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Archive for Setembro, 2013

O Largo do Kinaxixe

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Muito bem, quantos vocês já terão ouvido falar do Largo de Kinaxixe? Alguns, poucos. Eu, por exemplo, não fazia ideia da sua existência, até ontem. Estava aqui no silêncio da noite a trabalhar no meu primeiro livro, aspirante a escritor, perdido nos prazeres da novela histórica, quando precisei de encontrar um local na Luanda dos anos 70 onde uma das personagens pudesse encontrar uma florista. Bem, floristas a sério, de loja montada, não encontrei nenhuma, mas ocorreu-me que onde há mercados existem flores.

Toca de pesquisar os mercados de Luanda nessa época, e logo se destacou o mercado do Kinaxixe. Vi umas quantas fotos, de antes e de agora, que, por falar nisso, não são nada agradáveis. O local está disoluto e não é o tipo de sítio que poderá dar prazer aos exploradores urbanos. Adiante. Servia-me perfeitamente, mas tornava-se necessário, por questões de coerência narrativa, localizar Kinaxixe no mapa. Muito fácil para quem tem memórias de Luanda, o que não é o meu caso.

As primeiras pesquisa, corridas no Google Earth, não resultaram em nada. Tentei mais um ou dois expedientes, até que apareceu, no Google… oh… mas o que é isto… uma CACHE! Chamada Largo do Kinaxixe! Daquelas que não apareceriam no Geocaching.com considerando que está arquivada desde Maio deste ano. Tinha sido criada em 2009. Pensava que os reviewers para os países africanos de língua oficial portuguesa eram os portugueses. Fazia sentido, por uma questão de linguagem, mas não. A Groundspeak aplica a lógica geográfica à questão. Foi um tal de ROTSIP que deixou o justo ultimato, depois de DNF’s que já vinham desde Setembro de 2012. E depois o owner deu-lhe um fim definitivo.

O que importa é isto. Pela primeira vez nestes anos todos encontrei um pedaço de informação que procurava no Google numa listing de uma cache. É frequente ir dar a listings de waymarks, mas nem tanto a geocaches, e nem sei porquê. Descobri a localização do mercado de Kinaxixe, que me servia às mil maravilhas, e ainda pude ler um pouco sobre ele:

“Neste largo foi erigido em 1952 o mercado do Kinaxixe. Tinha como objectivo proporcionar aos vendedores de rua (kitandeiras e outros), higiene e conforto na venda dos seus produtos. Obra do arquitecto Vasco Vieira da Costa, com  uma  arquitectura de influências Corbusianas. Esta obra é referida nas revistas da especialidade, como uma das mais importantes efectuada pelos portugueses durante o século XX.”

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Foram três dias por Lisboa, como gosto de fazer de tempos a tempos:  por vezes revisitando um passado pessoal, vagueando por ruas que outrora chamei de “minhas”, outras vezes descobrindo novos sítios, cantos escondidos de uma cidade grande, tão grande como a sua História. Ora quis o destino que ao segundo dia subisse ao bairro de Alfama, a partir do Martim Moniz, essa terrível praça que um dia se tornou sinónimo de plena tortura, quando a minha mãe me levava aos carniceiros que então se chamavam de dentistas mas que hoje certamente estariam impedidos, por ordem de restrição judicial de se aproximarem da boca de qualquer cidadão. Com o passar das décadas perdi gradualmente os traumas adquiridos nas celas daquela casa sinistra da rua da Palma, e naquele dia, ao desembocar na superfície luminosa, vindo da escuridão relativa do túnel de Metro, a primeira coisa em que pensei não foi já em seringas e alicates, mas sim no belo mural feito de mosaico, sob o qual se sentavam duas africanas de olhar perdido.

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Subi calmamente a rua de que nunca soube o nome, e que hoje é dominada por emigrantes de todas as cores. Num painel de anúncios pessoais, uma menina chinesa em picos de pés ia lendo as “novidades”. Levantei os olhos para as mensagens. Estavam todas escritas em mandarim.

Não sei porquê ia com o olhar de fotógrafo aguçado. Diverti-me, todo o dia, a tirar retratos. Alguns melhores que outros, como é costume, mas também dentro do normal, muitos com interesse, como sucede em dias assim, de inspiração. Às tantas internei-me nas ruelas do bairro antigo, onde a mixórdia de raças e línguas se dilui e se entra de novo no Portugal de sempre, das velhotas que mantêm as andanças da vizinhança sob vigilância, das varinas que deixaram de o ser por profissão mas o são por vocação e genética, chamar acesso, atrevido, que faz parar um par de estrangeiros encantados por aquele momento genúino.

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E nisto estava na primeira cache do percurso: Fado The Sound of Lisbon. A coisa estava a correr tão bem, e afinal, dali, sai com um DNF. Pudera, entre ruas estreitas que fazem o sinal tornar-se quase inexistente, a ausência de dica ou foto spoiler e o olhar curioso dos habitantes, ainda tive a coragem e paciência de procurar durante um bom bocado até decidir partir para outra. Mas o dia estava tão agradável que não seria isso que o estragaria, até porque como veremos, daqui para a frente, e até sair pelo outro lado, o do rio, já cansado e umas horas depois, foi só sucessos. De resto, aquele primeiro pedaço é precioso. O largo da Severa é uma referência incontornável da Lisboa antiga e do Fado, mantendo todo o seu charme. Pela primeira vez vi aquelas imagens de fadistas, acompanhadas e um pequeno texto explicativo, tal como haveria de encontrar ao longo de toda a tarde.

Avancei por ruelas travessas onde certamente não teria antes assente os pés, calçadas misteriosas, de pedras que muito já testemunharam e ainda terão bastante para ver. A uma porta um par de “pintas” dedica-se a negócios pouco lícitos, olhar atento, à cata de problemas. É gente local, considerando o à vontade com que vão cumprimentando os vizinhos que passam, mas nem por isso perdem aquele ar selvagem, acossado, de quem faz tudo para não acabar com os costados na choldra. Logo à frente uma velhota com algum peso a mais descansa nas escadas de uma pequena capela e faz uma grande festa a um jovem que, depois de a cumprimentar, se senta a seu lado para dois dedos de conversa.

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Na PALÁCIO DA ROSA-Largo da Rosa desafio a sorte, deitando a unha aquela cache enquanto o polícia municipal que ali guarda o material para o espectáculo dessa noite vira as costas por um segundo. Chguei a pensar que não poderia rubricar o papelinho, tirei uma imagem para registo presencial da cache. Mas já quando preparava a retirada o senhor agente fez-me o obséquio. Não só virou as costas como as manteve assim durante o tempo necessário para a rotina do costume: abrir, desenrolar, assinar, enrolar, arrumar e recolocar.

Mais à frente deslumbro-me com um mural recente, que ilustra a Lisboa antiga por onde passeio. Não falta lá nada. Está o castelo, está o eléctrico dos antigos, está o fado, está a bela da sardinhada e até os habituais disparates sobre a “troika”. E logo acima, estou na rua Costa do Castelo, que tem cache (Costa do Castelo [Lisboa]) e que sempre encerrou um mistério: será que se chama assim em honra da personagem Simplício Costa, do filme Costa do Castelo, ou se o Costa, se chamava “do Castelo” por viver junto a esta artéria de Alfama? Seja como for, muitas vezes passei por ali. Quando tinha 13 e 14 anitos, era um passeio usual, com o meu amigo André, sairmos de Alvalade, de Metro, descermos na baixa e treparmos aquelas rampas ingremes até lá acima, quando todo o complexo muralhado era um parque público, um espaço de reunião da comunidade, dos lisboetas, em vez de um porquinho das moedas da autarquia alimentado pelos magotes crescentes de turistas. Nessa altura, ao chegar à década de 80, aquele magnífico terraço do mercado estava sempre fechado, e de cada vez que ali passava deitava um olho invejoso aquela plataforma convidativa. Depois, há uma série de anos, abriu ali um agradável espaço, um café-esplanada que abriu as portas aos habitantes da cidade de algo que só viam à distância e que lhes ficou na retina depois daquela famosa cena com os Madredeus em Lisbon’s Story (1994), o memorável filme de Wim Wenders que tanto fez pela divulgação da nossa cidade e daquela banda que então crescia.

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Caminhava contornando o castelo. Ainda me ocorreu espreitá-lo, cumprimentá-lo, em honra dos bons tempos que passámos juntos, há tantos anos. Porque depois da fase das passeatas de Sábado vieram os tempos de universidade e o hábito que desenvolvi de me instalar num qualquer canto sossegado das suas ameias com os meus livros, a tomar apontamentos como se não houvesse amanhã, com toda a cidade aos meus pés, a contar-me as histórias que eram importantes nas minhas salas de aulas. Mas não. Naquele dia passaria ao largo. Aproximei-me com curiosidade da Lisbon Roman Theater Museum, porque não fazia ideia do seria aquilo. No meu tempo não havia tal coisa como um teatro romano em Alfama. Mas, contudo, ali estava ele. Meio enterrado, renascendo, redescoberto nas profundezas daquela colina lisboeta. Fiquei meio boquiaberto, com uma expressão que inspiraria o saudoso Fernando Peça a um dos seus… “E esta, hein?”.

O passeio prosseguiu, com a paragem seguinte em Miradouro das Portas do Sol e de Santa Luzia, localizado naquilo que parece ser o epicentro de todo o turismo que aflui a Lisboa. Vi aquilo, e fiquei a matutar, sem saber se havia de sorrir pelo sucesso que o país e a sua capital vão tendo no panorama turístico internacional, se triste por ver Lisboa a caminhar para um ponto de saturação, como o que há muito se vive em Praga, onde há muitos anos que os seus habitantes se sentem estrangeiros no meio da multidão de caras vindas de todo o mundo. Lembro-me deste miradouro, de tantas ocasiões mas sobretudo de uma, quando há uns vinte anos me pegou a mania das fotografias e vim até aqui testar uma lente nova, tirando uns belos retratos.

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Naquele dia, até os artistas de rua eram estrangeiros. Dois brasileiros tocavam música mesmo no miradouro, para uma audiência de turistas ocidentais. Lá num cantinho, quase a medo, um jovem português tomava um almoço rápido antes de regressar ao trabalho. A cache era mesmo ali, estive sentado a 20 cm dela, mas estava distraido com tudo aquilo, e sem pensar nela, levantei-me e fui-me embora. Ao lado, no outro miradouro que talvez nem tenha nome, outro brasileiro cantava e tocava guitarra, recebendo moedas, lá está, dos omnipresentes turistas, a grande ritmo. Não admira que sorrisse, porque a vida parecia-lhe sorrir. E foi ao ver aquele sorriso que me veio à ideia que andava ali às caches e que já estava umas dezenas de metros avançado em relação ao objectivo corrente. Toca de voltar para trás para a ir encontrar mesmo, exactamente, onde tinha estado.

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Subi um pouco, em direcção ao MOSTEIRO DE SÃO VICENTE DE FORA mas tão fascinado ia com aquelas vistas toda que andei de mais, cheguei ao arco, e quando olhei para o GPS tive que voltar para trás. Pela segunda vez num bocadinho de nada. Quanto ao mosteiro, aquilo é que foi uma surpresa. Porque se no que toca ao teatro romano tinha a desculpa de nos meus tempos de lisboeta ele não estar ali à vista de todos, já este mosteiro existia aqui. E até suspeito que foi na sua igreja que os meus pais se casaram, sei lá, para meados da década de 40. E que oásis de sossego é aquela entrada, onde vamos para descobrir a cache. Pelo menos durante os minutos que passaram antes dos turistas começarem a chegar. Entretanto ela não tinha aparecido. Peguei nas coisinhas – que tinha ali feito um sumário picnic – e preparei-me para me pôr a mexer, quando, naquela última tentativa que tantas vezes fazemos… lá estava.

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A volta estava a acabar. Era tempo de começar a descer, pela face oposta da colina. Ia encontrar o rio, deslizando pelas ruelas que considero as mais castiças do bairro, senão mesmo de Lisboa, e que só se encontram naquele flanco sul de Alfama. Apesar de lisboeta, foi preciso começar a practicar Geocaching para descobrir as maravilhas daqueles recantos e os segredos dos seus pátios intimistas. E não foi neste dia.  Foi no Inverno de 2007, perseguindo a multi-cache Alfama [Lisboa], nascida em grande em 2006, abatida ingloriamente em 2009.

E foi neste emaranhado de escadinhas e calçadas, becos e vielas, ruas e páteos, que vim encontrar a Igreja de Santo Estêvão primeiro e a Sardines/Sardinhas depois. Esta última, torna-se tão complicada devido à falta de captação de bom sinal GPS, que estava a procurar, imagine-se, duas ruas abaixo da localização certa. Não admira que mesmo depois de ligar a minha Internet móvel e de ver a photo spoiler (luxos dos tempos modernos) não desse com nada. Nem sei o que me levou a recuar aquelas duas ruas, mas assim que me aproximei vi logo as semelhanças com a imagem que tinha acabado de observar e a partir dai foi instântaneo.

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A partir deste ponto foi sempre a descer. Literalmente e também figurativamente. Porque saindo de Alfama cheguei à beira-rio e ali chegado voltei ao Geocaching de quantidade, daqueles que não suportam ver 160 m livres na quadrícula do mapa sem uma cache, e que em encontrando uma aberta têm que lá colocar qualquer coisa. Compulsivamente. Mesmo quando não há nada que ali evoque a criação de uma. Quando assim é, já cansado por um dia de calor a palmilhar ruas e locais fascinantes que me são mostrados por diligentes caches-cicerones, é chegar, olhar em redor… “olha, não encontro”, e seguir caminho. Foi assim que encerrei esta jornada com DNF’s em LISBOA , LINDA, TB e GC Hostel – Lisboa e WELCOME TO ALFAMA – ARCO DE JESUS (OK, esta última não encontrei mesmo, e pela segunda vez; e bem que procurei, mas não tenho jeito para as encontrar).  Ah, esquecia-me. Encontrei Jardim do Tabaco, outra cache que veio encher quadrícula.

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