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Archive for Julho, 2011


No cume

Há caches assim, entram no imaginário de uma pessoa, agarram-se como lapas, e só são exconjuradas quando encontradas. Por vezes, deixado esse momento para trás, dissipam-se, perdem o seu lugar não só nos sonhos do geocacher, mas também na memória, e, aos poucos, de ponto que se vai reduzindo com a passagem do tempo, terminam num pequeno nada. Contudo, há as outras, as que com a sua conquistam se solidificam, fazem-se monumento, impassível ao efeito dos anos vindouros. Essas, são as caches mito, objecto de histórias repetidas, ganhadoras de fama intemporal. Não há muitas. Cada vez vão nascendo menos dessa estirpe, mas, em Portugal, um grupo de geocachers surge associada à descoberta de uma mão cheia desses locais mágicos, e à sua partilha através da criação de caixinhas. O seu nome? Greenshades.

Bem ou mal, a minha base de dados indica a existência de dez criações deste grupo de autores. Encontrei seis, uma delas entretanto arquivada. E dessas, cinco foram experiências únicas, inolvidáveis. A última, The Nest of Jonathan Livingston Seagul, “caiu” recentemente.


A caminho, saltos e traulitada

Já não me recordo quando nem como. A verdade é que ficou combinada uma pequena expedição à Costa Vicentina, com passagem pelas caches que se atravessassem pelo caminho a partir de Vilamoura. Na realidade, de Costa Vicentina a expedição teve pouco, quiçá porque muito se interpôs, pequenas paragens, desvios menores. Algumas caches banais e um par de “assim assim”, até chegarmos às imediações do prémio grande do dia: The Nest of Jonathan Livingston Seagull.

Não se rola muito para além de Vila do Bispo antes de se deixar o asfalto. Desde esse ponto são 4 km numa linha recta. Durante os minutos que demoramos a vencer essa distância a minha mente está absorta, dividida entre a paisagem bravia que se vai desenrolando diante dos nossos olhos e a reflexão sobre os anos que este momento demorou a acontecer. Quando cheguei ao mundo do Geocaching, no Verão de 2004, esta cache já tinha nascido há mais de um ano. Atemorizado pelas quatro estrelas e meia de classificação de terreno, fui adiando uma visita. Depois, o emaranhado de caminhos de terra batido e o facto de nem sempre andar por aquelas paragens com uma vitura TT, contribuiram para o atrasar de uma expedição que ameaçava tornar-se um fantasma caminhando eternamente à minha frente. Os relatos na primeira pessoa não ajudavam. Que era impressionante, que era a melhor cache em Portugal… ora eu, aprendida que estava à custa de experiência própria que o que geralmente era considerado bom não era coisa para me agradar, fui tomando estes testemunhos como uma derradeira advertência. Mas, por outro lado, o bichinho não deixava de roer. Não faço ideia se era curiosidade, se era o alter ego do eu prudente a querer falar mais alto. O que sei é que durante estes sete anos, a imagem de uma falésia de cume afiado e água espumosa a fustigar as suas faces me vieram à ideia de forma espaçada mas presistente. Quando oProdrive me convidou para esta expedição – logo ele, um dos maiores entusiastas desta cache – sabia que seria feito. E foi assim,  comigo a matutar no receio, mais feito respeito do que pânico, das alturas, que chegámos ao local.

O Atlântico. Essa entidade omnipresente em quase todas as manifestações culturais deste nosso povo. O mar,  essência da portugalidade – a que muitos chamarão agora de tuganismo, ou coisa que o valha – e alma deste país. É acima de tudo o poder desta massa infinita, estendida a perder de vista, que domina aquelas paragens. E se for cego, o ribombar das vagas nas duras rochas não me deixará ao engano. É o mar que ali está. Mesmo assim, se não tiver esse sentido, será o vapor carregado de perfume a que chamamos de marezia que trará a mensagem. É o mar que ali está. Em poucos locais da nossa bela costa se consegue sentir esta presença quase etérea. Lembro-me de me sentir pequeno, muito pequeno, em dias de tempestade no cabo da Roca ou nos areais do Guincho. Mas hoje não é dia do rei Inverno juntar forças com o todo poderoso mar. É simplesmente um dia de verão, plácido em todo o lado, menos neste canto, onde as águas, atiçadas pelo soprar de um vento ululante (ou será o oposto…?) atacam sem cansaço a terra.


Green… shades

Os meus companheiros de viagem apontam-me a direcção. Eles já lá estiveram. Eu sou o convidado de honra, o iniciado da Irmandade do Rochedo, com o coração a bater desordenadamente perante emoção e desafio. Vamos lá então. Sigo em último na linha de caminhantes que se estende por umas dezenas de metros. Somos seis, mas apesar de tudo o seguir na cauda não se prende com o receio que pudesse sentir. Gosto sempre de caminhar atrás, para apreciar ao meu ritmo a envolvência. Fotografar sem empatar, e, depois, sem necessitar de mal-dizer a perna curta com que os meus genes me dotaram. Continuamos a andar, em frente, depois, curva ascendente em cotovelo, e a mesma linha numa cota mais acima, e de repente estamos lá. O quê? É só isto? Tanta algazarra, tantos medos passados, tanta fama, tantas estrelas por causa disto? Soubesse eu que o desafio físico era tão reduzido e já há muito tinha vindo acertar contas com este meu papão quase privado. Mas se a provação não foi a esperada, a experiência foi muito mais. Metafísica. O dia estava a correr mal. Algumas caches muito mal amanhadas e um par de DNF’s imediatamente antes. E poucas encontradas. Muito tempo entre elas, demasiado à procura de cada uma. Bastaram contudo alguns minutos neste ambiente e todas as mágoas de alma foram lavadas. Mais houvesse e teriam, também elas, ido, arrastadas pelo caudal curandeiro daquela terapia sensorial. É simplesmente magnífico, e, sei disso sem que uma palavra tivesse sido proferida, todos os constituintes do grupo sentiram o mesmo. Silêncios partilhados, olhos fixos nas águas.  Até ser tempo de voltar para trás.

Antes da abordagem a esta cache, tinhamos conduzido o cachemobile por caminho menos acertado, e demos por nós no promontório anterior (de quem vem de sul). Foi um óptimo erro, porque me permitiu apreciar o desafio de uma certa distância, apreciando a dimensão global da coisa, com o trilho, lá em baixo, muito pequeno, insignificante. Depois, encarrilhando a viatura na estrada acertada fomos gracejando: que ali calhava mesmo bem uma cache para  que a The Nest of Jonathan Livingston Seagull não padecesse das dores desgastantes da solidão de noites a fio, apenas ela a sua precária base sólida e as águas todo em redor, à espera, sempre à espera, das próximas mãos humanas que a libertassem, mesmo que por apenas um mero par de minutos, tempo necessário para uma exploração breve de conteúdos e uma rubrica no livro de registos.


A Greenshades começa aqui e acaba lá em cima, mesmo no topo

Vinhamos já de regresso ao carro, deixando o estreito trilho para trás e abordando o trecho que se desenvolve em terrenos perfeitamente sólidos. O Prodrive tinha parado, olhar apreciativo, fixo na majestosidade daquela outra massa rochosa. E eu sabia o que lhe ia na ideia. Como é, vamos a isto? A mim, incomodava-me um pouco a proximidade de uma outra cache, e logo uma senhora gigante do nosso Geocaching, uma a que muitos chamam – e com toda a justiça – de a melhor de Portugal. Hesitei, hesitei muito. Mas deixei-me arrastar pela emoção do momento, tão especial, que ali se vivia. Vamos lá então a isto. Ele, foi lá acima, ao carro, buscar um “container” sempre preparado para estas ocasiões. Metade do grupo ficou ali, aguardando, roubando mais umas golfadas daquele ar único. A outra metade, avisada pelo Prodrive, foi aparecendo. E juntos esperámos pela chegada da nova cache.

Há duas formas de se vencer o desafio novo que naquele dia foi criado. A mais curta, é mais radical, e nenhum de nós a tentou: é uma questão de conduzir até ao ponto a que inicialmente chegámos, antes de percebermos que estávamos no acesso errado à The Nest of Jonathan Livingston Seagull. Há um trilho logo desde ali, mas estreito, sinuoso e desprotegido. A outra, que escolhemos, parte do acesso à cache que tinha acabado de encontrar, e inicia-se com uma abordagem simpática, no meio de uma vegetação incrivelmente verde, progredindo depois para o promontório onde se caminha com o mar pela esquerda. É também um espaço exíguo, mas faz-se bem, e onde a coisa se torna mais periclitante, existe uma corda de auxílio. Logo à frente, todos os outros prosseguiram, mas eu, que não gosto muito de alturas, acobardei-me e deixei-me estar. Vi o último elemento do grupo dobrar a esquina que parecia ser para o fim do mundo conhecido, e fiquei sozinho. Estava frio. Apesar de em todo o território de Portugal Continental estar um calor abrasador, ali, estava de facto frio. O vento soprava, arrastando consigo partículas de água gelada, e recuei um pouco, procurando uma nesga de sol. Nisto vi-os, lá em cima, a acenar para mim. E nesse momento, vi também uma outra possibilidade de ascensão, que implicava os super poderes de uma cabra alpina, mas que não implicava vistas para precípicios. Cheguei quando eles já desciam, mas ainda a tempo de chegar à conversa com o Billy VespasFriendsAlgarve, que me passou o GPS para a mão. Sem fazer ideia de onde o container estava, apenas com as coordenadas e um GPS, senti legitimidade para encontrar esta nova cache, claro, sem me passar pela ideia reclamar um FTF, esse vago conceito que deixou de ter piada depois de tantos o levarem tão demasiadamente a sério. Concluido o acto, desci por onde tinha subido, desta vez com o Billy a acompanhar-me. Logo, nos juntámos aos outros. Iamos ainda debatendo quem seria o progenitor oficial da nova cache e qual o nome a dar-lhe. Eu, expressei um certo constrangimento na situação: sentia que de certa forma tinhamos acabado de usurpar o merecido protagonismo da  The Nest of Jonathan Livingston Seagull. E foi então que o Prodrive atirou a sua sugestão de baptismo, que venceu todas as minhas resistências: vamos criar um tributo aos Greenshades. Vamos chamar-lhe simplesmente Greenshades? Excelente! Até pela dupla significância: não sei se mais alguém se apercebeu das tonalidades esverdeadas do mar naquele dia. Green… shades….

Nesse dia ainda encontrámos mais 2 ou 3 caches. Mas seriam pouco mais que nada, surgindo na sequência desta experiência. Aliás, nada voltaria a ser como era. A  The Nest of Jonathan Livingston Seagull lá ficou, mas, agora, nos termos em que o Prodrive  Jr colocou as coisas, agora com a irmã-gêmea dedicada aos GreenShades.


Terminada a magia, prestes a partir

P.S. – Participaram nesta expedição, para além de mim, o Prodrive, organizador e condutor; Zaya, minha metade de equipa quando me decido a fazer Geocaching em equipa; Billy, meia VespaFriendsAlgarve; Prodrive Jr, cujo nume diz tudo; Andrea, Couchsurfer, não Geocacher, que me abrigou um dia em Milão e agora veio devolver-me a visita.

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Quando os primeiros computadores pessoais apareceram no nosso mercado, há cerca de 25 anos, corri a procurar financiamento familiar e, seguidamente, para a loja. Chamava-se Euro PC Schneider, e estou certo que muitos ainda se lembrarão deste modelo, que durante algum tempo sofreu a concorrência do PC1 da Olivetti. Criavam-se naquele dia os aliçerces de um terrível conflito interno que desde essa altura me tem corroído as entranhas: de um lado, uma intrínseca preguiça mental e uma incapacidade de encontrar pouco mais do que um fiozinho de inteligência lógica na minha mente; do outro lado, um amor pela informação e pela sua racionalização e organização, enfim, mais ou menos o que em termos técnicos se chama “epistemologia”.

Tudo isto para dizer que quando chegaram as caches Whereigo, fruto de um casamento feito divórcio entre o gigante do mercado de unidades GPS de aventura e a Groundspeak, senti imediatamente um arrepio: sabia que mais sangue ia correr dessa ferida eterna, criada no dia em que, com a desculpa (parcialmente honesta) de que era preciso para os meus estudos universitários em História, entrou lá em casa o primeiro PC em que pus as unhazinhas. Pois então, Whereigo. Criar uma uma aventura interactiva que culminaria numa cache e  cujos limites eram apenas a imaginação do seu criador. Um conceito tentador, quase irresístivel.

Com entusiasmo, fiz o download do software oficial de desenvolvimento dos cartridges (denominação original para as aplicações Whereigo). Deu-me alguns problemas. Já não me recordo dos detalhes, mas ao fim de algum tempo cansei-me e coloquei-a de lado. Foi muito depois que, nem sei porquê, me mordeu de novo o bichinho. Talvez porque tenha descoberto uma nova aplicação, alternativa, ou talvez tenha descoberto esta opção por me ter ferrado o vício outra vez. O seu nome: Urwigo (pelo menos mais uma alternativa está dísponivel – o Earwigo – que se trata de um programa baseado exclusivamente na web. O seu uso é reservado, mas pode ser obtido acesso contactando o geocacher sTeamTraen).

A criação de programas alternativos talvez diga algo sobre os problemas com a aplicação original que, vítima ela própria do divórcio entre a Garmin e a Groundspeak, se encontra, aparentemente  para sempre, em fase Alpha. Já me disseram mais do que uma vez que o principal problema na criação de uma cache Whereigo reside na qualidade da ideia de base. No meu caso, foi imediato. Assim que comecei a brincar com o programa, pensei durante dois segundos e veio-me a inspiração: iria projectar memórias da minha meninice, numa justaposição com o presente, num cenário espacial delimitado pela aldeia onde passei tantos momentos felizes, de seu nome, Sapataria. Naquela aldeia, localizada a cerca de 30 km a Noroeste de Lisboa, tinha a minha família adquirido algumas propriedades. Com regularidade iamos todos até lá, passar uns dias. Mais tarde, quando os meus pais se separaram, passei a visitar o meu pai que lá permaneceu alguns anos. Entre os 20 e os 27, visitava a última casa que conservávamos quando queria passar algum tempo com uma das namoradas que passaram pela minha vida por essa altura. Depois, acabou. A família decidiu largar esse último bastião, e eu, na flor da vida e cheio de energia, centrado noutras realidades, encolhi os ombros e concordei.


A mesma pessoa, o mesmo local. 37 anos de permeio.

Portanto, no que toca à cache e à aventuar interactiva, apesar da ideia ter chegado sem esforço, tinha ainda que a validar em diversos vectores antes de começar a levá-la a sério:

  1. Não  visitando o local há quase 20 anos, será que mantinha ainda o que então me encantava? Será que havia viabilidade para construir uma aventura em dois layers temporais, ou as mudanças destas duas últimas décadas teriam minado essa possibilidade de forma letal? Ultrapassei estas dúvidas com um exame atento da fotografia aérea disponível no Google Earth. Para grande surpresa, as mudanças estruturais foram reduzidas.
  2. Será que conseguiria reunir, em qualidade e quantidade, material gráfico que pudesse ser utilizado na concepção da aventura gráfica? Os meus arquivos pessoais tinham algumas fotografias dessa época. Estamos a falar dos primeiros anos da década de 70 no século passado. Uma altura em que felizmente o meu pai tinha o seu gosto pela fotografia ao rubro, no qual envolveu o meu irmão mais velho. Assim, um telefonema à minha irmã angariou logo uma dúzia de imagens da Sapataria nesses tempos, seguidas por mais um par de dezenas, que ela obteve do nosso mano.
  3. E quanto à manutenção da cache final? Tentei delegar na minha irmã (a pessoa que comigo partilha uma ligação emocional à aldeia) mas ela recusou. Que tinha criado uma barreira de segurança emocional, que se recusava a reavivar memórias perdidas, a enfrentar as mudanças na Sapataria, a arriscar estilhaçar recordações sagradas. Mas a verdade é que, por fim, acedeu, e, mais para a frente, acompanhou-me mesmo na recriação do percurso que funcionou como teste final desta Whereigo.



Instantâneos da vida quotidiana numa pequena aldeia da região saloia em meados dos anos 70

Viabilizado o projecto no plano teórico, era tempo de tomar algumas decisões práticas:

  1. Iria ao local recolher elementos para a construção da aventura ou trataria de tudo remotamente, recolhendo coordenadas e apurando o percurso através do Google Earth. A Sapataria fica a uns 350 km da minha base em Portugal. Estava excitado com a ideia de colocar o projecto a rolar, e sem possibilidade de me deslocar lá nas semanas seguintes. Decidi-me pela opção menos fiável, mas mais simples e imediata: construiria toda a aventura sem visitar o local, e quando estivesse tudo pronto, faria uma simulação no terreno, na perspectiva do jogador, e apuraria o que fosse necessário apurar.
  2. Em que língua escreveria os textos da aventura? Idealmente, criaria um “cartdridge” em português e um outro com uma versão internacional em inglês. Pensei nisso, cheguei a decidir nesse sentido, mas mudei de ideias, mais por força prática do que por decisão ponderada. É que começei a escrever em inglês, e quando olhei apercebi-me da trabalheira que seria criar tudo aquilo em modalidade bílingue. De resto, se tivesse que optar apenas por uma língua, seria sempre pela que daria acesso  à cache a jogadores de todo o mundo. Mesmo que não acreditasse que muitos se aventurariam na Sapataria.
  3. Qual seria a extensão do passeio? Bem… deixei a aventura correr por si. Se quando chegasse ao fim do desenvolvimento visse que tinha ficado exageradamente curta ou demasiado longa, adaptaria algo para corrigir os desvios. Mas acabei por ficar satisfeito com o resultado final, que saiu de forma natural: 4 ou 5 km, uma distância a percorrer em 2 ou 3 horas. Razoável para uma tarde ou uma manhã de Geocaching sem pressas, como se pressepõe que será o estado de espírito ao abordar uma Whereigo.

Depois, em termos de decisões, foi uma torrente. Mas de carácter mais operacional, cuja descrição não tem cabimento num texto destes, e cuja maioria, de resto, já foi esquecida. Um dos principais problemas ao construir uma aplicação Whereigo é que estamos a trabalhar com um programa que não conhecemos, e cujo funcionamento e possibilidades temos que descobrir à medida que avançamos. Mesmo agora, que consegui concluir a “Sapataria”, teria que começar do ponto zero se me decidisse a avançar para a construção de uma segunda aventura Whereigo. É muito diferente dominar um programa que utilizamos todos os dias do que ter um conhecimento práctico aprofundado de software com que lidámos durante uns dias e depois foi colocado na prateleira.

Assim, sem um plano delineado no papel, como faria um bom informático de gema, a criação desta Whereigo foi constítuida de avanços e recuos, à medida que iam sendo descobertas as possibilidades (muitas) e as limitações (poucas) do software. Alguns detalhes ameaçaram conduzir-me à loucura. Mas melhor ou pior as coisas foram avançando e o projecto foi ganhando forma, cada vez mais sólida, mais volumosa, até ter sido dado por concluida a fase doméstica.

Na teoria, a coisa estava acabada. Os passos do geocacher tinham sido ensaiados no emulador para PC vezes sem conta. Tudo batia certo, como um relógio suiço. Mas estava ciente que certamente muita coisa me estava a escapar. Havia tantos detalhes, tantas variáveis. De certeza que não era possível cobrir tudo, prever todas as possibilidades. Mas de momento nada mais havia a fazer.



Eu, quase há quarenta anos atrás, e as nossas casas

Visitei a minha irmão, numa pequena aldeia nas imedições da Ericeira. E juntos fomos à Sapataria. Não só era necessário testar no terreno a cache Whereigo, como precisava de recolher imagens modernas que poderia ainda incluir na aventura interactiva. E depois, claro, era preciso plantar no local final o contentor com o logbook e os tarecos usuais. O dia foi bem escolhido. Os deuses da metereologia presentearam-nos com uma tarde cheia de sol e temperatura amena, ideal para a pequena caminhada que viria a suceder. A minha irmã, super excitada com tudo aquilo. O Geocaching não era novo para ela, mas a ideia de partilharmos as nossas memórias familiares com o resto do mundo tinha-a deixado eufórica, e quando começou a jogar (ela foi a cobaia em absoluto – dei-lhe o aparelho para as mãos, expliquei-lhe os rudimentos e deixei as coisas correr…) e a ver as imagens e a ler os textos ninguém mais a conseguiu agarrar.


A minha irmã e braço direito neste projecto, a meio do teste final

Quando chegámos ao ponto final, estava positivamente surpreendido: de tanta coisa que podia ter corrido mal, e apenas num ponto havia um pequeno “encravanço”. Algumas imagens não apareciam na ordem devida, mas tudo isto eram arestas simples de limar. Claro que ainda havia espaço para problemas posteriores, mas agora teriam que ser geocachers a detectá-los, com a rodagem natural do jogo. Para já, estava terminado. Depois de encontrar um nicho adequado para abrigar o contentor, sabia que a cache estava pronta para ser submetida para publicação.

Hoje, quase um ano depois, esta cache tem 50 founds, 2 DNF’s. Uma média GCVote de 4,5 e 21% de logs marcaram-na como “Favorite. Sobretudo, foram registados logs de grande qualidade, que me encheram de alegria e motivação. Poucos foram os problemas assinalados: é certo que em determinado momento, existe um pequeno “andar para trás e para a frente” que é capaz de resultar desinteressante para quem procura a cache, e que estarei disposto a eliminar quando me sentir com coragem para reentrar nos meandros técnicos de uma Whereigo; há também o aspecto desta Whereigo ser apenas uma cache, e não seguir os principios das cartrdidges… eu explico: segundo o conceito inicial, uma Whereigo (não sendo obrigatoriamente uma cache) deveria, uma vez completada a aventura, ser “desbloqueada” com uma chave obtida na última fase, fornecida pelo programinha; ora no estado para o qual o Wherigo, como projecto autónomo, regrediu, considero perfeitamente irrelevante este aspecto de “desbloquear” o cartdrige. A cache é que importa, e as coordenadas são dadas como prémio no final da aventura.

Surpreende-me que não tenham surgido problemas técnicos, nomeadamente incompatibilidades. Uma Whereigo pode ser jogada com recurso a um GPSr Garmin habilitado (Colorado, Oregon), com um PDA com PocketPC ou com telemóveis com Symbian (perdoe-me se me esqueci de algo). Ora eu testei apenas com o meu Nokia 5800, e correu tudo bem. Esperava que viessem a surgir problemas com outras combinações de hardware, mas tal nunca sucedeu. Tanto melhor.

Agora, começa-me a aflorar a ideia de partir para uma sequela. Depois das recordações da meninice na Sapataria, as memórias da adolescência nas férias de Verão em Vila Nova de Milfontes. Uma outra Milfontes, onde não existia uma ponte sobre o Mira, onde apenas existiam duas pequenas pensões e um restaurante, onde a estrada acabava no barbacã e o passeio até ao farolinho se fazia a pé, pela areia.

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Log Finito

Estou aqui a escrever com uma mão, enquanto com a outra esfrego molho de piri-piri no corpinho. É que já sei que com este texto se vão acender as fogueiras da Santa Inquisição do Geocaching, porque vou ousar violar um dos Mandamentos que sem se perceber bem quando e como, chegaram para ordenar na dita comunidade portuguesa: Não Criticarás! [seguido da ladainha, “porque cada um joga o jogo como quer”].

Assim sendo, enquanto me tempero para a assadela, vou escrever sobre algo que ultimamente me tem revoltado (como não há palavra nos Evangelhos, também conhecidos como Guidelines, então é porque está bem aos olhos da comunidade): o desprezo pela poupança de espaço nos logbooks. Podia até ser, mas no caso não é tanto a piedade pela mancha verde amazónica que me move nesta crónica. É mais o respeito pelo trabalho de quem cria caches e se compromete a assegurar a sua manutenção. O que implica uma deslocação ao local de cada vez que alguém, bem ou mal, reporta o fim de um logbook.

Ora vamos imaginar o botar de uma caixinha num local, digamos, a 30 km da residência, com um logbook lá dentro todo catita, com linhas numeradas, de 1 a 60. Sessenta logs é muito log. Se for bem longe das grandes áreas urbanas (o que aliás aumenta as probabilidades do owner viver bem distanciado da sua cache) é coisa para levar 2 ou 3 anos a esgotar o logbook, e se tudo correr bem, durante esse tempo não é preciso visitar o local para efectuar manutenção. Será?

Seria! Se um número demasiado grande de jogadores não usasse o limitado espaço do papel como se de uma cornucópia mágica se tratasse. No Algarve, vi um logbook com capacidade para 120 entradas, devidamente delimitadas por linhas individuais e até numeradas, ser consumido por apenas quatro logs até à linha 40! E, desta vez, nem foi preciso o recurso ao autocolante. Tudo escrito à mãozinha. Não pensem os mais optimistas que este pessoal usou 10 linhas para um testemunho sentido da experiência. Não, a coisa era mais do género TFTC em letras garrafais, e na diagonal, como se quisesse ter a certeza que o desperdício era maximizado.

Mais recentemente, na minha voltinha anual até Tomar, voltei a reparar no mesmo, mas desta vez o espaço era abusado com o uso do autocolante. Que se usem autocolantes nos logbooks é-me perfeitamente indiferente. Que se usem autocolantes deste tamanho em logbooks destas dimensões, já é uma coisa diferente. A área onde uma pessoa colocou um log, é a que eu necessito para dez dos meus logs. Feitas as contas até às últimas instâncias, comportem-se todos assim, e um owner terá que substituir dez vezes mais logboks. Alguém acha isto bem ou razoável. Eu não.


Hesitei antes de obscurecer a identidade do artista. Mas como é um campeão de números bem conhecido da nossa praça e não pretendendo dirigir um ataque pessoal a alguém com quem nunca tive nenhuma interacção, fica assim. É só para reflexão.

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