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Archive for the ‘Geocaching no Estrangeiro’ Category

Como sabem os que acompanham os meus escritos, o mês de Outubro, esse, passei-o a cruzar a Bulgária e a Roménia de GPS em punho. As andanças “geocachianas” dessa jornada foram narradas num outro artigo… o que aqui venho hoje mostrar é mais sobre a primeira cache que criei fora de Portugal. Foi na aldeia de Ivan Vazovo, Bulgária. Nesse pequena comunidade detive-me durante quatro dias, hospedado por aquele que hoje é um amigo, e que aliciei para a prática de Geocaching. Na realidade, a bem dizer, dá-me a impressão que aquilo foi mais fogo de vista, e que o caro Nasko não voltará a pegar num GPS para encontrar caches, mas pelo menos serviu-me de cobertura para a criação desta cache, junto ao forno comunal da aldeia, onde o povo se reúne nos dias especiais para assar carne e pão.

O Geocaching na Bulgária não é tão popular como no nosso país, mas mesmo assim desde meados de Outubro já tive(mos) quatro visitas nessa cache. E foi a divulgação de um video de uma dessas visitas que me trouxe hoje aqui, ao blog, para deixar o seu registo.

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Nem vou aqui abordar as muitas caches encontradas em Madrid nos quatro longos dias que durou a minha escala na capital do país vizinho, forçados pela greve geral que me obrigou a antecipar a partida de Portugal. Vou portanto começar esta narrativa pela primeira etapa da viagem pelos Balcãs: Sofia, Bulgária.

A densidade de caches na cidade corresponde ao panorama existente no país: poucas, mas não ao ponto de as transformar em raridades. Em toda a Bulgária, existem cerca de 500 caches, numa área ligeiramente superior à de Portugal. Na capital podem ser encontradas cerca de 50, ou seja, dez por cento do total nacional. A esmagadora maioria trata-se de caches tradicionais, com um punhado de multi-caches e caches mistério a diversificar o panorama.


Bulgaria Gold TB Hotel
Numa casa de chá de Sófia, há que pedir um chá muito especial, com sabor a Geocaching. Logo, quando o pedido é servido, vem um pequeno bau, que não é nem mais nem menos do que um TB Hotel

De forma geral a situação do Geocaching em Sófia é positiva, com caches colocadas em locais com interesse, coordenadas precisas, manutenção atempada, “hints” adequadas. O mesmo não se pode dizer do segundo local que visitei, Plovdiv, a segunda cidade do país. O que, em conjunto com outras observações no decorrer desta extensa viagem, me fez concluir que em países destes, onde o Geocaching, apesar de geralmente disseminado não é muito popular, cada cidade ou cada região tem uma cultura específica do jogo. Isto resulta da criação de “ilhas” estanques, com um ou dois grandes dinamizadores, com vícios e virtudes que se espelham claramente na situação das caches.

Portanto, a impressão inicial positiva do Geocaching na Bulgária, adquirida no decorrer de cinco dias em Sófia, foi confrontada com uma experiência totalmente oposta em Plovdiv. Logo a abrir, andando da estação de comboios para o centro, a primeira decepção: uma cache num parque cheio de transeuntes, onde a recepção de sinal é deficiente, sem dica e onde a melhor aproximação ao ponto zero se situava a poucos metros de uma casinha onde a vigilante do espaço se albergava, olhar atento sobre as imediações. Dizer o quê? Nem para procurar deu. E a dança prosseguiu, com sucessivas tentativas goradas, sempre pelas mesmas razões: locais imundos, cheios de lixo, em áreas de reduzido sinal, sem qualquer dica, muita gente em redor; algumas vezes recorri aos últimos logs, apenas para constatar que obviamente a cache se tinha ido há meses sem que o owner se desse ao trabalho de a desactivar e, em alguns casos, tinha mesmo escrito uma nota (!!) a mencionar que a cache provavelmente já não existia no local.

 

Keep the Faith
Sobre Karlovo, nas montanhas, depois de uma subida mais do que ingreme durante trinta minutos quase em passo de corrida, chegamos ao local da cache

Fiquei com um “couchsurfer” numa pequena aldeia, meio caminho entre Plovdiv e Karlovo, onde passei quatro empolgantes dias, com condições muito básicas mas proporcionando-me uma experiência inesquécivel. Desde um “duche” às tantas da noite numa fonte termal quente na mais completa escuridão, até à lavagem de roupa no chão do barracão onde se encontrava uma espécie de chuveiro…. passando pelo convívio com os aldeões, as suas cabras, a sua produção doméstica de aguardente… e no meio de tudo isto, ainda deixei o bichinho do Geocaching no meu anfitrião e criei a minha primeira cache no estrangeiro, ali mesmo, em Ivan Vazovo.

Comunal Oven [Ivan Vazovo]
Aminha primeira cache fora de Portugal, junto ao forno comunitário da pequena aldeia de Ivan Vazovo

 

 

Battle for freedom Shipka
Nas montanhas que dividem a Bulgária em duas deu-se uma das mais ferozes batalhas durante a guerra que resultou na libertação do país do império turco, em 1878. No local, uma cache honra os que tombaram em combate nesse sangrento confronto

 

Buzludzha Cache
Talvez o local mais marcante de toda a viagem. Neste ponto perdido das montanhas, a mais de 2.000 metros de altitude, o regime comunista ergueu um edíficio vanguardista, onde se organizou um museu do comunismo e onde os altos dignatários do Partido efectuavam reuniões anuais. A escolha do local não é casual: não longe dali, ainda no séxulo XIX, deu-se a primeira reunião de comunistas búlgaros.

 

Veliko Turnovo, antiga capital da Bulgária, antes da chegada dos turcos, foi a minha paragem seguinte, e felizmente a onda positiva regressou. Uma série de caches bem interessantes, estrategicamente espalhadas pelos pontos essenciais da bela cidade, permitiram-se seguir as caches e descobrir as maravilhas secretas de Veliko Turnovo. Em casa do meu anfitrião conheci um casal nipo-americano que iniciei nas lides do Geocaching. Ela, a japonesa, ficou de tal forma fascinada que queria comprar um GPSr imediatamente, de forma a usufruir do jogo nos países que ainda planeavam visitar antes de regressarem a casa.

 

Tsarevets Cache
Junto a Veliko Turnovo erguem-se os restos da fortaleza de Tsarevets, arrasada pelos turcos. Na imagem, mais uns recrutas para a prática do Geocaching.

 

On the streets of Turnovo
Na cidade, uma multi-cache é concluida com uma última prova: observar qual a capital mais distante… sucede que é… Lisboa.

 

Kartal waterfalls
Na floresta junto a Veliko Turnovo o meu anfitrião encontra a sua primeira cache.

 

 

Acabei a digressão de duas semanas pela Bulgária em Ruse, cidade fronteiriça por onde passa todo o tráfego em direcção à Roménia. Numa espécie de lei de alternância, voltei às caches sem qualidade, basicamente com as mesmas características de Plovdiv: nada de dicas, tudo em meio urbano, com milhentas possibilidades de esconderijo devidamente rodeadas por um exército de muggles que não dava tréguas. Um cenário depressivo, acentuado pelo tecto de nuvens que quase não deixaram de lançar chuva sobre a cidade nos dois dias completos que por lá andei.

 

Basarbovo monastery
No vale de Ruse dezenas de pequenos mosteiros foram escavados na rocha. Hoje em dia apenas uns poucos estão abertos ao público, sendo o de Basarbovo um deles.

 

 

Cruzar a fronteira e chegar a Bucareste não ajudou. O mesmo tempo cinzentão e as mesmas caches de treta. Mal colocadas, largadas quase ao acaso, sem qualquer planeamento, sem considerar a protecção da operação perante os olhares curiosos dos muggles, sem atentar nas condições pouco propícias à recepção de sinal GPS dos locais. Muitas caches com múltiplos DNF’s espalhados por meses, e sem qualquer manifestação por parte do owner. A nota negativa do Geocaching em Bucareste foi apenas aliviada na manhã do último dia, marcada por uma caminhada 100% vitoriosa, com todas as caches encontradas e, melhor que isso, marcando uma senda de locais interessantes que me foram sendo assim mostrados.

 

Le petite Arc de Triomphe du Bucarest
O velho ditador Ceasescu parece ter desenvolvido uma pequena obsessão com França. Não só a enorme avenida que conduz ao seu palácio foi decenhada com uns intencionais seis metros adicionais em relação à largura dos Campos Elísios, como mandou construir este “Arco do Triunfo” em Bucareste.

 

Paragem seguinte: Brasov. Uma pictoresca cidade onde a Nikon funciona sem parar. Primeiro, ainda perseguido pela chuva… depois, o tempo vai melhorando gradualmente, extendo-se a boa vaga metereológica até ao fim da minha viagem, que termina entre dias de sol resplandecentes. Para quem anda às caches, Brasov é uma boa opção. Há algumas caches mais manhosas, mas o panorama é globalmente agradável. Pode o viajante entregar-se nas mãos do Geocaching para explorar a cidade, com a certeza de que terá direito a um percurso diverso, com passagem pelas grandes referências turísticas de Brasov mas também por recantos encantados e até mesmo por áreas onde a mãe-natureza é rainha.

The Black Church
A Igreja Negra, assim chamada devido à cor das suas paredes, adquirida por ocasião de um incêndio, é um dos pontos mais característicos de Brasov.

 

Poiana Brasov Lake Hill
Não muito longe de Brasov vamos encontrar Poiana Brasov, o mais popular “resort” de desportos de Inverno da Bulgária. Aqui, o meu anfitrião em Brasov encontra a sua primeira cache, antes da época da neve.

 

Citadel’s Hill
Uma complicada ascensão, para logo depois, descobrir que teria agora que descer, até às rochas brancas visiveis na imagem.

 


Broken Bridge

Local de cache não muito longe da casa do meu anfitrião, emersa nas fabulosas cores do Outono da Europa de Leste.

 

A pequena cidade de Sighisoara era uma das gemas prometidas desta viagem. Não só pela beleza antevista em imagens e descrita em todos os guias turísticos como pelo elevada densidade de caches. Mas a decepção foi global. O local tresanda a artificialização. É como se não existisse vida em Sighisoara para além do turismo. Fiquei com a franca sensação de que se trata de um cenário onde os locais e os visitantes actuam, num bailado sem fim… e a que fugi assim que pude, passando vastas hora nas florestas que abraçam a cidade. Foram as seis ou sete caches encontradas no meio da natureza que salvaram a jornada, porque das que supostamente estariam colocadas na cidadela, nada de bom há a dizer. Na realidade, apenas encontrei (e procurei) um par delas. A maioria, talvez umas sete, nem considerei a hipótese de as procurar, tais as condições: muitos logs com DNF e sem qualquer comentário ou intervenção por parte dos owners; depois, a colocação, escabrosa, em pontos de procura complicadissima, completamente expostas, com hordas de muggles em redor, sem dica nem imagem spoiler. De resto, não me espanta. Há coisa de dois anos, através do geocaching.com, recebi uma mensagem sobre um evento que teria lugar em Sighisoara. Desde logo se torna incontornável a natureza desse e-mail: spam massivo. Já incomodado com o método de divulgação escolhido, li o texto, e fiquei pasmado com a arrogância… os organizadores descreviam Sighisoara como a única aldeia viva entre muralhas da Europa. Ainda troquei uns e-mails com eles, mas quando a ignorância ou teimosia são de tamanhas dimensões, nada há a fazer. E então, o cenário geocachiano que encontrei em Sighisoara mais não é que o reflexo desse e-mail recebido: uma falta de tino sem limites.

 

Transylvania 1888
Junto a uma casa fantasma, mais um de tantos DNFs em Sighisoara.

O destino seguinte surgiu no plano de viagem de forma imprevista, a partir do momento em que foi abandonada a ideia de ir até à Moldávia. Simplesmente seria demasiado apertado, considerando o tempo de viagem de dez horas para cada lado. E então selecionei Sibiu como alternativa. Em boa hora o fiz, pois fui encontrar a mais bela cidadezinha de todas as que visitei nestes dois países. Contudo, em termos de Geocaching, é practicamente um deserto, com três caches. Esta situação revela uma vez mais a importância de um ou dois indíviduos no desenvolvimento local do Geocaching quando se tratam de países onde o jogo é relativamente desconhecido. Não os havendo em Sibiu, o geocacher que passa nada tem para encontrar.

Para terminar, Cluj, visitada apenas por se tratar do ponto de regresso a Portugal. A cidade, antiga capital da Transilvânia húngara, é dominada pelo ambiente universitário. Dos seus 500.000 habitantes, 70.000 são estudantes. E talvez por isso o panorama geocachiano é desenvolvido, à escala romena. Existem umas 25 caches, geralmente bem colocadas, sem grandes problemas. Vão-se encontrando, paulatinamente, uma após outra, sem grandes preocupações, sem estafas.

Gradina Botanica Cluj
Muito perto de casa do meu anfitrião em Cluj, o maravilhoso jardim botânico é terreno para a última cache encontrada nesta minha longa jornada por terras da Bulgária e Roménia. Debaixo da ponte.

 

Para além das caches encontradas nas cidades onde sucessivamente fui pernoitando na Bulgária e na Roménia, há que mencionar as outras, caçadas em trânsito ou em passeios fora dos centros urbanos. Nessas, constatei uma feliz coincidência entre pontos referidos nos guias turísticos e a colocação de caches. O que me leva a outra questão, objecto de eterno debate: quando se viaja, como equilibrar a práctica do Geocaching com o turismo propriamente dito? Sempre defendi que não há necessidade de dissociar as duas coisas, mas com a saturação de caches em alguns países reconheço que a fixação na descoberta das caixinhas pode anular a descoberta dos locais. Não é contudo o caso em países com a densidade geocachiana da Bulgária e da Roménia. Aqui, seguir simplesmente as caches proporcionará ao visitante uma experiência equilibrada, entre os pontos túristicos tradicionais e os recantos que só os locais nos podem mostrar.

31 dias; 2 países; 9 paragens; 8 anfitriões; 2900 fotografias; 450 km caminhados; 1216 Km entre paragens; 42 caches encontradas na Bulgária e 52 na Roménia.

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Mesmo antes de iniciar a minha época portuguesa de 2010 dei um saltinho ao Cáucaso. Passei pela Geórgia e pela Arménia, dois países onde o Geocaching é marginalmente existente. Em Tibilissi, que acredito ser do conhecimento geral tratar-se da capital da Geórgia, existem duas caches e meia. Ou seja, duas caches com alguns founds mais uma que parece ser um enorme engano, e que nunca ninguém conseguiu encontrar, sem que seja arquivada. Dito isto, das duas existentes uma consumiu-me quase uma hora de pesquisa – que num país feito deserto de caixinhas não se pode desperdiçar nada. Mas foi em vão. Nada. A Mãe Geórgia, a enorme estátua que se ergue velando pela grande cidade, deveria ser a guardião de uma cache, mas pelos vistos adormeceu no cumprimento do dever, porque a verdade é que o contentorzinho desapareceu, como o seu criador confirmou umas semanas mais tarde. Como estava fora de questão juntar-me à fila de falhanços da tal cache que nunca foi encontrada, restou-me concentrar todas as esperanças de sair do país com pelo menos uma caçada de sucesso na terceira cache de Tibilissi. E foi sem grande história que cheguei aos desinteressantes jardins do hotel Hilton para assinar o logbook. Encontrada. Missão cumprida. Não foi preciso fazer uma viagem de contingência a uma parte do país dotada com uma das cinco caches restantes na Geórgia.

Já o caso arménio era mais bicudo. Era situação de um só tiro. Que é como quem diz, em todo o país só existe mesmo uma cache, por sorte em Yerevan, onde fiquei as 4 noites da minha estadia. Já não me lembro se ao segundo ou ao terceiro dia, lancei os pés ao caminho. A casa onde fiquei localizava-se a distância “andável”, mas na realidade os aparentes 2 km transformaram-se em bastantes mais, e ainda mais se contar o calor atroz que se fazia sentir. Portanto, chegar às imediações da cache não foi pêra doce, mas o mais complicado ainda estava para vir. Dizia a dica que o contentor se encontraria debaixo de umas pedras e tal… esqueceu-se foi de referir que toda a zona era uma plantação de calhaus. E que havia cobras. E que as cobras arménias não são para brincadeiras, que ao contrário da crença geral atacam mesmo, só porque estão mal-dispostas. E quando mordem, matam. Mas pronto… quando uma cache chama, passa-me aquela coisa pelos olhos e o que tem de ser tem muita força. Assim, foi mais de uma hora a levantar pedras e a saltar de rocha em rocha, para já em desespero de causa e com as lágrimas prestes a jorrarem a encontrei, num ponto cujos detalhes estavam bem longe de corresponder aos detalhes que se encontravam na segunda linha da hint. E foi assim que sai da Arménia com o troféu. Com um sabor amargo de boca, trazido por uma cache péssima, num local horrível.

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O Papacaches acaba de regressar de uma estadia de seis dias em terras do Reino da Dinamarca, onde ficou hospedado em casa de uma amiga, nas redondezas de Copenhaga,  a capital do país (é melhor explicar tudo bem explicadinho, porque parece que já há pessoal que não sabe o que foi o 25 de Abril).

Como sempre acontece nestas andanças, o Geocaching desempenhou um papel primordial na ocupação do tempo passado em terras desconhecidas. A lição vinha estudada de casa, e já se esperava uma vida intensa. Caramba, há mesmo muitas caches por ali. Mais do que em qualquer outro país que eu conheça, na teoria ou na prática. A densidade de containers na cidade causa uma mancha verde homogénea, que se vê no mapa como um enorme borrão, de tão juntas que elas estão. Nos arredores a situação mantêm-se, com destaque para duas situações, ambas relacionadas com a cidadezinha de Holte: é ali ao lado que se vai encontrar a maior floresta do país, com um “power trail” de cerca de 70 caches. É também dali que sai um outro “power trail”, ainda mais “power”, com umas centenas delas, que se faz preferencialmente de bicicleta, sempre ao longo de estrada asfaltada.

Ironicamente, ao contrário do que sucede na República Checa e mesmo em Portugal, a actividade expressa nos logbooks é esparsa. Mesmo na capital, passam-se dias e dias sem que uma cache seja visitada. Com frequência encontrei caches cujo último log estava datado de há semanas atrás. Ou seja, há um claro desequilíbrio entre a actividade dos “owners” e o número de geocachers activos.

Por regra os containers encontram-se de perfeita saúde, sem humidade no interior, com espaço nos logbooks e colocados nos devidos locais. Seria quase o paraíso do Geocacher, não fosse uma faceta que me desapontou de certa forma: ao contrário do que é habitual, não regressei da Dinamarca com a sensação de que o Geocaching me ajudou imenso a conhecer devidamente as paragens que palmilhei. Encontrei demasiadas caches supérfluas, sem um interesse aparente. Talvez a hiper-população de caches assim o dite, o que de resto vem ao encontro da minha eterna crítica à popularização excessiva do jogo e ao nascimento descontrolado de caches em cada canto.

Logo à chegada ao aeroporto inicia-se o banho de caches. Há 8 ou 10 ali mesmo à mão, espalhadas pelos terminais, pelos parques de estacionamento. Anda-se 1 km e joga-se desde logo mão a mais de meia dúzia. E por ai se ficou no primeiro dia.

Amanhece. No comboio, e começando a cachar assim que se sai. Em cada estação da rede suburbana existe uma cache. Mais umas tentativas, DNF’s, e mais outra, e chegamos a uma colocada mesmo à beira de um banco de jardim. Aproxima-se um indíviduo que mostra um cartão de aspecto sujo e gasto… eu olho, não sei o que ele quer… será um ex-drogado a vender revistas…? Mas não carrega nada, nem revistas, nem biblias, nem enciclopédias. Continuo a olhar meio embasbacado, e ele a mostrar o cartão… e eu a olhar… e ele a impingir o cartão… depois de uns dez segundos deste impasse, a criatura apercebe-se de que somos estrangeiros e diz finalmente qualquer coisa… em inglês. Polícia. “Ah e tal, vocês vão desculpar, mas temos estado a seguir-vos há coisa de 30 minutos, desde que sairam do comboio… é que o vosso comportamente tem sido bizarro, suspeito mesmo, diria.” E eu a pensar para os meus botões… “porquê é que não consigo discordar do que o gajo está para ali a dizer…?”. Bem. Conversa e mais conversa. Que somos portugueses, que não, não vivemos lá, somos turistas. Se temos algo ilegal? Não, claro que não, pode ver… mas que não, deixem estar, não é preciso revistar nada. E falamos de Geocaching, mais por consideração do que por necessidade, que o agente à paisana apesar de curioso com os nossos movimentos prévios sente com a experiência de anos de lide com escumalha que somos gente de bem. Nisto chega o parceiro dele. Materializa-se, como um ninja. Se o primeiro tem um ar perfeitamente inócuo, já este se parece mais com a ideia que geralmente temos de um polícia das ruas, de cabelo rapado, entroncado, com ar de poucos amigos. Mas trata-se apenas de uma expressão de serviço… procedem-se às apresentações e temos mais um amigo. Este conhece o Geocaching, participou numa operação que afinal foi induzida por um local de Geocaching, e nada de ilegal se passava ali, apenas as idas e vindas habituais a uma cache. Depois de uns dez ou quinze minutos de conversa variada, há uma comunicação, o discreto polícia levanta a aba do casaco para sacar o walkie-talkie e há um perspectiva do arsenal que por ali estava escondido. E pedem mais uma vez desculpa pela abordagem e partem para outras necessidades. E foram estes os primeiros e únicos polícias avistados em seis dias. Na Dinamarca, se há polícias (que os há, há, que bem me lembro das multidões de “gorilas” por ocasião daquela grande reunião internacional para debater o impacto do aquecimento global) andam à civil pelas ruas.

O Geocaching do primeiro dia não tem muita história para além da história contada. Foi um andar pelas ruas, em direcção ao centro, passando pelos principais pontos turísticos de Copenhaga. Foram 21 founds, 5 DNF’s. O dia 2 acordou tristonho, chuvoso. Vaguéamos pela baixa da cidade, sacámos umas quantas caches, enquanto o céu ia abrindo. Depois, já sem precipitação, encontrámos Christiania. Esse fabuloso projecto utópico, iniciado em 1970 quando uma pequena multidão invadiu a base do exército abandonada, mesmo ali, paredes meias com o centro de Copenhaga. Entre batalhas legais e reais com a polícia e com a cidade, passaram-se quarenta anos e Christiania ali se mantém. É um paraíso na terra para muita gente, e para o fotógrafo amador uma constante fonte de inspiração. Haveria de lá regressar dois dias depois para ver o que ficou por ver, e completar a enorme experiência que é explorar as ruas e áreas desta república no seio da monarquia. Aconselho uma visita ao website oficial, onde poderá ler um guia em inglês com toda a história de Christiania (www.christiania.org).

O quarto dia esteve de novo chuvoso. De tal forma que nem fomos à cidade. Um passeio pelo lago perto de casa, cinco caches encontradas. Sem história. Bonito. O primeiro trago da natureza dinamarquesa. Bosques, lago. Casas faustosas. Parece que é ali que se encontram as propriedades mais caras do país, com preços que chegam 5 milhões de Euros.

Quinto dia. Fora da cidade. É preciso aproveitar o tempo esplêndido. De manhã, o Museu ao Ar Livre, um parque com casas tradicionais provenientes de todas as partes da Dinamarca, abertas, com os interiores reconstituidos. Um dos momentos altos desta viagem, a não perder. Centenas de fotos. Depois, aproveitando tratar-se do primeiro Domingo do mês, quando os comboios suburbanos são gratuitos, fomos a Hillerod, onde se encontra um enorme palácio rodeado de jardins e parques. Segunda residência dos monarcas, oferece cenários espectaculares, de cortar a respiração. Se de manhã apenas uma cache se encontrava na nossa rota, aqui encontrámos mais 5 ou 6 em menos de nada.

No sexto dia também não choveu. E começou cedo. Era necessário aproveitar o tempo convidativo. De manhã, volta “geocachiana” por áreas secundárias da cidade. Só no hospital central existem cinco caches. Voltas e mais voltas. E estamos de volta de uma cache que aparentemente não se encontra onde deveria estar quando aparece o owner. Que a cache estava lá sim senhora, mas tinha escorregado para um buraco e agora não era possível deitar-lhe a unha. Mas o tipo compadeceu-se, encontrou motivação em nós para o resgate da caixa e fui dentro da loja dele, ali mesmo, e voltou equipado com barras de metal, e entre todos lá se salvou a cache que voltou feliz para o seu esconderijo devido. Depois, uma visita rápida pelos jardins botânicos, que estavam no roteiro inicial, mas não impressionaram. E de regresso a Christiania para uma visita mais aprofundada. Já no fim da tarde, de comboio, vamos os Parque dos Veados, uma área de 12 km2, onde existe uma comunidade de cerca de 2000 destes animais. Espaço mágico, cheio de belas paisagens e um pequeno palácio no seu centro.

E chega o último dia completo, utilizado na totalidade para um “power trailer” de cerca de 70 caches, localizadas na maior floresta da Dinamarca, ao pé de Hillerod, onde já tinhamos estado para visitar o palácio. O caminho entre a estação de comboios e o início do trilho de caches foi mais complicado do que o previsto. Levou-se uma hora a transpôr os 2 km. E iniciou-se a aventura. É algo que aconselho a todos os que visitarem. Não é pelas caches às catadupas. É mesmo pelo espaço. Uma multiplicidade de ecossistemas, alternância de paisagens, avistamento de espécies animais. Dos prados passa-se às zonas pantanosas, logo a seguir florestas de altas coníferas. Caminhos ladeados de árvores. Floresta. Beleza. Muito verde, a despontar depois de um Inverno especialmente rigoroso. Ali, um veado cruza o caminho, despreocupado, a 200 metros de mim, sem se aperceber da presença humana. Esquilos brincam num prado. De tempos a tempo, um humano passa, de bicicleta, a passear um cão. Foram 59 caches, encontradas ao longo dos 27 km de caminho. Um dia em cheio para fechar a estadia, que em termos de Geocaching ainda se completaria com  mais 10 “founds” no caminho do dia seguinte, de casa para o aeroporto.

Ao contrário do que costumo fazer, não referi nenhuma cache em especial, porque nenhuma me impressionou. A lista dos achamentos encontra-se no meu profile.

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O doce arquipélago mediterrânico de Malta está longe de apresentar condições ideais para a práctica do Geocaching: as acessibilidades internas são delicadas, com a utilização de viatura própria a ser dificultada pela condução pela esquerda e pelo mau estado da rede viária, e com um serviço de transportes públicos relativamente abrangente mas de periodicidade muito espaçada. A este cenário junta-se um calor que chega a ser atroz, e que se estende pelo Outono adentro.

Por outro lado, as ilhas têm um potencial sub-aproveitado. Existem cerca de 60 caches, quase todas tradicionais. Mas poderiam – e deveriam – ser muito mais. Desde o património histórico até à malha urbana, passando pelo espaço rural e a espectacular costa, Malta está repleta de locais que bem mereceriam umas caches, à luz dos valores vigentes em Portugal. Ironicamente, algumas das que foram criadas estão localizados em recantos de interesse bem duvidoso.

Não existe muita gente a criar caches em Malta. São 3 ou 4 nomes recorrentes, e de resto, quase todos são estrangeiros. A condição física dos contentores acaba por sofrer com isto. Encontrei vários bastante mal-tratados, que certamente não resistirão ao próximo inverno, sendo que em dois casos, a tampa não existia de todo.

Durante a minha estadia, encontrei cerca de 1/3 das caches existentes em Malta na altura. Sobretudo na costa norte, ironicamente a menos interessante, mais urbana. Com base nesta experiência, apontaria as mais marcantes experiências:

malta-01

Assumption Of Our Lady; uma pequena capela perdida no meio da paisagem rural maltesa, extremamente pictoresca. Ali ao lado um residente ofereceu-nos água fresca, apenas porque imaginou que podiamos ter sede.

Jensen’s Lookout; não era para ser procurada, mas passávamos no autocarro ali mesmo perto, no fim de um cansativo dia. E no vai-não-vai, acabámos por correr para a saída. Em boa hora! Toda a área envolvente é adorável, natural, transpirando a verdadeira alma maltesa. No páteo da igreja a rapaziada disputava dois desafios de futebol em simultâneo. As vistas são excelentes, e perto da cache existe uma pequena esplanada altamente recomendada.

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Enter The Dragon; uma multi-cache descomplicada numa das zonas mais turísticas de Malta, mas mesmo assim muito recomendável. Encontrei-a num dia de temporal no mar, o que lhe conferiu uma magia especial. A segunda parte da cache desenrola-se numa marina de luxo, aberta ao público mas tão disfarçada que os turistas não a encontram. Um espectáculo.

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Selmun Palace; um edificio palaciano, numa área remota. Da paragem de autocarro até lá serão cerca de 900 m, nos quais podem ser vistas algumas casas genuinas. O palácio não pode ser visitado, mas a vista exterior vale a pena por si.

St Paul’s View; da cache anterior vai-se a pé até esta, encontrando-se pelo caminho antigas instalações militares que podem ser exploradas livremente. De resto, trata-se de um excelente percurso pedestre.

As duas coisas mais alucinadas que me sucederam a fazer Geocaching em Malta:

  • Aproximar-me de uma cache, escondida numa densa rede de trepadeiras e arbustos junto a uma estradinha sem movimento, e ver pintado no chão em tinta cor-de-laranja: GEOCACHE. Pronto. Isto é que é um spoiler in loco.
  • Uma cache escondida dentro de um pub. Impossível de encontrar sem perguntar ao barman. E foi ali mesmo que me esqueci do meu GPS. Já a caminho do aeroporto decidi ir tentar esta, depois de já ter a informação que seria necessário entrar e perguntar pela cache. O Dakota novinho em folha ficou lá e eu vim embora. Só dei por isso no autocarro a caminho do aeroporto. Felizmente (até ver) o pessoal é honesto. Chegado ao aeroporto, entrei no free wi-fi, detectei o nome do pub e saquei o telefone. Liguei e o barman foi à procura e encontrou ou meu GPS. Agora aguardo que um amigo meu maltês vá lá buscá-lo e mo envie por correio.

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Durante a anterior estadia consegui um número interessante: 26 dias consecutivos a cachar. Agora estou de volta, e decidido a ultrapassar este registo, mesmo ciente que a invernia está ai, e que a Europa Central, no que toca a estas coisas de clima, não é para brincadeiras.

Seja como for, já lá vão cinco. E hoje “cairam” duas caches. Inesperadamente o plano diário foi todo alterado. Uma súbita vontade de proceder a um reconhecimento prévio dois projectos que prometem muitas dores de cabeça arrancaram-me ao percurso cuidadosamente estudado: primeiro, uma cache que implica entrar no sistema de esgotos da cidade, percorrer 600 metros por catacumbas de aspecto atemorizador, com água pelos joelhos e sem luz para além da que transportar comigo; para o grand finale, está previsto o regresso ao mundo dos vivos através de uma daquelas tampas que vimos por qualquer cidade e que surgem frequentemente em filmes de acção… como este promete ser; segundo, algo aparentemente mais simples, mas que não deixa de estar marcado com quatro estrelinhas e meia de terreno, talvez porque implica uma escalada relativamente complicada em frente a uma multidão que passa numa das estradas mais movimentadas de Praga.

Assustado? Não… lá nos veremos. Mas para já falemos do que se fez hoje. MB#4-Albertov trouxe-me a um local mágico apesar de puramente urbano. Não lhe chamarei um bairro. É antes uma área. E nela se encontram universidades, residências de estudantes, um hospital, umas quantas igrejas. Bizarro, diferente. Entramos, sem nos apercebermos, por um acesso secundário. Aquelas ruas estão desertas, e os enormes edíficios, a fazer lembrar a nossa arquitectura Estado Novo, em toda a sua majestosidade rodeiam-nos. Depois, desembocamos numa via mais movimentada, e o ambiente torna-se mais normal. Sobretudo são estudantes que passam por ali. E ainda bem, porque não têm cara de quem se vá preocupar se desatarmos a subir a postes de trânsito… e nós cá sabemos bem para quê. Foi divertido. Modéstia à parte, uma lição de stealth Geocaching. Uma máquina fotográfica, uma atitude despreocupada e algumas palhaçadas e os actos mais comprometedores ganham uma naturalidade inofensiva que permite o resgate e a devolução do contentor.

A seguir vamos experimentar uma multi-cache com um enunciado algo complicado. IEEE 802.11. Implica contar umas letras e uns números, mas mais incomum, é necessário reconhecer as redes Wi-Fi que cobrem o ponto zero e retirar elementos de uma delas. Com muito receio, chegamos a um resultado final. A fé é pouca, porque as dúvidas na recolha dos dados e a morosidade dos cálculos elevam as probabilidades de estarmos na posse de coordenadas finais erradas. Mas não. Graças à dica, soubemos de imediato que não tinhamos falhado quando nos aproximámos do local. O único problema passou a ser o pau de putos que preparavam um charro a poucos metros do local prometido. Mas como os checos não são latinos, continuaram na sua tarefa sem nos fitar mais que um par de segundos, e cada um de nós levou a bom porto a sua barca. Esta cache valeu pela relativa originalidade – na realidade já tinha feito uma multi baseada em Wi-Fi bem mais interessante, a CZFree #1 – e por um passeio ilustrativo da “cultura” Panelack.  É este o nome dado aos enormes blocos de apartamentos de aspecto tristonho, literalmente cinzentões, que predominam em numerosas zonas da cidade. Foram construidos em série nas décadas dos anos 50 e 60 do século XX, traduzindo a ambição do sistema em anular a individidualidade dos cidadãos: prédios iguais, apartamentos semelhantes. Sem distinções, em nome de um regime totalitário e igualitário.

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Foi no mês de Fevereiro de 2006 que tomámos contacto com verdejante Irlanda, terra de Guiness, de mar, de gentes hospitaleiras e… de muitas caches. Durante uma semana, ter-se-á celebrado a nossa chegada a terras de Sin Féinn (“nós mesmos” em gaélico) e fez-se sol! Bom, não terá sido bem assim, mas o milagre ocorreu na mesma: durante sete longos dias, não caiu uma gota de chuva, o que é algo único, sobretudo para um Fevereiro. Vim a saber, já na despedida, que se tratara da semana mais seca dos últimos 40 anos. 

Quem chega ao aeroporto de Dublin, poderá desde logo partir à descoberta de umas quantas caches, que se encontram num raio que se alcança com uma breve caminhada. No nosso caso, aguardando o vôo de ligação para Cork, onde iriamos ficar os primeiros quatro dias, aproveitámos para matar esse tempo morto encontrando duas caches e um irlandês. A primeira, Dublin Airport Bug Hotel, encontra-se nas imediações de um pequeno cemitério de outros tempos, descoberto recentemente, e que nos apresenta desde logo uma série de míticas cruzes celtas. Um pouco mais afastada, uma multi-cache simples,  Swords Castle, onde topei logo um senhor já com uma idade muito repseitável, que anotava qualquer coisa numas folhas impressas a partir do website Geocaching.com. Meti conversa, ficámos por ali no paleio por um bocado, e partimos juntos à descoberta do contentor. A pesquisa foi complicada, o relógio corria célere, e o nosso bom “anfitrião” viu-se na contingência de recorrer a uma sessão de helpdesk directa ao owner, mas que se revelou estéril. Já para além da hora limite de iniciarmos o caminho de retorno, finalmente o nosso amigo detectou a malfadada cache. Sim, leu bem: “para além da hora limite”. Teremos perdido o avião? Não. Isto graças ao nosso improviado guia, que enquanto nos conduzia ao aeroporto no seu confortável carro, nos explicava ódios antigos dos irlandeses e muitas pequenas histórias que absorvemos com sofreguidão.

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Um pequeno cemitério

Depois desta primeira experiência, percorremos o “countryside” do sudoeste irlandês à cata de muitos outros troféus. A extensa linha de costa é muito utilizada para a colocação de “tesouros”, mas as áreas montanhosas encontram-se também recheadas de caches. Devemos agradecer ao Geocaching a visita a um círculo de pedras (Drombeg Stone Circle), a fazer lembrar o lendário Stonehenge, mas com a magia a ser elevada pelo total isolamento. Naquele dia, éramos nós e a neblina, que abraçava os vestígios de milenar presença humana. Conhecemos a fenomenal praia de Inch (Dingle Dangle), num dia com uma luz única, a evocar o que no nosso imaginário é associado a aparições divinas. Fomos também conduzidos à pacata vila de Baltimore, onde um “beacon” (Beacon Point ) assinala a entrada de uma barra, tendo-se convertido um dos marcos turísticos daquela remota região.

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Um ambiente de misticismo no círculo de pedras de Drombeg

 

 

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O beacon de Baltimore, com uma cache mesmo ao lado
 

 

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A praia de Inch

 

Após a fase rural da visita, mudámo-nos para Dublin, onde naturalmente nos atarefámos na perseguição aos contentores. Trata-se de uma cidade medianamente servida de caches, com uma densidade talvez ligeiramente superior à de Lisboa, pelo menos na data em que a visitámos. Contudo, poucas experiências foram verdadeiramente gratificantes, e há uma história de grande frustração: tratava-se de uma multicache no jardim botânico, onde chegámos já pressionados pela hora de encerramento das instalações. A verdade é que conseguimos deslindar os mistérios e obter as coordenadas finais. E, para nosso deleite temporário, mesmo sobre o tempo limite! Seguindo a agulha do GPS, lá chegámos ao local. Nós e todos os funcionários do complexo! Era o parque de estacionamento interior, e, chegada a hora de soltura, todos se dirigiam para as suas viaturas, olhando-nos de soslaio. “Bom”, pensámos, “Isto há-de ter um fim”. A cache, já a estávamos a ver, escondida dentro de um tufo de erva, exactamente na posição que a “hint” afirmava estar. O problema é que ainda mal o último carro abadonara o recinto, já um segurança se acercava, ao longe. Nem lhe demos hipótese de chegar à fala. Saimos dali com um peso enorme sobre os ombros, com aquela amargura que só uma cache “roubada” debaixo das nossas unhas pode deixar.

Nem tudo foi decepcionante na estadia em Dublin. Um dia, talvez o penúltimo da nossa permanência no país, apanhámos o comboio interurbano a que chamam de DART, e saimos na penúltima paragem: Bray. Sabiamos que dali até ao final da linha, na cidadezinha de Greystones, havia um trilho ribeirinho de cerca de 5 km ao longo do qual iriamos encontrar três caches (All My Friends, Julskatten e Europe’s First) . E o melhor é que uma delas tinha um sabor especial: a primeira cache da Europa!!

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Joshua’s Tree

 

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A primeira cache da Europa

Foi de facto um passeio memorável, com um céu cinzento, plúmbeo, com ameaças soturnas de chuva a qualquer momento, que contudo aguentou a sua carga em nossa honra. O percurso é de uma beleza única, debruçado sobre um oceano que, sendo o mesmo, é tão diferente do nosso azul Atlântico. Ali toda a água mete outro respeito. E, de repente, é como se estivéssemos dentro de uma história de Enid Blyton. Está ali tudo: a típica paisagem britânica, a linhazinha de comboio, as escarpas a prometer aventura fácil. E a árvore, aquela impressionante árvore cantada por Bono em Joshua’s Tree, que esconde uma cache nas suas raízes (curiosidade: o vocalista dos U2 vive a algumas centenas de metros do local). Chegados a Greystones, encontramos uma “teahouse”, daquelas que só vimos no cinema, onde nos deliciamos com um chocolate quente, enquanto trocamos impressões sobre a jornada e observamos a fina flor da comunidade local tomando o seu chá vespertino.

Na hora da partida, o balanço: como se caracteriza o Geocaching na Irlanda? Para um português, oferece desde logo uma vantagem negada noutros países da Europa: a acessibilidade linguística. Se numa República Checa, numa Hungria, num Alemanha ou numa Holanda somos confrontados com a separação entre as caches que podemos “fazer” e as que não podemos, em virtude da disponibilização (ou não) de uma versão em inglês, na Irlanda nada é negado por barreiras na língua.

A quantidade de caches espalhada pelo país é apreciável, não chegando à densidade dos vizinhos ingleses, mas mesmo assim atingindo valores muito interessantes. A comunidade de practicantes parece ser restrita. Ao estudar as “caches” e respectivos “logs”, fica a sensação que são sempre as mesmas pessoas, quer a criar quer a encontrar. Coincidência ou não, quando uns meses mais tarde um geocacher irlandês andou pelo Algarve, o seu nome era bem familiar.

Talvez a ideia mais forte que fica numa análise resumida ao geoaching irlandês seja a discrepância entre o número de caches existentes e a actividade. Ou seja, olhando para um mapa, perante a densidade apreciável de caches, seria legítimo imaginar uma comunidade vasta e activa, mas não é isso que sucede. Fora da grande metrópole, muitas das caches que encontrámos tinham umas meras quatro ou cinco visitas por ano. E isso é-nos estranho.  

De resto, na forma, não existem grandes diferenças para o que encontramos por cá. Sobretudo em Dublin deparámo-nos com coisas curiosas, como uma nano-cache (“Let my Epitaph be written”) que se encontrava disfarçada de parafuso na base de um mastro, e com uma “ammo box” (The Phoenix) enterrada no meio de um extenso relvado (tão vasto que se duas pessoas se posicionassem em extremos opostos, não se veriam uma à outra… e garanto-vos que o terreno era bem plano) onde, em Setembro de 1979, uma multidão de mais de um milhão de pessoas, ouviu a missa celebrada pelo Papa João Paulo II.

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Phoenix Park

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