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Archive for Outubro, 2010

Nem vou aqui abordar as muitas caches encontradas em Madrid nos quatro longos dias que durou a minha escala na capital do país vizinho, forçados pela greve geral que me obrigou a antecipar a partida de Portugal. Vou portanto começar esta narrativa pela primeira etapa da viagem pelos Balcãs: Sofia, Bulgária.

A densidade de caches na cidade corresponde ao panorama existente no país: poucas, mas não ao ponto de as transformar em raridades. Em toda a Bulgária, existem cerca de 500 caches, numa área ligeiramente superior à de Portugal. Na capital podem ser encontradas cerca de 50, ou seja, dez por cento do total nacional. A esmagadora maioria trata-se de caches tradicionais, com um punhado de multi-caches e caches mistério a diversificar o panorama.


Bulgaria Gold TB Hotel
Numa casa de chá de Sófia, há que pedir um chá muito especial, com sabor a Geocaching. Logo, quando o pedido é servido, vem um pequeno bau, que não é nem mais nem menos do que um TB Hotel

De forma geral a situação do Geocaching em Sófia é positiva, com caches colocadas em locais com interesse, coordenadas precisas, manutenção atempada, “hints” adequadas. O mesmo não se pode dizer do segundo local que visitei, Plovdiv, a segunda cidade do país. O que, em conjunto com outras observações no decorrer desta extensa viagem, me fez concluir que em países destes, onde o Geocaching, apesar de geralmente disseminado não é muito popular, cada cidade ou cada região tem uma cultura específica do jogo. Isto resulta da criação de “ilhas” estanques, com um ou dois grandes dinamizadores, com vícios e virtudes que se espelham claramente na situação das caches.

Portanto, a impressão inicial positiva do Geocaching na Bulgária, adquirida no decorrer de cinco dias em Sófia, foi confrontada com uma experiência totalmente oposta em Plovdiv. Logo a abrir, andando da estação de comboios para o centro, a primeira decepção: uma cache num parque cheio de transeuntes, onde a recepção de sinal é deficiente, sem dica e onde a melhor aproximação ao ponto zero se situava a poucos metros de uma casinha onde a vigilante do espaço se albergava, olhar atento sobre as imediações. Dizer o quê? Nem para procurar deu. E a dança prosseguiu, com sucessivas tentativas goradas, sempre pelas mesmas razões: locais imundos, cheios de lixo, em áreas de reduzido sinal, sem qualquer dica, muita gente em redor; algumas vezes recorri aos últimos logs, apenas para constatar que obviamente a cache se tinha ido há meses sem que o owner se desse ao trabalho de a desactivar e, em alguns casos, tinha mesmo escrito uma nota (!!) a mencionar que a cache provavelmente já não existia no local.

 

Keep the Faith
Sobre Karlovo, nas montanhas, depois de uma subida mais do que ingreme durante trinta minutos quase em passo de corrida, chegamos ao local da cache

Fiquei com um “couchsurfer” numa pequena aldeia, meio caminho entre Plovdiv e Karlovo, onde passei quatro empolgantes dias, com condições muito básicas mas proporcionando-me uma experiência inesquécivel. Desde um “duche” às tantas da noite numa fonte termal quente na mais completa escuridão, até à lavagem de roupa no chão do barracão onde se encontrava uma espécie de chuveiro…. passando pelo convívio com os aldeões, as suas cabras, a sua produção doméstica de aguardente… e no meio de tudo isto, ainda deixei o bichinho do Geocaching no meu anfitrião e criei a minha primeira cache no estrangeiro, ali mesmo, em Ivan Vazovo.

Comunal Oven [Ivan Vazovo]
Aminha primeira cache fora de Portugal, junto ao forno comunitário da pequena aldeia de Ivan Vazovo

 

 

Battle for freedom Shipka
Nas montanhas que dividem a Bulgária em duas deu-se uma das mais ferozes batalhas durante a guerra que resultou na libertação do país do império turco, em 1878. No local, uma cache honra os que tombaram em combate nesse sangrento confronto

 

Buzludzha Cache
Talvez o local mais marcante de toda a viagem. Neste ponto perdido das montanhas, a mais de 2.000 metros de altitude, o regime comunista ergueu um edíficio vanguardista, onde se organizou um museu do comunismo e onde os altos dignatários do Partido efectuavam reuniões anuais. A escolha do local não é casual: não longe dali, ainda no séxulo XIX, deu-se a primeira reunião de comunistas búlgaros.

 

Veliko Turnovo, antiga capital da Bulgária, antes da chegada dos turcos, foi a minha paragem seguinte, e felizmente a onda positiva regressou. Uma série de caches bem interessantes, estrategicamente espalhadas pelos pontos essenciais da bela cidade, permitiram-se seguir as caches e descobrir as maravilhas secretas de Veliko Turnovo. Em casa do meu anfitrião conheci um casal nipo-americano que iniciei nas lides do Geocaching. Ela, a japonesa, ficou de tal forma fascinada que queria comprar um GPSr imediatamente, de forma a usufruir do jogo nos países que ainda planeavam visitar antes de regressarem a casa.

 

Tsarevets Cache
Junto a Veliko Turnovo erguem-se os restos da fortaleza de Tsarevets, arrasada pelos turcos. Na imagem, mais uns recrutas para a prática do Geocaching.

 

On the streets of Turnovo
Na cidade, uma multi-cache é concluida com uma última prova: observar qual a capital mais distante… sucede que é… Lisboa.

 

Kartal waterfalls
Na floresta junto a Veliko Turnovo o meu anfitrião encontra a sua primeira cache.

 

 

Acabei a digressão de duas semanas pela Bulgária em Ruse, cidade fronteiriça por onde passa todo o tráfego em direcção à Roménia. Numa espécie de lei de alternância, voltei às caches sem qualidade, basicamente com as mesmas características de Plovdiv: nada de dicas, tudo em meio urbano, com milhentas possibilidades de esconderijo devidamente rodeadas por um exército de muggles que não dava tréguas. Um cenário depressivo, acentuado pelo tecto de nuvens que quase não deixaram de lançar chuva sobre a cidade nos dois dias completos que por lá andei.

 

Basarbovo monastery
No vale de Ruse dezenas de pequenos mosteiros foram escavados na rocha. Hoje em dia apenas uns poucos estão abertos ao público, sendo o de Basarbovo um deles.

 

 

Cruzar a fronteira e chegar a Bucareste não ajudou. O mesmo tempo cinzentão e as mesmas caches de treta. Mal colocadas, largadas quase ao acaso, sem qualquer planeamento, sem considerar a protecção da operação perante os olhares curiosos dos muggles, sem atentar nas condições pouco propícias à recepção de sinal GPS dos locais. Muitas caches com múltiplos DNF’s espalhados por meses, e sem qualquer manifestação por parte do owner. A nota negativa do Geocaching em Bucareste foi apenas aliviada na manhã do último dia, marcada por uma caminhada 100% vitoriosa, com todas as caches encontradas e, melhor que isso, marcando uma senda de locais interessantes que me foram sendo assim mostrados.

 

Le petite Arc de Triomphe du Bucarest
O velho ditador Ceasescu parece ter desenvolvido uma pequena obsessão com França. Não só a enorme avenida que conduz ao seu palácio foi decenhada com uns intencionais seis metros adicionais em relação à largura dos Campos Elísios, como mandou construir este “Arco do Triunfo” em Bucareste.

 

Paragem seguinte: Brasov. Uma pictoresca cidade onde a Nikon funciona sem parar. Primeiro, ainda perseguido pela chuva… depois, o tempo vai melhorando gradualmente, extendo-se a boa vaga metereológica até ao fim da minha viagem, que termina entre dias de sol resplandecentes. Para quem anda às caches, Brasov é uma boa opção. Há algumas caches mais manhosas, mas o panorama é globalmente agradável. Pode o viajante entregar-se nas mãos do Geocaching para explorar a cidade, com a certeza de que terá direito a um percurso diverso, com passagem pelas grandes referências turísticas de Brasov mas também por recantos encantados e até mesmo por áreas onde a mãe-natureza é rainha.

The Black Church
A Igreja Negra, assim chamada devido à cor das suas paredes, adquirida por ocasião de um incêndio, é um dos pontos mais característicos de Brasov.

 

Poiana Brasov Lake Hill
Não muito longe de Brasov vamos encontrar Poiana Brasov, o mais popular “resort” de desportos de Inverno da Bulgária. Aqui, o meu anfitrião em Brasov encontra a sua primeira cache, antes da época da neve.

 

Citadel’s Hill
Uma complicada ascensão, para logo depois, descobrir que teria agora que descer, até às rochas brancas visiveis na imagem.

 


Broken Bridge

Local de cache não muito longe da casa do meu anfitrião, emersa nas fabulosas cores do Outono da Europa de Leste.

 

A pequena cidade de Sighisoara era uma das gemas prometidas desta viagem. Não só pela beleza antevista em imagens e descrita em todos os guias turísticos como pelo elevada densidade de caches. Mas a decepção foi global. O local tresanda a artificialização. É como se não existisse vida em Sighisoara para além do turismo. Fiquei com a franca sensação de que se trata de um cenário onde os locais e os visitantes actuam, num bailado sem fim… e a que fugi assim que pude, passando vastas hora nas florestas que abraçam a cidade. Foram as seis ou sete caches encontradas no meio da natureza que salvaram a jornada, porque das que supostamente estariam colocadas na cidadela, nada de bom há a dizer. Na realidade, apenas encontrei (e procurei) um par delas. A maioria, talvez umas sete, nem considerei a hipótese de as procurar, tais as condições: muitos logs com DNF e sem qualquer comentário ou intervenção por parte dos owners; depois, a colocação, escabrosa, em pontos de procura complicadissima, completamente expostas, com hordas de muggles em redor, sem dica nem imagem spoiler. De resto, não me espanta. Há coisa de dois anos, através do geocaching.com, recebi uma mensagem sobre um evento que teria lugar em Sighisoara. Desde logo se torna incontornável a natureza desse e-mail: spam massivo. Já incomodado com o método de divulgação escolhido, li o texto, e fiquei pasmado com a arrogância… os organizadores descreviam Sighisoara como a única aldeia viva entre muralhas da Europa. Ainda troquei uns e-mails com eles, mas quando a ignorância ou teimosia são de tamanhas dimensões, nada há a fazer. E então, o cenário geocachiano que encontrei em Sighisoara mais não é que o reflexo desse e-mail recebido: uma falta de tino sem limites.

 

Transylvania 1888
Junto a uma casa fantasma, mais um de tantos DNFs em Sighisoara.

O destino seguinte surgiu no plano de viagem de forma imprevista, a partir do momento em que foi abandonada a ideia de ir até à Moldávia. Simplesmente seria demasiado apertado, considerando o tempo de viagem de dez horas para cada lado. E então selecionei Sibiu como alternativa. Em boa hora o fiz, pois fui encontrar a mais bela cidadezinha de todas as que visitei nestes dois países. Contudo, em termos de Geocaching, é practicamente um deserto, com três caches. Esta situação revela uma vez mais a importância de um ou dois indíviduos no desenvolvimento local do Geocaching quando se tratam de países onde o jogo é relativamente desconhecido. Não os havendo em Sibiu, o geocacher que passa nada tem para encontrar.

Para terminar, Cluj, visitada apenas por se tratar do ponto de regresso a Portugal. A cidade, antiga capital da Transilvânia húngara, é dominada pelo ambiente universitário. Dos seus 500.000 habitantes, 70.000 são estudantes. E talvez por isso o panorama geocachiano é desenvolvido, à escala romena. Existem umas 25 caches, geralmente bem colocadas, sem grandes problemas. Vão-se encontrando, paulatinamente, uma após outra, sem grandes preocupações, sem estafas.

Gradina Botanica Cluj
Muito perto de casa do meu anfitrião em Cluj, o maravilhoso jardim botânico é terreno para a última cache encontrada nesta minha longa jornada por terras da Bulgária e Roménia. Debaixo da ponte.

 

Para além das caches encontradas nas cidades onde sucessivamente fui pernoitando na Bulgária e na Roménia, há que mencionar as outras, caçadas em trânsito ou em passeios fora dos centros urbanos. Nessas, constatei uma feliz coincidência entre pontos referidos nos guias turísticos e a colocação de caches. O que me leva a outra questão, objecto de eterno debate: quando se viaja, como equilibrar a práctica do Geocaching com o turismo propriamente dito? Sempre defendi que não há necessidade de dissociar as duas coisas, mas com a saturação de caches em alguns países reconheço que a fixação na descoberta das caixinhas pode anular a descoberta dos locais. Não é contudo o caso em países com a densidade geocachiana da Bulgária e da Roménia. Aqui, seguir simplesmente as caches proporcionará ao visitante uma experiência equilibrada, entre os pontos túristicos tradicionais e os recantos que só os locais nos podem mostrar.

31 dias; 2 países; 9 paragens; 8 anfitriões; 2900 fotografias; 450 km caminhados; 1216 Km entre paragens; 42 caches encontradas na Bulgária e 52 na Roménia.

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