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Archive for Agosto, 2011

Pode parecer mal a um Papacaches escrever sobre Waymarking, uma práctica que toca uma zona cinzenta para um geocacher purista. Afinal de contas, os fundamentalistas clamam que é necessário um objecto físico para ser encontrado, um logbook para rubricar, e o Waymarking cai na margem da heresia: não há nada para além de um ponto a alcançar. Bem, até há… mas isso é outra conversa.  Mas vamos lá… comecemos pelos momentos ternos, pelo amor…

O Waymarking tinha tudo para ser um enorme sucesso. Foi apresentado pela Groundspeak como um novo reino onde as antigas caches virtuais, banidas sem efeitos retroactivos das terras do Geocaching, se podiam reagrupar e renascer de forma perfeita. Falava-se, nada mais nada menos, do mundo no GPS. Uma directoria cósmica, umas “páginas amarelas” de pontos de interesse à escala planetária. Não soa tão bem, até agora? A mim sim. Quando vi o Waymarking.com pela primeira vez fiquei pasmado com o que me era prometido. Pois se um tipo era maluquinho pela aeronáutica e ia viajar, digamos, a Praga, só tinha que dar uma vista de olhos e verificar que categorias tocavam esta sua área de interesse. Depois, era fazer o download dos pontos catalogados na zona de Praga, e uma vez na cidade, seguir a setinha do GPS, não para procurar uma cache que poderia ou não ser interessante, mas para atingir o Museu da Força Aérea ou observar o velho Dakota que se encontra nas imediações do terminal aeroportuário.

Mas as maravilhas do Waymarking não se esgotavam na oferta da informação a viajantes e locais. Esta, a informação, não surgia por geração expontânea, era necessário que os próprios participantes recolhessem dados e imagens para a abertura de mais e mais pontos de interesse. E, digo-vos, existe um prazer por descobrir à espera de quem nunca experimentou criar um Waymark. Arranjar os vários blocos de texto, adicionar imagens, prever a ficha tal como a comunidade a verá e enviar o “pacote” para aprovação é um momento agradável, culminado pelo e-mail mágico: “a sua Waymark foi aprovada”. São tão lindinhas, tão bem arranjadas. Dão vontade de continuar a criá-las pela noite dentro, até cair para o lado. E além disso, o viajante encontra no Waymarking uma forma de partilhar as maravilhas a que assistiu no decorrer das suas expedições, algo que é muito mais complicado com o Geocaching, no qual se pressepõe uma disponibilidade de regressar aos locais para prestação de manutenção às suas criações.

E isto leva a um outro ponto: o magnífico interface que foi construído para esse outro website da Groundspeak. Pessoalmente, estou convicto que a coisa foi concebida por terceiros, em regime de “outosourcing”. Não reconheço no waymarking.com um estilo da equipa da Groundspeak, que não costuma ter aquela competência gráfica e funcional. Posso até estar enganado neste aspecto, mas muito me surpreenderia. Mas o que importa é que com um website tão apelativo e com tantas possibilidades, é fácil deixarmo-nos atrair para o “jogo”.

E ficam assim explanados os factores que me levam a regressar, periodicamente, ao Waymarking, ficando algum tempo, até que os aspectos negativos acabam invariavelmente por me afastar por mais uma temporada mais ou menos alargada. E que razões são essas, que me atiram para fora desses balões mágicos, desses períodos de graça? Talvez sejam as mesmas que impediram o Waymarking de se tornar num êxito, empurrando-o para um limbo de abandono, onde apenas os mais entusiastas resistem de forma continuada, e onde nem a Groundspeak parece arranjar energias para mexer com ele.

O factor mais elementar parece-me ser o caos em que se geraram as categorias. Numa antevisão do que Jeremy irish tinha guardado para nós nas Challenges, o poder foi entregue ao povo, e as categorias de Waymarks foram sendo criadas por votação popular. Ora considerando o peso que os EUA têm nestas actividades, não demorou muito a surgirem categorias perfeitamente rídiculas para os povos de todo o mundo, para além dos Norte-Americanos (por exemplo, o que dizer de uma “Blue Star Memorial Highway Markers”?); talvez pior que isso, tendo a mesma origem, foi o bloqueio a que categorias naturais para um Europeu ou um Sul-Americanos foram barradas pelos Norte-Americanos (por exemplo: Cafés Clássicos). Ora isto tem contornos ainda mais retorcidos, se considerarmos que um dos três factores sob os quais o voto deve ser ponderado é precisamente a universalidade da categoria sugerida. Ficará por explicar, à luz desse factor, como é que foram surgindo, por exemplo, coisas como “Ronald McDonald Houses”. Ou seja, de repente, muitas das categorias que se pretendiam universais, ou seja, cuja criação de Waymarks poderia suceder em qualquer ponto do Globo, eram de coisas que apenas aos EUA diziam respeito. E estou em crer que esta prepotência afastou desde logo os europeus.

Depois, há a relação de dependência para com os administradores das categorias, que origina frustrações constantes: por vezes passam-se semanas até um Waymark ser aprovado; outras vezes, é declinado de forma extemporânea, sem razão efectiva; nos piores casos, houve categorias que foram deixadas virtualmente ao abandono pelos seus administradores.

Outro dos pontos fracos do Waymarking incide sobre certas vulnerabilidades funcionais do interface do website. É pouco compreensível que não existam os equivalentes aos “pocket query” do Geocaching, mas a verdade é que se um jogador viajar até uma cidade, não poderá fazer o download de todos os Waymarks lá existentes, nem mesmo dos Waymarks de uma categoria específica. Estranhamente, terá que fazer o download de cada página apresentada na listagem.

Portanto, caros amigos, é entre estas duas forças, uma positiva e outra negativa, que a minha relação com o Waymarking se tem dividido ao longo de todos estes anos. Há alturas em que me dá uma vontade enorme de criar Waymarks, de assinalar a visita a locais já catalogados… depois, um dia, colido de forma mais violenta com as indecências do sistema e afasto-me a coxear, revoltado com as vulnerabilidades de um sistema que podia ser perfeito mas não é. E esta semana, depois de uma mão cheia de meses de afastamento, inspirado pelo espectro que pairou pelo Geocaching com a chegada da praga das Chalenges, entrei numa nova fase de encantamento. Até quando durará, não faço ideia.

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