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Archive for Janeiro, 2012

Os Bons Muggles

De Wikipedia “Muggle“:

Muggle, a term from the Harry Potter book series by J. K. Rowling, refers to a person who lacks any sort of magical ability and was not born into the magical world. It differs from the term Squib, which refers to a person with one or more magical parents yet without any magical ability, and from the term Muggle-born (or the more offensive mudblood), which refers to a person with magical abilities but without magical parents.”

No mesmo artigo, um pouco mais à frente, pode-se ler aquilo que quase todos os geocachers sabem: que o termo foi adoptado pelos practicantes deste nosso jogo para designar todos os humanos que não conhecem a magia de andar com um GPS na mão à procura de caixinhas, em suma, que nunca ouviram falar em tal coisa como Geocaching.

Todos nós tememos os “muggles”, essas criaturas ávidas de deitar a unha aos nossos tesouros mais queridos e estropiá-los das formas mais aviltantes. Quantas vezes chegámos a um ponto zero, cheios de vontade de assinar mais um gratificante “found”, apenas para ver os restos mortais daquilo que foi um dia uma garbosa cache, esventrada, com folhas de logbook afogadas em lama, um lápis aqui, um velho brinquedo acolá, tudo espalhado, à mercê dos elementos? E quem faz essas coisas? Pois é, quase sempre os malvados “muggles”.

Ora como a natureza maléfica daqueles que não conhecem o mundo da magia do Geocaching é amplamente reconhecida, decidi escrever este artigo para divulgar uma sub-espécie, infinitamente mais rara, a que chamarei de “os bons muggles”. Testemunhos dos seus actos podem ser recolhidos em inúmeros logs, que, contudo, se perdem das dezenas de milhares que anualmente são gerados. Muitos dos que me lêem nunca se depararam com um tal relato, e por isso escrevo estas linhas, onde falarei dos “bons muggles”.

Um dos tipos de “bons muggles” mais frequente é o residente. Falo das criaturas que moram nas imediações de uma cache, ou que por qualquer razão frequentam o local. Mais cedo ou mais tarde interpelam um geocacher, que, intimidado, lhes confessa tudo sobre o nosso jogo e sobre a cache que ali o trás. Ou descobrem, por si próprios, o que está por detrás daquela pedra que tantos estranhos remexem antes de abandonarem a área com um sorriso mal disfarçado nos lábios. Com o tempo ganham coragem, começam a interagir conosco, a indicar a direcção certa, tornam-se adeptos do jogo na qualidade de espectadores activos. Há casos em que raro é o log que não refere a aparição do “senhor” de sempre, de dedo esticado, apontando o spot prontamente, de expressão malandra, cúmplice. Muitas vezes são “muggles” reformados, habituados a passar os dias à espera de nada, debatendo-se na solidão que se renova a cada nascer do sol. E é com uma espécie de alegria que vêem aproximar-se mais um daqueles jovens de máquina na mão, com quem sabem poder ter dois dedos de conversa, antes de regressarem às suas rotinas que mais não são do que uma manta a aquecer o frio da vida que foi. Respeitem-nos! São “bons muggles”. E ajudam-nos.

Outro género de muggles que por vezes se revela benévolo provém dos “profissionais”. O jardineiro é um dos piores tipos de “muggle” mas é certo que alguns existem com coração de ouro. Recordo-me de me aproximar de uma cache, em Lisboa, convencendo-me que não a poderia procurar tamanha era a brigada de jardineiros que trabalha na zona. Acabei por descobrir que o esconderijo se encontrava num ângulo morto e joguei-lhe a mão. Encontrei o contentor e tenho a certeza que minutos antes este tinha sido inspecionado por um jardineiro que o colocou carinhosamente no seu ninho. Considerando a profundidade da limpeza envolvente, só poderá ter sido assim. Noutra ocasião, em Praga, onde vivia, uma equipa da “Câmara” abateu uma enorme árvore que se encontrava doente, e com ela, a cache que repousava no seu interior. Descobrindo-a, deram-se ao trabalho de contactar o owner, que mais tarde a levantou nos serviços municipais. As forças policiais fornecem alguns destes “bons muggles”.  A Jewell of Saphire (GCED4F) foi uma das melhores caches que já encontrámos. E um dos condimentos para o sucesso da jornada foi um delicioso log que lá fomos encontrar. À primeira vista nada havia de suspeito na última assinatura existente no logbook: GNR. Afinal de contas, se há uma banda de rock com esse nome, porque não um geocacher? Mas quis o destino que o olhar recaísse sobre essa entrada do livrinho e que as palavras começassem a fazer um sentido muito próprio. Não, não se tratava de um geocacher. A assinatura era mesmo deles, da instituição, essa mesmo, A Guarda Nacional Republicana tinha encontrado a cache. E a explicação estava toda lá: que alguém os tinha alertado para movimentações suspeitas naquele local ermo – vá-se lá entender como, pois “ermo” para descrever o sítio é favor e não se imagina como alguém poderia estar por ali presente para testemunhar as episódicas idas e vindas dos geocachers – e que eles tinham vindo cumprir a sua obrigação. Inspeccionado o local, o contentor foi descoberto e transportado para o posto. Ali, algum dos agentes da autoridade terá lido a stashnote e, reparando no endereço do website, consultou-o até compreender o conceito. Resultado: a cache foi devolvida ao seu devido lugar, com o tal log em que para além da narrativa dos acontecimentos constava uma frase de parabéns pela ideia e de boa sorte para o jogo. Ah! E ainda foi efectuado trade, tendo encontrado entre as prendinhas um calendário da GNR .

Deixem-me falar agora do “ex-bom muggle”. Não, não é que a sua bondade tenha expirado. O que sucedeu é que ao encontrar uma cache por acidente, sabe-se lá como, leu com atenção a “stashnote”. Chegou a casa e ligou-se à Internet. Visitou o geocaching.com. Achou tudo aquilo interessante…olhou para o smartphone, ali em cima da secretária e… tornou-se um geocacher! São mais do que a maioria de nós pensa. De tempos a tempos tropeço numa narrativa, geralmente na primeira pessoa, que dá conta de mais um “ex-bom muggle” feito agora geocacher. Quem diria, considerando as probabilidades.

E depois há um “bom muggle ocasional”, que tropeça numa cache no mais perfeito dos acasos, examina-a, segue o seu caminho, por vezes deixando para trás um pormenor requintado. Lembram-se do Boris, o emigrante, sabe-se lá de onde, talvez da Ucrânia, talvez da Moldova, que pendurou um container em local seguro com uma nota singela, traçada pela sua mão:  “I Love Portugal” ?

Bem, mas deixem-me agora fazer uma confissão: este artigo foi inspirado por um “muggle” específico, que não se enquadra em nenhuma destas categorias. Trata-se do Lázaro. E quem é o Lázaro? É o guardião e melhor amigo da minha cache Cerro do Botelho.  Já não me lembro qual foi a primeira vez que ouvi falar nele. Alguém me disse que um “muggle” local tinha encontrado esta cache por acidente e que a tinha transformado em objecto de adoração. Ri-me. Depois, muito mais tarde, passei por lá e percebi o que me tinham querido dizer. O bom do Lázaro passa regularmente naquele lugar ermo, e invariavelmente deixa um “log” no livrinho. Ao principio pensei que era aborrecido, um muggle estar assim a usar precioso espaço do logbook. Mas depois comecei a ler, e os sorrisos que aquelas puras mensagens me despertaram valeram bem os logbooks que terei que gastar. São inscrições do tipo “Bom dia a todos os amigos, hoje o dia está muito bonito. Lázaro”. “Olá, voltei aqui outra vez e está tudo bem. Lázaro”. “O Lázaro veio visitar”. Como se não bastasse o interesse que dedica à minha cache, agora criou um pequeno monumento. A sério! Ora vejam lá a foto que se segue….

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Cachadas Nocturnas

Uma saída depois do sol-posto é uma experiência nova para o geocacher iniciado. Chegada a noite tudo parece diferente, e os processos habitualmente empregues na caçada depressa se revelam inúteis. É complicado obter mentalmente pontos de referência. A noção de distância torna-se difusa. Os mais assustadiços sentem-se nervosos com as sombras que os envolvem e que parecem ganhar vida. E depois de chegados ao local onde a cache se encontrará escondida, a escuridão dificulta a procura. Na cidade, apesar da calma reinante e do natural decréscimo de muggles às horas tardias, o Geocacher tende a sentir-se inseguro, enquanto os viandantes pontuais o observam com expressão desconfiada.

Em termos mais pragmáticos, talvez a principal desvantagem do Geocaching seja a privação da experiência visual. Sem luz solar, o Geocacher não pode apreciar o meio envolvente. É por esta razão que procuro limitar as minhas saídas nocturnas a locais que já conheço sobejamente ou a caches desenhadas para funcionar pela noitinha. De resto, é preciso ter algum estofo para enfrentar o desconforto instintivo que a noite causa no comum dos mortais. Uma caminhada por um trilho serrano às duas da manhã faz disparar os níveis de adrenalina no corpo, especialmente se o geocacher seguir sozinho. Os ruídos naturais são absorvidos de outra forma, o restolhar da vegetação pode causar um sobressalto. A escuridão torna-se ameaçadora. Mas tudo isto contribui para o carácter único da experiência. Afinal, porque carga de água nos deixaríamos arrastar para uma caminhada destas a horas indecentes, senão pela emoção da procura da caixinha?

Claro que existem saídas mais simples, em meio urbano ou em caches à beira da estrada, durante as quais o geocacher nunca perde o contacto com o habitáculo acolhedor do seu cachemobile. Aí, a fruta é outra. Tendem a ser expedições para acumular mais umas quantas caches à lista de achamentos, e não tanto para apreciar os locais para os quais os seus criadores pretenderam chamar a atenção. Podem seguir-se à paródia de um jantar de Geocachers, ajudar a ultrapassar uma noite de insónia ou preencher um par de horas em aberto na nossa agenda. Mas por regra são caches procuradas, por assim dizer, para encher chouriços, para a desbunda.

Contudo, existem notáveis excepções, e essas são representadas pelas caches especificamente concebidas para serem caçadas de noite. Em princípio, considerando as suas características e as técnicas empregues, nem poderão ser “atacadas” em pleno dia. É que o uso de fitas reflectoras ao longo de um percurso exige escuridão quase total, e, já agora, uma lanterna capaz de produzir um foco de luz intenso. Com estes ingredientes estão asseguradas algumas experiências notáveis. A alteração dos ambientes costumeiros resulta na geração de emoções novas, e não é raro os velhos praticantes guardarem umas quantas cachadas nocturnas entre as suas memórias mais acarinhadas.

No plano técnico, há a acrescentar que a procura de um contentor à luz de lanterna transforma o simples em complicado e o complicado em simples: se por um lado a perda da noção do espaço evolvente pela privação de luz dificulta a pesquisa, também é verdade que a utilização de uma lanterna incrementa os níveis de concentração na análise da pequena área que iluminamos a cada momento. Além disso, as fortes sombras projectadas, por estranho que pareça, tornam mais fácil identificar elementos estranhos, nomeadamente quando as caches se encontram escondidas em muros, meios rochosos ou árvores.

Nunca é demais sublinhar que os cuidados de segurança devem ser duplicados numa caçada nocturna. Um passo em falso pode projectar o geocacher por uma ribanceira da qual a existência nem suspeita, ou fazê-lo mergulhar num poço a céu aberto que se mantém na obscuridade até ser tarde demais. E depois, há a eterna questão dos muggles, esses velhos “inimigos” do geocacher. Se a discrição deve ser uma constante no comportamento do caçador de caixas, pela noite a recomendação ganha outro significado. As pessoas estão mais alertas para movimentações estranhas, e o foco da lanterna é um indicador de actividades que à luz do dia passariam completamente despercebidas. Já não se encontra apenas em causa a segurança da cache. É preciso respeitar os habitantes locais, pormo-nos na sua situação: certamente que se habitássemos num local ermo, nos sentiríamos preocupados e mesmo angustiados se de tempos a tempos sentíssemos estranhos chegar a altas horas da noite, munidos de lanternas, e internarem-se nos matos ali mesmo à beira da casa, desenvolvendo sabe-se lá que actividades. De novo, respeito e civilidade impõem-se no comportamento do geocacher. Se cachar de noite, seja discreto, para bem do jogo e por respeito para com o próximo.

P.S. – Não, este artigo não foi redigido segundo as regras do Acordo Ortográfico.

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