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Archive for Agosto, 2007

 

Quem atente na colecção de elementos estatísticos patentes no meu “profile”, não poderá deixar de notar a evidente quebra na actividade “geocachiana” que todos os anos ocorre nos meses de Verão, especialmente em Agosto. A verdade é que este vosso amigo não casa com calor. E com gente. Muita gente, por todo o lado. Assim, Agosto torna-se altura de sentar, respirar fundo e esperar que passe. Até que as temperaturas amenas regressem e a multidão se desvaneça.

Mesmo assim, surge sempre a oportunidade de fazer o gosto ao vício. De resto, o ano de 2007 ficará marcado pela amena época estival, com valores muito abaixo do esperado, que apesar de tudo permitiram alguma actividade geocachiana no pico do Verão.

11 de Agosto 

Ontem foi o dia da Armona. Na companhia do team Hulkman, partimos à descoberta desta ilha, de que tanto ouvimos falar, mas que nunca haviamos visitado. A verdade é que, apesar de já me encontrar por estes paragens há quase uma década, ainda não tinha encontrado oportunidade de visitar nenhuma destas ilhas da Formosa: nem Culatra, nem Farol, nem Armona.

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A ideia era procurar a cache, rubricar um FTF conjunto, e passar um resto de tarde de praia relaxado, reservando para o serão uma jantarada em tasco que cá conheço. As coisas não começaram da forma mais tranquila. Rendez-vous no Fórum Algarve, onde deixámos a moto4, e embarcámos no cachemobile Hulkman. O caminho para Olhão era evidente. Já o ponto de embarque para a ilha nem tanto, e muito menos em dia de Festival do Marisco. Lá acabámos por descobrir as direcções correctas, mas estacionado o rasteirinho e percorrida pedonalmente a distância até ao cais, chegámos a boa hora de ver o ferry acenar-nos um pouco sentido adeus. E lá ia ele. Há mais daqui por sessenta minutos. Isso é que era bom! E para que é que servem os táxis fluviais, para além de nos levar dinheiro? Isso mesmo, para nos poupar a uma hora inteirinha de espera.

 A ilha não agrada à primeira vista. A construção com perfil clandestino abraça o visitante desde o momento em que este desembarca e não o larga durante cerca de um quilómetro, distância percorrida por um caminho claustrofóbico, constituido por toscos blocos de cimento, assentes na areia entre duas fiadas infindáveis de barracões e casas mais ou menos suspeitas. à medida que o cais fica para trás, o bulício humano abranda. E, para o fim, com a chegada à praia, estão reunidas as condições para  a reconciliação com a Armona.

A cache, essa, foi encontrada sem delongas. Foi avistada em passo de chegada, num FTF mais do Hulkman. Colocação com linha de vista directa de algumas casas, e demasiado perto do posto da GNR para o meu gosto. Os guardas podem não ver a actividade dos geocachers das suas janelas, mas por formação e feitio gostam de investigar movimentos estranhos, e, imagino, de forma exponencialmente elevada quando estes se desenrolam a poucos metros do seu ninho.

E por esse dia as coisas ficaram por ai. Seguiu-se um período de praia pouco agradável, com o vento constante e a areia no ar, que se infiltrava em tudo, lenta mas inexoravelmente. Nem as bolas de berlim do Hulkman escaparam a tal castigo. Depois, o regresso, no maciço ferry convencional, para a noite acabar em jantarada, com sardinhas assadas e entrecosto em cima da mesa.

12 de Agosto

Domingo. Enquanto todos se arrastam até à praia, nós escapulimo-nos em direcção oposta, para o interior, onde algumas recentes caches nos desafiam. À saída de casa está instalada a confusão: é preciso coordenar movimentos. O team Hulkman anda por ai, no terreno. Tentamos harmonizar os movimentos de forma a encontrarmo-nos e fazer pelo menos um par de caches em conjunto, o que não virá a ser possível apesar de surgir a oportunidade para um célere cumprimento em Castle [Tavira]. Com o Kidloco combinamos em O azul de Cacela Velha, logo a seguir, com um timing mal calculado a exigir uma correcção por SMS.

Portanto, o primeira paragem da jornada é em Tavira. Algo à pressa parqueamos o cachemobile nomeado para hoje, a Mitsubishi Strakar, e seguimos em passo apressado para o ponto zero. São locais conhecidos, que não exigem uma apreciação considerável. Chegámos ao local onde os Hulkman nos aguardam para dois dedos de conversa enquanto o container sai do esconderijo, com dificuldade nula. Tentamos mais uma vez combinar movimentos para um posterior encontro em Bureau de Change, mas torna-se evidente que será quase impossível encontrar uma solução forçar à confluência em percursos tão dispares.

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A paragem que se segue é em Cacela, pouco mais à frente. O Kidloco já lá anda, de volta do ponto zero, mas ainda sem sucesso. Com três as coisas facilitam-se e rapidamente o container é avistado e recolhido sob as “barbas” de três inglesas que por ali estão, já intrigadas com as nossas pesquisas. É uma cache que, também pelo seu tamanho, não coloca nenhumas dificuldades ao geocacher no que toca à mugglaria. Por mais que os hajam, ali em redor, a coisa pode sempre fazer-se descansadamente e com segurança máxima.

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Para grande pena nossa, a casinha de petiscos que tanto apreciamos, mesmo ali à beira do largo da igreja, encontra-se encerrada, provavelmente devido aos preparativos da festa grossa que já se adivinha no coração da aldeia. Um palco está a ser montado, e quando deixamos o local cruzam-se conosco carros com equipamento de som e instrumentos musicais. De qualquer forma o Verão não é a melhor altura para visitar Cacela Velha. Por outro lado, o local pode-se aproximar do conceito de paraíso na Primavera tardia ou no Outono inicial. Na realidade é uma das raras localidades algarvias que, sendo costeira, mantém um toque intimista, inalterado, genuíno. A exploração turística restringe-se a um par de restaurantes, e como não há praia, a coisa mantém-se quase intocada pela avalanche descaracterizadora. A aldeiazinha resume-se a uma meia dúzia de ruas, todas extremamente pictorescas, dominadas pelo azul do céu, do mar, e das pinturas. Depois, há a igreja e o forte, que era da Guarda Fiscal e agora é da GNR. Localizado em ponto estratégico, com vistas ilimitadas para um mar que se perde em direcção a Marrocos, este posto revela-se ideal para a vigilância que se pretende.

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Altamente recomendado é o petisco em estabelecimento cujo nome me escapa, mas que se caracteriza pela esplanada em mobiliário escuro, justamente no largo da igreja. Não tem que enganar. Sugiro o chouriço assado, enorme, servido sobre a chama que o próprio cliente extinguirá quando achar por bem. A dose de conquilha é generosa e muito apetitosa. Os preços são baixos, com o primeiro a custar €5,50 e a segundo a valer €6. A imperial custará €1, assim como o belo pão caseiro que dá para a refeição toda. Os queijos também não são nada de deitar fora!  

Ali à beira da 125 ficou a nossa Strakar. Até Percurso Aldeia Nova [Monte Gordo] prosseguimos na viatura do Kidloco. À chegada, um dos momentos altos do dia; estando um carro atravessado a ocupar por inteiro a única sombra existente na clareira, sai-se o nosso companheiro de aventura com mais ou menos com a seguinte: – “Tinha que ser um algarvio, claro, sem consideração nenhuma pelos outros”. Ora foi a oportunidade de estar calado perdida de forma mais cruel. Porque vamos a ver, e afinal o carro não deixava margem para dúvidas: na matrícula, a referência a um stand no Porto, e no vidro de trás um autocolante com os dizeres “Sou do Norte carago!”. Gargalhada geral, claro. O Kidloco ainda tentou a impossível saída airosa com um -“Claro, é inteligente, arranjou a melhor forma de usar a sombra”. Mas não “colou”.

Ainda sob os risos deste episódio iniciámos a curta caminhada, que nos levou à zona da cache com rapidez. É um pequeno passeio em zona de pinhal, que parece ser uma alternativa válida para chegar à praia sem grandes preocupações com trânsito e estacionamento. Encontrada. Regressamos, e recolhemos o nosso cachemobile.

A última cache para nós será Bureau de Change, já bem para o interior, onde chegamos depois de rolarmos durante um bom bocado por estradas estreitas e sinuosas que atacam a primeira linha de montanha. Decidimos deixar o rasteirinho do Kidloco à entrada do percurso de terra batida no sopé da colina onde adivinhamos a cache e prosseguimos na viatura mais vocacionada para este piso. A meio caminho arriscamos a marcha bruta em direcção ao pico. A verdade é que vimos a descobrir que o estradão contorna o monte até atingir o cume. Mas ainda bem que nos enganámos, porque a caminhada até ao topo foi divertida e bem capaz de nos limpar o pulmão… apesar de dolorosa para quem se apresentou com calçado menos próprio para a ocasião.

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Lá em cima a vista é deslumbrante. Rica, variada, com o azul do mar a sul, em contraste com o amarelo da erva seca que cobre a paisagem mais próxima. O melhor momento do dia. A cache estava bem disfarçada, e por estranho que pareça ainda demorou um tudo nada a ser descoberta. Terminada esta caçada, ainda passámos por Santa Rita [Tavira], apenas para fazer companhia ao nosso parceiro de viagem, pois já tinhamos averbado esta cache ao nosso “curriculum” há coisa de um mês. 

13 de Agosto

Na véspera, ao chegar a casa já noite avançada, fui notificado da criação de uma nova cache nas imediações: Respeitem o Ludo. Tratei logo de agendar a visita para a manhã de hoje, mesmo cedinho. Só que ao acordar, o cedinho era também fresquinho, e como a ideia era ir até ao local de Moto 4, fiz-me caro e desvinculei-me do projecto. Acabei por lá ir já para o meio da manhã, deixando o carro a cerca de 1 km, de forma intencional, para usufruir de uma caminhada com o tempo agradável que se registava. E que bom foi ! Lá segui pela estrada abaixo até às imediações da cache. Internei-me nos caminhos florestais, encontrei o container com facilidade e, em vez de regressar, continuei o passeio em direcção ao Ludo. Pouco depois virei à esquerda, em direcção ao aeroporto, e caminhei durante mais um quilómetro em linha recta, por entre as salinas e comportas, repletas de aves de todos os tamanhos, entre as quais os notáveis flamingos que se deixam observar sem falsa timidez. De resto esta cache pode ser uma porta de entrada para alguns pontos de interesse na zona do Ludo. Pode inclusive ser um ponto de início para uma jornada pedestre que poderá incluir outras caches das redondezas, como o Travel Bug Hotel “Flamingo” (Faro Airport) e Quinta do Lago [Loulé],  Foi de facto um excelente final de manhã, com uma actividade que decorreu perfeita em todos os quadrantes.

A cache revelou ligeiras vulnerabilidades próprias de um novo elemento, inexperiente, que não resistiu à tentação de publicar a sua própria criação practicamente sem ter encontrado, ele próprio, um número considerável de “tesourinhos”. O container encontrava-se bastante exposto, e com algum desvio em relação às coordenadas finais. Nem uma coisa nem outra em proporções preocupantes. Dei um jeitinho no sentido de disfarçar um pouco mais o esconderijo, e quanto ao desvio, acaba por ser irrelevante dada a natureza do terreno. Seria contudo prejudicial num meio mais cerrado ou com patamares verticais. O que me desagradou muito, foi ver nascer mais uma cache sem a devida versão internacional. É preciso repetir uma vez mais que o Geocaching não é um jogo português para portugueses; é uma actividade global, internacional, para os cidadãos do mundo.

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