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Archive for Maio, 2010

O Papacaches acaba de regressar de uma estadia de seis dias em terras do Reino da Dinamarca, onde ficou hospedado em casa de uma amiga, nas redondezas de Copenhaga,  a capital do país (é melhor explicar tudo bem explicadinho, porque parece que já há pessoal que não sabe o que foi o 25 de Abril).

Como sempre acontece nestas andanças, o Geocaching desempenhou um papel primordial na ocupação do tempo passado em terras desconhecidas. A lição vinha estudada de casa, e já se esperava uma vida intensa. Caramba, há mesmo muitas caches por ali. Mais do que em qualquer outro país que eu conheça, na teoria ou na prática. A densidade de containers na cidade causa uma mancha verde homogénea, que se vê no mapa como um enorme borrão, de tão juntas que elas estão. Nos arredores a situação mantêm-se, com destaque para duas situações, ambas relacionadas com a cidadezinha de Holte: é ali ao lado que se vai encontrar a maior floresta do país, com um “power trail” de cerca de 70 caches. É também dali que sai um outro “power trail”, ainda mais “power”, com umas centenas delas, que se faz preferencialmente de bicicleta, sempre ao longo de estrada asfaltada.

Ironicamente, ao contrário do que sucede na República Checa e mesmo em Portugal, a actividade expressa nos logbooks é esparsa. Mesmo na capital, passam-se dias e dias sem que uma cache seja visitada. Com frequência encontrei caches cujo último log estava datado de há semanas atrás. Ou seja, há um claro desequilíbrio entre a actividade dos “owners” e o número de geocachers activos.

Por regra os containers encontram-se de perfeita saúde, sem humidade no interior, com espaço nos logbooks e colocados nos devidos locais. Seria quase o paraíso do Geocacher, não fosse uma faceta que me desapontou de certa forma: ao contrário do que é habitual, não regressei da Dinamarca com a sensação de que o Geocaching me ajudou imenso a conhecer devidamente as paragens que palmilhei. Encontrei demasiadas caches supérfluas, sem um interesse aparente. Talvez a hiper-população de caches assim o dite, o que de resto vem ao encontro da minha eterna crítica à popularização excessiva do jogo e ao nascimento descontrolado de caches em cada canto.

Logo à chegada ao aeroporto inicia-se o banho de caches. Há 8 ou 10 ali mesmo à mão, espalhadas pelos terminais, pelos parques de estacionamento. Anda-se 1 km e joga-se desde logo mão a mais de meia dúzia. E por ai se ficou no primeiro dia.

Amanhece. No comboio, e começando a cachar assim que se sai. Em cada estação da rede suburbana existe uma cache. Mais umas tentativas, DNF’s, e mais outra, e chegamos a uma colocada mesmo à beira de um banco de jardim. Aproxima-se um indíviduo que mostra um cartão de aspecto sujo e gasto… eu olho, não sei o que ele quer… será um ex-drogado a vender revistas…? Mas não carrega nada, nem revistas, nem biblias, nem enciclopédias. Continuo a olhar meio embasbacado, e ele a mostrar o cartão… e eu a olhar… e ele a impingir o cartão… depois de uns dez segundos deste impasse, a criatura apercebe-se de que somos estrangeiros e diz finalmente qualquer coisa… em inglês. Polícia. “Ah e tal, vocês vão desculpar, mas temos estado a seguir-vos há coisa de 30 minutos, desde que sairam do comboio… é que o vosso comportamente tem sido bizarro, suspeito mesmo, diria.” E eu a pensar para os meus botões… “porquê é que não consigo discordar do que o gajo está para ali a dizer…?”. Bem. Conversa e mais conversa. Que somos portugueses, que não, não vivemos lá, somos turistas. Se temos algo ilegal? Não, claro que não, pode ver… mas que não, deixem estar, não é preciso revistar nada. E falamos de Geocaching, mais por consideração do que por necessidade, que o agente à paisana apesar de curioso com os nossos movimentos prévios sente com a experiência de anos de lide com escumalha que somos gente de bem. Nisto chega o parceiro dele. Materializa-se, como um ninja. Se o primeiro tem um ar perfeitamente inócuo, já este se parece mais com a ideia que geralmente temos de um polícia das ruas, de cabelo rapado, entroncado, com ar de poucos amigos. Mas trata-se apenas de uma expressão de serviço… procedem-se às apresentações e temos mais um amigo. Este conhece o Geocaching, participou numa operação que afinal foi induzida por um local de Geocaching, e nada de ilegal se passava ali, apenas as idas e vindas habituais a uma cache. Depois de uns dez ou quinze minutos de conversa variada, há uma comunicação, o discreto polícia levanta a aba do casaco para sacar o walkie-talkie e há um perspectiva do arsenal que por ali estava escondido. E pedem mais uma vez desculpa pela abordagem e partem para outras necessidades. E foram estes os primeiros e únicos polícias avistados em seis dias. Na Dinamarca, se há polícias (que os há, há, que bem me lembro das multidões de “gorilas” por ocasião daquela grande reunião internacional para debater o impacto do aquecimento global) andam à civil pelas ruas.

O Geocaching do primeiro dia não tem muita história para além da história contada. Foi um andar pelas ruas, em direcção ao centro, passando pelos principais pontos turísticos de Copenhaga. Foram 21 founds, 5 DNF’s. O dia 2 acordou tristonho, chuvoso. Vaguéamos pela baixa da cidade, sacámos umas quantas caches, enquanto o céu ia abrindo. Depois, já sem precipitação, encontrámos Christiania. Esse fabuloso projecto utópico, iniciado em 1970 quando uma pequena multidão invadiu a base do exército abandonada, mesmo ali, paredes meias com o centro de Copenhaga. Entre batalhas legais e reais com a polícia e com a cidade, passaram-se quarenta anos e Christiania ali se mantém. É um paraíso na terra para muita gente, e para o fotógrafo amador uma constante fonte de inspiração. Haveria de lá regressar dois dias depois para ver o que ficou por ver, e completar a enorme experiência que é explorar as ruas e áreas desta república no seio da monarquia. Aconselho uma visita ao website oficial, onde poderá ler um guia em inglês com toda a história de Christiania (www.christiania.org).

O quarto dia esteve de novo chuvoso. De tal forma que nem fomos à cidade. Um passeio pelo lago perto de casa, cinco caches encontradas. Sem história. Bonito. O primeiro trago da natureza dinamarquesa. Bosques, lago. Casas faustosas. Parece que é ali que se encontram as propriedades mais caras do país, com preços que chegam 5 milhões de Euros.

Quinto dia. Fora da cidade. É preciso aproveitar o tempo esplêndido. De manhã, o Museu ao Ar Livre, um parque com casas tradicionais provenientes de todas as partes da Dinamarca, abertas, com os interiores reconstituidos. Um dos momentos altos desta viagem, a não perder. Centenas de fotos. Depois, aproveitando tratar-se do primeiro Domingo do mês, quando os comboios suburbanos são gratuitos, fomos a Hillerod, onde se encontra um enorme palácio rodeado de jardins e parques. Segunda residência dos monarcas, oferece cenários espectaculares, de cortar a respiração. Se de manhã apenas uma cache se encontrava na nossa rota, aqui encontrámos mais 5 ou 6 em menos de nada.

No sexto dia também não choveu. E começou cedo. Era necessário aproveitar o tempo convidativo. De manhã, volta “geocachiana” por áreas secundárias da cidade. Só no hospital central existem cinco caches. Voltas e mais voltas. E estamos de volta de uma cache que aparentemente não se encontra onde deveria estar quando aparece o owner. Que a cache estava lá sim senhora, mas tinha escorregado para um buraco e agora não era possível deitar-lhe a unha. Mas o tipo compadeceu-se, encontrou motivação em nós para o resgate da caixa e fui dentro da loja dele, ali mesmo, e voltou equipado com barras de metal, e entre todos lá se salvou a cache que voltou feliz para o seu esconderijo devido. Depois, uma visita rápida pelos jardins botânicos, que estavam no roteiro inicial, mas não impressionaram. E de regresso a Christiania para uma visita mais aprofundada. Já no fim da tarde, de comboio, vamos os Parque dos Veados, uma área de 12 km2, onde existe uma comunidade de cerca de 2000 destes animais. Espaço mágico, cheio de belas paisagens e um pequeno palácio no seu centro.

E chega o último dia completo, utilizado na totalidade para um “power trailer” de cerca de 70 caches, localizadas na maior floresta da Dinamarca, ao pé de Hillerod, onde já tinhamos estado para visitar o palácio. O caminho entre a estação de comboios e o início do trilho de caches foi mais complicado do que o previsto. Levou-se uma hora a transpôr os 2 km. E iniciou-se a aventura. É algo que aconselho a todos os que visitarem. Não é pelas caches às catadupas. É mesmo pelo espaço. Uma multiplicidade de ecossistemas, alternância de paisagens, avistamento de espécies animais. Dos prados passa-se às zonas pantanosas, logo a seguir florestas de altas coníferas. Caminhos ladeados de árvores. Floresta. Beleza. Muito verde, a despontar depois de um Inverno especialmente rigoroso. Ali, um veado cruza o caminho, despreocupado, a 200 metros de mim, sem se aperceber da presença humana. Esquilos brincam num prado. De tempos a tempo, um humano passa, de bicicleta, a passear um cão. Foram 59 caches, encontradas ao longo dos 27 km de caminho. Um dia em cheio para fechar a estadia, que em termos de Geocaching ainda se completaria com  mais 10 “founds” no caminho do dia seguinte, de casa para o aeroporto.

Ao contrário do que costumo fazer, não referi nenhuma cache em especial, porque nenhuma me impressionou. A lista dos achamentos encontra-se no meu profile.

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