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Archive for the ‘Jornada Nacional’ Category

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Foram três dias por Lisboa, como gosto de fazer de tempos a tempos:  por vezes revisitando um passado pessoal, vagueando por ruas que outrora chamei de “minhas”, outras vezes descobrindo novos sítios, cantos escondidos de uma cidade grande, tão grande como a sua História. Ora quis o destino que ao segundo dia subisse ao bairro de Alfama, a partir do Martim Moniz, essa terrível praça que um dia se tornou sinónimo de plena tortura, quando a minha mãe me levava aos carniceiros que então se chamavam de dentistas mas que hoje certamente estariam impedidos, por ordem de restrição judicial de se aproximarem da boca de qualquer cidadão. Com o passar das décadas perdi gradualmente os traumas adquiridos nas celas daquela casa sinistra da rua da Palma, e naquele dia, ao desembocar na superfície luminosa, vindo da escuridão relativa do túnel de Metro, a primeira coisa em que pensei não foi já em seringas e alicates, mas sim no belo mural feito de mosaico, sob o qual se sentavam duas africanas de olhar perdido.

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Subi calmamente a rua de que nunca soube o nome, e que hoje é dominada por emigrantes de todas as cores. Num painel de anúncios pessoais, uma menina chinesa em picos de pés ia lendo as “novidades”. Levantei os olhos para as mensagens. Estavam todas escritas em mandarim.

Não sei porquê ia com o olhar de fotógrafo aguçado. Diverti-me, todo o dia, a tirar retratos. Alguns melhores que outros, como é costume, mas também dentro do normal, muitos com interesse, como sucede em dias assim, de inspiração. Às tantas internei-me nas ruelas do bairro antigo, onde a mixórdia de raças e línguas se dilui e se entra de novo no Portugal de sempre, das velhotas que mantêm as andanças da vizinhança sob vigilância, das varinas que deixaram de o ser por profissão mas o são por vocação e genética, chamar acesso, atrevido, que faz parar um par de estrangeiros encantados por aquele momento genúino.

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E nisto estava na primeira cache do percurso: Fado The Sound of Lisbon. A coisa estava a correr tão bem, e afinal, dali, sai com um DNF. Pudera, entre ruas estreitas que fazem o sinal tornar-se quase inexistente, a ausência de dica ou foto spoiler e o olhar curioso dos habitantes, ainda tive a coragem e paciência de procurar durante um bom bocado até decidir partir para outra. Mas o dia estava tão agradável que não seria isso que o estragaria, até porque como veremos, daqui para a frente, e até sair pelo outro lado, o do rio, já cansado e umas horas depois, foi só sucessos. De resto, aquele primeiro pedaço é precioso. O largo da Severa é uma referência incontornável da Lisboa antiga e do Fado, mantendo todo o seu charme. Pela primeira vez vi aquelas imagens de fadistas, acompanhadas e um pequeno texto explicativo, tal como haveria de encontrar ao longo de toda a tarde.

Avancei por ruelas travessas onde certamente não teria antes assente os pés, calçadas misteriosas, de pedras que muito já testemunharam e ainda terão bastante para ver. A uma porta um par de “pintas” dedica-se a negócios pouco lícitos, olhar atento, à cata de problemas. É gente local, considerando o à vontade com que vão cumprimentando os vizinhos que passam, mas nem por isso perdem aquele ar selvagem, acossado, de quem faz tudo para não acabar com os costados na choldra. Logo à frente uma velhota com algum peso a mais descansa nas escadas de uma pequena capela e faz uma grande festa a um jovem que, depois de a cumprimentar, se senta a seu lado para dois dedos de conversa.

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Na PALÁCIO DA ROSA-Largo da Rosa desafio a sorte, deitando a unha aquela cache enquanto o polícia municipal que ali guarda o material para o espectáculo dessa noite vira as costas por um segundo. Chguei a pensar que não poderia rubricar o papelinho, tirei uma imagem para registo presencial da cache. Mas já quando preparava a retirada o senhor agente fez-me o obséquio. Não só virou as costas como as manteve assim durante o tempo necessário para a rotina do costume: abrir, desenrolar, assinar, enrolar, arrumar e recolocar.

Mais à frente deslumbro-me com um mural recente, que ilustra a Lisboa antiga por onde passeio. Não falta lá nada. Está o castelo, está o eléctrico dos antigos, está o fado, está a bela da sardinhada e até os habituais disparates sobre a “troika”. E logo acima, estou na rua Costa do Castelo, que tem cache (Costa do Castelo [Lisboa]) e que sempre encerrou um mistério: será que se chama assim em honra da personagem Simplício Costa, do filme Costa do Castelo, ou se o Costa, se chamava “do Castelo” por viver junto a esta artéria de Alfama? Seja como for, muitas vezes passei por ali. Quando tinha 13 e 14 anitos, era um passeio usual, com o meu amigo André, sairmos de Alvalade, de Metro, descermos na baixa e treparmos aquelas rampas ingremes até lá acima, quando todo o complexo muralhado era um parque público, um espaço de reunião da comunidade, dos lisboetas, em vez de um porquinho das moedas da autarquia alimentado pelos magotes crescentes de turistas. Nessa altura, ao chegar à década de 80, aquele magnífico terraço do mercado estava sempre fechado, e de cada vez que ali passava deitava um olho invejoso aquela plataforma convidativa. Depois, há uma série de anos, abriu ali um agradável espaço, um café-esplanada que abriu as portas aos habitantes da cidade de algo que só viam à distância e que lhes ficou na retina depois daquela famosa cena com os Madredeus em Lisbon’s Story (1994), o memorável filme de Wim Wenders que tanto fez pela divulgação da nossa cidade e daquela banda que então crescia.

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Caminhava contornando o castelo. Ainda me ocorreu espreitá-lo, cumprimentá-lo, em honra dos bons tempos que passámos juntos, há tantos anos. Porque depois da fase das passeatas de Sábado vieram os tempos de universidade e o hábito que desenvolvi de me instalar num qualquer canto sossegado das suas ameias com os meus livros, a tomar apontamentos como se não houvesse amanhã, com toda a cidade aos meus pés, a contar-me as histórias que eram importantes nas minhas salas de aulas. Mas não. Naquele dia passaria ao largo. Aproximei-me com curiosidade da Lisbon Roman Theater Museum, porque não fazia ideia do seria aquilo. No meu tempo não havia tal coisa como um teatro romano em Alfama. Mas, contudo, ali estava ele. Meio enterrado, renascendo, redescoberto nas profundezas daquela colina lisboeta. Fiquei meio boquiaberto, com uma expressão que inspiraria o saudoso Fernando Peça a um dos seus… “E esta, hein?”.

O passeio prosseguiu, com a paragem seguinte em Miradouro das Portas do Sol e de Santa Luzia, localizado naquilo que parece ser o epicentro de todo o turismo que aflui a Lisboa. Vi aquilo, e fiquei a matutar, sem saber se havia de sorrir pelo sucesso que o país e a sua capital vão tendo no panorama turístico internacional, se triste por ver Lisboa a caminhar para um ponto de saturação, como o que há muito se vive em Praga, onde há muitos anos que os seus habitantes se sentem estrangeiros no meio da multidão de caras vindas de todo o mundo. Lembro-me deste miradouro, de tantas ocasiões mas sobretudo de uma, quando há uns vinte anos me pegou a mania das fotografias e vim até aqui testar uma lente nova, tirando uns belos retratos.

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Naquele dia, até os artistas de rua eram estrangeiros. Dois brasileiros tocavam música mesmo no miradouro, para uma audiência de turistas ocidentais. Lá num cantinho, quase a medo, um jovem português tomava um almoço rápido antes de regressar ao trabalho. A cache era mesmo ali, estive sentado a 20 cm dela, mas estava distraido com tudo aquilo, e sem pensar nela, levantei-me e fui-me embora. Ao lado, no outro miradouro que talvez nem tenha nome, outro brasileiro cantava e tocava guitarra, recebendo moedas, lá está, dos omnipresentes turistas, a grande ritmo. Não admira que sorrisse, porque a vida parecia-lhe sorrir. E foi ao ver aquele sorriso que me veio à ideia que andava ali às caches e que já estava umas dezenas de metros avançado em relação ao objectivo corrente. Toca de voltar para trás para a ir encontrar mesmo, exactamente, onde tinha estado.

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Subi um pouco, em direcção ao MOSTEIRO DE SÃO VICENTE DE FORA mas tão fascinado ia com aquelas vistas toda que andei de mais, cheguei ao arco, e quando olhei para o GPS tive que voltar para trás. Pela segunda vez num bocadinho de nada. Quanto ao mosteiro, aquilo é que foi uma surpresa. Porque se no que toca ao teatro romano tinha a desculpa de nos meus tempos de lisboeta ele não estar ali à vista de todos, já este mosteiro existia aqui. E até suspeito que foi na sua igreja que os meus pais se casaram, sei lá, para meados da década de 40. E que oásis de sossego é aquela entrada, onde vamos para descobrir a cache. Pelo menos durante os minutos que passaram antes dos turistas começarem a chegar. Entretanto ela não tinha aparecido. Peguei nas coisinhas – que tinha ali feito um sumário picnic – e preparei-me para me pôr a mexer, quando, naquela última tentativa que tantas vezes fazemos… lá estava.

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A volta estava a acabar. Era tempo de começar a descer, pela face oposta da colina. Ia encontrar o rio, deslizando pelas ruelas que considero as mais castiças do bairro, senão mesmo de Lisboa, e que só se encontram naquele flanco sul de Alfama. Apesar de lisboeta, foi preciso começar a practicar Geocaching para descobrir as maravilhas daqueles recantos e os segredos dos seus pátios intimistas. E não foi neste dia.  Foi no Inverno de 2007, perseguindo a multi-cache Alfama [Lisboa], nascida em grande em 2006, abatida ingloriamente em 2009.

E foi neste emaranhado de escadinhas e calçadas, becos e vielas, ruas e páteos, que vim encontrar a Igreja de Santo Estêvão primeiro e a Sardines/Sardinhas depois. Esta última, torna-se tão complicada devido à falta de captação de bom sinal GPS, que estava a procurar, imagine-se, duas ruas abaixo da localização certa. Não admira que mesmo depois de ligar a minha Internet móvel e de ver a photo spoiler (luxos dos tempos modernos) não desse com nada. Nem sei o que me levou a recuar aquelas duas ruas, mas assim que me aproximei vi logo as semelhanças com a imagem que tinha acabado de observar e a partir dai foi instântaneo.

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A partir deste ponto foi sempre a descer. Literalmente e também figurativamente. Porque saindo de Alfama cheguei à beira-rio e ali chegado voltei ao Geocaching de quantidade, daqueles que não suportam ver 160 m livres na quadrícula do mapa sem uma cache, e que em encontrando uma aberta têm que lá colocar qualquer coisa. Compulsivamente. Mesmo quando não há nada que ali evoque a criação de uma. Quando assim é, já cansado por um dia de calor a palmilhar ruas e locais fascinantes que me são mostrados por diligentes caches-cicerones, é chegar, olhar em redor… “olha, não encontro”, e seguir caminho. Foi assim que encerrei esta jornada com DNF’s em LISBOA , LINDA, TB e GC Hostel – Lisboa e WELCOME TO ALFAMA – ARCO DE JESUS (OK, esta última não encontrei mesmo, e pela segunda vez; e bem que procurei, mas não tenho jeito para as encontrar).  Ah, esquecia-me. Encontrei Jardim do Tabaco, outra cache que veio encher quadrícula.

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Este momento excepcional, devo-o por inteiro ao acaso. Quis primeiro que, no retorno de mais uma expedição a Tomar, tivesse decidido procurar umas caches algo fora da rota habitual. Depois, que ao sair do acesso de uma dessas, me enganasse a ler o GPS e virasse na direcção oposto. Dei pelo erro uns quilómetros mais à frente, e por essa altura já os gnomos que habitam aquela caixinha me tinham encontrado uma rota opcional. Não tinha muitos quilómetros acrescentados, e então, porque não, aproveitaria para variar e quiçá encontrar caches que de outra forma nunca seriam tentadas.

brotas-01Foi assim que cheguei a Brotas e encontrei a bela Aldeia Nova, uma cache que nos mostra uma panorâmica daquela castiça aldeia e que me deixou logo com um sorriso de satisfação pelo desvio inesperado. Ora quando me dirigia a esta cache vi casualmente uma indicação que apontava “Torre de Águias”.  E quando acabei de lidar com a Aldeia Nova, vendo qual seria a próxima cache no trajecto, aquela “Torre de Águias” (Torre das Águias [Brotas] II) voltou a aparecer-me perante os olhos. Mas era relativamente longe, e aparentemente no fundo de um caminho de terra batida que me levaria na direcção oposta à da minha viagem. Indecisão. Ir ou não ir, era a questão. E foi-se. Abençoada decisão, onde o acaso voltou a colocar o seu dedo.

O caminho era de facto longo. Talvez uns 5 km de terra mais ou menos mal tratada. Já perto, um portão. Aberto. Esperemos que ninguém o tranque na próxima hora. E então vejo-a, aquela torre. Mágico! Junto a ela, aos seus pés, um casario, aparentemente abandonado. Já estou em pulgas para sair do carro e percorrer tudo aquilo, de câmara em punho. Para esfriar os ânimos, quando chegamos ao pé da torre e estacionamos o carro, noto que a porta da estrutura medieval está trancada com um cadeado. Encolho os ombros. Mesmo assim valeu bem a pena. Louvo de novo a decisão na indecisão.

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Descobrimos que afinal existe um acesso lateral que está escancarado. Yupi! Toca a subir. Atenção, o piso pode abater se for sujeito a alguma pressão. É preciso ir com cuidado. Subo ao piso de cima através de uma escada de madeira ali colocada por alguém. E ao seguinte. E por fim estou no topo, entre ameias agora habitadas por pombos mas antes frequentadas por senhores de brilhantes cotas de malha, capacetes de madeira e metal, pontiagudos, olhos postos no horizonte.

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Olho em redor. Tenho uma vista única sobre o lugarejo, de facto abandonado, que se encontra em redor da torre. Ao contrário do que pode parecer, a estrutura nunca teve uma função militar. Erigida cerca de 1520 por D. Nuno Manuel, homem chegado ao rei D. Manuel I, era usada pelos nobres nas suas pândegas viris. Indo à caça, pernoitavam aqui, trocando histórias da montaria, partilhando uma rica refeição regada certamente com muito vinho. Veio o grande terramoto de 1755 – que tanta miséria provocou pelo Reino fora – mas a Torre das Águias resistiu-lhe estoicamente. Foi preciso chegar-se ao século XX para que a estrutura se começasse verdadeiramente a degradar, encontrando-se hoje numa situação algo precária.

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Lá em baixo, um homem conduz um tractor pela rua do lugar. Inesperado. Guarda-o escrupolosamente num barracão agrícola, monta-se numa motorizada e abala, não sem antes nos dizer para fecharmos o portão quando sairmos. Yes sir! Ficamos de novo a sós com as almas que habitam o local. Percorremos a via que lavra por entre as casas. Algumas estão em ruínas, outras, fechadas a cadeado, indiciam um certo método no abandono. Os seus proprietários terão recolhido às suas famílias ou a lares de idosos.

Foi muito depois de ter chegado a Torre de Águias que me lembrei do que me tinha ali conduzido. Ah, pois! Uma geocache. De GPS na mão segui a agulha do compasso. De início ainda procurei num sítio completamente errado, mas logo o engano se desfez e caminhando na direcção correcta, pedindo a todos os santinhos que aquela experiência extraordinária não ficasse reduzida por um DNF, encontrei a caixinha com facilidade e com um enorme suspiro de alívio. Sai um favorito!

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Uma cache a fazer, aconselhada a todos. É preciso aproveitar este local antes que as condições se degradem mais. Pode levar algumas décadas, mas pode suceder no próximo Inverno. Assim, como está, já é algo arriscado, mas mesmo para os menos ousados uma visita exterior compensa largamente todos os quilómetros necessários. O estado miserável da estrutura é compensado pela sensação de quietude, pelo isolamento, pelo silêncio.

Nota: Como o seu nome indica, a cache Torre das Águias [Brotas] II, colocada em 2011, é a segunda existente no local. A primeira (Torre das Águias [Brotas]), criada por Manelov, apareceu em 2008, e foi arquivada por razões não especificadas pouco antes da criação a actual cache.

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A estória de hoje, tal como a de uma vida, inicia-se em Alvalade. Estamos nos idos de Julho, apesar do tempo não estar especialmente quente. Saio de casa, passo a praça de Alvalade e chego à Reis de Portugal #08 – D. Pedro I. Foram centos de vezes, as que vi aquelas pedras de calçada, aquela escolinha primária de outros tempos, ainda activa, servindo geração após geração. Os meus irmãos, lá para meados da década de 50, aprenderam ali a ler e escrever. Eu, não. Mas entrei nas instalações um punhado de vezes, quando nos meus dezassete anos devorava quilómetros de pista ao serviço de um pequeno clube de atletismo que tinha um protocolo com a escola para usar o seu ginásio.

O destino seguinte é um dos segmentos da rua das Murtas, aquela via que abraça o antigo Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos, seguida diariamente e desde há décadas por condutores apressados, a caminho ou de regresso dos seus postos de trabalho, muitos sem sequer fazerem uma ideia do nome da rua. Mas eu sei, porque não só segui os seus passos como vivi ali a umas centenas de metros. E a primeira vez que me recordo de ter pisado o seu passeio foi muito, mas mesmo muito tempo antes de uma comunidade de ciganos ter ali assentado arraial para não mais sair, hoje instalados num par de edíficios para si construidos ao bom estilo de habitação social.

O que eu não sei é do que tinha mais pavor: se, uns anos mais tarde, de ver o meu carro avariar-se defronte dos olhos expectantes da “ciganada”, se nos primórdios, quando descobri que o que se encontrava no final da passeata à qual a minha mãe me conduzia pela mão era uma freira endominhada com uma seringa na mão, aguardando para ma espetar nas tenras carnas em nome de uma saúde que eu não compreendia. E foi ai, à beira desse tenebroso convento – mais sombrio ainda para um meu irmão que estudou ali em regime interno no início dos anos 50 –  que fui encontrar a Reis de Portugal #16 – D. Sebastião.  Uma daquelas caches que apenas coincidentemente desempenhou um papel mais interessante do que o de adicionar um “found” à contagem dos que ali param o carro à beira, naquele local desolado sem eira nem beira.

Seria ali que o meu plano me levaria para um traçado mais convencional, de regresso à Avenida do Brasil e a outras paragens. Mas havia caches ali tão perto… a tentação, a imensa tentação…  porque não desafiar a sorte e encontrar uma passagem que servisse o raro trânsito de um peão naquele emaranhado de vias rápidas e acessos que abraçam a Segunda Circular? E a ALTA DE LISBOA ali tão perto. E depois, mais outra, logo acima. Ficou decidido. O dia ia decorrer de forma bem diferente do que o esperado.

Ao aproximar-me daqueles enormes letras… ALTA DE LISBOA… senti-me transportado para diferentes níveis do passado, em simultâneo. Fui até meados dos anos 80, quando tantas vezes conduzia o meu Ford Cortina 1600 GT por ali, por estradas que já não existem, demolidas pelas fabulosos obras de urbanização deste mega-projecto frustrado. E até finais dos anos 90, quando me foi encomendada a elaboração do primeiro website dessa Alta de Lisboa que então existia apenas no papel. Enquanto trabalhava pela noite dentro, com os planos das primeiras urbanizações das quais me recordo apenas do romântico nome de Quinta das Conchas, estava longe de imaginar que tinha entre mãos a génese do monstro que iria destruir uma vasta parte de Lisboa tal como eu a conhecia. Aquelas quintas centenárias, os campos sem fim, e também os menos charmosos bairros de lata da Musgueira. As ruas e estradas que dominava como a palma da mão, em breve seriam substituidas por vastas alamedas usadas por quase ninguém, vítimas do colapso demográfico que já então se devia adivinhar, consequência dos hábitos da vida urbana de passagem de século e do corte no fluxo do meio rural para a grande cidade em consequência do esgotamento dessa matéria-prima que são as pessoas com energia e interesse em mudar de vida.

Caminhei em direcção à Quinta da Musgueira Sec.XVIII com a surpresa do testemunho no terreno daquilo que já conhecia da fotografia aérea. Esta nova cidade, materializada ali como que por artes mágicas aos olhos de quem deixou passar uma década e meia sem uma visita. A Quinta da Musgueira teve um impacto sobre mim. Que coisa mais bizarra aquela, um pedaço do passado cristalizado no meio de um futuro suspenso que provavelmente nunca será. Aquele pórtico, encimado por esferas de pedra que já tanto viram e que agora dizem bom-dia a cada nascer do sol às torres fajutas que as rodeiam. Posso imaginar os tempos dificeis que tiveram os proprietários da quinta durante os tempos de ouro das barracas da Musgueira, que testemunhei e vivi. Recordo-me de uma noite, ainda antes de ter um carro que pudesse conduzir, em que eu e um par de amigos perdemos o último autocarro da Charneca para o Campo Grande, e que, portanto, tivemos que nos fazer à estrada. Ao chegar à central da Carris da Musgueira pensámos poder apanhar um qualquer autocarro perdido que se movesse em circulação irregular. Enquanto esperávamos defronte da cancela, começaram a chover pedras, vindas de um alto que ainda lá está (ou foi rebaixado ou a memória de um momento de tensão o tinha avolumado), arremessado por habitantes de todos os tamanhos e idades, impulsionados por ódio social e sentido territorial. Concentravam-se defronte do bar ou sede do glorioso Águias da Musgueira, e privados de outra actividade desportiva, practicavam agora o arremesso de pedra aos desconhecidos-claramente-de-bairros-priviligiados.

Mais ou menos deste ponto partiu o apedrejamento da Musgueira

Mais ou menos deste ponto partiu o apedrejamento da Musgueira

Na minha ingenuidade, pensava que a Alta de Lisboa era um bairro moderno entregue a gente de bem, filhos de uma classe média e média alta, como indiciaria a localização central e a construção recente dos edíficios. Uma espécie de Parque das Nações em segunda versão. Afinal já tinha estado na Quinta das Conchas e mais coisa menos coisa foi esse ambiente que ali fui encontrar. Mas afinal não. Há também uma face negra na nobilissima Alta de Lisboa, e senti-a ainda antes de a penetrar. Aquelas sentinelas na extremidade de cada rua eram afinal as mesmas, umas gerações à frente, que se posicionavam nos acessos do bom velho bairro da lata. Hesitei quase imperecetivelmente antes de continuar a caminhada, mas afinal os anos de experiência ensinaram-me bastante sobre sentir os ambientes e lidar com eles. Longe vão os tempos em que a menção a Musgueira se equiparava à promessa do Inferno na Terra.

Passei por aquelas ruas onde se aglomeravam idosos reformados e jovens entregues a actividades pouco lícitas. Carros de aspecto suspeito, crianças ranhosas, ciganos de reputação duvidosa, casas envelhecidas precocemente, lixos acumulados nos campos, tudo isto enquadrado por restos do mundo anterior. Já o Águias da Musgueira evoluiu bem, com um complexo desportivo de fazer inveja a muita gente, campo de relva sintética que faz esquecer o pelado de outros tempos.

Quando me afastava, um jornal passou por mim, esvoaçando, uma versão para pobres daquele saco de plástico de American Beauty, e enquanto se afastava, sorriu para mim, e mostrou-me o que tinha a dizer, em paragonas de primeira página:  “Desilusão, Tristeza e Lágrimas”.  Como é que aquele objecto inanimado definiu daquela forma genial o momento e as redondezas, no seu passado, presente e futuro?

Apanhei o jormal mais à frente, quando recuperava fôlego dos volteios no ar.

Apanhei o jormal mais à frente, quando recuperava fôlego dos volteios no ar.

Sai pelo outro lado, já muito perto da RSB Aeroporto – Fire Department/Bombeiros, e reparei com surpresa que estava a pisar o asfalto da movimentada estrada que nos meus tempos vinha desde a Segunda Circular e servia todas aquelas populações e outras adiante. Hoje practicamente não tem trânsito, usada apenas por aqueles que se deslocam às ruas desoladas na nova Musgueiras que há-de ter um nome pomposo como Quinta-Não-Sei-Das-Quantas. Foi uma surpresa das grandes e das tristes. Que saudade daqueles tempos que foram de ouro para e estrada e para o cronista.

"(...)  a pisar o asfalto da movimentada estrada que nos meus tempos vinha desde a Segunda Circular e servia todas aquelas populações e outras adiante. Hoje practicamente não tem trânsito."

“(…) a pisar o asfalto da movimentada estrada que nos meus tempos vinha desde a Segunda Circular e servia todas aquelas populações e outras adiante. Hoje practicamente não tem trânsito.”

Por fim a mencionada cache. Colocada, creio, junto ao local onde existiu uma virtual que foi das primeiras de Portugal, lá para 2002. E do sítio onde se desenrolou um dia um pequeno drama pessoal, uma relação de sete anos de idade terminada ali mesmo, num descampado que se estendia um pouco mais em direcção às pistas do aeroporto e que como tantas outras coisas destas paragens desapareceu para dar lugar a algo diferente.

Nem queria acreditar que tinha caminhado até ali. Eram quase 5 km, sabia-o bem, de outros tempos, olhos postos no conta-quilómetros quando a gasolina, se bem que infinitamente mais barata (0,30 Eur) tinha um custo real muito superior, um luxo reservado para dias especiais. Estava agora a entrar na Charneca, e ia encontrar na LISBON AIRPORT- Plane Spotters 17 um pouso muito curioso, nunca canto nunca explorado, por estranho que me parecesse. Uma vista gloriosa para os aviões, com direito a um trio de poltronas improvisados. Mas foi um triste DNF, o que me motivou para a multi-cache Parque do Amor que já tinha colocado de fora das intenções, por ser demasiado longe e por ser uma multi-cache. Mas afinal era já ali à frente, e assim como assim, já que o dia não tinha começado por seu uma caçada às memórias para tinha por ai evoluido, porque não palmilhar mais uns quilómetros e abrir o bau maior.

Uma das poltronas improvisadas, para ver os aviões passar.

Uma das poltronas improvisadas, para ver os aviões passar.

Charneca. A inesquecível Charneca. Aquela relação, terminada aos sete anos de idade, mencionada ali atrás, vivia, por assim dizer, por aqui. No Bairro dos Sete Céus, um pouco escondido de quem passa por este espaço. Quantas noites me viram por aqui andar, vindo de um serão, à vez cheio de paixão, de sonhos e de expectativas, de descoberta mútua e conversas sem fim… outros eram serões de arrufos, de discussões vindas da inevitável colisão de personalidades, de medos, inseguranças e ciúmes. Mas a memória é assim, benévola, e mesmo esses momentos de raiva lhe ficam marcados com uma saudade….

As noites daquele primeiro Verão, o de 1984, são as de mais doce memória. Às vezes vinha sozinho, outras, com o Augusto ou o Tó Maia; a namorada do primeiro também ali vivia, e a do segundo era amiga inseparável das outras duas, de modo que se formava ali um grupo com pouso pontual nos Sete Céus.

Nos anos 80, e provavelemente nos 90, não havia tal coisa como um Parque do Amor. Eram terrenos baldios, que se atravessavam por um ou dois trilhos bem pisoteados pelos que iam de casa para a paragem de autocarros e de regresso. A tempos, viam-se ali festas de casamento cigano que duravam dias a fio.  No bairro junto ao vértice mais distante do agora Parque, constituido por três ou quatro torres vivia um casal-modelo que eram, de forma mais pontual, parte do grupo: o Timóteo e a São.

Percorri aquele espaço tão bem requalificado, recolhendo os elementos para resolver a multi-cache. Correu tudo bem, e enquanto ia para cá e para lá, ia desenvolvendo aqueles “flashbacks”. Ouvia o assobiar expedito daqueles autocarros – os “laranjas” – que faziam a rota 1 e 17. E sentia-me a entrar e mandar-me com pompa para o melhor lugar disponível, preparando-me para uma viagem alucinante, como sempre o eram aquela hora, até Alvalade ou lá perto. O via-me sentado ali à beira, olhando para o relógio pela centésima vez na última meia-hora, esperando, sempre, por ela, que mais uma vez estava atrasada, e da emoção de a ver chegar, com aqueles olhos rasgados de chinesa que não era, e o enorme sorriso.

 A cache foi encontrada com sucesso. Estava naturalmente cansado, e sabia que tinha o caminho de volta à minha espera, ainda com mais umas quantas a que deitar unha. Mas não consegui resistir. Estava ali tão perto, tinha que ver, pela segunda vez desde há vinte anos, aquele bairro que quase foi a minha casa durante tanto tempo.

Atravessei a Azenha dos Milagres, que era uma passagem estreita, claustrofóbica, dominada por uma pela casa apalaçada, a Quinta dos Milagres. A casa ainda lá está, em surpreendente bom estado, mas o muro do lado oposto foi todo derrubado, e agora aquela atmosfera opressiva de quem corria perigo só por lá entrar desvaneceu-se. Mais flashbacks, de nada em especial, para além de mim a lá passar vezes sem conta. Uma vez, no dia em que regressei dos meus testes para admissão aos pára-quedistas,em Tancos, meti ali o carro, como costumava fazer. Mas vinha alguém em sentido contrário. Tive que recuar e raspei a pintura toda. Foi violento e ficou-me na memória.

Dou de caras com as sete ruas dos Sete Céus, trepando aquela colina que ali está desde sempre. No seu sopé, o campo da bola do Charneca está reduzido a uma ruina sem fim. Vejo o primeiro patamar, onde numa noite de santos populares eu e os meus amigos tivemos que enfrentar mais um extremo de territorialismo da rapaziada local, dessa feita terminando tudo em bem, entre abraços e convites para experimentar as sardinhas.

Subo o eixo principal, o que dá acesso a todas as ruas do bairro, imaginando sem na verdade saber o que iria encontrar no topo. Onde me lembrava de ver campos sem fim, há agora casas e urbanizações igualmente sem fim. E para todos os lados. Todas aquelas tardes preguiçosas no terraço do primeiro andar, nas carícias e abraços dos doce dezoito anos, não poderam ser hoje o mesmo… de novo, a bucólica paisagem marcada por campos e quintinhas deixou de existir. A ilha de paz que era o bairro dos Sete Céus transformou-se num castelo cercado. A perder de vista existem torres residenciais e o asfalto cortou de morte a paisagem natural que ali estava antes do virar do século.

Decidi passar em frente da casa. E ia pensando o que seria daquela gente, dela e da irmã, e dos seus pais. Queria tirar uma fotografia da casa, nem sei porquê, talvez para ter uma memória visual para abraçar em dias de especial nostalgia. Mas de repente, aconteceu algo surpreendente: um senhor conversa com um grupo de pessoas que está na varanda de uma casa, e naquele segundo vejo-a e não posso compreender como ninguém mudou… nem ela, nem o pai, ao seu lado… as outras pessoas já não pude ver, porque quis passar anónimo e se olharam para mim e não me reconheceram, vinte e tal anos depois, não quis desafiar a sorte e passei à distância, captando uma nota solta daquela voz que nunca será esquecida.

O encontro deixou-me abalado. É violento, quando estamos placidamente a visitar o nosso passado, e sem aviso o passado transforma-me em presente, e tudo se confunde, deixa de fazer sentido. As referências ficam invertidas, há uma intrusão, um choque de mundos. É como passear por um museu e num instante os figurinos e tudo o resto ganhar vida.

Nós, há muitos, muitos anos atrás

Nós, há muitos, muitos anos atrás

Durante um par de quilómetros caminhei distraidamente, de forma automatizada, sem mais nada ver e com o pensamento desordenado, fazendo um esforço para repôr as coisas nos seus lugares naturais. Acho que não o consegui, nem mesmo à medida que encontrava as caches Avião vai, Avião vem…, L.N.E.C., Parque Desportivo São João Brito e Antigas Instalações Emissora Nacional/RDP. a caminho de casa. Foi preciso chegar a noite, e os sonhos, para a mente reganhar alguma ordem e acordar no dia seguinte, já com o passado que na véspera se tinha transformado em presente de novo na sua posição devida… lá está, a de passado, mesmo que um passado com apenas umas horas de distância.

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Quando o António me disse que estava a tratar de criar uma multi-cache para cada um dos seis percursos PR (Pequena Rota) existentes no segmento do concelho de Tavira da Serra do Caldeirão, soube desde logo que tinha ali entretenimento garantido. Apesar de não ser grande fã do que quer que a serra algarvia tenha para dar ao caminhante, fiquei logo entusiasmado com a prometida proximidade de seis caches envolvendo umas boas passeatas a pé. Depois, foi esperar, com paciência… primeiro que fosse feito o trabalho de “owner”, depois, pela publicação. E, finalmente, no dia 19 de Janeiro de 2013, ficaram disponíveis essas seis caches, mais uma, de bónus, para quem completasse a série.

Esperei pela melhor ocasião para sair à descoberta da primeira destas caches. E foi logo no dia 23. O dia estava ideal para caminhadas, o tédio atacava… montei-me na moto 4 e venci os 9 km que me separavam do ponto inicial, não do PR 12, mas do PR 10. Contudo, tudo correu mal. A sinalização do percurso é quase inexistente, e, sem o track fornecido pelo owner, que não levava comigo, só por milagre se terminaria este PR. Depois, um infeliz erro na inserção das coordenadas de um waypoint (já corrigido pelo owner) fez-me desviar do que era devido e deixou-me confuso. Acabei por abandonar o passeio quando vi que após 2 km num volteio desnecessário estava de regresso à aldeia e à estrada nacional. Boa oportunidade de me pôr a andar dali para fora.

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E pronto, chegou a altura de uma segunda incursão, que, como se verá, se veio a revelar bem mais sucedida. Não com a ajuda dos (i)responsáveis pelo PR, porque as marcações do PR12 são apenas marginalmente melhores do que as do PR10. Logo a 200 m do início, primeira encruzilhada com três opções… marcação? Nada. Desta vez venho prevenido com o track fornecido pelo owner, de forma que sei por onde seguir. Mais à frente, nova encruzilhada sem marcação, e de novo o GPS está lá para me apontar a escolha certa. Mas não é este o conceito de um PR, pois não? Ainda me ocorreu que nessas encruzilhadas existissem setas de direcção feitas em madeira que pudessem ter sido consumidas pelo fogo que andou por esta região no Verão passado… mas não… ambas as encruzilhadas parecem ter sido poupadas. Já mais à frente, marcações em locais totalmente desnecessários, à beira da estrada, onde não existem hipóteses de confusão.

Mas voltemos ao principio das coisas. O cachemobile ficou umas centenas de metros à frente do ponto de início da multi-cache e ficou muito bem. Junto ao lavadouro que afinal é o último ponto de recolha de dados. O passeio começou bem.O dia estava de novo excelente para a práctica da caminhada, apesar de uma manhã (e de uma véspera) muitoooo ventosa. Temperatura amena, sol brilhante, a encher de cor a paisagem envolvente, nesta altura do ano dominada pelo verde. O curso de água que em boa parte do trajecto corre ao lado do caminhante ia bem alegre, animado pelas chuvas generosas que têm caido. No início estava um pouco preocupado: um GIF animado na listing da cache teimava em fazer crashar o Garmin Oregon (já retirado pelo owner) e sabia que necessitaria do tablet para consultar tudo o que era necessário consultar. E neste momento, digo: Ainda bem que a primeira encruzilhada não tinha marcações, porque ao procurar o tablet para esclarecer uma dúvida dei por falta dele… tinha ficado no carro… felizmente que descobri quando ainda só estava a 250 m do meu ponto inicial. Toma, mais 500 m nas pernas.

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Depois, o passeio fez-se. Sem grandes desníveis, rolava-se facilmente por um estradão de terra batida bem compactada. Muita passarada, a tomar o Inverno pela Primavera, em alegre chilreio. À musica dessas aves, juntava-se o som constante da água cristalina (e isto não é uma figura de estilo… a água era mesmo cristalina) do ribeiro ali mesmo ao lado. Chegou-se ao lugar do Curral da Pedra. Um aglomerado de casas que me chamou a atenção pela excelente condição da sua maioria… não vi uma só pessoa enquanto o atravessei, mas fiquei com a impressão que uma boa parte daquelas casas pertence a estrangeiros que ali encontraram um porto seguro. De um lugar ali, perdido, esperaria ver abandono e ruínas, mas não é nada disso que se passa em Curral da Pedra.

O fim já não está longe. São mais 2 km. Mas antes há ainda que vencer uma súbida com alguma inclinação. A partir daí, é sempre a descer, até à encruzilhada já conhecida, onde tudo começou. E logo à frente, o carro. Mau! As contas não batiam certas. A fórmula de verificação recusava-se a colaborar. Telefonema para o owner, e uma nabice minha ficou a descoberto. Merecia regressar com um DNF, para não ser tão tapadinho. Mas lá se refizeram as contas. E, coincidência, a cache está precisamente a 22 m do ponto onde parei o carro. E fi-lo ali porque foi apenas ali que consegui ter sinal de rede no telemóvel. Encontrada!

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Em suma, um pedacinho de tarde muito bem passada – foram cerca de duas horas e meia. Como mais alguém escrev eu no log desta cache, que bom que o António teve a coragem de se afastar da fórmula ordinária do power trail e optou por multi-caches, que trarão até aqui quem efectivamente quiser caminhar e usufruir da natureza. Os galifões que precisam do aliciamento dos números para mexer as pernas ficarão à distância, e ainda bem. No que toca a logs de visitas, bem se pode aplicar a velha máxima… “mais valem poucos e bons”.

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12 e 13 de Junho de 2011

Este artigo é dedicado ao meu amigo Gustavo Prodrive, que faz anos no dia da sua publicação. Tá a ficar velho o gajo, mas é um puto.

Passar o tempo em Portugal numa região com pouca animação “geocachiana” é uma estopada. As caixinhas estão basicamente todasencontradas, e quando surgem umas quantas novas, há que as racionar, consumir com cautela, mas mesmo assim chega a altura em que nada há para fazer num raio de várias dezenas de quilómetros.  E é nesses momentos de desespero que nascem as “tours”. Ora por esta altura do ano, quando a queda de chuva não é esperada e as temperaturas sobem, foi tempo de juntar dois “hobbies”: cachar e andar de moto 4. Desafiámos uma equipa de Geocachers, os Pancinhas, e um amigo que nada tem a ver com o jogo mas é maluco por moto 4. Três viaturas, cinco pessoas.

Como os Pancinhas são de Beja, arrancámos apenas nós e o nosso amigo a partir do Algarve. Eram 17 horas e o plano previa a pernoita no nosso moinho de vento, um pouco antes de Almodôvar. Mas a viagem fez-se a tão bom ritmo, mesmo com duas paragens para caches, que acabámos por decidir prosseguir até Beja onde chegámos já de noite. Antes de prosseguir a narrativa, um destaque para a cache Contador de água em Entradas, que muito agradou. O local é idílico, e aquela hora, com o sol mesmo a desaparecer no horizonte, a luz alaranjada a pintar daquela cor quente toda a paisagem alentejana, numa harmonia completa com as temperaturas atmosféricas que se fizeram sentir durante o dia… as andorinhas a rasar o espelho de água, desedentando-se com habilidade, recolhendo o precioso líquido em pleno vôo. E para melhorar o cenário, só mesmo encontrar uma cache descomplicada, que nos saltou para as mãos em menos de nada. Depois, foi sair dali para fora, com pena, antes dos locais começarem a nutrir demasiada curiosidade por aquele conjunto de máquinas diabólicas, que tinham passado bem defronte dos seus narizes.

Chegados a Beja fomos convidados pelos Pancinhas para um agradável jantar, a que se seguiu uma pequena cachada a pé pela cidade, antes de nos recolhermos, em busca de um necessário descanso antes do início da aventura a sério.

O dia começou como acabou o anterior: a procurar umas quantas caches urbanas em Beja, todas encontradas sem dificuldades de maior, quase todas bem colocadas, quase todas em locais interessantes. Depois, atravessar o Guadiana, passar por Serpa, mais um par de caches antes de iniciar o “power trail” Ramal Moura-Pias. Esta série de nove caches andava-me a piscar o olho há que séculos. Mas é tão fora de mão para mim (e para a maioria dos jogadores, diga-se de passagem). Hoje estava perto, as constelações alinhavam-se, os augúrios era positivos…  só que a tentativa de chegar à primeira de nove destruiu as ilusões: atingir o ponto zero foi o cabo dos trabalhos, mesmo de moto 4… e no local, procurada a cache por quatro pessoas durante tempo demais, e nada apareceu… decidi cancelar esta extensão da expedição. Foi assim que Moura foi riscada do nosso mapa para estes dias, assim como as desejadas 9 do Ramal Pias-Moura.


Foi então hora de tomar contacto com um dos dois pratos principais desta expedição: a letterbox Rio Grande do Sul. Esta aventura, organizada pelo ajsa (& Golfinha) vai buscar o conceito de “roadbook”, uma série de páginas com indicações detalhadas de um percurso a seguir, com viragens, pontes e outros elementos marcados com as distâncias quilométricas entre si. Ao longo do trajecto idealizado, vamos encontrar algumas caches acessíveis a todos, mas a maior parte das dez caches que estão integradas na “prova” só se tornam acessíveis a quem percorrer as suas diversas etapas.

Tinha previsto concluir esta complexa tarefa no final do primeiro dia, mas as coisas foram-se atrasando (são 55 km, maioritariamente em estradões de terra batida, com um tempo de conclusão previsto de 3:30 horas – isto não contando com as paragens para as caches e para apreciar a paisagem e detalhes que vão sendo descobertos à medida que se avança). Antes de mais, uma nota informativa para candidatos: fazer isto num veículo ligeiro ronda o impossível, e decididamente a tentativa deverá ser reservada a quem se estiver a borrifar para a saúde do seu quatro rodas rasteiro. Há mais alguns problemas a referir: nenhuma das nossas três viaturas concorda com as distâncias medidas pelo owner aquando da preparação do percurso, e logo no primeiro curto trajecto se sentiu uma diferença de 25% (as nossas motas marcaram mais 25% do que o indicado). A partir dai as distâncias mencionadas no roadbook passaram a ser meramente indicativas, e tive que me concentrar nos aspectos descritivos. Complicou-se.




As etapas foram sendo percorridas, com dúvida aqui e acolá (logo no início o nome da quinta está mal indicada no roadbook, o que pode causar alguma confusão), indicando-nos o caminho a percorrer, o que fizémos com grande deleite. Não é fácil para os adeptos destes “raids” encontrar trajectos coerentes e contínuos, afastados do asfalto. Assim, foi uma maravilha ganhar a um só tempo um fio director para uma passeata deste tipo, e, ao mesmo tempo, ter um número razoável de caches para encontrar.

A presença do Guadiana é quase uma constante, sobretudo no que diz respeito aos locais das caches. Entre elas, os caminhos tendem a afastar-se do grande rio, levando-nos a passar junto a “montes” e pequenas aldeias, a cruzar vaus e pontes, a conhecer misteriosos moinhos de água e outros edíficios que foram importantes para alguém um dia.

O dia aproximava-se do fim, e era necessário começar a pensar onde montar o acampamento. Olhos bem abertos para os locais mais prometedores quando… chegamos ao fim da etapa 5 e apercebemo-nos quão perto estamos do ponto de partida, bem junto à ponte que cruza o rio, de Beja para Serpa (ou vice-versa). Tivemos ainda tempo para concluir a pequena etapa complementar, chamada de Radical, mas nada Radical para quem estava a usar moto 4. A zona era aliás já cohecida, visitada, há muitos anos, para encontrar uma outra cache que por essa altura ali existia.


Ora estava na altura crítica: era mesmo preciso montar as tendas antes que a luz do dia se extinguisse por completo. Mas estávamos tão perto da civilização que era desencoranjante, e, de certa forma, perigoso. Adormecer ao som dos camiões a cruzarem a ponte sobre o Guadiana não era propriamente o meu ideal de uma noite diferente na natureza. Acabámos por optar por uma solução de compromisso: Parque de Campismo de Serpa. Não sei se no final de contas foi uma escolha satisfatória ou não: aguardava com ansiedade esta noite de campismo, só nós, as motas e a natureza, na melhor das harmonias, tão a ver, assim como se vê nos filmes… mas as coisas acabaram por ser diferentes, e não houve apenas desvantagens na ida ao parque de campismo.

Depois dos mais lavadinhos tomarem os seus duches fomos dar uma volta pela localidade. Já ali tinha estado há uns anos, na minha primeira expedição de moto 4 a maior distância, na altura a solo. E tinha gostado de Serpa, das suas ruazinhas intimistas, do seu castelo, do aqueduto, enfim, de toda a atmosfera. Desta vez foi um pouco diferente: éramos mais, e além disso havia festa. Na praça central um enorme palco, e para o serão, música mexicana. Deliciámo-nos durante algum tempo com a artista que actuava, e depois acabámos a noite com bebidas frescas numa esplanada mais recatada, fora do centro.

De manhã relativamente cedo, as tarefas esperadas: desmontar tendas, enrolar sacos cama, acomodar tudo nas grelhas das máquinas. Depois, o café da manhã. Não para mim, que não bebo tal coisa, mas as queijadas de requeijão que fui descobrir, ah credo, aquilo foi uma barrigada… duas logo na altura,  mais quatro para levar. Ainda hoje fico a salivar quando aqueles deliciosos bolos me vêm à ideia.

Terminadas as formalidades matinais, seguimos directamente para onde tinhamos deixado o percurso na véspera. Mas as coisas começaram a correr mal pouco depois: é verdade que encontrámos o local ideal para acampar… tivéssemos nós arriscado mais um pouco e procedido para a etapa seguinte e a noite teria sido muito diferente, bem na natureza, longe de cafés e duches e de todas essas modernidades. Mas mais não encontrámos: entre a etapa 7 e a 8 tudo descarrilou! O ponto 9 da etapa 7 foi o último a ser encontrado com certeza… daí para a frente nada mais fez sentido. Encontrámos a cache que fechava essa etapa, mas sem qualquer ideia de onde iniciar a 8… e assim perdemos a Rio Grande do Sul, apesar de com algum discernimento termos conseguido apanhar a lógica do percurso mais à frente, ganhando acesso à cache bónus. Éramos cinco cabeças a tentar resolver a etapa 7 mas nenhum de nós conseguiu interpretar o roadbook.

Concluída a Rio Grande do Sul sem grande glória, seguimos directamente para a segunda aventura que o ajsa (& Golfinha) nos disponibilizaram para este grande fim-de-semana: Safari Guadiana. De permeio, uma complicada cache em Cabeça Gorda (Flora Alentejana – O Sobreiro); não que esta tenha algo de errado… mas foi tramado para lá chegar, o suficiente para desistir das outras duas caches em redor da mesma localidade, porque se o tempo se continuasse a gastar aquele ritmo, quando saísse de lá já não teriamos tempo de concluir a segunda aventura antes do fim-de-semana terminar.


Se a Rio Grande do Sul tinha sido muito apreciada, este segundo projecto do mesmo “owner” bateu todas as marcas. O método aplicado é completamente diferente. Para o Safari Guadiana não é necessário seguir um “roadbook”, mas é preciso usar um “track” feito de “waypoints”, e é a partir da numeração desses “waypoints” que o geocacher vai ganhando acesso às coordenadas das sucessivas caches. Ora isto não é só uma excelente forma de ir providenciando coordenadas finais, de forma clara e descomplicada… resulta também mais divertido do que o roadbook, para mim, claro, mas creio que objectivamente o é: com um roadbook nas mãos o prazer em explorar este Alentejo desconhecido dilui-se na necessidade de interpretar a cada momento as indicações impressas. Depois, existe uma nota de stress introduzida na aventura, o medo de falhar uma saída, de não compreender uma passagem (como aliás veio a suceder, tal como narrado acima)… é preciso manter um olho no conta quilómetros, outro nas páginas… e entretanto, conduzir. Com tudo isto senti que não aproveitei da melhor forma os percursos oferecidos. Já o Safari Guadiana oferece um cenário precisamente oposto… com o caminho a seguir pespegado em frente do nariz, pude apreciar todo o percurso, sentir os aroma quentes das estevas detectar os movimentos furtivos das aves de rapina. Por outro lado também preferi o circuito não circular. Compreendo perfeitamente as vantagens de um circuito circular, mas a mim resultou algo frustrante vencer barreiras durante todo o dia, rabinho duramente massajado, braços cansados… e chegar ao fim da jornada e dar comigo basicamente no mesmo sítio. O Safari Guadiana confere uma sensação de “viagem” que resultou melhor.

Da série de oito caches desta aventura, falhámos uma, manifestamente complicada, conforme está aliás expresso na classificação do nível de dificuldade. Eventualmente tê-la-iamos encontrado, mas o dia aproximava-se do fim, e era ainda uma longa viagem até casa, que seria feita já de noite. Todas as outras foram achadas sem problemas, em locais preciosos, num percurso excelente que nos agradou a todos. Terminado já muito perto de Mértola, foi com algum gosto que senti de novo o asfalto rolar debaixo das quatro rodas da mota. Mas estava cansado. Foram 800 km em dois dias e meio. Acabámos por pernoitar em Almodôvar, em casa de familiares, e seguir muito cedo para o Algarve, já no dia seguinte, mas com novas forças.

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Sábado, 6 de Novembro de 2010. Os astros estavam perfeitamente alinhados, deixando desde logo antever um excelente dia para a prática de Geocaching. Senão, vejamos: o céu azul conjugado com uma temperatura na ordem dos vinte graus prometia o clima ideal; um conjunto de sete caches para serem encontradas numa linha imaginária que se estendia entre Olhão e Tavira prometia um número bem balançado de “achamentos”, com tempo para deslocações despreocupadas, para apreciar os locais nas calmas, para posteriormente escrever “logs” descritivos e até, imagine-se, para colocar algumas fotografias da expedição. Além disso, no pacote, estava incluído um passeio de barco pela ria Formosa, necessário para duas das caches no alinhamento.

Optámos por começar pelo ponto mais afastado, um pouco para além de Tavira: Vale Caranguejo (Tavira). Dizer o quê… não quero magoar os sentimentos de ninguém, mas recuso-me a abdicar do direito à indignação com a quebra de critérios para a criação de uma cache. Esta, está colocada numa área residencial. Sem mais. E bem acompanhada de uma série de logs clássicos, cheios de floreados e de nada, com a falta de honestidade de uma sociedade onde as aparências se tornaram rainhas. Mesmo assim, não foi caso para me estragar o bom humor para o dia. Quatro-Águas foi a paragem seguinte, e se a primeira visita tinha sido decepcionante, esta foi uma agradável surpresa. Pelo menos de forma parcial. Isto porque sabia desde logo que Quatro Águas era um local merecedor de uma cache, a prova viva de que ainda existem pontos virgens à espera do seu contentor. É aqui que se apanha o barco para a ilha de Tavira, e no passado foi parte da minha vida. Faz agora 12 ou 13 anos que passei uns belos dias ali acampado, partilhando da atmosfera única que se vive na “ilha” nas noites quentes de Verão. Será talvez a sensação de isolamento que cria um ambiente especial, onde as pessoas se sentem parte de uma comunidade especial: os que lá estão. Portanto, depois de um engano induzido pelo TomTom, que me levou para a outra margem, chegámos à área. Estranhei o elevado número de carros ali parqueado, porque não esperava que nesta altura do ano existisse serviço de barco, mas a verdade é que este estava activo, e certamente que do lado de lá, na ilha, muita gente passava momentos agradáveis. Perto da cache, uma esplanada sobranceira oferecia aos seus ocupantes um momento único. Um casal bebericava as suas cervejas com gosto e por um segundo invejei-os. Apetecia-me ficar por ali, mas não podia mesmo, tinha um encontro marcado em Olhão. Assim, fui-me à cache. Encontrada de imediato no ponto exacto indicado pelo GPSr, criada com muita imaginação, não para tramar o Geocacher que a procure, mas para garantir que está ao abrigo do achamento casual por parte da “mugglaria”. Como deve ser.

Deixando Tavira para trás, chegámos à próxima cache do plano, ARROIO’s Park. Bem, eu não criaria aqui uma cache. Diz que é um parque de merendas. Talvez seja, mesmo que tenha dificuldade em compreender quem ali vá fazer um piquenique. Os locais certamente encontrarão 1001 pontos mais aliciantes, e os viajantes que poderiam precisar de parar nesta espécie de área de descanso da E125 dificilmente se aperceberão da sua existência. Mas se o sítio foi quase tão decepcionante como o primeiro do dia, o contentor valeu a visita.

Antes do prato forte do dia, uma paragem no Auditório Municipal de Olhão. Já tinha aqui vindo encontrar uma, creio que no ano passado, cache essa que obviamente terá sido arquivada. O que me fez pensar sobre estas coisas: a precariedade com que demasiados indivíduos entram no Geocaching, largam umas quantas caches, aborrecem-se, abandonam-as ou arquivam-as… num ciclo que começa a aborrecer. Há locais onde já fui três vezes para encontrar contentores mais ou menos no mesmo sítio. E, compreendendo que nada me obriga a lá ir, não posso deixar de ter um pensamento negativo para esta situação. Quanto à caixinha em questão, bem escondida, deu bastante trabalho, mas acabou por ser apanhada, apesar de alguma actividade “muggle”, com alguns deles demasiado interessados no que ali se passava.

Estávamos agora algo adiantados para o encontro no porto de Olhão. Deu tempo para comer uma sandes mista, bem aviada, e para beber uma lata de Coca-Cola, fresquinha como se exige, na esplanada do Clube Náutico, com vista para as embarcações ali baseadas. E então, com calma, fomos até ao nosso barco, esperar pelos meus “sogros”. Chegados estes, levou ainda um bom tempo até que a embarcação pudesse navegar… marinheiros principiantes, a precisar de rodagem. Mas a espera valeu bem a pena. A água da ria estava como o dia: serena, ideal para o passeio… e com a maré bem cheia ganhavam uma grandiosidade adicional. Chegar ao ponto zero da Passeio pela Ria Formosa foi das coisas mais fáceis da minha vida de Geocacher. Afinal, foi a concretização de um velho sonho, o de poder percorrer as distâncias em linha recta, como os pássaros… só que à superfície da água. Chegados ao local ainda foi preciso olhar e tornar a olhar até detectar a caixinha, e acabou por ser o “sogro”, que já antes tinha dado provas de uma vocação reprimida, a avistá-la. Divertido.

Finalmente, o desembarque, ao melhor estilo “fuzileiros navais”. A Ilha Perdida era o objectivo. E a pouco mais de cem metros do ponto de acostagem, foi “canja”. Caminhar pelas dunas até ela, e avistá-la de imediato. A ausência de instrumento de escrita ainda obrigou a uns passos adicionais até ao barco. O que não chateou nada, considerando a beleza do local neste maravilhoso final de tarde. Estava o log a ser terminado quanndo uma embarcação se detém mesmo ao lado da nossa e despeja uma pequena multidão de turistas. Foi a caixa reposta à pressa, com alguma preocupação com os “muggles”. mas sem necessidade. Estes estavam concentrados na sua caminhada perpendicular em direcção ao mar. E com isto, sem querer, assinei dois FTF’s, que gostaria de ter deixado para os maluquinhos da coisa, apesar de no Algarve a demência de outras paragens não ter ainda chegado.

E assim terminou uma magnífica jornada de “Geocaching”, um pouco encurtada pelo final abrupto do dia que se adivinhava com o sol já baixo. Porque estava prevista uma visita  a Longe de tudo ou talvez não que acabou por não se verificar.

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A alvorada foi literal. O sol acabava de nascer quando abri os olhos e fui de imediato agraciado com o espectáculo inesquécivel do imenso laranja que cobria em toda a sua extensão a albufeira de Alqueva. Levantar o arraial da noite foi rápido, e ainda os galos de uma quinta distante anunciavam o novo dia, já nós rodávamos em direcção à primeira cache do dia.

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Assim num repente “limpámos” as caches que me restavam encontrar naquelas orlas das águas da barragem: Struthio camelus [Alqueva], Grupo de Forcados [Amieira] e Marina da Amieira [Portel]. Já Miradouro do Monte [Amieira] resultou num DNF, esperado à partida, mas que se veio a revelar frustrante conforme explicarei mais à frente. A primeira série de caches da manhã ofereceram-nos perspectivas distintas deste mundo que é a albufeira do Alqueva. Em todos os seus braços e extensões encerram-se dezenas de pequenas comunidades, recantos maravilhosos, paisagens de sonho. Já rodei durante quilómetros e quilómetros em seu redor, já visitei castelos, corri sobre pontes e encontrei aldeias artificiais. E sei que estou longe de esgotar tudo o que a região do Alqueva tem a mostrar a um viandante. Ficarei a aguardar novas caches, essas incansáveis guias do ignorante forasteiro. Em busca destas três caches, mais da que ficou por achar, impressionou-me o número e variedade de cabeças de gado espalhadas pelos campos. Aquilo eram porcos e bodes, ovelhas e vacas, touros e cabras. Sobre as caches, individualmente, senti-me intrigado pela da marina por duas razões distintas: que vida tem aquela porto de águas doces, fruto de um investimento que se sente avultado, vazia às dez horas da manhã de um Sábado de sol resplandecente…? Quem são os seus clientes, como consegue subsistir pelo pobre volume de negócios que despudoradamente mostra a quem lá se desloca? Ali, perdida no meio do nada, um carro parado, provavelmente propriedade do funcionário de serviço… Depois, tal como na noite anterior, foi o achamento de uma cache repetidamente dada como desaparecida pelos Geocachers anteriores, e, da mesma forma, achada imediatamente, colocada de forma simples no rigor das coordenadas indicadas. Como é possível?

De saída do Amial, a tal cache não encontrada. Também com uma série de DNF’s prévios. E desta vez não aconteceu um milagre. Exactamente no indubitável ponto zero, um espaço mesmo à medida de um tupperware, à sombra de uma pequena rocha… vazio. Pronto. Procurou-se por mais um pouco, sem grande convicção, tamanha era a evidência encontrada e o número sem fim de esconderijos possíveis num perímetro mais alargado. E de partida fomos. Veio-se a saber mais tarde que o owner tinha reposto a cache cujo desaparecimento tinha de facto justificado alguns dos DNF’s iniciais, mas não os últimos. E foram relidas duas velhas lições que qualquer Geocacher deveria conhecer:

  1. O facto de encontrarmos aquilo que pensamos serem vestígios de uma cache desaparecida não significa nada e não deverá interferir com a nossa atitude na procura. Aprendi isto há já muito tempo, e revejo de tempos a tempos em logs lidos ao caso o erro repetido geração após geração de Geocachers.
  2. A existência de uma série de DNF’s anteriores têm o valor que têm, e que por vezes é nulo como demonstram os nossos achamentos de três caches nessa situação nas últimas doze horas.

E pronto. Seguia-se Barragens dos Álamos (I,II,III) [Amieira-Portel]. Mais lições a salientar:

  1. As barragens são umas cabras. De um dia para o outro fazem desaparecer estradas, planícies, acessos.
  2. Quem não sabe disso são os auxiliares do geocacher. TomTom e Google Earth. Ambos a induzir em erro. Um, a mandar por caminhos que já não existem, o outro a mostrar uma realidade que deixou de ser há pelo menos um par de anos.

E com isto queimámos um bom número de litros de gasóleo e quase um par de horas. Foi enervante sim senhora. E frustrante. Mas diga-se que esses sentimentos negativos só serviram para realçar a alegria de sentir que finalmente tinhamos encontrado o caminho certo. O problema, que não se veio a confirmar, era já outro: se encontrámos o acesso por tentativas, depois de muitos para trás e para a frente, como é que iamos sair dali, já que os auxiliares electrónicos estavam assumidamente perdidos? Felizmente a coisa revelou-se pacífica, e passámos à próxima cache depois de facilmente encontrarmos esta.

Foi uma longa tirada de 50 km. A paisagem mudou. Deixámos para trás as vastas planícies e as imponentes barragens. O terreno tornou-se mais acidentado. Quase de passagem, fomos à Lucefécit. Ficará para sempre como a cache dos coelhos, tamanho era o número daqueles animais que pululavam para todos os lados quando chegámos ao ponto final. Decididamente esta cache encontra-se na praça central da cidade dos coelhos. E, por acaso, ainda deu algum trabalho. Por mera falta de sorte. De todos os possíveis pontos, calhou que aquele que escondia a caixa foi o último a ser verificado.

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Explorámos em seguida a área de Borba e Vila Viçosa – BAT04 – Batalha De Montes Claros – Borba, Ermida Nª Sra de Vitória -Barro Branco- Borba, Glória, BH39 No Reino do Vinho e do Mármore [Borba], Aldeia de Ciladas, Museu do Mármore – Vila Viçosa, A View To The East [Elvas].

A primeira; nada a ver, excepto um padrão comemorativo. Nem a batalha pude sentir, com os seus terrenos cortados pela estrada, onde os carros passavam céleres, como que zombando dos cavalos seus antepassados, que, quiçá, naquele mesmo local foram veículos de esventramentos e decapitações, o relinchar substituido pelo roncar discreto dos motores e as espadas trocadas pelos volantes.

A segunda; uma obra que rasga o pavimento alcatroado sem mais. Quem quiser passar que o faça a pé. Felizmente o destino era mesmo ali à frente, que se apoquentem os que querem ir mais adiante. Da ermida pouco se pode ver. Dá a sensação que se tornou casa de habitação. O que é certo é que alberga um muggle, curioso, claro. Quis a sorte que outro muggle viesse a passar, e que ambos se entretessem milagrosamente um com o outro e ainda comigo, enquanto o companheiro de tour aproveitava a aberta para tratar do “negócio”. Nos entrementes fiquei a saber que o marco de pedra ali defronte, semelhante nas aparências um marco geodésico primordial, servia de ponto de orientação às tropas que noutros tempos aqui se concentravam, numa área “quente”, frente a frente com o inimigo de tempos de guerra e de paz. O espanhol, que rondava, espreitava uma aberta para ameaçar a soberania Portuguesa e vergar este povo à semelhança do que logrou fazer com catalães, galegos, bascos.

A terceira; um pequeno cantinho de Portugal, sem nada de especial para além de muita harmonia e sossego.

A quarta; uma pesadelo de condução em Borba. Divertida, interessante. Mas a segunda prova… isso não se faz! Valeu o segundo elemento do tour, porque por mim tinha-me vindo embora de mãos a abanar. Fica para o registo que mais uma vez o Geocaching cumpriu uma das suas missões primordiais. Nunca tinha vindo a Borba, e não fosse o jogo provavelmente morreria nesse estado. Assim, passei por aquelas ruas, observei os detalhes, apreciei uma forma de vida urbana tão diferente da de outras partes de Portugal. Por fim, acabámos a cache num pedaço lindissimo, incomodados por um estranho muggle. Mas eu conto os detalhes: assim que saimos do asfalto e tomámos o curto troço de terra batida que levava à cache, um homem já de certa idade que ia pela estrada acima, inverteu logo a marcha e veio até nós. Os cumprimentos foram trocados, mas nada mais. Ali estava ele, a rondar, a seguir-nos. Separámo-nos para iludir o predador, e assim, depois de muita manobra, foi possível encontrar a cache. Mas a alma penada não descolava. Acabei por o ignorar o melhor que pude, disparei dezenas de vezes a máquina fotográfica. E já a sairmos o Vespas apresentou a sua tese que depois de um momento de reflexão me pareceu adequada: aquilo ali deve ser local de engate e o indíviduo vinha à procura de qualquer coisa. Não levou muito.

A quinta; um espectáculo! O que dizer da visão de duas carcaças arquitectónicas, jazendo lado a lado, à beira da estrada? Uma igreja e uma escola primária do Estado Novo. Ali se juntaria a comunidade proveniente dos lugarejos inomináveis das redondezas, com todo o sentido: os petizes iam à escola, os mais velhos cumpriam os seus deveres religiosos. Eram outros tempos, e como entes do antigamente, à falta de cemitério para estas coisas, ficaram por ali, aquela igreja e aquela escola, para deleite dos que vêm de longe, olhos postos numa seta e num contador de distância.

A sexta; uma estação de caminhos-de-ferro desactivada que foi reabilitada e alberga hoje, orgulhosamente, o Museu do Mármore. A exposição não vi nem poderia ver. Nem gosto de museus, nem estava aberta. Mas o envolvimento é uma agradável surpresa, não só pela recuperação já citada como pelas peças deixadas no espaço exterior, usado como fiel depositário daquelas volumosas testemunhas do passado, maquinaria que teve o seu tempo de glória e que contudo é ainda capaz de arrancar um sorriso dos… que vêm de longe, olhos postos numa seta e num contador de distância.

A sétima; mais um momento alto. Se mais não houvesse, uma capela (ou ermida, ou igreja – nunca aprendi as diferenças) com vista para o rio seria já o motivo para uma cache ali plantada e respectiva deslocação. Mas não, aquilo era apenas um frugal aperitivo comparado com o prato principal. Que dizer do impacto súbito, assim que o carro atinge o cume? Uma ponte centenária, de vários séculos, estropiada pela mão assassina do Espanhol, jaz ainda no lugar onde se estendia quando era nova e cumpria as funções para que tinha nascido. Quebrada no seu ponto mais vulnerável, bem no centro da travessia. Um monumento tão majestoso quanto inesperado. Apenas imagens poderão fazer justiça ao que ali foi visto, e não as que tirei, que nem tinha equipamento nem engenho para registar nos pixels aquilo que os olhos viam. Quanto à cache, uma aventura… não encontrávamos! Anda para trás, para a frente… procura em cima, procura em baixo. Verificar as coordenadas… não temos! Só mesmo as do GPSr. Telefonar… não podemos! Não há rede. Por fim foi encontrada, um achamento filho bastardo da sorte, tendo como pai o empenhamento. A mais de 20 metros do que pensávamos serem as coordenadas.

A próxima paragem era Elvas, onde se abrigavam cinco ou seis caches à espera de serem encontradas. Mas fizemos uma. Por enquanto. É que ficou decidido que assim como assim, já que estávamos ali tão perto, iamos a Badajoz e já vinhamos. Na Forte de Santa Luzia [Elvas], que fizemos num pulinho, li um dos logs mais curiosos de sempre, que não resisto a transcrever:

Não gostamos do caminho para a cache. Estava muito calor e a vegetação insistia em roçar nas pernas…nada agradável. Pelo que desistimos de procurar!

Ainda com o riso a morrer, foi cantar “Ó Elvas Ó Elvas, Badajoz à Vista” (que saudades daqueles tempos agitados de 1975…) e ir para onde os nossos olhos apontavam.  Badajoz não teve muita história. Foi mesmo para “picar o ponto”.  El puente de Cantillana foi a primeira e porventura a mais agradável. Pontes paralelas com histórias diferentes são sempre interessantes. Depois, Alcazaba [Badajoz], debaixo de um avassalador calor. E de seguida, as três do parque de Tres Arroyos (Parque de Tres Arroyos, 3 Arroyos – Ermita de San Isidro e 3 Arroyos – Mirador de Badajoz). De seguida, o regresso à Pátria, e ainda a Elvas.

Enquanto o Vespas se dessendetava numa tasca ali ao lado, fui à Elvas – Railroad Station. Foi tão ou tão pouco complicada que ainda o GPS não tinha ganho sinal já eu estava a recolocar a cache no seu esconderijo depois de assinar o logbook. Em Forte da Graça – Elvas levei o companheiro ao desespero. Ele bem queria ir embora, mas eu, quando encontro locais abandonados, não largo tão facilmente. E este, dentro do género, era bem mais interessante que a média. Ao subir em direcção ao forte cruzámo-nos com um carro civil conduzido por um militar que nos deitou um mau olhado. Tudo bem. Mais à frente vimos sinais de trânsito que proibiam a passagem a viaturas civis… mas aquilo parecia tão calcinado que, juntando à informação existente no texto da cache, decidimos prosseguir, e acabámos por parar à entrada do forte. Dali foi achar a cache, mas em boa hora decidi espreitar o portão entreaberto… ah! Então pode-se entrar! E está abandonado. Pelo menos o primeiro recinto, que mais acima se ergue, imponente, aquilo que parece ter sido a casa do comando, um palacete erigido no topo. Impedido de satisfazer a curiosidade na totalidade, explorei sequiosamente todos os compartimentos daquele sector franco. Ficou-me na retina aquilo que parecia ser a antiga messe… um bar, uma lareira, um espaço que deveria ter mesas nos seus tempos aúreos. Percorri as muralhas – apesar de imaginar que exista um nome mais correcto, visto que longe iam os tempos dos castelos e ameias quando esta estrutura foi erguida. Apreciei a vista que se disfruta daquele ponto elevado, mas o interior manteve-se mais chamativo e ainda consegui dar mais umas voltas antes do Vespas começar a apitar, lá fora, já roido até ao limite pela impaciência.

BAT02 – Batalha das Linhas de Elvas não cativou. Marca o campo de batalha e é tudo. A verdade é que não se sentem os fantasmas desse passado glorioso no local. A envolvência terá mudado bastante nestes últimos séculos, porque parece apenas um pedaço menos interessante de terra. O Aqueduto da Amoreira – Elvas já há um bom bocado que me andava a intrigar, pois onde quer que fossemos, tinhamos vista para ele. E esta cache veio em boa hora para nos proporcionar uma observação de perto. Por fim, para encerrar o capítulo “Elvas”, fomos a Fortificações – Projecto Alentejo [Elvas]. O bizarro é que o visitante pensa estar a subir para o castelo, e espera encontrar a qualquer momento um parque de estacionamento para a partir dai progredir a pé. Mas não. A calçada sobe, sobe e não pára, e nisto estamos ao pé da cache e a estrada segue. Enquanto o Vespas tratava da cache foi tentar desvendar o mistério do caminho sem fim e deparo-me com um cenário inesperado: afinal aquilo era a entrada para a cidadela, e do lado de lá do derradeiro portão, mais cidade se encontra.

Campo Maior. Para mim é desde logo associada ao saudoso Campomaiorense, clube de futebol que durante alguns anos militou na Divisão maior do nosso futebol, e que envergava as côres do meu coração. Entretanto, caiu em desgraça financeira, o Grupo Nabeiro retirou o apoio e foi o seu fim. Hoje foi dia de vir conhecer a localidade, e fiquei encantado. As pessoas com que interagi, simpáticas. As ruas, bonitas. A Coca-Cola que bebemos na esplanada da praça principal, fresquissima. As caches, encontradas.  O calor deve ter tido algo a ver com a desertificação das ruas nesta tarde quente de Sábado. Apenas alguns velhotes se sentavam em frente a suas casas, olhar perdido, talvez flutuando por outros tempos, entre memórias de momentos que não voltam e a espera do dia final, que tarda em chegar. E por ali fomos, progredindo naquelas ruas dominadas pelo branco que pretende reflectir o implacável sol que em Campo Maior parece brilhar de forma mais intensa. Numa praça secundária encontrámos Campo Mayor e junto ao castelo, Castel Cache. Terminado o “trabalho”, já à saída, parámos por uns minutos num Intermarché, para comprar o jantar improvisado que haveria de chegar mais tarde, quando montássemos o acampamento para a noite, em parte ainda por definir.

Na Barragem do Caia o Vespas banhou-se, já ao cair do dia, com o Sol bem baixo, a lamber o horizonte. E pouco depois, “Villa” Lusitano-Romana [Monforte] foi encontrada, como mera formalidade, uma vez que as ruínas se encontravam já encerradas e de fora não se via nada.

Chegada a Portalegre, cidade tristemente marcada por inúmeras caches deixadas ao abandono. Talvez tantas, ou quase, como as que foram encontradas activas. Era já noite cerrada. Apesar do plano prevêr a busca às caches de Portalegre no dia seguinte, era ainda cedo para dormir a sentiamos ainda bastante energia. E vai dai, porque não, vamos fazer mais umas quantas até se fazerem horas da deita. Devo reconhecer que não me agrada a ideia de Geocaching nocturno. Gosto de ver as coisas condignamente, e por vezes abro excepções quando conheço bem os locais, o que nem se podia aplicar a Portalegre. Mas o companheiro de viagem estava decidido e pronto, seja, uma vez não são vezes. A primeira foi o  Miradouro da Serra cuja cache deu bastante trabalho, chegando-se a pensar rubricar um DNF. Mas ao cair do pano, e já com alguns muggles  no local (ao chegarmos tinhamos o miradouro todo por nossa conta), ela acabou por se revelar. De seguida tentámos a sorte com outro miradouro, mas neste não fomos tão felizes (também, lixou-se, que no dia seguinte logo pela manhãzinha, rendeu-se). Ah! Foi o Miradouro de São Cristovão [Portalegre]. Depois saimos da cidade, com mais um par de caches sob mira e já atentos a um eventual cantinho adequado para a deita. Foi assim que chegámos à Senhora da Penha [Portalegre] e depois à One for the Road (119).  Pensámos que a Senhora dos Mártires [Crato] seria a última da noite, mas não tinhamos ainda encontrado o pouso para a noite. E então… olha… vamos ver o topo da Serra de São Mamede, há lá uma cache e a vista deve ser um espectáculo… ideal para passar a noite. E assim foi… percorremos toda a distância de volta a Portalegre, que atravessámos, e iniciámos a subida da serra, guiados pelo fiel TomTom. Tinhamos ainda interrogado uns gaiatos sobre a existência de um McDonalds na cidade – o Vespas queria enfardar e eu poderia fazer bom uso da Wi-FI Sapo – mas nada feito. Hamburgueres, só nos cafés da praça principal, diziam eles. E assim esquecemos essa variante ao plano e fomos mesmo serra acima.

O clima no topo era algo sinistro. Algumas daquelas instalações faziam ruídos – ventiladores, ares condicionados e outros equipamentos – e uma delas parecia mesmo habitada. Na torre do guarda a escuridão era absoluta e não podiamos ter a certeza de não estar a ser observados, mas como não se encontrava nenhum veículo por ali concluimos que não havia turnos nocturnos na guarida de vigia. Depois, foi encontrar a cache… e ai começou uma cena digna de filme de terror. A aqui deixou o meu log oficial contar a história:

Ao colocar a mão para a retirar começo a ouvir um som estranhissimo. Um restolhar vindo do plástico que a envolvia, como se este ganhasse vida e me ameaçasse. E quase assim era, de forma mais literal do que o imaginável. Do seu interior começaram a surgir insectos – daqueles que parecem uns micro-lacraus e a que alguns chamam de bicho-sapateiro. De início não me apercebi da extensão de do problema mas quando fui buscar um pau para tentar “manusear” aquilo, a coisa tornou-se surreal. Do seu interior jorraram – e este é o termo correcto – dezenas de milhares deles. Atrás, encontrava-se uma pelicula com pelo menos um centímetro de profundidade deles, e debaixo, então nem é bom pensar… era um “cobertor” feito de insectos. Parecia um filme de horror!!

Conseguimos sacar o saco, separá-lo do container, que com facilidade limpámos enquanto viamos com alivio que a bicharada não tinha penetrado o interior. Depois foi ir até ao carro para logar e pensar no que tinha sucedido. Impossível repôr a cache no mesmo lugar. Tivemos que a mudar ligeiramente, sem saco de plástico a envolver, cerca de 7 a 10 m.

Estava o dia concluido. Procurámos um local aberto e mais seguro, e encontrámos um estreito caminho que nos conduziu ao ponto ideal. A vista era gloriosa, quase a mesma que no topo, e milhões de estrelas brilhava. Dormir foi simples, depois de uma ceia que soube como um manjar dos deuses.

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