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Archive for Julho, 2009

A alvorada foi literal. O sol acabava de nascer quando abri os olhos e fui de imediato agraciado com o espectáculo inesquécivel do imenso laranja que cobria em toda a sua extensão a albufeira de Alqueva. Levantar o arraial da noite foi rápido, e ainda os galos de uma quinta distante anunciavam o novo dia, já nós rodávamos em direcção à primeira cache do dia.

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Assim num repente “limpámos” as caches que me restavam encontrar naquelas orlas das águas da barragem: Struthio camelus [Alqueva], Grupo de Forcados [Amieira] e Marina da Amieira [Portel]. Já Miradouro do Monte [Amieira] resultou num DNF, esperado à partida, mas que se veio a revelar frustrante conforme explicarei mais à frente. A primeira série de caches da manhã ofereceram-nos perspectivas distintas deste mundo que é a albufeira do Alqueva. Em todos os seus braços e extensões encerram-se dezenas de pequenas comunidades, recantos maravilhosos, paisagens de sonho. Já rodei durante quilómetros e quilómetros em seu redor, já visitei castelos, corri sobre pontes e encontrei aldeias artificiais. E sei que estou longe de esgotar tudo o que a região do Alqueva tem a mostrar a um viandante. Ficarei a aguardar novas caches, essas incansáveis guias do ignorante forasteiro. Em busca destas três caches, mais da que ficou por achar, impressionou-me o número e variedade de cabeças de gado espalhadas pelos campos. Aquilo eram porcos e bodes, ovelhas e vacas, touros e cabras. Sobre as caches, individualmente, senti-me intrigado pela da marina por duas razões distintas: que vida tem aquela porto de águas doces, fruto de um investimento que se sente avultado, vazia às dez horas da manhã de um Sábado de sol resplandecente…? Quem são os seus clientes, como consegue subsistir pelo pobre volume de negócios que despudoradamente mostra a quem lá se desloca? Ali, perdida no meio do nada, um carro parado, provavelmente propriedade do funcionário de serviço… Depois, tal como na noite anterior, foi o achamento de uma cache repetidamente dada como desaparecida pelos Geocachers anteriores, e, da mesma forma, achada imediatamente, colocada de forma simples no rigor das coordenadas indicadas. Como é possível?

De saída do Amial, a tal cache não encontrada. Também com uma série de DNF’s prévios. E desta vez não aconteceu um milagre. Exactamente no indubitável ponto zero, um espaço mesmo à medida de um tupperware, à sombra de uma pequena rocha… vazio. Pronto. Procurou-se por mais um pouco, sem grande convicção, tamanha era a evidência encontrada e o número sem fim de esconderijos possíveis num perímetro mais alargado. E de partida fomos. Veio-se a saber mais tarde que o owner tinha reposto a cache cujo desaparecimento tinha de facto justificado alguns dos DNF’s iniciais, mas não os últimos. E foram relidas duas velhas lições que qualquer Geocacher deveria conhecer:

  1. O facto de encontrarmos aquilo que pensamos serem vestígios de uma cache desaparecida não significa nada e não deverá interferir com a nossa atitude na procura. Aprendi isto há já muito tempo, e revejo de tempos a tempos em logs lidos ao caso o erro repetido geração após geração de Geocachers.
  2. A existência de uma série de DNF’s anteriores têm o valor que têm, e que por vezes é nulo como demonstram os nossos achamentos de três caches nessa situação nas últimas doze horas.

E pronto. Seguia-se Barragens dos Álamos (I,II,III) [Amieira-Portel]. Mais lições a salientar:

  1. As barragens são umas cabras. De um dia para o outro fazem desaparecer estradas, planícies, acessos.
  2. Quem não sabe disso são os auxiliares do geocacher. TomTom e Google Earth. Ambos a induzir em erro. Um, a mandar por caminhos que já não existem, o outro a mostrar uma realidade que deixou de ser há pelo menos um par de anos.

E com isto queimámos um bom número de litros de gasóleo e quase um par de horas. Foi enervante sim senhora. E frustrante. Mas diga-se que esses sentimentos negativos só serviram para realçar a alegria de sentir que finalmente tinhamos encontrado o caminho certo. O problema, que não se veio a confirmar, era já outro: se encontrámos o acesso por tentativas, depois de muitos para trás e para a frente, como é que iamos sair dali, já que os auxiliares electrónicos estavam assumidamente perdidos? Felizmente a coisa revelou-se pacífica, e passámos à próxima cache depois de facilmente encontrarmos esta.

Foi uma longa tirada de 50 km. A paisagem mudou. Deixámos para trás as vastas planícies e as imponentes barragens. O terreno tornou-se mais acidentado. Quase de passagem, fomos à Lucefécit. Ficará para sempre como a cache dos coelhos, tamanho era o número daqueles animais que pululavam para todos os lados quando chegámos ao ponto final. Decididamente esta cache encontra-se na praça central da cidade dos coelhos. E, por acaso, ainda deu algum trabalho. Por mera falta de sorte. De todos os possíveis pontos, calhou que aquele que escondia a caixa foi o último a ser verificado.

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Explorámos em seguida a área de Borba e Vila Viçosa – BAT04 – Batalha De Montes Claros – Borba, Ermida Nª Sra de Vitória -Barro Branco- Borba, Glória, BH39 No Reino do Vinho e do Mármore [Borba], Aldeia de Ciladas, Museu do Mármore – Vila Viçosa, A View To The East [Elvas].

A primeira; nada a ver, excepto um padrão comemorativo. Nem a batalha pude sentir, com os seus terrenos cortados pela estrada, onde os carros passavam céleres, como que zombando dos cavalos seus antepassados, que, quiçá, naquele mesmo local foram veículos de esventramentos e decapitações, o relinchar substituido pelo roncar discreto dos motores e as espadas trocadas pelos volantes.

A segunda; uma obra que rasga o pavimento alcatroado sem mais. Quem quiser passar que o faça a pé. Felizmente o destino era mesmo ali à frente, que se apoquentem os que querem ir mais adiante. Da ermida pouco se pode ver. Dá a sensação que se tornou casa de habitação. O que é certo é que alberga um muggle, curioso, claro. Quis a sorte que outro muggle viesse a passar, e que ambos se entretessem milagrosamente um com o outro e ainda comigo, enquanto o companheiro de tour aproveitava a aberta para tratar do “negócio”. Nos entrementes fiquei a saber que o marco de pedra ali defronte, semelhante nas aparências um marco geodésico primordial, servia de ponto de orientação às tropas que noutros tempos aqui se concentravam, numa área “quente”, frente a frente com o inimigo de tempos de guerra e de paz. O espanhol, que rondava, espreitava uma aberta para ameaçar a soberania Portuguesa e vergar este povo à semelhança do que logrou fazer com catalães, galegos, bascos.

A terceira; um pequeno cantinho de Portugal, sem nada de especial para além de muita harmonia e sossego.

A quarta; uma pesadelo de condução em Borba. Divertida, interessante. Mas a segunda prova… isso não se faz! Valeu o segundo elemento do tour, porque por mim tinha-me vindo embora de mãos a abanar. Fica para o registo que mais uma vez o Geocaching cumpriu uma das suas missões primordiais. Nunca tinha vindo a Borba, e não fosse o jogo provavelmente morreria nesse estado. Assim, passei por aquelas ruas, observei os detalhes, apreciei uma forma de vida urbana tão diferente da de outras partes de Portugal. Por fim, acabámos a cache num pedaço lindissimo, incomodados por um estranho muggle. Mas eu conto os detalhes: assim que saimos do asfalto e tomámos o curto troço de terra batida que levava à cache, um homem já de certa idade que ia pela estrada acima, inverteu logo a marcha e veio até nós. Os cumprimentos foram trocados, mas nada mais. Ali estava ele, a rondar, a seguir-nos. Separámo-nos para iludir o predador, e assim, depois de muita manobra, foi possível encontrar a cache. Mas a alma penada não descolava. Acabei por o ignorar o melhor que pude, disparei dezenas de vezes a máquina fotográfica. E já a sairmos o Vespas apresentou a sua tese que depois de um momento de reflexão me pareceu adequada: aquilo ali deve ser local de engate e o indíviduo vinha à procura de qualquer coisa. Não levou muito.

A quinta; um espectáculo! O que dizer da visão de duas carcaças arquitectónicas, jazendo lado a lado, à beira da estrada? Uma igreja e uma escola primária do Estado Novo. Ali se juntaria a comunidade proveniente dos lugarejos inomináveis das redondezas, com todo o sentido: os petizes iam à escola, os mais velhos cumpriam os seus deveres religiosos. Eram outros tempos, e como entes do antigamente, à falta de cemitério para estas coisas, ficaram por ali, aquela igreja e aquela escola, para deleite dos que vêm de longe, olhos postos numa seta e num contador de distância.

A sexta; uma estação de caminhos-de-ferro desactivada que foi reabilitada e alberga hoje, orgulhosamente, o Museu do Mármore. A exposição não vi nem poderia ver. Nem gosto de museus, nem estava aberta. Mas o envolvimento é uma agradável surpresa, não só pela recuperação já citada como pelas peças deixadas no espaço exterior, usado como fiel depositário daquelas volumosas testemunhas do passado, maquinaria que teve o seu tempo de glória e que contudo é ainda capaz de arrancar um sorriso dos… que vêm de longe, olhos postos numa seta e num contador de distância.

A sétima; mais um momento alto. Se mais não houvesse, uma capela (ou ermida, ou igreja – nunca aprendi as diferenças) com vista para o rio seria já o motivo para uma cache ali plantada e respectiva deslocação. Mas não, aquilo era apenas um frugal aperitivo comparado com o prato principal. Que dizer do impacto súbito, assim que o carro atinge o cume? Uma ponte centenária, de vários séculos, estropiada pela mão assassina do Espanhol, jaz ainda no lugar onde se estendia quando era nova e cumpria as funções para que tinha nascido. Quebrada no seu ponto mais vulnerável, bem no centro da travessia. Um monumento tão majestoso quanto inesperado. Apenas imagens poderão fazer justiça ao que ali foi visto, e não as que tirei, que nem tinha equipamento nem engenho para registar nos pixels aquilo que os olhos viam. Quanto à cache, uma aventura… não encontrávamos! Anda para trás, para a frente… procura em cima, procura em baixo. Verificar as coordenadas… não temos! Só mesmo as do GPSr. Telefonar… não podemos! Não há rede. Por fim foi encontrada, um achamento filho bastardo da sorte, tendo como pai o empenhamento. A mais de 20 metros do que pensávamos serem as coordenadas.

A próxima paragem era Elvas, onde se abrigavam cinco ou seis caches à espera de serem encontradas. Mas fizemos uma. Por enquanto. É que ficou decidido que assim como assim, já que estávamos ali tão perto, iamos a Badajoz e já vinhamos. Na Forte de Santa Luzia [Elvas], que fizemos num pulinho, li um dos logs mais curiosos de sempre, que não resisto a transcrever:

Não gostamos do caminho para a cache. Estava muito calor e a vegetação insistia em roçar nas pernas…nada agradável. Pelo que desistimos de procurar!

Ainda com o riso a morrer, foi cantar “Ó Elvas Ó Elvas, Badajoz à Vista” (que saudades daqueles tempos agitados de 1975…) e ir para onde os nossos olhos apontavam.  Badajoz não teve muita história. Foi mesmo para “picar o ponto”.  El puente de Cantillana foi a primeira e porventura a mais agradável. Pontes paralelas com histórias diferentes são sempre interessantes. Depois, Alcazaba [Badajoz], debaixo de um avassalador calor. E de seguida, as três do parque de Tres Arroyos (Parque de Tres Arroyos, 3 Arroyos – Ermita de San Isidro e 3 Arroyos – Mirador de Badajoz). De seguida, o regresso à Pátria, e ainda a Elvas.

Enquanto o Vespas se dessendetava numa tasca ali ao lado, fui à Elvas – Railroad Station. Foi tão ou tão pouco complicada que ainda o GPS não tinha ganho sinal já eu estava a recolocar a cache no seu esconderijo depois de assinar o logbook. Em Forte da Graça – Elvas levei o companheiro ao desespero. Ele bem queria ir embora, mas eu, quando encontro locais abandonados, não largo tão facilmente. E este, dentro do género, era bem mais interessante que a média. Ao subir em direcção ao forte cruzámo-nos com um carro civil conduzido por um militar que nos deitou um mau olhado. Tudo bem. Mais à frente vimos sinais de trânsito que proibiam a passagem a viaturas civis… mas aquilo parecia tão calcinado que, juntando à informação existente no texto da cache, decidimos prosseguir, e acabámos por parar à entrada do forte. Dali foi achar a cache, mas em boa hora decidi espreitar o portão entreaberto… ah! Então pode-se entrar! E está abandonado. Pelo menos o primeiro recinto, que mais acima se ergue, imponente, aquilo que parece ter sido a casa do comando, um palacete erigido no topo. Impedido de satisfazer a curiosidade na totalidade, explorei sequiosamente todos os compartimentos daquele sector franco. Ficou-me na retina aquilo que parecia ser a antiga messe… um bar, uma lareira, um espaço que deveria ter mesas nos seus tempos aúreos. Percorri as muralhas – apesar de imaginar que exista um nome mais correcto, visto que longe iam os tempos dos castelos e ameias quando esta estrutura foi erguida. Apreciei a vista que se disfruta daquele ponto elevado, mas o interior manteve-se mais chamativo e ainda consegui dar mais umas voltas antes do Vespas começar a apitar, lá fora, já roido até ao limite pela impaciência.

BAT02 – Batalha das Linhas de Elvas não cativou. Marca o campo de batalha e é tudo. A verdade é que não se sentem os fantasmas desse passado glorioso no local. A envolvência terá mudado bastante nestes últimos séculos, porque parece apenas um pedaço menos interessante de terra. O Aqueduto da Amoreira – Elvas já há um bom bocado que me andava a intrigar, pois onde quer que fossemos, tinhamos vista para ele. E esta cache veio em boa hora para nos proporcionar uma observação de perto. Por fim, para encerrar o capítulo “Elvas”, fomos a Fortificações – Projecto Alentejo [Elvas]. O bizarro é que o visitante pensa estar a subir para o castelo, e espera encontrar a qualquer momento um parque de estacionamento para a partir dai progredir a pé. Mas não. A calçada sobe, sobe e não pára, e nisto estamos ao pé da cache e a estrada segue. Enquanto o Vespas tratava da cache foi tentar desvendar o mistério do caminho sem fim e deparo-me com um cenário inesperado: afinal aquilo era a entrada para a cidadela, e do lado de lá do derradeiro portão, mais cidade se encontra.

Campo Maior. Para mim é desde logo associada ao saudoso Campomaiorense, clube de futebol que durante alguns anos militou na Divisão maior do nosso futebol, e que envergava as côres do meu coração. Entretanto, caiu em desgraça financeira, o Grupo Nabeiro retirou o apoio e foi o seu fim. Hoje foi dia de vir conhecer a localidade, e fiquei encantado. As pessoas com que interagi, simpáticas. As ruas, bonitas. A Coca-Cola que bebemos na esplanada da praça principal, fresquissima. As caches, encontradas.  O calor deve ter tido algo a ver com a desertificação das ruas nesta tarde quente de Sábado. Apenas alguns velhotes se sentavam em frente a suas casas, olhar perdido, talvez flutuando por outros tempos, entre memórias de momentos que não voltam e a espera do dia final, que tarda em chegar. E por ali fomos, progredindo naquelas ruas dominadas pelo branco que pretende reflectir o implacável sol que em Campo Maior parece brilhar de forma mais intensa. Numa praça secundária encontrámos Campo Mayor e junto ao castelo, Castel Cache. Terminado o “trabalho”, já à saída, parámos por uns minutos num Intermarché, para comprar o jantar improvisado que haveria de chegar mais tarde, quando montássemos o acampamento para a noite, em parte ainda por definir.

Na Barragem do Caia o Vespas banhou-se, já ao cair do dia, com o Sol bem baixo, a lamber o horizonte. E pouco depois, “Villa” Lusitano-Romana [Monforte] foi encontrada, como mera formalidade, uma vez que as ruínas se encontravam já encerradas e de fora não se via nada.

Chegada a Portalegre, cidade tristemente marcada por inúmeras caches deixadas ao abandono. Talvez tantas, ou quase, como as que foram encontradas activas. Era já noite cerrada. Apesar do plano prevêr a busca às caches de Portalegre no dia seguinte, era ainda cedo para dormir a sentiamos ainda bastante energia. E vai dai, porque não, vamos fazer mais umas quantas até se fazerem horas da deita. Devo reconhecer que não me agrada a ideia de Geocaching nocturno. Gosto de ver as coisas condignamente, e por vezes abro excepções quando conheço bem os locais, o que nem se podia aplicar a Portalegre. Mas o companheiro de viagem estava decidido e pronto, seja, uma vez não são vezes. A primeira foi o  Miradouro da Serra cuja cache deu bastante trabalho, chegando-se a pensar rubricar um DNF. Mas ao cair do pano, e já com alguns muggles  no local (ao chegarmos tinhamos o miradouro todo por nossa conta), ela acabou por se revelar. De seguida tentámos a sorte com outro miradouro, mas neste não fomos tão felizes (também, lixou-se, que no dia seguinte logo pela manhãzinha, rendeu-se). Ah! Foi o Miradouro de São Cristovão [Portalegre]. Depois saimos da cidade, com mais um par de caches sob mira e já atentos a um eventual cantinho adequado para a deita. Foi assim que chegámos à Senhora da Penha [Portalegre] e depois à One for the Road (119).  Pensámos que a Senhora dos Mártires [Crato] seria a última da noite, mas não tinhamos ainda encontrado o pouso para a noite. E então… olha… vamos ver o topo da Serra de São Mamede, há lá uma cache e a vista deve ser um espectáculo… ideal para passar a noite. E assim foi… percorremos toda a distância de volta a Portalegre, que atravessámos, e iniciámos a subida da serra, guiados pelo fiel TomTom. Tinhamos ainda interrogado uns gaiatos sobre a existência de um McDonalds na cidade – o Vespas queria enfardar e eu poderia fazer bom uso da Wi-FI Sapo – mas nada feito. Hamburgueres, só nos cafés da praça principal, diziam eles. E assim esquecemos essa variante ao plano e fomos mesmo serra acima.

O clima no topo era algo sinistro. Algumas daquelas instalações faziam ruídos – ventiladores, ares condicionados e outros equipamentos – e uma delas parecia mesmo habitada. Na torre do guarda a escuridão era absoluta e não podiamos ter a certeza de não estar a ser observados, mas como não se encontrava nenhum veículo por ali concluimos que não havia turnos nocturnos na guarida de vigia. Depois, foi encontrar a cache… e ai começou uma cena digna de filme de terror. A aqui deixou o meu log oficial contar a história:

Ao colocar a mão para a retirar começo a ouvir um som estranhissimo. Um restolhar vindo do plástico que a envolvia, como se este ganhasse vida e me ameaçasse. E quase assim era, de forma mais literal do que o imaginável. Do seu interior começaram a surgir insectos – daqueles que parecem uns micro-lacraus e a que alguns chamam de bicho-sapateiro. De início não me apercebi da extensão de do problema mas quando fui buscar um pau para tentar “manusear” aquilo, a coisa tornou-se surreal. Do seu interior jorraram – e este é o termo correcto – dezenas de milhares deles. Atrás, encontrava-se uma pelicula com pelo menos um centímetro de profundidade deles, e debaixo, então nem é bom pensar… era um “cobertor” feito de insectos. Parecia um filme de horror!!

Conseguimos sacar o saco, separá-lo do container, que com facilidade limpámos enquanto viamos com alivio que a bicharada não tinha penetrado o interior. Depois foi ir até ao carro para logar e pensar no que tinha sucedido. Impossível repôr a cache no mesmo lugar. Tivemos que a mudar ligeiramente, sem saco de plástico a envolver, cerca de 7 a 10 m.

Estava o dia concluido. Procurámos um local aberto e mais seguro, e encontrámos um estreito caminho que nos conduziu ao ponto ideal. A vista era gloriosa, quase a mesma que no topo, e milhões de estrelas brilhava. Dormir foi simples, depois de uma ceia que soube como um manjar dos deuses.

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A escuridão caía já sobre estas paragens quando abandonámos o Algarve. Eu e o companheiro de expedição, VespasFriendsAlgarve. A noite deveria ser passada algures nas imediações da barragem de Alqueva, mas antes de lá chegados, algumas caches deveriam ser encontradas. A viagem fez-se, célere, até à vila da Vidigueira, já Alentejo adentro. Era um serão de festa, como aliás o seria mais à frente. Os ócios das longas noites de Inverno eram agora quebrados, levados ao esquecimento, pelo tépido convite ao sair de casa, esticar as pernas, pôr a conversa em dia com vizinhos e amigos. E quando assim é, quem paga é o Geocacher, que sobre si tem os olhos de toda uma comunidade em trânsito perpétuo. Mas, já diziam os excelsos avós, “quem não deve, não teme”. E é com esse pedaço de ancestral sabedoria que sempre abordo locais pejados de muggles. Estava contudo escrito que nessa noite, nem toda a ousadia do mundo trariam à luz dos candeeiros a Azeite – Alentejo [Vidigueira]. De tudo se fez, ali, durante uns bons vinte minutos. A ausência da caixinha fez soar o tique-taque do relógio, no seu cruel avançar, e logo a equipa de ocasião decidiu cortar a torneira do tempo que se escoava, e partir.

Logo ali á frente, eleva-se a serrania do Mendro, base de emissores de rádio e antenas de telecomunicações, visiveis no breu nocturno apenas pelos pontos vermelhos que os marcam quando nada mais se vislumbra. O receio era algum, porque as paragens eram ermas e o texto assustava. Não se sabia em que condições se iriam encontrar as vias, e quando teria que ser ultrapassado a pé, sob as luzes trémulas das lanternas de mão. Afinal o tracto revelou-se simples, com uma ascensão quase directa até ao ponto mais alto e a viatura parada a escassos metros do ponto zero. As sombras das estruturas levantavam-se, imponentes, ao abrigo de uma escuridão que mais fazia antever do que efectivamente ver. E o desafio Radio Mendro [Vidigueira] foi vencido.

O destino seguinte seria Portel. Local já conhecido de outras visitas geocachianas, mas onde duas novas caches se tinham entretanto erguido. De novo, alguma apreensão. Os logs falavam de perigo e dificuldades imensas. Mas, tal como no ponto anterior, nada de especial se opôs aos dois cavaleiros da Ordem de São Gps. Em Castelo de Portel II as ameaças adivinhadas pela leitura das experiências anteriores foram identificadas, mas não entedidas. Porque após deixar o carro num parque de estacionamento das imediações, para o qual o TomTom nos conduziu com eficácia suiça, nos esgueirámos com ares clandestinos pelas ruelas de acesso ao castelo até chegar ao ponto zero. Ali, encontrar a cache foi questão de segundos. Sem sentir qualquer perigo nem dificuldade. De dia, talvez o problema residisse nos passeantes e habitantes locais, que ficariam inevitavelmente intrigados por tão inusitadas movimentações. Mas de noite, logrando passar despercebidos e gozando do deserto das imediações, sentimos que raramente uma cache foi encontrada em malha urbana de forma tão simples. A segunda paragem nesta localidade ocorreu já à saida, onde se encontra a Ermida de S. Brás [Portel]. Só não foi feita à melhor tradição drive-in porque não acreditámos. Quanto ao episódio, não pode ser narrado sob o risco de denunciar a natureza da cache. Hilariante. Apenas isso.

Já a meia-noite se aproximava, e a verdade é que após o mau agouro de um DNF inicial, as coisas até tinham corrido notoriamente bem. Estavam para vir duas caches (Memorial Alqueva [Moura] e Mira Lagos [Alqueva]) que, também elas, levantavam alguns receios, porque estavam pejadas de DNF’s recentes. Contudo, a boa fortuna estava conosco para ficar. Ambas foram encontradas em questão de segundos. Não pude deixar de pensar… como é possível que um Geocacher não encontre umas caches tão simples, sob todas as perspectivas? Coordenadas bem apuradas, hint reveladora e… contentor no devido lugar.

Para terminar, deixámos O Matilheiro [Alqueva]. E porquê? Porque os logs louvavam a beleza do ponto final, e também nós demandávamos um derradeiro local para a noite, um abrigo seguro e ao mesmo tempo belo para nos acomodarmos e esperarmos pelo dia seguinte. Não nos arrependemos. Depois de visitado o local inicial, perto do qual mais uma festa local entretinha a comunidade, apurámos as coordenadas finais e para lá fomos. A vista era interessante mas algo aquém do esperado. A cache foi encontrada sem delongas, e, estando num ermo caminho de  terra batida cujos horizontes deixavam antever as águas da barragem, decidimos explorar um pouco mais. E que boa idea foi! Ao fim de umas centenas de metros alcançamos um amplo terreiro com plena vista sobre a albufeira do Alqueva. O espaço ideal para passar a noite. O companheiro de viagem acomodou-se na caixa da carrinha, e eu fiz “a cama” a céu aberto. O sono, esse, demorou a chegar. Os carros que passavam na estrada distante faziam um ruido perturbador, que tão forte era, na noite serena. Depois, os cães de uma qualquer quinta, e pelo som eram muitos, pelejavam sem parar, com ladrar irado e feroz. Ao fim de algum tempo o vento fez a sua aparição, criando sombras e barulhos assustadores. Finalmente, vergado pelo cansaço de um serão intenso, pude gozar de um sono ligeiro, interrompido a tempos pelos sons que despertavam uma mente deixada em alerta natural.

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