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Archive for Julho, 2007

Cada cache nova no Algarve cai-me como uma gota de água em solo sequioso. Isto está tudo encontrado e mais que encontrado, de forma que quando chega ao verão e desata por ai gente a criar coisinhas, é uma alegria. Hoje fui-me às mais recentes, ambas surgidas nos últimos dois dias, e que aventura e desventura foi!

Já no finalzinho da tarde peguei na cachemobile Bombardier e fiz-me à estrada. Ir até à zona da praia dos Tomates de viatura motorizada é um desatino. O percurso que a pé se aproxima dos 2 km, transforma-se em 16 km, e isto tendo em conta muito andamento em terra batida, o que para uma moto 4 é ouro sobre azul, mas não terá muita piada para os rasteirinhos. Mas lá se fez, e rumo a Seaside Heights [Albufeira]. Por esses caminhos de pó observei um rebanho à antiga, a remoer a pouca erva que ainda resiste à secura, com um velho pastor a zelar pela bicharada, e quatro cães estrategicamente colocados nos extremos de um quadrado imaginário; espantoso como o instinto lupino destes animais é desde há muito aproveitado para proteger o gado, e quão bem o fazem!

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Como é meu apanágio, não usei waypoints adicionais, de forma que não faço a menor ideia da localização do parqueamento recomendado. Deixei a viatura onde me pareceu bem e lá fui, a corta mato. Dei logo com uma urbanização fantasma, cuja construção terá sido abruptamente detida, provavelmente por embargamento municipal da obra. Um mimo. Ainda estou a pensar em criar ali mesmo uma cache. A coisa tem o seu quê de interesse, não há dúvida. Passado um bocado estava na falésia, uns bons metros acima de onde devia estar, ou seja, na praia. Ainda avaliei o terreno, tentando calcular o desvio lateral que teria que fazer para chegar lá abaixo, e pareceu-me demais. Assim, fui-me aproximando do ponto zero a uma altitude superior, já a contar que teria que fazer o percurso duas vezes, entrando na praia por onde deveria sair. Mas precisamente ali onde está o primeiro ponto existe um trilho no declive, prontamente aproveitado.

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Primeiro container encontrado com facilidade, coordenadas introduzidas no GPS. Por onde se desce, sobe-se. Sem problemas. O percurso fez-se então totalmente pela falésia. Maravilhoso. O sol já se punha, lá bem a oeste. As cores do mar, da areia e da argila do declive ganhavam um valor extraordinário, banhadas pelo dourado destes últimos raios do dia. Algumas pessoas, poucas, cruzaram-se comigo. Num ponto alto, um jovem homem contemplava a paisagem com ar compenetrado de quem pensa nas tampas que a vida lhe tem dado. Lá em baixo, no areal, crianças brincavam ainda, quando toda a gente se tinha já retirado, para o jantar de rotina que se advinha depois de um bom dia de praia. Enquanto avançava em direcção ao ponto final, ia pensando na facilidade com que o que nos é habitual perde valor. Vendo as coisas nessa perspectiva, não admira que a bifalhada seja conduzida ao êxtase nas terras do Algarve, e que tanto apreciem a sua semanita de retiro no exótico Portugal.

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Já não estava longe quando vi as coisas a darem para o torto. Ali mesmo, um cavalheiro ajoelhava-se aos pés de uma dama, como se lhe rogasse perdão por um qualquer pecadilho conjugal. Lá das suas desavenças não sei, mas o que era certo é que o pequeno drama se desenrolava a poucos metros da cache, e se não se encontrasse uma célere resolução para o que quer que fosse, arriscava-me a procurar de noite. Vá lá que a vergonha assomou, e perante esta visita incómoda os dois desandaram, trilho abaixo. E assim deitei-lhe a unha, com uma facilidade idêntica à que experimentei no primeiro ponto.

O retorno foi um pouco mais apressado, que calculava o tempo de luz que teria disponível para procurar a Praia da Falésia [Vilamoura], e a coisa não estava brilhante. Felizmente que tinha marcado o ponto de estacionamento, o que poupou algum tempo de marcha, que decorreu agora em linha quase recta. Mas o “melhor” estava para vir. Chegado à mota… nada de chave. Foi-se. Perdida por ali, entre falésias e areia. Esgotada a última esperança, revistada duplamente a mochila, devassadas todos os vincos da sua intimidade, lembrei-me que o telemóvel estava quase sem carga. Um SMS para o Prodrive com as coordenadas foi enviado, mas quando me preparava para estabelecer ligação a fim de explicar a natureza da situação… finito. Acabou-se o telemóvel. A aventura já a tinha tido, a desventura estava a decorrer. Bem, nada a fazer. É pôr pés ao caminho que dali a Vilamoura ainda são uns quilómetros. E depois, claro, pelo meio há uma cache a encontrar, sem luz, sem lanterna. 

Devo aqui confessar que conhecia a localização desta cache, pois tinha vindo ajudar em alguns detalhes da sua criação. Mas isso é um pormenor, porque de noite as coisas são diferentes. A coisa lá se fez sem grandes azares. Encontrada… com um FTF já averbado no logbook. Só dava para sorrir. Acontece. Agora no Verão não me dão mesmo tréguas no meu território.

E lá fui eu, pela noite dentro, escuridão, andando, marchando, a bom passo. Praia da Falésia. Marina. Chego ao bar de um amigo, onde posso finalmente colocar o meu telemóvel à carga e fazer as chamadas de emergência que se impunham. O Prodrive estava a acabar de jantar em Almancil e pôs-se a caminho para com a família me fazer um pouco de companhia enquanto não me chegava o socorro adequado com uma segunda chave. E lá estivemos, em conversa, pela noite dentro. Uma jornada complicada, que me proporcionou um dos momentos inesquecíveis de Geocaching.

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A Velha Tia

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Volta não volta, lá os incautos olhos deste que vos escreve se descuidam e caem sobre as letras gordas de um Correio da Manhã ou, pior ainda, de um 24 Horas. Se não é isso, então num momento de distração o “telejornal” da TVI fica um pouco mais do que devia. E, expondo-me dessa maneira, não são poucas as vezes que me arrisco a ficar com a ideia de que a Internet é obra do chifrudo, que entre bits e bytes se encontram bolsas de enxofre e que quem se aproximar dessa obra da malvadeza arrisca, no mínimo, a arder nas chamas eternas do Purgatório, já aqui, nesta vida terrena, sem ser tão pouco necessário ir ao Juízo Final. Uma espécie de prisão preventiva, sem possibilidade de liberdade com termo de residência. O que é no mínimo estranho, pois cá para mim, com esta visão limitada que não se pode comparar à de tão iluminados “jornalistas”, me parece uma ferramenta bem benigna. Entre outras coisas que, imagino, fariam sorrir o Criador, permite a famílias afastadas por espaços fisicamente inultrapassáveis manterem um contacto sadio, a fazer lembrar outros tempos. E isto para dizer que hoje, à conversa virtual com a minha irmã, recebi notícias sobre a velha tia Nazaré.

Ora a boa da tia, do alto dos seus honrados oitenta e dois anos, não prescinde das leituras de qualidade e de quase todas as coisas boas da vida. Há coisa de três anos, já incomodada por não poder degustar a boa cozinha a que se habituou, resolveu colocar um ponto final na deficiência mecânica impeditiva e toca de gastar uma pequena fortuna num implante quase total de dentinhos… novos em folha, para de novo poder trincar o tal assado no forno. E hoje, pelo que fui sabendo, as catatuas irmã e tia foram às pizzas, ao que se seguiu uma sessão de Harry Potter no Vasco da Gama, e, por fim, o alongar da tarde à conversa nos jardins do Parque das Nações.

” – E o que é que tudo isto tem a ver com Geocaching?”, perguntará o impaciente leitor com muita pertinência. Já lá vamos. Estamos a chegar agora a esse ponto. É que vindas de outros temas, as damas desataram a falar do Potter, e vai dai, da piada dos muggles, termo aparentemente saído da enorme capacidade criativa da escritora J. K. Rowling. E nisto, a mana lembra-se de contar à tia sobre esta nova mania do delfim da ninhada, até porque ela própria, nos seus actuais cinquenta e cinco, tem sido convidada e participante activa em algumas tours.

Então, pelo que me dizem, a cara da velhota iluminou-se, naquela expressão que só alcançamos quando algo de especial nos atinge na alma. E, conhecendo-a um pouco, não é complicado perceber-se porquê. Na minha tenra juventude, ela era a tia enigmática do Algarve. Sabia tudo sobre literatura policial. E reparem, quando digo tudo, é tudo mesmo! Portanto, mistérios, pesquisas, charadas, eram e são com a velha Nazaré. Logo, não será de estranhar que mesmo agora se tenha apaixonado de imediato pelo jogo a que alguns chamam desporto. Num misto de excitação juvenil e da frustração de quem, mal ou bem, vai compreendendo as limitações das décadas que se acumulam em cima dos ossos, conta-me a mana que ela só dizia que tinha pena de ter a idade que tem, porque senão quem era já uma geocacher era ela. E assim terminou: “-Mas isso é mesmo algo que tem a ver comigo! Sempre tive atracção por esse estilo de coisas!”

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Nota Preliminar: A experiência relatada neste texto foi vivida há algum tempo, durante a visita à cache Os Calvarios [Mertola]. As memórias foram agora reavivadas pela leitura do trabalho Memórias do Contrabando em Santana de Cambas – Um Contributo para o Seu Estudo, da autoria do antropólogo Luís Filipe Maçarico, publicado pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas. Não tenho a certeza se foi este pequeno livro que inspirou o autor da cache, mas certamente serviu de material de apoio essencial. E foi esse mesmo exemplar que me chegou às mãos depois de ter sido “resgatado” da MAntune’s Book Box [Loures] por um amigo meu. Já que quando eu próprio lá estive não ia prevenido com o trade adequado.

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 Era o último dia do ano. 2005 esgotava-se, com os seus últimos grãos a escorregarem por entre os dedos, à medida que se aproximava a hora da contagem descrescente. Nem me lembro onde estava nessa hora em que a histeria colectiva atinge os píncaros. Talvez na praia onde o fogo-de-artíficio não pára de me surpreender. Talvez em casa a ver um filme. Mas recordo-me que antes de dormir debatiamos o programa para o primeiro dia do novo ano de 2006. As opções em cima da mesa eram duas: ou iamos ver o Lisboa-Dakkar a Portimão, ou rumávamos à região de Mértola para uma cachada.  A multidão que se adivinhava concentrada em redor das máquinas lá para os lados da capital do barlavento algarvio acabou por ser determinante. Isto de gentes em escesso é cousa muito má! Vamos lá então para a raia alentejana! Logo pela manhãzinha tomámos o caminho do Guadiana, com o primeiro troço a ser efectuado pela Via do Infante, onde a primeira surpresa do dia não se fez esperar. Parámos para abastecer de combustível, e o que vemos nós…. a estação de serviço está repleta de camiões apontados a Dakkar! É o milagre, senhores! Ali estão elas, as máquinas mais apetecíveis, numa exposição quase privada, com os intervenientes ao alcance da fala. Fotografamos, ouvimos as conversas. Circulamos sem barreiras, sem ter que pedir licença a mirones concorrentes. Partem uns, chegam outros. Entretanto, na autoestrada, os que não sentem necessidade de abastecer passam literalmente a assobiar. É o som do cardado de pneu todo-o-terreno com o peso de um camião carregado por cima, a uns 120 à hora. Impressiona. Não podemos ficar por ali toda a manhã, e também nós seguimos viagem.

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Se os camiões foram observados de bem perto, no percurso que se segue ao final da Via cruzam-se conosco os “carros”. Os bizarros Mitsubishi, que provavelmente vencerão a competição dentro de alguns dias; e outros, mais convencionais. De todas as cores, marcas e nacionalidades. Vêm já marcados pela prova. Alguns, cobertos de lama. Surgem vindos de um nevoeiro que subitamente caiu sobre aquelas paragens. Com o mesmo assobio estranho. Chegamos a um cruzamento e notamos um certo ajuntamento de pessoas. Paramos um pouco, e vimos que era agora a vez das motas. Saem de um caminho de terra batida, talvez terminando alguma classificativa. Afinal, a díficil escolha revelara-se fútil. Viemos cachar e vimos o Lisboa-Strakkar no seu melhor!

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Entretanto, a manhã ia avançando. Compreendemos que a jornada se limitaria a uma só cache, a mais prometedora, mas também a que iria tomar-nos mais tempo. Com facilidade chegámos ao ponto de estacionamento recomendado. E lá fomos nós, aventurosos, pelos penedos, afastando-nos da segurança do carro. O dia tinha nascido azul, e ali, no meio alentejano, confirmava-se a excelência climatérica: céu limpo, temperatura amena, fresca, mesmo, a convidar à práctica da marcha. A paisagem cativou de imediato. Talvez a luminosidade revestisse todas aquelas paragens de uma força positiva, mas a verdade é que a ribeira de Chainça encantava.

 

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Mais por inépcia do que por desafio, não seguimos o percurso sugerido. O que nos privou da observação dos calvários assinalados, mas, por outro lado, nos poupou a uma boa parte da caminhada. Por ali andámos, descendo e subindo montes, atravessando a ribeira, que corria dócil, com águas pelo joelho. As coordenadas intercalares foram encontradas sem grandes problemas, mesmo com um certo desvio em relação aos números fornecidos. Na primeira, encontrei um escorpião espanhol (não, não é uma piada, é mesmo assim o nome desta espécie, que também se encontra no Algarve nos anos de maior secura) sob a pedra que estava no ponto zero. A segunda foi simplemente capturada sem luta. E por esta altura estávamos, por assim dizer, no coração do percurso. Já haviamos atravessado a fronteira diversas vezes, de botas na mão e calças arregaçadas. E desatei a pensar em como tudo se tornou simples para nós, filhos de uma época de rara paz e fartura no âmbito maior da História Humana. Ainda há quarenta anos, homens com idade para serem nossos pais ou avós ali andavam. Pisando os mesmos calhaus, olhando as mesmas oliveiras, calcorreando os mesmos trilhos. Mas não era um GPS que carregavam. Eram cargas de dezenas de quilos. E se olhavam para trás, não era para apreciarem a viagem, mas para tentar perceber se aquela não seria a sua última viagem, trespassados que podiam ser a qualquer momento pela bala de Mauser da Guarda, espanhola ou portuguesa. Tempos ao mesmo tempo tão distantes e tão próximos, que carregam uma mística que as gerações vindouras deverão preservar, proporcionando uma sequência adequada à tradição oral que persiste ainda mas que se encontra à margem da extinção. Foi arrepiante percorrer estes caminhos e conseguir por momentos sentir a experiência através de outrém. De repente, estava em meados da década de 30, e urgia sair do campo aberto. Antes que a Guarda carregasse, a cavalo. Podia sentir a clandestinidade da presença proibida naquelas paragens. E foi então que compreendi o significado real daqueles Calvários, que deram o nome a esta cache.

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A terceira, proporcionou um dos momentos divertidos do dia: ali estávamos nós, após termos encontrado o contentor. A fome apertava, e decidimos descansar um pouco e despachar umas bolachas e umas laranjas. E ali estávamos nós, quietos, a observar as águas que passavam e um grupo de mulheres que mais à frente lavavam as entranhas de um porco abatido, quando uma delas se começa a dirigir para nós com passo certo. Curiosidade. Será que nos vem dizer qualquer coisa? Mantivémos o olhar preso naquele ponto negro que se aproximava até dar lugar à iamgem clara de uma mulher de meia idade. 100 metros. A criatura estaca. Baixa as calças e agacha-se, sem a percepção da nossa presença. E ali mesmo, alivia-se. Sorrisos. Despachado o assunto, retorna para junto das amigas, e vai a meio caminho quando as outras nos avistam e compreendem tudo. É a gargalhada geral, a chacota. E foi ainda a rir que nos afastámos para a grande final. A coisa parecia ir-se complicar, com o sinal algo fraco. Mas nesse momento, esta vista perspicaz avista um rasto de Manuelis Antunes Sapiens, bem claro, na vegetação. E já se sabe, onde há Manuelis Antunes Sapiens, há caches. Pelo que foi só seguir durante alguns metros aquele esteio e logo a caixa se revelou.

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Depois, foi o completar do círculo, o regresso ao cachemobile e o retorno a casa, com uma mais faustosas barrigadas de Geocaching de que há memória. Durante muitos meses, mesmo para cima de um ano, esta Os Calvarios [Mertola] foi apontada como a nossa cache favorita, quando por tal nos perguntavam. Actualmente, com a proliferação de excelentes tesourinhos e com a adição de mais quatrocentas e muitas à nossa experiência de “achadores”, já se torna mais complicado distinguir uma de entre as várias de elevada qualidade que ocuparão sempre um lugar de honra na nossa memória. Mas aquela aventura na fronteira será sempre especial. Até pela trilogia mágica que constituiu: foi a nossa centésima, no primeiro dia do ano, e fomos os primeios a encontrá-la (aliás, no nosso primeiro FTF).

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O calor aperta, o Geocaching é temporariamente excluido. Entramos naquela altura do ano a que muitos chamam de “bom tempo” e que para mim é o “nunca mais acaba”. São dias horríveis, incomodativos, com temperaturas que retiram toda a vontade de viver. Um passo é um sacríficio. Trabalho corporal é impensável. Logo, sair por ai à procura de tesourinhos perdidos a mais de 20 metros de um carro com ar condicionado, torna-se complicado. Mas há excepções. Se a coisa estiver aqui à mão de semear, pode-se arranjar a coragem necessária para enfrentar a baforada de ar quente que nos agride assim que pomos um pé fora de casa.

Esta semana tive aqui por casa couchsurfers (www.couchsurfing.com); primeiro, um casalinho, constituido por uma islandesa e um inglês; vinham em trânsito, da pequena cidade espanhola onde têm vivido para a Islândia. Depois, um alemão que anda a palmilhar essa Europa à boleia. Por fim, um francês que se veio juntar involuntariamente ao alemão. Como quase sempre sucede, com todos eles fiz geocaching, deixando a semente do papacaches em todos eles. É sempre o mesmo: dá-se uma simples demonstração, é logo perguntar quanto custam os GPSzinhos mais baratos. Alguns, acabam por se tornar mesmo practicantes, registados e activos. Outros nem por isso. Mas já uma mão cheia deles foram recrutados.

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Desta feita, com os primeiros, não tive oportunidade de efectivamente procurar caches. Levei-os a algumas aqui muito perto que costumam servir de cobaias para estas coisas, e pronto. Já os segundos, embarcaram conosco numa micro-expedição. De Vilamoura, direitinhos a Espanha, onde a um só tempo fui “buscar” um FTF e adicionar o país vizinho ao meu mapa de “founds”.  Parador of Ayamonte foi o destino inicial. As vistas e ambientes não foram na generalidade uma novidade. Mas o ponto onde a cache foi inserida é genial. A perspectiva visual é global, das melhores que se poderiam obter, e o container está colocado de uma forma excelente, garantindo-lhe uma elevada segurança num ponto onde tanta gente vai. É obra! Eu, que não sou rapaz de me dar com espanhóis, não conhecia naturalmente o local. Mas a minha companhia, experiente nestas coisas de cruzar fronteira, também nunca tinha ali ido. É o costume. O Geocaching proporcionou o conhecimento de um belo local que de outra forma permaneceria na penumbra.

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Já em Portugal, fomos ao segundo FTF do dia, em Santa Rita [Tavira]. Trata-se de uma multi-cache simples, de resolução fácil e esforço físico reduzido, mesmo num dia quente de verão. O que é bom. Todas as medidas foram tomadas pelo criador deste desafio para que ninguém saia daquelas paragens de mãos a abanar, ou seja, sem encontrar a dita cache. O que é igualmente bom. Multi-cache clara, sem margem para dúvidas, com duas soluções alternativas, e uma dica clara. A sua descoberta ficou a cargo das minhas visitas. Dei-lhes o GPS para as mãos e deixei-os gozar por inteiro a maravilhosa sensação do achado. E que apreciado foi !

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Hoje, Quarta-feira, com o meu feudo já por minha inteira conta, foi tempo de recuperar forças, descontrair, usufruir de uma intimidade perdida nos recentes dias. Ao fim da tarde o tédio já se tinha tornado insuportável. E, entre a indecisão de me deixar cair nos braços da inércia e me manter por aqui a desempenhar as inutilidades costumeiras, e a possibilidade de aderir à ideia de procurar a cache Seaside Paradise, a balança acabou de pender para a segunda possibilidade.

Já pouco faltava para o pôr-de-sol quando sai de casa. o que não seria um problema dada a curta distância até às coordenadas da cache. Por esta hora a temperatura já é um pouco mais suave. Fui de moto 4, devagar, apreciando o fresco sopro do vento. Complicado foi encontrar um acesso à cache. Passo para cima, passo para baixo. Nada. Por todo o lado há “Propriedade Privada”, “Acesso Restricto”. É o símbolo do Algarve que não suporto. Ou o que suporto ainda pior que o resto. Por fim, desisto, e vou até à praia. Felizmente a maré está baixa e aventuro-me pelo areal. Se estivesse cheia, este teria sido um Not Found. Encontro um bom acesso e trepo um pouco. Acabo por encontrar o container no pior local possível: aquele pedaço que qualquer pessoa que passe na praia consegue ver. Não gosto mesmo nada de caches que não têm uma dica que facilite as coisas. Hoje, tive sorte. Encontrei rapidamente, mas poderia não ter corrido tão bem, porque no raio aceitável de desvio havia milhentas possibilidades.

Na volta, enquanto caminhava pela praia, apreciei os aromas de verão, que me levaram até tempos em que suportava melhor o calor. Olhei o astro-rei. Tinha pensado em gozar o pôr-do-sol sobre o mar. Tolinho. Nesta terra do Sul não há cá nada disso, que o poente é a este e para esse lado só há terra. Voltei já a noite caia. Foi um finalzinho de tarde agradável, a fechar uma das raras semanas de geocaching local.

Um muito longo P.S. –  Pensava eu que a semana ficava por aqui. Isso era se não andasse por ai um Prodrive a desafiar. Pronto, foi assim…. desafiei-o eu, afinal. Encontrámo-nos no cafezinho (caraças de bordel aquele, com aspecto de santa tasca de província, um gajo pede descuidadamente uma sandes mista – péssima – acompanhada de dois Ice Teas e uma água… dá cá quase €7. Apre!!!) no sopé da Rocha da Pena. Quer dizer. Na realidade já à saida de Salir, passe a fonética redundância, tinha o chato atrás de mim no seu Audi. E portanto, dizia eu, lá estivémos um bocado à conversa no café com ares de esplanada na marina de Vilamoura, até que decidimos ir à cata de Rocha Rock. Uma microcache no meio do campo? Cheira desde logo a esturro. Depois, o fumo adensa-se quando se verifica que se encontra a apenas 260 m de uma outra cache, já existente, e que não traz absolutamente nada de novo. Como cereja em cima do bolo, foi criada por um viajante, que deverá ter alegado que a prima ou o amigo vive mesmo ali ao lado e fará a manutenção. Um presseposto “legal” cujos resultados, como se tem visto na práctica são nulos. O Prodrive e o Jr arrancaram a pé uns segundos antes. Segui-os na Moto 4 com um amigo do Jr. à pendura. Quando cheguei a eles já tinham o cilindro na mão. Pelo menos não nos fez perder tempo.

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Mais uma sessão de conversata, e o espectro do rolo da massa pairava sobre a nuca do Prodrive, que, mesmo assim, com tão séria ameaça, aceitou ainda o desafio de nos irmos à que prometia ser o prato principal deste finalzinho de tarde agradável: Cerro dos Negros. Onde ele ficava sabia eu. É o enorme monte que parece velar Salir, vítima de um sinistro incêndio no ido ano de 2003, que o despiu, tornando-o numa sombra da colina verde que era. Já chegar lá seria outra fruta. O batedor, elemento provido da viatura de todo o terreno, ou seja, eu, aventurou-se em todos os trilhos que aparentavam orientar-se na direcção correcta, concordantes com o ponteirinho do GPS. Tentou-se o primeiro… após algumas centenas de metros, afastava-se, serpenteando para os lados da localidade; o segundo revelou-se logo uma falsa aposta… logo ali estreitava, de tal forma que tive que o descer às arrecuas, uma manobra sempre complicada e arriscada, sobretudo com ângulos deste tipo. O terceiro, por fim, revelou-se o correcto. Cheguei ao topo! Fabuloso! Voltei abaixo, para levar as boas-novas aos outros. O Prodrive ainda tentou subir a primeira rampa, para poupar alguma trabalheira ao grupo. Mas foi complicado e ali ficou o carro, quase no topo, mas sem poder mexer-se sem mais um metro. Apiedei-me então deles, e a Bombardier transformou-se na “carrêra” das 8. Vai para cima? Faça favor de se acomodar. O primeiro cliente foi o Prodrive, com os seus 85 kg, que juntos aos meus, se constituiam já como um bom desafio ao motor de 400 cc. Mas a coisa correu bem. Deixei o passageiro lá em cima, vi, abaixo buscar os outros dois, a uma assentada. De novo para cima. Claro, o lobo já se tinha ido ao cordeiro, que jazia esventrado a um canto. Ficámos por ali ainda um bocado a apreciar o sol que se punha por trás das serranias. Para baixo, que é sempre muito mais complicado, levei apenas um dos ligeirinhos. Os outros foram a pé, até porque para o peão se aplica o princípio inverso: a descer todos os santos ajudam.

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O dia começou por volta das 9:00. Primeira paragem: No Paço do Terreiro [Lisboa]. Trata-se de mais uma cache numa zona da cidade já ricamente povoada, mas nem por isso está a mais. Quem não quer lidar com transportes públicos fará bem em ir até lá num dia de fim-de-semana logo pela manhã. Estacionar sem espinhas é luxo raro na baixa lisboeta, mas foi o que sucedeu nesta solarenga manhã. Breve caminhada até à bemposta praça e, depois de um olhar em redor para perceber em que direcção o GPS apontava, mais uns quantos passos. A cerca de trinta metros tinha o olhar fixo no container. Os muggles em redor, como é suposto suceder em tais circunstâncias, não se interessaram pelos movimentos desta figurinha. Tenho lido nos logs desta cache sobre as dificuldades colocadas pela presença de pessoas. Ali, não reconheço que este factor seja um problema. É a grande cidade, selva urbana, no seu esplendor, expoente máximo de um urbanismo cruel, que rouba identidades. Aqui, as pessoas são transparentes. Ninguém se interessa se um maluco qualquer fizer algo estranho. E até não é assim tão bizarro, o que esta cache exige. Portanto, atalhando conversa, esta não foi a cache mais rápida que já fiz, porque num outro caso detectei o container com a mesma celeridade… só que ia em passo de corrida. Gostei desta criação do Team Hulkman, que revela uma maturidade na criação de caches urbanas e honra um dos pontos nobres da nossa cidade com um tesourinho.

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Seguimos a linha ribeirinha, ao encontro do desafio seguinte. Quando era pequeninito, costumava passar férias no Guincho. Daquelas férias que, com o sentido de tempo único que as crianças têm, pareciam durar um ano. O caminho fazia-se pela Marginal, e os meus olhos, ansiosos de informação, observavam aqueles fortes. Eram uma mão cheia deles, e registava-os a todos na memória, escutando as conversas dos adultos, que falavam de uma tal prisão de Caxias, e, durante muitos anos, acreditei que esta se encontrava estabelecida numa das edificações pintadas de amarelo ocre que se debruçavam sobre as arribas. Foi portanto com interesse que me aproximei desta cachada, apesar de logo me ter apercebido que este não se encontrava entre o rol de fortes que me intrigava e que marcou um canto da minha memória da Marginal. Parqueada a viatura, não foi complicado chegar até à área a bater. Procura para cima, procura para baixo. E aparece um muggle no topo da arriba. Coisa estranha, dada a natureza do local e a hora matinal. Pára a pesquisa, trepo, porque deixei a mochila com bens preciosos lá em cima. Quando chego, não o vejo. Puxo a bagagem mais para baixo e reata-se a procura. Passado um pouco, ali está ele outra vez, espreitando. Rapaz novo, de boné preto e óculos escuros. Todo muito “tunning”. Mas desaparece uma segunda vez, e de bom augúrio foi, porque logo após a danadinha foi encontrada. Uma boa cache, estrategicamente localizada, oferecendo um desafio razoável e mostrando um bocadinho interessante de Portugal. Ah! O link: Fontainhas “micro” Beach [Oeiras].

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A cidade de Oeiras fica mesmo ali ao lado, e foi o nosso destino seguinte. Cascata dos Poetas [Oeiras] foi uma bela surpresa. Arriscámos muito, deixámos o TomTom decidir o percurso para chegar à cache. Em determinado momento não quisemos abusar da sorte e, estando a uns meros duzentos metros do ponto de parqueamento recomendado, encostámos. O recinto, já o estávamos a ver. Encontrar a entrada é que poderia ser um desafio, que afinal veio a ser solucionado com rara facilidade, por um muggle com o falar arrastado e os olhos inflamados a insinuar um estatuto de ganzado profissional. Fumasse lá o que fumasse, deu as indicações correctas, e logo nos vimos da parte de dentro. Ali, montava-se um espectáculo. Rapaziada técnica andava em azáfama, extendendo cabos, testando equipamento de som. Ficámos a saber à saída que uma das figuras maiores da música portuguesa contemporânea, Teresa Salgueiro, actuaria no local mais ao serão. Mas para já concentremo-nos na cache. Que gostei bastante, pela surpresa do local. Que bizarro, que inesperado. Belo jardim, cenário perfeito de filmes de outros tempos. Muito fotogénico. Uma pena que pela natureza da cachada estivesse limitado à câmara de bolso. O container apareceu rapidamente, mercê de uma dica sensata, que não deixa margem para dúvidas. Bem colocada, deixando o geocacher ao abrigo da mugglaria comum, mesmo em dias de muito movimento.

As duas caches seguintes foram colocadas pelo mesmo dono. Ou donos, que isto de ser team implica um estatuto plural. Não há nada a fazer, não sou compatível com o estilo de esconder dos Golden Team. Por mais voltas que dê à cabeça, não imagino o que leva um owner a colocar caches em locais movimentados (eu disse movimentados? Não… movimentadissimos!) sem um local evidente e, pior ainda, sem uma dica. Será o gosto por ver desaparecer as suas caches? Porque na realidade, incentivar uns malucos a executar as suas momices à vista de todos, é o mesmo que dizer que se pretende que todos se sintam curiosos pelo local, pelas actividades estranhas, e, em última instância, por aquela caixinha que o senhor estranho foi buscar às escondidas. Ora quer GT Oeiras Park  e GT Carcavelos Beach estão mesmo a pedi-las. São expostas, com audiência garantida, especialmente no segundo caso. E, não sendo propriamente simples, têm garantidos longos minutos de actividades suspeitas por cada “found”. Em média, claro. A segunda, até já a tinha procurado há uns tempos. Caiu à segunda. Mas apenas porque hoje levava uma dica. Aquela dica que deveria ser dada desde logo e não o é.

Fizemos depois um pequeno desvio, até à Vila Romana de Freiria [São Domingos de Rana]. O carro foi muito maltratado, coitadinho, no acesso ao local da cache. Não deve ter gostado, e nós também não.  Vista nas fotografias a Vila Romana parece ser interessante. Mas como no local não há vistas, fica a cache, que per se não tem interesse em absoluto. Há contudo que tirar o chapéu à mestria do esconderijo, que a oculta de olhares indesejáveis sem complicar em demasia a vida ao geocacher… apesar de alguns testemunhos em sentido contrário.

M.A.N. – Movimento Anti Nós [Estoril] é uma cache obviamente diferente, pela criatividade colocada na sua apresentação. Neste ponto, aconselho todos os que não tiveram oportunidade de o ver, de clickar ali no linkzinho e a dar uma vista de olhos, porque vale a pena. Chegar até à zona da cache a partir da anterior foi uma brincadeira de crianças graças à ajuda inestimável da Catarina. Perdidos por mil e uma ruas, não sei quantos cruzamentos depois, uma série infindável de semáforos após chegámos a um ponto que talvez fosse o de estacionamento, ou não. Mas dada a curta distância à cache, foi ali que o carrito ficou. Subimos uma rampa e demos conosco no meio de um green de golf. Um par de homens de taco na mão olham-nos com desconfiança. Divididos entre a vontade de atalhar pelo percurso mais evidente, bem pelo meio da relva do campo, e o receio de sermos brindados com umas valentes bordoadas daqueles resplandecentes tacos, optámos pela via mais radical: desafiando a falta de hospitalidade dos golfistas lá fomos, para logo depois sairmos da área “proibida” e entrar pela mata. Chegar à cache foi mais simples do que se poderia pensar e encontrar o container foi “caldo de galinha”. A volta foi apenas um pouco facilitada pelo reconhecimento do terreno proporcionado à ida, e ainda deu para ver um lagartão que mais parecia uma iguana e nos cruzarmos com uma enorme família britânica que ia ao golf.

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Estando no Estoril, o objectivo seguinte era a trilogia Oliveira, ali para as falésias do cabo da Roca. Via Malveira da Serra foi um instantinho. E com duas pessoas a navegação torna-se mais simples. Enquanto um conduz, o outro vai ajustando o Google Earth no laptop, e não há acesso adequado que escape. A cache do Roger [Orion’s Belt] foi a primeira a cair, e local previamente eleito para o piquenique almoçadeiro. Ainda é um saltinho entre o ponto em que o mortal dos cidadãos deixará o cachemobile e a cache. A linha recta engana um bocado, porque o zigzag para baixo está lá. E lá iamos nós, trilho abaixo. quando o meu companheiro de expedição exprime uma loucura premonitória: “- o que calhava bem agora era um Geocacher de cachemobile TT que passasse ai e nos desse boleia”. Ora não tinha ainda passado dois minutos antes desta previsão alucinada, quando ouvimos o barulho inconfundível de um rodado a resvalar no leito pedregoso do caminho. Afinal não eram geocachers, nem nos deram boleia (também, não pedimos). E ainda bem! Porque o surrealismo personificado em condutor passou por nós a assoprar. Num caminho onde rolar a 10 km/h seria exagerado, passa por nós uma pickup largada bem a 30 km/h,  a tempos quase desgarrada pela falésia abaixo, por momentos com duas rodas no ar, a saltar, a bater nos socalcos. Uma visão incrível, única, e com aspecto de se repetir todos os dias. Acabámos por chegar, ainda mal acreditando que o veículo tinha logrado terminar o percurso em segurança. O ponto final é um assombro, com mais uma daquelas vistas para as águas cristalinas, com rochas a fazer lembrar o postalito de Lagos, e com dois brindes: a ruína que se encontra mesmo antes da cache e, lá mais abaixo, as cabanas dos pescadores, activas e bem activas, onde ao espreitar notámos uma pequena reunião para ai com uns oito homens. Na água, bem perto das falésias, evoluia uma minúscula embarcação, na faina que se crê ser de todos os dias. Ali ficámos sentados, a disfrutar das sandes mirabulantes que a minha companhia havia preparado, já com a bem dissimulada cache ali no chão, à beira, aguardando pelo fim de refeição para receber as merecidas atenção. Logbook assinado, container devolvido ao abrigo, e agora é que são elas, que subir não é o mesmo que descer. Iamos a meio do momento mais extenuante da jornada quando começamos a ouvir: “nhic, nhic, nhic”. E pronto. Já não bastava a pickup enlouquecida, agora era uma moto 4 de trabalho que vinha por ali abaixo, numa velocidade bem mais moderada, apesar de ter outras capacidades bem mais adequadas para a função. Extremamente movimentada, a “estrada”, hoje!

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A ideia era passar para a cache seguinte da trilogia família Oliveira, mas a consulta ao Google Earth não foi célere e acabámos por parar inadvertidamente nas proximidades da que seria a última, segunda a ordem natural da geografia:  Mother’s cache [Milky Way]. Esta dilui-se um pouco nas semelhanças com Duarte’s cache [Alpha Centauri]. As vistas são basicamente as mesmas, o terreno é semelhante. Enfim, valem pela passeata. A segunda, mais complicadota de encontrar o container. Mas mais por azar: de todos os locais possíveis das redondezas, aquele em que a caixinha se abrigava deve ter sido o último a ser visitado.

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Ainda naquela zona, procurámos Ursa [Sintra]. Aquilo que seria uma caminhada ainda considerável atalhou-se para uma quarta parte da distância graças à teimosia do meu companheiro de caçada, dono de um pobre cachemobile. Enterrou-nos lá por uns caminhos, contra todos os conselhos do grilo falante de serviço, este que vos escreve, e só se ouviam as silvas a divertirem-se com a pintura azul metalizada da chapa. Eu, já só tapava os olhos e dizia “- Tirem-me deste filme que este gajo é maluco.” Bom, quanto à cache, recomenda-se. Representa mais um passeio bem junto ao magno oceano  que banha a costa ocidental portuguesa, imponente, azul, aromático. As gaivotas circundam, nervosas. Talvez estejamos demasiado perto dos seus ninhos, que contudo parecem estar concentrados nos dois enormes rochedos que se eguem a algumas dezenas de metros da costa. Ali sim, é que deveria estar uma cache, para homens de barba rija a sério. Quanto a esta, chegados ao local, deixou-se descobrir sem delongas.

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Perto da Praia Grande, visitámos duas caches a um só tempo:  GT Dino’s Lunch Box e DP/EC-Footprints in the sand. A primeira, daquelas a sério, como quase todas, com uma caixinha para encontrar e livro a assinar. Encontrada com facilidade depois de uma muitissimo agradável caminhada por caminhos de areia, quase ao lusco-fusco, num percurso repleto de aromas que penetram a mente, libertando recordações associadas. Férias, de outros tempos, namoricos e catrapiscos, aventura e… nostalgia. A segunda, é para mandar eMail ao owner com a resposta correcta à questão colocada no enunciado. A fazer lembrar os tempos das caches virtuais, não muito populares em Portugal, mas cuja existência passada é ainda recordada abundantemente noutras comunidades geocachers da Europa. Ali sim, vimos as pegadas. Nem de outra forma poderia ser, pois sem a observação atenta, não se poderia dar a cache como encontrada. Um local duplamente interessante, com vistas priviligiadas sobre a Praia Grande, que por acaso nunca foi sitio que frequentasse, mas deve dizer muito a uma multidão de boa gente. Entretanto, o meu companheiro, geógrafo de serviço, que pelas suas credenciais estava encarregue de solucionar a charada das pegadas, entra em êxtase. Isto de levar um surfista de tempos livres a sítios com vista para o mar pode ser perigoso. Em vez de ouvir a desejada solução para o problema, só ouvia comentários às ondas e aos pontinhos negros que ao longe evoluiam nas suas cristas. Cheguei a pensar empurrar o tratante falésia abaixo, mas salvou-se a tempo, cantando a necessária direcção da marcha da bicharada pré-histórica.

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Quase para o fim da jornada, deixámos o prato principal: Peninha  e sobretudo kit sobrevivencia-peninha. A primeira demorou a aparecer. Vista, nem vê-la. De resto, não teria sido necessário vir a esta cache para gozar do deslumbrante panorama que da Peninha se avista em dias de calmaria. Por isso, parece-me altamente redundante e de todo desnecessário, tendo em conta a existência de mais duas caches, que por si, já quase colidem. Já a segunda, anunciava-se de desafio atrevido. Ao ler todos aqueles logs, atemorizei-me. Sou rapaz ajuizado, respeitador de perigos. Sou assim mesmo. Já a malta das Moto 4 me acha um chato. Passo o dia a queixar-me das imprudências, a dar negas aos desafios inconscientes que me lançam. De tal forma que já desisti de sair com eles para a montanha. Ora por isso mesmo, já vinha com pouca disposição de procurar efectivamente esta cache. “Outros que arrisquem quebrar o pescoço”, ia eu pensando. Mas, claro, tinha que dar uma vista de olhos, avaliar eu próprio o terreno. As condições climáticas eram adversas: nevoeiro e muito vento. Mas… foi um caso de chegar, ir lá, recolher o container e assinar o logbook. Sem espinhas. O meu colega, mais atrevidote, escolheu uma abordagem diferente. Foi até à base da “parede” e correu por ali acima, feito homem-aranha. Eu, optei por uma aproximação norte-sul, sem grandes problemas.

A ida à Peninha foi complementada com um brinde-surpresa: no local rodava-se um filme. O parqueamento estava cheio de estruturas temporárias, e quando deixávamos o local toda a equipa iniciava o jantar num enorme refeitório-tenda. Ali perto, entre as árvores, os supostos enforcados pendiam, sinistros, já mergulhados nas trevas anunciadas.

De volta a Lisboa, onde a minha boleia teve a gentileza de me largar, ainda fomos a O Segredo, o que se constitui como uma dupla excepção nos meus padrões de actuação enquanto geocacher. Primeiro, porque era já de noite, e não me agrada practicar o jogo sem usufruir em pleno da experiência visual que só a luz diurna oferece. Segunda, porque se trata de uma cache com charada, coisa que em absoluto não faço. Mas como a minha companhia já tinha resolvido o enigma, e visto que tanto insistiu para a irmos tentar, acedi. E ainda bem, porque soube mesmo bem. Terei que respeitar o espírito da cache e ficar-me por aqui. Que pena não ser uma cache normal, sem tretas para descobrir.

E sabem que mais? A Operação Verde Minho acabou aqui. No dia seguinte, dirigi-me ao balcão da Budget para levantar o carro que tinha reservado para a viagem para norte. Nada de reserva. Algum incompetente trocou tudo, voltei para trás. Game Over.

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