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Archive for Fevereiro, 2013

Há umas semanas houve um certo alvoroço na chamada “comunidade portuguesa de Geocaching”. A razão? Terem aparecido fezes, ordinariamente conhecidas como “merda”, no interior de uma cache. Na ocasião, quem atentasse nas vozes, seria levado a pensar, entre outras, duas coisas: que era acto inédito e que se tratava de um ajuste de contas muito pessoal, entre membros da dita comunidade. Ora, inédito, certamente não era. E quanto á segunda possibilidade, sinceramente, tenho bastantes dúvidas. Com mais facilidade um “muggle” javardo pespega com uma destas do que um bem asseado geocacher, mesmo aqueles de mente conspurcada, que os há. Mas adiante, o que eu queria mesmo era retirar uma certa nota conspiracionista a estes inconvenientes episódios, porque o que tenho hoje para contar está comprovadamente despido de qualquer factor comum. Trata-se isso sim, do mais porco dos elementos aleatórios. Senão vejamos…

A cena passa-se durante a minha visita de Maio de 2012 a Praga. Como alguns saberão, Praga é a minha segunda cidade, capital de uma Pátria adoptiva a que tantgo quero. E portanto não sertá de estranhar que por lá me desloque com bastante à vontade, conhecendo bem a rede de transportes públicos e procurando caches em cantos rebuscados da urbe. Ora neste dia, não particularmente bonito, nem particularmente frio, nem particularmente nada, em suma, completamente banal, sai eu para uma pequena caçada que implicava quatro ou cinco caches. A primeira, era um ajuste de contas. No ano anterior tinha lá estado e não tinha encontrado nada. Agora, o contentor está de volta, num novo local, ligeiramente afastado da posição original. Trata-se de um local sem nada de especial, à beira de uma via rápida e de uma ponte que a atravessa. Desta vez encontro-a e em poucos segundos. Aquele sorriso de vitória que todos conhecemos desenha-se-me nos lábios. “Estás ai…”. É um ovo de plástico, alojado numa reentrância de uma árvore. Apanho-o, desco-o à altura do peito e é nesse ponto que o abro… uma surpresa que dura milésimos de segundo… a caixinha estava cheia de líquido, que desaba sobre o meu corpo e pernas, apenas ressalvadas por um instintivo desviar. Água… talvez tivesse ficado mal fechado e a chuva tivesse feito das suas..? Errr. não. O cheiro é ligeiro mas não deixa enganar. Acabei de ser brindado com um duche de urina. Pronto, fecho o ovo, deixo no local onde o encontrei, dou o “found” como “found” e afasto-me a matutar na minha má sorte.

A cache seguinte não fica nas imediações. Vejo o autocarro certo passar por mim, levanto os olhos, vejo uma paragem a uma centena de metros e corro. Entro ofegante. Passados alguns minutos apeio-me e reinicio a caminhada que me levará ao próximo “found”. Esta cache é dedicada a um pequeno clube de futebol e está colocada no muro que demarca o seu campo desportivo. Encontro-a sem qualquer dificuldade. Está escondida atrás de um painel publicitário e é de tamanho regular. Abro a caixa e, maravilha… cheia de bosta, felizmente já algo seca, pelo que o cheiro é suportável. Abro-a e fecho-a mais depressa do que o diabo pisca os olhos. Tive sorte dentro do azar. Não me caiu em cima nem me conspurcou para além da memória visual que ficou.

Portanto, se um dia encontrarem fezes numa cache, dêem-se como felizes. Isso não será nada, em comparação com este espectacular um, dois. Ou dois em um. Duche de urina, caixinha de merda, no espaço de meia-hora, separados por 3 ou 4 km.

 

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Talvez começar pelo príncipio: quando a Groundspeak implementou o sistema de “Favorites”,  já eu tinha há muitos anos uma lista chamada “Caches Favoritas”. Esse rol era aliás uma evolução de uma ainda mais antiga lista que denominei “Top 10 Caches”. Como o seu nome indica, pretendia ai reunir as dez caches que mais me tinham agradado. Mas a verdade é que passado algum tempo as dez já iam em vinte e tal e, sem conseguir decidir-me pela eliminação de uma mão cheia delas, mudei o nome da lista, tornando-o mais liberal, e segui em frente.

Ora foi portanto com naturalidade que encarei a instauração dos “Favorites” como uma  terceira geração desta minha lista. Só que, já se vê, mesmo sem a rigidez das dez primordiais, esta minha lista tinha mesmo assim critérios muito exigentes. Muito mais do que a Groundspeak burilou com o seu ratio de um favorite para atribuir por cada dez achamentos. Credo! Por cada 10? Nem pensar que me disponho a distinguir uma cache em cada dez que encontro. O meu ratio real será talvez de 1 em cada 100. Ora deixem-me lá ver… tenho 5.640 founds e 101 “favorites” atríbuidos. Já é uma bela liberalização do meu critério inicial, mas mesmo assim completamente à margem dos padrões correntes.

Depois, não sou grande entusiasta do próprio conceito. A Groundspeak passou anos a negar a implementação de um sistema de classificação de caches, e acabou por o fazer. Só que, como em tantos outros contextos, vingou a corrente ditadura do pensar positivo. Passo a explicar: nesta era Facebook, onde “Like” se tornou parte da linguagem corrente, não existe uma contrapartida, um “dislike”. Está-se a tornar socialmente proibido não gostar ou discordar. E isso é uma ditadura, porque como em qualquer ditadura existem duas vias legais:  apoiar ou ficar silencioso.  Ora o sistema de “favorites” é precisamente isso. É-nos permitido gostar de caches e manifestar esse gosto. Não nos é permitido expressar opinião oposta. À boa moda salazarista, ou se vota a favor, ou não se vota. É esta a liberdade que se tem na hora de abordar a avaliação de uma cache que acabámos de encontrar.

Por fim, já ando um bocado enjoado dos resultados prácticos da “favoritizações”. Para uma cache se distinguir, das duas uma: ou é tudo acerca do contentor, esquecendo que este não deveria ser nunca um fim em si, ou é sobre uma cache que colocam em risco o pescoço de quem a pretende alcançar. E disto não varia muito. Ora como eu não sou dado nem a uma coisa nem a outra, resta pouco para mim como beneficiante da informação que decorre da atribuição de “favorites”.

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Quando o António me disse que estava a tratar de criar uma multi-cache para cada um dos seis percursos PR (Pequena Rota) existentes no segmento do concelho de Tavira da Serra do Caldeirão, soube desde logo que tinha ali entretenimento garantido. Apesar de não ser grande fã do que quer que a serra algarvia tenha para dar ao caminhante, fiquei logo entusiasmado com a prometida proximidade de seis caches envolvendo umas boas passeatas a pé. Depois, foi esperar, com paciência… primeiro que fosse feito o trabalho de “owner”, depois, pela publicação. E, finalmente, no dia 19 de Janeiro de 2013, ficaram disponíveis essas seis caches, mais uma, de bónus, para quem completasse a série.

Esperei pela melhor ocasião para sair à descoberta da primeira destas caches. E foi logo no dia 23. O dia estava ideal para caminhadas, o tédio atacava… montei-me na moto 4 e venci os 9 km que me separavam do ponto inicial, não do PR 12, mas do PR 10. Contudo, tudo correu mal. A sinalização do percurso é quase inexistente, e, sem o track fornecido pelo owner, que não levava comigo, só por milagre se terminaria este PR. Depois, um infeliz erro na inserção das coordenadas de um waypoint (já corrigido pelo owner) fez-me desviar do que era devido e deixou-me confuso. Acabei por abandonar o passeio quando vi que após 2 km num volteio desnecessário estava de regresso à aldeia e à estrada nacional. Boa oportunidade de me pôr a andar dali para fora.

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E pronto, chegou a altura de uma segunda incursão, que, como se verá, se veio a revelar bem mais sucedida. Não com a ajuda dos (i)responsáveis pelo PR, porque as marcações do PR12 são apenas marginalmente melhores do que as do PR10. Logo a 200 m do início, primeira encruzilhada com três opções… marcação? Nada. Desta vez venho prevenido com o track fornecido pelo owner, de forma que sei por onde seguir. Mais à frente, nova encruzilhada sem marcação, e de novo o GPS está lá para me apontar a escolha certa. Mas não é este o conceito de um PR, pois não? Ainda me ocorreu que nessas encruzilhadas existissem setas de direcção feitas em madeira que pudessem ter sido consumidas pelo fogo que andou por esta região no Verão passado… mas não… ambas as encruzilhadas parecem ter sido poupadas. Já mais à frente, marcações em locais totalmente desnecessários, à beira da estrada, onde não existem hipóteses de confusão.

Mas voltemos ao principio das coisas. O cachemobile ficou umas centenas de metros à frente do ponto de início da multi-cache e ficou muito bem. Junto ao lavadouro que afinal é o último ponto de recolha de dados. O passeio começou bem.O dia estava de novo excelente para a práctica da caminhada, apesar de uma manhã (e de uma véspera) muitoooo ventosa. Temperatura amena, sol brilhante, a encher de cor a paisagem envolvente, nesta altura do ano dominada pelo verde. O curso de água que em boa parte do trajecto corre ao lado do caminhante ia bem alegre, animado pelas chuvas generosas que têm caido. No início estava um pouco preocupado: um GIF animado na listing da cache teimava em fazer crashar o Garmin Oregon (já retirado pelo owner) e sabia que necessitaria do tablet para consultar tudo o que era necessário consultar. E neste momento, digo: Ainda bem que a primeira encruzilhada não tinha marcações, porque ao procurar o tablet para esclarecer uma dúvida dei por falta dele… tinha ficado no carro… felizmente que descobri quando ainda só estava a 250 m do meu ponto inicial. Toma, mais 500 m nas pernas.

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Depois, o passeio fez-se. Sem grandes desníveis, rolava-se facilmente por um estradão de terra batida bem compactada. Muita passarada, a tomar o Inverno pela Primavera, em alegre chilreio. À musica dessas aves, juntava-se o som constante da água cristalina (e isto não é uma figura de estilo… a água era mesmo cristalina) do ribeiro ali mesmo ao lado. Chegou-se ao lugar do Curral da Pedra. Um aglomerado de casas que me chamou a atenção pela excelente condição da sua maioria… não vi uma só pessoa enquanto o atravessei, mas fiquei com a impressão que uma boa parte daquelas casas pertence a estrangeiros que ali encontraram um porto seguro. De um lugar ali, perdido, esperaria ver abandono e ruínas, mas não é nada disso que se passa em Curral da Pedra.

O fim já não está longe. São mais 2 km. Mas antes há ainda que vencer uma súbida com alguma inclinação. A partir daí, é sempre a descer, até à encruzilhada já conhecida, onde tudo começou. E logo à frente, o carro. Mau! As contas não batiam certas. A fórmula de verificação recusava-se a colaborar. Telefonema para o owner, e uma nabice minha ficou a descoberto. Merecia regressar com um DNF, para não ser tão tapadinho. Mas lá se refizeram as contas. E, coincidência, a cache está precisamente a 22 m do ponto onde parei o carro. E fi-lo ali porque foi apenas ali que consegui ter sinal de rede no telemóvel. Encontrada!

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Em suma, um pedacinho de tarde muito bem passada – foram cerca de duas horas e meia. Como mais alguém escrev eu no log desta cache, que bom que o António teve a coragem de se afastar da fórmula ordinária do power trail e optou por multi-caches, que trarão até aqui quem efectivamente quiser caminhar e usufruir da natureza. Os galifões que precisam do aliciamento dos números para mexer as pernas ficarão à distância, e ainda bem. No que toca a logs de visitas, bem se pode aplicar a velha máxima… “mais valem poucos e bons”.

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