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Archive for Dezembro, 2008

Os tons melífluos da música de Diana Krall embalam-me, enquanto escrevo estas linhas, e, com um vislumbre, confirmo sobre o parapeito da janela à minha frente que a chuva continua a cair. A luz amarelada de um candeeiro de mesa tinge o tampo de trabalho com uma tonalidade em perfeita conformidade com o ambiente. Do meu lado esquerdo um pequeno aquecedor eléctrico esforça-se por combater o frio que se entranha por cada ranhura, por cada superfície do apartamento. Não, decididamente o tempo não está para brincadeiras. Hoje não é dia para cachar. E o leitor não imaginará o significado que esta simples conclusão encerra. Não se limita a estabelecer uma relação de causa-efeito entre as condições metereológicas e a impossibilidade de se sair lá para fora com um GPS na mão. É de facto uma conclusão. É um ciclo de setenta e um dias que termina. Quase dois meses e meio. E, durante esse período de tempo, todos os dias, sem excepção, o Papacaches – não o impostor, mas sim este que vos escreve – saiu lá para fora e foi-se a elas.

Setenta e um dias. Cinco países. Duzentas e quarenta e oito caches. Tudo começou em finais de Setembro. Depois de algumas interrupções, que serviram, por assim dizer, de exercícios de aquecimento, foi no dia 28 desse mês que se iniciou o ciclo que duraria até hoje. Primeiro dia em terras da República Checa, que aproveito para visitar um museu que se encontra aberto ao público apenas durante o Verão. É uma oportunidade única, pois na chamada época alta não posso estar afastado de Portugal. A “jóia da coroa” do Museu Técnico do Exército é o chamado “tanque cor-de-rosa”. A história conta-se em poucas palavras: com a aproximação do fim dos dias do regime comunista, em finais da década de 80 do século passado, um artista emergente, ainda estudante, decide juntar um grupo de amigos e pintar de cor-de-rosa um tanque de guerra que se encontrava exposto numa praça da cidade de Praga, em homenagem aos militares soviéticos que  “libertaram” a capital do país, em 1945.  O artista dava pelo nome de David Cerny –  hoje um nome bem conhecido – e a acção foi conduzida pela calada da noite. No dia seguinte, as autoridades, chocadas com a afronta, devolveram as cores devidas à velha máquina de guerra. Mas a malta das Belas-Artes não se ficou, e alguns dias volvidos, pimba, ai está o cor-de-rosa de novo. Por fim o Estado cedeu, e no local do tanque (que se encontra actualmente exposto no Museu) foi erigida uma fonte. A cache do tanque cor-de-rosa: Ruzovy Tank.

A gestão das caches durante estes setenta e um dias foi feita de forma cuidadosa. Com base em Praga, mantive as caches mais próximas de casa para dias em que pudesse estar fisicamente diminuido. Não me podia esquecer que nas duas séries que tentei anteriormente foi a gripe que me fez desistir da brincadeira. Desta vez a bicharada não atacou, e passei os dois meses de Praga em boas condições físicas. Mas outros elementos me suscitavam alguma prudência, mantendo sempre esta reserva em locais de excelente acessibilidade: podia chegar um nevão, ou dias com temperaturas bastante abaixo de zero. Ou, simplesmente, aquelas alturas em que não apetece sair de casa.

Nos dias solarengos parti para as orlas da grande cidade, para os bosques que envolvem Praga. Nessas alturas dei-me ao luxo de “consumir” mais do que uma cache. Três, quatro… cinco, por vezes. Sem abusar, para não esgotar os recursos. Porque apesar de se encontrarem cerca de mil caches num raio de sete quilómetros do centro da cidade, um bom número delas não me está acessível (algumas, por serem mistérios que não estão ao meu alcance; outras, por se tratarem de multi-caches com versão apenas em checo)… e de qualquer modo, há três anos que “caço” nesta coutada, e a zona já não está de todo virgem.

Mas não foi apenas Portugal e Rep. Checa que me viram encontrar caches neste ciclo infernal. Os dias passados em Cracóvia, na Polónia, não foram especialmente produtivos (o tempo não ajudou e o jogo tem fraca presença nesse país), mas o ritmo manteve-se. Na Suécia as coisas correram bastante bem. Uma semana em Nikoping e Estocolmo revelou um Geocaching de excelente nível, muito bem implantado, e quase sempre com consideração pelo viajante que não domina a língua local. Por fim, de regresso a Portugal, houve tempo para alcançar duas caches nas imediações do aeroporto de East Midlands, no Reino Unido.

As memórias destes dois meses e meio são extensas, e está fora de questão apresentá-las num espaço de comunicação com estas características. O resumo está feito, resta realçar mais uns quantos fragmentos desta enorme tela. Certo dia, as actividades sociais foram tão intensas que já a noite tinha caido e nenhuma cache se encontrava ainda capturada. Isso não seria um grande problema, numa cidade repleta de contentores adequados para cachadas nocturnas se…. não estivesse já com uma grande bebedeira. Quiseram os deuses que um ténue fiozinho de lucidez me iluminasse com a memória de uma micro-cache mesmo ali a duzentos metros do pub. E quando chegou à hora de sair, ali vou eu, com passo quase certo mas mente muito turva, direito à esquina por onde pressentia o cheiro a cache. A coisa podia ter corrido muito mal, e o ciclo teria terminado ali. Mas há destes dias em que a sorte nos bafeja, e no primeiro sítio onde jogo a mão, sinto de imediato o doce contacto do plástico. Adversidade ultrapassada! A cache alcóolica:  Prazske legendy – O Lokytkovi.

Noutra ocasião, deixo o tempo correr, e quando dou por mim, são quase meia-noite, já estou um bocado “alegre” e não existem caches na zona. Mas o que tem de ser, tem de ser, e não obstante o frio que se fazia sentir, lá vou eu, a pé, para um percurso de cerca de três quilómetros, cidade dentro, direito à cache mais próxima, que por sinal já tinha resultado num DNF no ano passado. De novo a sorte acompanhou-me, porque a meio caminho “encontrei” um eléctrico nocturno que me encurtou a marcha, e, chegado ao local, a danadinha revelou-se com relativa facilidade. 

E pronto… para não me estender, está contada esta história. De como passei setenta e um dias consecutivos a encontrar caches. Porque adoro ver os números subir e superar os meus próprios limites. Um pouco de tudo é saudável. Já dizia o nutricionista, e eu, tomo a liberdade de extender o princípio ao Geocaching.

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