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Archive for Agosto, 2013

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Este momento excepcional, devo-o por inteiro ao acaso. Quis primeiro que, no retorno de mais uma expedição a Tomar, tivesse decidido procurar umas caches algo fora da rota habitual. Depois, que ao sair do acesso de uma dessas, me enganasse a ler o GPS e virasse na direcção oposto. Dei pelo erro uns quilómetros mais à frente, e por essa altura já os gnomos que habitam aquela caixinha me tinham encontrado uma rota opcional. Não tinha muitos quilómetros acrescentados, e então, porque não, aproveitaria para variar e quiçá encontrar caches que de outra forma nunca seriam tentadas.

brotas-01Foi assim que cheguei a Brotas e encontrei a bela Aldeia Nova, uma cache que nos mostra uma panorâmica daquela castiça aldeia e que me deixou logo com um sorriso de satisfação pelo desvio inesperado. Ora quando me dirigia a esta cache vi casualmente uma indicação que apontava “Torre de Águias”.  E quando acabei de lidar com a Aldeia Nova, vendo qual seria a próxima cache no trajecto, aquela “Torre de Águias” (Torre das Águias [Brotas] II) voltou a aparecer-me perante os olhos. Mas era relativamente longe, e aparentemente no fundo de um caminho de terra batida que me levaria na direcção oposta à da minha viagem. Indecisão. Ir ou não ir, era a questão. E foi-se. Abençoada decisão, onde o acaso voltou a colocar o seu dedo.

O caminho era de facto longo. Talvez uns 5 km de terra mais ou menos mal tratada. Já perto, um portão. Aberto. Esperemos que ninguém o tranque na próxima hora. E então vejo-a, aquela torre. Mágico! Junto a ela, aos seus pés, um casario, aparentemente abandonado. Já estou em pulgas para sair do carro e percorrer tudo aquilo, de câmara em punho. Para esfriar os ânimos, quando chegamos ao pé da torre e estacionamos o carro, noto que a porta da estrutura medieval está trancada com um cadeado. Encolho os ombros. Mesmo assim valeu bem a pena. Louvo de novo a decisão na indecisão.

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Descobrimos que afinal existe um acesso lateral que está escancarado. Yupi! Toca a subir. Atenção, o piso pode abater se for sujeito a alguma pressão. É preciso ir com cuidado. Subo ao piso de cima através de uma escada de madeira ali colocada por alguém. E ao seguinte. E por fim estou no topo, entre ameias agora habitadas por pombos mas antes frequentadas por senhores de brilhantes cotas de malha, capacetes de madeira e metal, pontiagudos, olhos postos no horizonte.

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Olho em redor. Tenho uma vista única sobre o lugarejo, de facto abandonado, que se encontra em redor da torre. Ao contrário do que pode parecer, a estrutura nunca teve uma função militar. Erigida cerca de 1520 por D. Nuno Manuel, homem chegado ao rei D. Manuel I, era usada pelos nobres nas suas pândegas viris. Indo à caça, pernoitavam aqui, trocando histórias da montaria, partilhando uma rica refeição regada certamente com muito vinho. Veio o grande terramoto de 1755 – que tanta miséria provocou pelo Reino fora – mas a Torre das Águias resistiu-lhe estoicamente. Foi preciso chegar-se ao século XX para que a estrutura se começasse verdadeiramente a degradar, encontrando-se hoje numa situação algo precária.

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Lá em baixo, um homem conduz um tractor pela rua do lugar. Inesperado. Guarda-o escrupolosamente num barracão agrícola, monta-se numa motorizada e abala, não sem antes nos dizer para fecharmos o portão quando sairmos. Yes sir! Ficamos de novo a sós com as almas que habitam o local. Percorremos a via que lavra por entre as casas. Algumas estão em ruínas, outras, fechadas a cadeado, indiciam um certo método no abandono. Os seus proprietários terão recolhido às suas famílias ou a lares de idosos.

Foi muito depois de ter chegado a Torre de Águias que me lembrei do que me tinha ali conduzido. Ah, pois! Uma geocache. De GPS na mão segui a agulha do compasso. De início ainda procurei num sítio completamente errado, mas logo o engano se desfez e caminhando na direcção correcta, pedindo a todos os santinhos que aquela experiência extraordinária não ficasse reduzida por um DNF, encontrei a caixinha com facilidade e com um enorme suspiro de alívio. Sai um favorito!

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Uma cache a fazer, aconselhada a todos. É preciso aproveitar este local antes que as condições se degradem mais. Pode levar algumas décadas, mas pode suceder no próximo Inverno. Assim, como está, já é algo arriscado, mas mesmo para os menos ousados uma visita exterior compensa largamente todos os quilómetros necessários. O estado miserável da estrutura é compensado pela sensação de quietude, pelo isolamento, pelo silêncio.

Nota: Como o seu nome indica, a cache Torre das Águias [Brotas] II, colocada em 2011, é a segunda existente no local. A primeira (Torre das Águias [Brotas]), criada por Manelov, apareceu em 2008, e foi arquivada por razões não especificadas pouco antes da criação a actual cache.

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Às vezes vejo coisas que estão menos bem, e penso que o que acabou de me passar pelos olhos foi uma excepção, mas aquela excepção segue-se outra, e depois outra. E quando olho de novo, a regra foi alterada, e o costume deixou de o ser. Pode ser uma alteração para melhor, mas no Geocaching raramente o é. E se há destas situações, de regras transmitidas de boca em boca, que tanta razão de ser tinham e vai-se a ver e deixaram de existir. Perderam-se, quase sempre naquele pedaço de tempo, quando alguém chega a um sítio novo e aprender a fazer o que vê. E se vê mal, faz mal. Cinco exemplos:

  1. Leve material de escrita. Antes, havia esta regra, ensinada desde logo aos que se iniciavam: ” – Para criares uma cache, arranjas um container, pões lá dentro um livrinho de registos, uma stashnote, algumas prendinhas para trocar e algo para que os visitantes escrevam o log.
    Pergunta do iniciado: “- Então, mas e quiser colocar a cache num sítio onde há muita gente e onde não há espaço para colocar uma caixa onde caiba isso tudo?
    Resposta: “- Em vez de um um livrinho de registos, pões uma série de tiras de papel enroladas, e arranjas um stashnote com letras pequeninas e colocas no mesmo formato. Os brindes esquece. Arranjas um lápis e corta-lo à medida.
    Questão seguinte: “- E se o que eu quiser mesmo é criar uma daquelas muito engraçadas, muito pequeninas, que mal se conseguem ver e que parece que se chamam nano-caches?
    Resposta: “- Então pões mesmo só um papelinho muito bem enrolado para que as pessoas coloquem o seu nome e data de visita“.
    O que se seguiu, já se sabe. A febre das quantidades espalhou-se como um vírus, e de repente já não era suficiente criar uma cache com amor de mãe, estrategicamente posicionada num local pleno de interesse, no ângulo mais adequado para que o achador a manuseie. Não, geocacher que se preze passou a criá-las à centenas, e, já se vê, isso de arranjar stashnotes e prendinhas e logbooks e caixas e lápis cortados à medida, tudo à centena, são coisas que dão demasiado trabalho e custam dinheiro. Então, o tal geocacher corta em tudo o que não é exigido à luz das guidelines. Resta o logbook. Uma micro com um papelinho enroladito lá dentro. É nisso que consiste a grande maioria das caches urbanas. Vim de três dias a cachar em Lisboa. Encontrei cerca de 60 caches. Todas, e repito, TODAS, assim. Quando e porquê a regra não-escrita que existia para nano-caches se alargou a micro-caches e mesmo a tamanhos maiorzinhos?
  2. Coordenadas à Toa. Num jogo em que uma das poucas regras básicas é que se vai usar um GPS para encontrar algo nas coordenadas fornecidas, seria de esperar que existisse algo para encontrar nas coordenadas fornecidas. Mas muitas vezes não é assim. Não estou a falar de caches desaparecidas ou das que nem foram colocadas a tempo e horas. Estou a pensar é naquelas que estão afastadas das coordenadas que o owner indicou. Pessoalmente, o maior desvio que encontrei foi de cerca de 200 metros. Mas há histórias de casos ainda mais radicais. Vamos lá ver… toda a gente se pode enganar a tirar coordenadas, não é isso que está em causa. A questão é que existia o bom hábito de, quando se ia encontrar a cache significativamente distante do ponto indicado, providenciar as coordenadas correctas no log de Found It. Com toda a naturalidade. Não é um spoiler nem uma falta de respeito a ninguém. Muito pelo contrário, é um sinal de respeito e um acto de interajuda. Está-se a evitar que o colega seguinte ande para ali às aranhas sem necessidade nenhuma. E, eventualmente, está-se a fornecer os dados correctos para que o owner acerte as coordenadas indicadas. Mas não. O bom hábito de fornecer os dados correctos foi substituido pelo absurdo de logs assim: “Fui encontrar o contentor a 25 m de distância, depois de procurar durante quase uma hora”. Ué!? E cadê as coordenadas? Alguma razão válida para não serem partilhadas? Já me disseram que era para não ofender os owners. Fiquei a coçar a cabeça, sem conseguir distrinçar onde estaria a ofensa.
  3. Dois Dedos de Conversa. Lembro-me da primeira vez em que encontrei um outro geocacher em acção. Aquilo foi uma festa. Nem sabia que era possível. Depois desse dia tive outros encontros, e sempre batia dois dedos de conversa, falava-se sobre o jogo, por onde é que se tinha andado, para onde se ia, e às vezes partia-se mesmo dali para uma cachada conjunta. Depois, estive uns anos ausente, passei pouco tempo em Portugal, e quando estava andava por áreas com menos jogadores. Durante muito tempo não encontrei ninguém. E quando voltou a acontecer fiquei chocado. O outro tipo parecia que em mim reconhecia apenas a existência de outro animal de duas pernas. A partir daí a história repetiu-se, com variantes. Desde gente que aparentemente fazia questão em não deixar sair uma palavra que fosse, até aos que fugiam como se tivessem visto o demónio. Na melhor da hipóteses um “boa tarde” e dá cá o container que tens na mão para eu logar também. E pouco mais do que isto. Perdeu-se o hábito de se gastar 10 ou 15 minutos à conversa quando se encontra um companheiro de hobby. Talvez seja da pressa para partir para a próxima cache, ali ao virar da esquina…
  4. Não vamos colocar a cache em risco, boa? Ainda há aqueles que têm um respeito cauteloso aos muggles, mas o vento está a mudar. Cada vez mais ouço relatos e testemunho pessoalmente variantes desta infeliz situação: um grupo de pessoas aproxima-se do local de uma cache, um deles de GPS em punho, espalhando-se a pequena multidão em leque, grande alvoroço, com crianças que berram: “Aqui não está!”… “Vejam lá se está aqui”. E, enquanto se encavalitam em bancos e trepam a pilares, chamam a atenção de cada muggle num raio de centenas de metros, até ao grande apogeu: “ENCONTREI! TÁ AQUI!”. E a campeã sai de um canto com a cache na mão, mostrando-a a todos os outros (e, claro, a quem quer que não tenha ficado indiferente à algazarra), que começam a rodeá-la. Isto, é meio caminho para que uma cache seja destruída por alguém mais desconfiado, mais malicioso ou com mais medo do desconhecido. Sem necessidade. Apenas porque se está a perder o hábito da discrição na procura.

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