinhos do que mais aprouver. Não será por acaso que o nosso primeiro Travel Bug se chama The Windmill, e tem por missão andar por esse mundo fora a visitar moinhos. A estes, os da Pena, chegámos nós primeiro, e o outro não chegará aqui tão cedo, já que se encontra “enterrado” numa cache qualquer sem movimento na Bélgica, à data em que estas linhazinhas são escritas.

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De resto, já antes de nos iniciarmos nestas coisas do Geocaching estes moinhos da Pena nos eram familiares. É que nós temos o nosso próprio moinho, recuperado numa qualquer colina da serra do Caldeirão, já no Alentejo. E quando procedemos ao restauro, entre a documentação reunida na Internet, encontravam-se alguns elementos referentes a este numeroso aglomerado de moinhos. Hoje, tivémos oportunidade de os conhecer pessoalmente. A cache foi encontrada sem delongas, depois de ter forçado um pequeno camião a desobstruir o acesso, onde se encontrava a carregar pedra, e de esperar que um par de ciclistas se afastasse do spot em questão.

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De seguida, rumámos em direcção a Torres Novas, de novo por portas travessas graças à confiança depositada na “Catarina”. Se calhar, andou a fazer pouco de nós, mandando-nos por inesperadas voltas e pelos caminhos mais inconvenientes. Mas a verdade é que chegámos ao destino seguinte: the world’s sexiest paper [Torres Novas]. Como uma vista à página da cache esclarecerá, encontra-se escondida nas imediações da primeira fábrica da empresa de produção de produtos de papel Renova.  Chegar ao local foi simples. Encontrar a cache, já deu algum trabalho, entre a chuva que já caia, a tempos de forma assaz pesada, o sinal deficiente dos satélites e o estado húmido do terreno. Mas todas estas penalizações foram compensadas por uma visita deslumbrante. Sinto-me atraido por este tipo de descoberta, que nos leva a locais decadentes. Vá-se lá saber porquê, embora suspeite desde já que não será por bons motivos. Mas pelo-me por estes cenários, com sabor pós-apocalíptico. E a fábrica velha não nos decepcionou. O tanque de água que recolhe o caudal da nascente para aproveitamento na produção dos produtos de papel apresentava uma tonalidade única, fruto quiçá dos reflexos acinzentados do céu, misturados com a influência da côr da pedra que lhe serve de fundo, tudo isto temperado com a pontinha de verde conferida pelos resíduos vegetais que entre o fundo e a superfície se desenvolveram. Uma vista que valorizou ainda mais a boa impressão que esta cache nos estava a causar. Well done Olharapo!

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Já que estávamos ali às portas de Torres Novas, arriscámos uma visita ao castelo da cidade. Ainda mal nos tinhamos afastado do carro, recomeça a chover. Chegados ao local da cache, a intensidade aumenta, e rapidamente a queda de água atinge o grau torrencial. Protegeu-nos o túnel de acesso às portas do castelo, onde nos abrigámos durante aqueles minutos críticos, já com a noção de que esta cache (Castelo de Torres Novas ) não nos iria facilitar a vida. É que os desvios acontecem, sejam eles da parte do owner no momento da colocação, ou da parte do geocacher que por ali anda de GPSr em punho. E ali, naquele local, um desvio de oito metros pode ser a morte do artista, entre vários patamares em altitude onde a procura pode ser válida, e no meio de uma infinidade de possiveis esconderijos. Já a a chuvada tinha abrandado à muito quando decidimos abandonar a busca, frustrados com a situação e irritados com a ausência de uma dica que pudesse a desembrulhar a alhada. É então que no espaço de cinco segundos, avistamos duas coisas: a própria cache, e um grupo de geocachers que se aproxima. E aquele breve instante foi o suficiente para transformar um sentimento negativo no seu oposto. Assinado o logbook, ficámos à conversa com aquela malta durante largos minutos, trocando relatos de experiências, narrando vivências, enfim, tentando condensar naquele pouco tempo que se sabe razoável tanta conversa, tanta estória.

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Na hora do adeus, eles partiram para almoçar, nós, para a cache seguinte, também nos arredores de Torres Novas: Vila De Cardílio. Já na estrada secundarissima que deveria conduzir directamente às ruinas, apercebo-me que dois carros me seguem. E eu que gosto de ir nas calmas, devagarinho, sem entravar nenhum camarada do asfalto. Vai dai, encosto. Apenas para ver quatro caras sorridentes e uma série de mãos a acenar. Ora bem, afinal o almoço ficou adiado, ou uma cache foi escolhida para aperitivo, pois, pela segunda vez hoje, encontramos aquela malta. A coisa revelou-se ser do tipo drive-in, com o carro parado a menos de um metro do contaimer. Mais uma mão cheio de conversata, incluindo algumas lamentações sobre o acesso às ruinas estar encerrado. À despedida, eles seguiram primeiro. Nós, logo depois. E qual não é o espanto quando ao rolar mesmo defronte da entrada da recepção da Vila, vimos que o portão já não se encontra fechado! Paramos, entramos. Somos recebidos por um funcionário camarário, que nos pergunta se queremos apenas visitar o espaço ou se estamos interessados numa explicação. Ombros encolhidos, olhares cruzados… já se sabe como costuma ser. Um humano feito papagaio a debitar informação linear armazenada mentalmente, a um ritmo muitas vezes inapropriado, quiçá, com um soletrar quase initeligivel. Mas por alguma razão estranha, optámos pela explicação. E que bom foi! O indíviduo, percebia-se, era um curioso genuíno, que com todo o gosto e competência explicou como era a vida numa casa senhorial romana, os esforços de recuperação do local, a melhor forma de percorrer o itinerário das visitas…. e tantas outras coisas. Sabe quem me conhece, que quando ando à caça, os olhos ficam raiados de sangue e só me fixo na presa. Quando algo me consegue arrancar deste estado de objectividade letal, é porque se passa algo de verdadeiramente excepcional. Contaria pelos dedos das mãos o número de vezes que isso sucedeu em meio milhar de caches. Mas hoje aconteceu. À explicação seguiu-se a visita, já muito mais esclarecida, devidamente enquadrada. E as coisas assim têm outra dimensão.

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A próxima etapa (Paul do Boquilobo [Golegã]) veio-se a revelar uma verdadeira aventura. Aquilo que seria um passeio pedestre de 3 km, tornou-se numa odisseia TT, envolvendo a passagem de um curso de água e vários quilómetros por terreno complicado, entre campos infindáveis de milharal e… mais campos de milho.  Só quando a viatura se deteve, a 90 metros das coordenadas, é que me apercebi que estava tudo errado. Uma falha no planeamento tinha-me induzido em erro. Atravessada a pé a linha do comboio, encontrámos o container com toda a facilidade, mas mesmo assim foi o tempo suficiente para passarem, velozes, uma composição Intercidades e uma Alfa. O regresso ao asfalto foi ainda mais longo, e quase tão aventuroso, mas por fim, reencontrámos a “civilização” com um suspiro de alívio e já deitando milho pelos ouvidos.

Alguns quilómetros à frente esperava-nos o Parque do Bonito, um espaço esbelto, marcado pelo curso de água e pelos pescadores que se distribuem nas suas margens. O céu, carregado, escolheu o momento da nossa aproximação a pé, para se aliviar, com grande alarde. A passo rápido, passámos por um casal de geocachers que procurava alguma coisa junto ao caminho que conduzia ao recinto central do parque. Iamos já picados pelas grossas gotas que se desprendiam de lá do alto, e cruzámos destinos com estas pessoas. A dedução imediata era que o ponto final desta multicache se encontraria ali, mas entre o orgulho de sermos nós a confirmar os dados, e o desconforto da chuvada, mantivémos a passada. Pouco depois, chegámos às imediações das coordenadas indicadas, para, com grande surpresa, avistarmos logo um novo grupo de caçadores de volta das mesas e cadeiras da zona das merendas. E não é que, pela terceira vez, encontrámos os teams que teimavam em se cruzar conosco?! Claro, a paródia foi grande. Mais uma sessão de conversa de algibeira, enquanto eles confirmavam as contagens e seguimos rumo ao ponto, que, como já suspeitávamos, não era mais do que aquele onde à ida tinhamos avistado os outros. Ora toca de procurar, seguir a dica, que é boa, mas nada de cache. Seis investigadores à coca, sem resultados prácticos. E estávamos naquele impasse de quem se aproxima do esgotamento das possibilidades, quando de bicicleta se aprochega o tal casal, que nos devolve o que procuramos. Parece que num instante se tinham esgueirado para escrever no logbook em local abrigado, longe do breve dilúvio que por ali tinha passado quando tudo aconteceu. Ora formalidades tratadas, aceitámos o desafio para partir para uma caçada conjunta, ao Cavalo de Ferro [Entroncamento], quebradura de muito boa cabeça, cenário de diversas aventuras e desespero dos nossos companheiros de ocasião que por lá já tinham passado no dia de hoje.

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Pela leitura dos registos anteriores só posso concluir que a estrelinha da sorte brilhou para o nosso grupo: nem polícias, nem reformados, nem mirones… apenas um junkie, e por pouco tempo, que logo se foi afastando, para qualquer lugar onde as gentes estivessem mais interessadas no seu produto e menos em inspecionar um bocado de “lata velha”. Os cinco saltaram céleres para junto da máquina. Eu não. Que vejo ali uma vedação em corrente, e, por princípio, sou um cidadão respeitador. Mantenho-me à distância, observando. Sem resultados. Não há nada de suspeito. Ao fim de algum tempo os esforços dos caçadores foram recompensados, mas a cache sofreu. Literalmente. Tal foi o tratamento que teve que ser entregue, mais à noite, a um delegado do owner, para manutenção adequada. A máquina é impressionante. Dependendo dos imaginários de cada um, trará imagens diversas. A mim aludiu-me a John Wayne e aos seus revólveres de munição infinita, a Tintim na América e a Lucky Luke. E estava eu nestas deambulações, quando uma voz vinda de parte incerta assim disse em bom som: “- Agora está mais fácil, não está?”. Coisa estranha, que nos deixou a todos pasmos, olhares trocados, interrogativos… que diabo foi aquilo!? Seguimos para a cache seguinte, já de comum acordo, sabendo que nos iriamos encontrar de qualquer modo. E então, para quê deixar o fado decidir… logos nos vimos em Barquinha e o Tejo aqui ao lado, conosco a chegar em último lugar, já imaginando quem seria o autor da enigmática frase gritada por entre o trânsito: ora com uma cadeirinha de criança no carro, seria alguém local, conhecedor da cache… simples, Paulo Martins. Ora ao aproximarmo-nos do tal grupo, vimos que mais um elemento se havia juntado. O próprio, autêntico, verdadeiro, genuino, Paulo Martins, em mais uma coincidência neste dia cheio de eventos bizarros.  Que não só nos tinha surpreendido a todos com a mão na massa, como era o owner da cache que nos reunia de novo em Vila Nova da Barquinha. Dicas dadas, ajuda preciosa, papinha feita, e ai fomos nós cumprir a formalidade de alcançar o container. E de novo avistamos actividade geocacher suspeita. Anda alguém a contar tubos! E quando nos aproximamos, vimos que são de novo aqueles que já tinhamos apanhado no Parque do Bonito.

 Em suma, no total, conhecemos sete geocachers por mero acaso. Quatro deles apareceram fortuitamente em três caches que procurávamos, dois deles em duas e um, o último, noutras duas. Tudo somado, constitui-se uma condição cujas probabilidades de ocorrência deverão ser verdadeiramente remotas. Mesmo!

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Todos os anos é a mesma peregrinação. No fim-de-semana do meio do mês de Junho, quando os dias são bem grandes, penduro-me, e venho a uma convenção comercial aqui no Hotel dos Templários, na cidade de Tomar. Nunca me farto. Não só aprecio a cidade, com todos o seu misticismo e belos jardins, de árvores altas e o omnipresente Nabão, como tenho laços emocionais com estas paragens, construidos a dois tempos: primeiro, foram as férias, passadas algumas vezes no extinto parque de campismo; depois, em trabalho, na feira de artesanato que durante alguns anos foi organizada nos jardins da cidade.  Além disso, sabe bem, o alojamento de boa qualidade, os morfes em quantidade e à borla. A juntar a tudo isto, há a ritual visita aos amigos de Abrantes, Sal e Kitiara, e claro, a proximidade com a Meca geográfica do Geocaching português.

 É que, já se vê, com base em Tomar tem-se fácil a acesso a uma das maiores concentrações de caches em Portugal, provavelmente logo a segunda, a seguir à da Grande Lisboa. Contudo, como primeiro dia, o menú foi reduzido à rota desde o Algarve, porque havia a necessidade de chegar até às 18:00 e não se saiu especialmente cedo. Desta forma a primeira paragem foi efectuada em Beja.

A minha costela paterna tem uma forte ligação à capital do Baixo Alentejo. Já o sabia, mas depois de ler um livro escrito pela velha tia Custódia, apanhado memorável de todos os membros do clã, até onde memória e documentos abrangeram, descobri com algum orgulho que na transição do século XIX para o XX, os meus eram dos notáveis da cidade, ocupando um dos melhores palacetes do centro histórico, e um tetravô chegou a ser algo parecido com presidente da Câmara. Desde que estes factos se revelaram, passei a sentir um prazer renovado ao visitar Beja, e hoje, mau grado o céu cinzento e chuva persistente, lá voltei, à descoberta do Castelo de Beja, algo que nem sabia que existia.

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A cache foi descoberta rapidamente, depois de parquear o cachemobile a uns 300 metros, à cautela, atemorizado pelo movimento do mercado. Um senhor idoso ainda nos atrasou, oferecendo-se para ajudar, se precisássemos de alguma indicação. Conversa de gente solitária, sequiosa de uma palavra e de uma sensação, por leve que seja, de utilidade para com alguém. Na mão, levava um ramo de flores. Ia para o lar agora almoçar, tinha comprado o ramalhete para…. e as suas palavras perderam-se na distância da despedida. Uma cache estrategicamente colocada. A localização é tão evidente que o resgate do container não deverá chamar a atenção dos passeantes.

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Seguindo para norte, encontrámos Portel. No seu castelo, imponente, esperava-nos outra cache (Castelo de Portel). A chuva pareceu disposta a pregar-nos uma partida, intensificando-se no momento em que parqueávamos o carro. Por ali ficámos uns minutos, aguardando a calmia que se esperava próxima. Assim foi. O acesso ao castelo foi simples e rápido. Lá em cima, fomos encontrar as portas encerradas. Restou-nos a procura do container, dificultada por um carro que entretanto chegou ali e parqueou, com os ocupantes a permanecer no seu interior. Quanto à nossa pesquisa, demorou um bocado mais do que o desejável, em parte pela dica errónea. Chovia e estava tudo molhado. A água já se entrenhava nas roupas. Assinado o log saimos dali para fora, descendo por uma rua alternativa.

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Évora ali tão perto. Mas já levávamos algum atraso e decidimos visitar a multicache de Graça do Divor, deixando para outra oportunidade o Templo e Jardim de Diana. Isso até desenterrar um log anterior que referia ter-se demorado cerca de hora e meia para chegar ao fim daquela cache composta! Em boa hora o descobri porque se foi de carro mesmo até ao Templo, e, mesmo com o cachemobile parado em segunda linha com os quatro piscas activados, descobri o micro container num ápice se seguimos viagem. Na realidade, já tinha estado aqui numa anterior passagem por Évora. Mas por essa altura havia uma missing in action cache, por mim reportada. Este novo esconderijo é excelente. Bem conseguido, muito equilibrado. Mas sem a leitura da dica, é capaz de ser complicado dar com ela.

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Em Ponte de Sôr começámos pela Zona Ribeirinha de Ponte de Sôr, uma multicache relativamente simples, que apresenta uma subjectividade algo desagradável num dos elementos a observar. Felizmente, entre as várias possibilidades, tinhamos optado pela correcta, e o container apareceu rapidamente, das profundezas do seu esconderijo. Nunca tinha ido a Ponte de Sôr, e a zona ribeirinha está agradavelmente arranjada, oferecendo um passeio interessante mesmo num dia tristuxo como o de hoje. Logo de seguida, partimos para My name is Sôr, Ponte de Sôr, deixando o cachemobile a cerca de 300 metros. Ainda nos deu um bocado de luta. Primeiro, a tarde não estava para caminhadas, e as tais três centenas de metros não são lineares. No local, o container ainda precisou de alguns minutos para se fazer mostrar. Apesar de toda a chuva, deu para apreciar a panorâmica global que dali se tem sobre Ponte de Sôr, que é de resto a missão desta cache.

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Já em Tomar, instalámo-nos no quarto atribuido e saimos para petiscar qualquer coisa e para tentar fechar o dia com a Lopes Graça. Má fortuna! De entre tantos hóspedes  o elevado escolhe-nos justamente a nós para fazer uma birra e nos encarcerar. Foram uns vinte minutos à espera de reforços. E que calor lá estava dentro. Já na rua, a chuva caia a bem cair. A petiscada passou-se entre linguiça assada, queijos, imperiais e pão a acompanhar. Quanto à cache, ao lá chegarmos já a coisa atingia o estatuto de temporal. O que tem os seus bons aspectos: nem um muggle no redor de várias centenas de metros. O cenário do crime estava por nossa conta, e, já bem empapado, não demorei a jogar-lhe a unha. Logar sem danificar o livrinho foi coisa mais complicada, com toda aquela água a ser arremessada lá de cima, sem dó nem piedade. Uma pena ter deixado a câmara fotográfica no quarto pois o cenário revelou-se assaz fotogénico, com as esculturas a escorrer água, em belas e bem formadas gotas, tudo isto sob uma luz muito especial.

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