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Archive for Junho, 2011

12 e 13 de Junho de 2011

Este artigo é dedicado ao meu amigo Gustavo Prodrive, que faz anos no dia da sua publicação. Tá a ficar velho o gajo, mas é um puto.

Passar o tempo em Portugal numa região com pouca animação “geocachiana” é uma estopada. As caixinhas estão basicamente todasencontradas, e quando surgem umas quantas novas, há que as racionar, consumir com cautela, mas mesmo assim chega a altura em que nada há para fazer num raio de várias dezenas de quilómetros.  E é nesses momentos de desespero que nascem as “tours”. Ora por esta altura do ano, quando a queda de chuva não é esperada e as temperaturas sobem, foi tempo de juntar dois “hobbies”: cachar e andar de moto 4. Desafiámos uma equipa de Geocachers, os Pancinhas, e um amigo que nada tem a ver com o jogo mas é maluco por moto 4. Três viaturas, cinco pessoas.

Como os Pancinhas são de Beja, arrancámos apenas nós e o nosso amigo a partir do Algarve. Eram 17 horas e o plano previa a pernoita no nosso moinho de vento, um pouco antes de Almodôvar. Mas a viagem fez-se a tão bom ritmo, mesmo com duas paragens para caches, que acabámos por decidir prosseguir até Beja onde chegámos já de noite. Antes de prosseguir a narrativa, um destaque para a cache Contador de água em Entradas, que muito agradou. O local é idílico, e aquela hora, com o sol mesmo a desaparecer no horizonte, a luz alaranjada a pintar daquela cor quente toda a paisagem alentejana, numa harmonia completa com as temperaturas atmosféricas que se fizeram sentir durante o dia… as andorinhas a rasar o espelho de água, desedentando-se com habilidade, recolhendo o precioso líquido em pleno vôo. E para melhorar o cenário, só mesmo encontrar uma cache descomplicada, que nos saltou para as mãos em menos de nada. Depois, foi sair dali para fora, com pena, antes dos locais começarem a nutrir demasiada curiosidade por aquele conjunto de máquinas diabólicas, que tinham passado bem defronte dos seus narizes.

Chegados a Beja fomos convidados pelos Pancinhas para um agradável jantar, a que se seguiu uma pequena cachada a pé pela cidade, antes de nos recolhermos, em busca de um necessário descanso antes do início da aventura a sério.

O dia começou como acabou o anterior: a procurar umas quantas caches urbanas em Beja, todas encontradas sem dificuldades de maior, quase todas bem colocadas, quase todas em locais interessantes. Depois, atravessar o Guadiana, passar por Serpa, mais um par de caches antes de iniciar o “power trail” Ramal Moura-Pias. Esta série de nove caches andava-me a piscar o olho há que séculos. Mas é tão fora de mão para mim (e para a maioria dos jogadores, diga-se de passagem). Hoje estava perto, as constelações alinhavam-se, os augúrios era positivos…  só que a tentativa de chegar à primeira de nove destruiu as ilusões: atingir o ponto zero foi o cabo dos trabalhos, mesmo de moto 4… e no local, procurada a cache por quatro pessoas durante tempo demais, e nada apareceu… decidi cancelar esta extensão da expedição. Foi assim que Moura foi riscada do nosso mapa para estes dias, assim como as desejadas 9 do Ramal Pias-Moura.


Foi então hora de tomar contacto com um dos dois pratos principais desta expedição: a letterbox Rio Grande do Sul. Esta aventura, organizada pelo ajsa (& Golfinha) vai buscar o conceito de “roadbook”, uma série de páginas com indicações detalhadas de um percurso a seguir, com viragens, pontes e outros elementos marcados com as distâncias quilométricas entre si. Ao longo do trajecto idealizado, vamos encontrar algumas caches acessíveis a todos, mas a maior parte das dez caches que estão integradas na “prova” só se tornam acessíveis a quem percorrer as suas diversas etapas.

Tinha previsto concluir esta complexa tarefa no final do primeiro dia, mas as coisas foram-se atrasando (são 55 km, maioritariamente em estradões de terra batida, com um tempo de conclusão previsto de 3:30 horas – isto não contando com as paragens para as caches e para apreciar a paisagem e detalhes que vão sendo descobertos à medida que se avança). Antes de mais, uma nota informativa para candidatos: fazer isto num veículo ligeiro ronda o impossível, e decididamente a tentativa deverá ser reservada a quem se estiver a borrifar para a saúde do seu quatro rodas rasteiro. Há mais alguns problemas a referir: nenhuma das nossas três viaturas concorda com as distâncias medidas pelo owner aquando da preparação do percurso, e logo no primeiro curto trajecto se sentiu uma diferença de 25% (as nossas motas marcaram mais 25% do que o indicado). A partir dai as distâncias mencionadas no roadbook passaram a ser meramente indicativas, e tive que me concentrar nos aspectos descritivos. Complicou-se.




As etapas foram sendo percorridas, com dúvida aqui e acolá (logo no início o nome da quinta está mal indicada no roadbook, o que pode causar alguma confusão), indicando-nos o caminho a percorrer, o que fizémos com grande deleite. Não é fácil para os adeptos destes “raids” encontrar trajectos coerentes e contínuos, afastados do asfalto. Assim, foi uma maravilha ganhar a um só tempo um fio director para uma passeata deste tipo, e, ao mesmo tempo, ter um número razoável de caches para encontrar.

A presença do Guadiana é quase uma constante, sobretudo no que diz respeito aos locais das caches. Entre elas, os caminhos tendem a afastar-se do grande rio, levando-nos a passar junto a “montes” e pequenas aldeias, a cruzar vaus e pontes, a conhecer misteriosos moinhos de água e outros edíficios que foram importantes para alguém um dia.

O dia aproximava-se do fim, e era necessário começar a pensar onde montar o acampamento. Olhos bem abertos para os locais mais prometedores quando… chegamos ao fim da etapa 5 e apercebemo-nos quão perto estamos do ponto de partida, bem junto à ponte que cruza o rio, de Beja para Serpa (ou vice-versa). Tivemos ainda tempo para concluir a pequena etapa complementar, chamada de Radical, mas nada Radical para quem estava a usar moto 4. A zona era aliás já cohecida, visitada, há muitos anos, para encontrar uma outra cache que por essa altura ali existia.


Ora estava na altura crítica: era mesmo preciso montar as tendas antes que a luz do dia se extinguisse por completo. Mas estávamos tão perto da civilização que era desencoranjante, e, de certa forma, perigoso. Adormecer ao som dos camiões a cruzarem a ponte sobre o Guadiana não era propriamente o meu ideal de uma noite diferente na natureza. Acabámos por optar por uma solução de compromisso: Parque de Campismo de Serpa. Não sei se no final de contas foi uma escolha satisfatória ou não: aguardava com ansiedade esta noite de campismo, só nós, as motas e a natureza, na melhor das harmonias, tão a ver, assim como se vê nos filmes… mas as coisas acabaram por ser diferentes, e não houve apenas desvantagens na ida ao parque de campismo.

Depois dos mais lavadinhos tomarem os seus duches fomos dar uma volta pela localidade. Já ali tinha estado há uns anos, na minha primeira expedição de moto 4 a maior distância, na altura a solo. E tinha gostado de Serpa, das suas ruazinhas intimistas, do seu castelo, do aqueduto, enfim, de toda a atmosfera. Desta vez foi um pouco diferente: éramos mais, e além disso havia festa. Na praça central um enorme palco, e para o serão, música mexicana. Deliciámo-nos durante algum tempo com a artista que actuava, e depois acabámos a noite com bebidas frescas numa esplanada mais recatada, fora do centro.

De manhã relativamente cedo, as tarefas esperadas: desmontar tendas, enrolar sacos cama, acomodar tudo nas grelhas das máquinas. Depois, o café da manhã. Não para mim, que não bebo tal coisa, mas as queijadas de requeijão que fui descobrir, ah credo, aquilo foi uma barrigada… duas logo na altura,  mais quatro para levar. Ainda hoje fico a salivar quando aqueles deliciosos bolos me vêm à ideia.

Terminadas as formalidades matinais, seguimos directamente para onde tinhamos deixado o percurso na véspera. Mas as coisas começaram a correr mal pouco depois: é verdade que encontrámos o local ideal para acampar… tivéssemos nós arriscado mais um pouco e procedido para a etapa seguinte e a noite teria sido muito diferente, bem na natureza, longe de cafés e duches e de todas essas modernidades. Mas mais não encontrámos: entre a etapa 7 e a 8 tudo descarrilou! O ponto 9 da etapa 7 foi o último a ser encontrado com certeza… daí para a frente nada mais fez sentido. Encontrámos a cache que fechava essa etapa, mas sem qualquer ideia de onde iniciar a 8… e assim perdemos a Rio Grande do Sul, apesar de com algum discernimento termos conseguido apanhar a lógica do percurso mais à frente, ganhando acesso à cache bónus. Éramos cinco cabeças a tentar resolver a etapa 7 mas nenhum de nós conseguiu interpretar o roadbook.

Concluída a Rio Grande do Sul sem grande glória, seguimos directamente para a segunda aventura que o ajsa (& Golfinha) nos disponibilizaram para este grande fim-de-semana: Safari Guadiana. De permeio, uma complicada cache em Cabeça Gorda (Flora Alentejana – O Sobreiro); não que esta tenha algo de errado… mas foi tramado para lá chegar, o suficiente para desistir das outras duas caches em redor da mesma localidade, porque se o tempo se continuasse a gastar aquele ritmo, quando saísse de lá já não teriamos tempo de concluir a segunda aventura antes do fim-de-semana terminar.


Se a Rio Grande do Sul tinha sido muito apreciada, este segundo projecto do mesmo “owner” bateu todas as marcas. O método aplicado é completamente diferente. Para o Safari Guadiana não é necessário seguir um “roadbook”, mas é preciso usar um “track” feito de “waypoints”, e é a partir da numeração desses “waypoints” que o geocacher vai ganhando acesso às coordenadas das sucessivas caches. Ora isto não é só uma excelente forma de ir providenciando coordenadas finais, de forma clara e descomplicada… resulta também mais divertido do que o roadbook, para mim, claro, mas creio que objectivamente o é: com um roadbook nas mãos o prazer em explorar este Alentejo desconhecido dilui-se na necessidade de interpretar a cada momento as indicações impressas. Depois, existe uma nota de stress introduzida na aventura, o medo de falhar uma saída, de não compreender uma passagem (como aliás veio a suceder, tal como narrado acima)… é preciso manter um olho no conta quilómetros, outro nas páginas… e entretanto, conduzir. Com tudo isto senti que não aproveitei da melhor forma os percursos oferecidos. Já o Safari Guadiana oferece um cenário precisamente oposto… com o caminho a seguir pespegado em frente do nariz, pude apreciar todo o percurso, sentir os aroma quentes das estevas detectar os movimentos furtivos das aves de rapina. Por outro lado também preferi o circuito não circular. Compreendo perfeitamente as vantagens de um circuito circular, mas a mim resultou algo frustrante vencer barreiras durante todo o dia, rabinho duramente massajado, braços cansados… e chegar ao fim da jornada e dar comigo basicamente no mesmo sítio. O Safari Guadiana confere uma sensação de “viagem” que resultou melhor.

Da série de oito caches desta aventura, falhámos uma, manifestamente complicada, conforme está aliás expresso na classificação do nível de dificuldade. Eventualmente tê-la-iamos encontrado, mas o dia aproximava-se do fim, e era ainda uma longa viagem até casa, que seria feita já de noite. Todas as outras foram achadas sem problemas, em locais preciosos, num percurso excelente que nos agradou a todos. Terminado já muito perto de Mértola, foi com algum gosto que senti de novo o asfalto rolar debaixo das quatro rodas da mota. Mas estava cansado. Foram 800 km em dois dias e meio. Acabámos por pernoitar em Almodôvar, em casa de familiares, e seguir muito cedo para o Algarve, já no dia seguinte, mas com novas forças.

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Esta é a história do achamento de uma cache banal, e de como o comum se transforma em extraordinário quando menos se espera… e tudo começa em 1969…

Nesse derradeiro ano da década de 60 do século XX, tinha eu quatro anitos. Mas já ia lendo, ensinado em casa mesmo antes de começar a frequentar a escola. Por essa altura, o meu pai, desenhador por gosto e ávido consumidor de banda desenhada, comprava a revista Tintin, que em Portugal ia no seu segundo ano. Oficialmente, era para o meu irmão mais velho, mas suspeito que era ele próprio, o nosso progenitor, que retirava o maior gosto daquele cerimonial, o de semanalmente procurar a revista nos escaparates, comprá-la, levá-la para casa.

Como é natural as minhas memórias desses dias são muito esparsas, resumem-se a momentos isolados, cenas de uma vida de outros tempos. Mas a revista Tintim faz parte delas. Lembro-me ainda hoje de pormenores incríveis: em que número se iniciava determinada história que era mais do meu agrado, as capas das edições com páginas que me interessavam especialmente… e a leitura… no café, com o meu pai… nas férias, a excitação da chegada mais complicada do número daquela semana.

Nesses tempos ganhei uma estima pela banda desenhada franco-belga, que naturalmente dominava a revista, e os seus heróis ainda hoje são os meus favoritos: Michel Vaillant, Tintim, Astérix e Obélix, Lucky Luke, Bruno Brazil, Tanguy e Laverdure, Coronel Clifton, Tunga, Cavaleiro Ardent… tantos e tantos… incluindo… Dan Cooper.

O major Dan Cooper, da Força Aérea Canadiana, foi criado em 1950 por Albert Weinberg, para a revista Tintim. As suas primeiras histórias tiveram uma abordagem temática quase fantasiosa, com muita exploração espacial, incluindo uma expedição aos satélites de Marte. Mas com o tempo Weinberg adoptou uma linha mais realista, baseada num mundo em evolução, fortemente marcado pela Guerra Fria. Entretanto, uma das histórias que me ficou na memória, envolve um Dan Cooper em destacamento NATO na Alemanha, pilotando F-104 Starfighter, que em finais dos anos 60 era talvez o interceptor mais utilizado na Aliança Atlântica (tinha uns 19 ou 20 anos quando construi um modelo na escala 1:32, com o esquema de cores e as insígnias da República Federal da Alemanha), apesar dos muitos problemas técnicos, alguns resultando em acidentes fatais, de que o avião padecia. O “álbum” chama-se Céus da Noruega, porque Dan Cooper se vê transferido para aquele país, em missão de colaboração com a Força Aérea local… e ali se apaixona por uma bela norueguesa, que se vê em dificuldades depois de se despenhar na Lapónia, para angústia do nosso herói.

Ora estava eu já de saída de uma breve visita ao mesmo país, quando me apercebo da existência de duas “caches” nas imediações do aeroporto de Sandefjord Torpe. 60 minutos até ao encerramento do portão de embarque. Terei tempo? Hesito, antes de ser tomado pela febre da “cache”, aquele transe que me empurra para além de qualquer racionalidade, me faz procurar “caches” quando tudo indica que deveria prosseguir caminho… uma, no parqueamento do aeroporto, fácil. A segunda, mais afastada… e caminho, em passo rápido apesar da carga completa às costas… meço o tempo, para o poder desdobrar em dois e calcular as possibilidades de regressar a tempo ao terminal. Primeiro marcho paralelo à estrada, depois interno-me num pequeno bosque à beira da vedação do aeroporto, e finalmente chego… e é então que o vejo…

Se esta cache – Silverbird –  pretendia ser sobre um Dakota D47 que se encontrava parqueado ali bem junto da vedação, facilmente visível, já não o é. Nem tenho a certeza, porque o texto é apenas em norueguês, essa aberração meio ignorância meio nacionalismo, que grassa também, e de que maneira, por cá. Mas seja como for, o que vi ali, de chofre, foi um F-104 com as insígnias da Real Força Aérea Norueguesa, sem mais nem menos, exactamente a mesma aeronave da história que tanto me encantou, há mais de quarenta anos.

O tempo, como já se sabe, não era muito. O momento foi intenso, mas não pode ser saboreado condignamente. Contentor encontrado, assimatura deixada, houve apenas oportunidade de uma fotografia rápida, e pus-me a galope, de regresso ao aeroporto, onde, para que conste nos registos, tudo correu bem, e pude apanhar o meu vôo Wizzair para Praga.

E sabem que mais? Sem saber porquê, quando vinha no autocarro para Torpe, chegou-me ao pensamento tudo isto, como uma vaga bruma premonitória… Dan Cooper… Noruega… F-104… e a imagem deste avião… lembro-me que me ocorreu que era uma pena, ter vindo a este país e não ter visto um avião destes. Ideia bizarra, dadas as circunstâncias, e que afinal se materializou, dando lugar a mais um momento mágico de Geocaching.

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