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Archive for the ‘Momentos Mágicos’ Category

Os Lamas da Arrábida

Esta estória passa-se algures na Arrábida, em cache cuja identidade já se desvaneceu no tempo. Mas o lugar foi ali para os lados de Setúbal, entre a cidade e a serra. A cache levou o carro por estradas menos próprias, de terra mal batida, muitos calhaus e rasgos. Por fim, a aproximação final, a pé… e, já pelo meios dos matos, a coisa de 30 metros, começo a ouvir vozes… “scchhhh…. ouço gente… que chatice, devem ser caçadores, aqui, só pode…!”. Mas não nos ficámos… continuámos a avançar, e o som de humanos à conversa intensificou-se. E a curiosidade a incitar a mais um passo, a agulha do GPS a apontar para ali, e os metros estimados a descer. Quando finalmente foi obtido contacto visual, ficou claro que não se tratavam de caçadores, só podiam ser na nossa estirpe… geocachers.

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Mas estes geocachers tinham um comportamento estranho. Em vez de esquadrinhar a área, de GPS na mão e sentidos antentos, estavam sentados bucolicamente em volta de uma toalha de piquenique e mastigavam com gosto enquanto iam falando. Se fosse a valer, a emboscada seria letal. Foram apanhados completamente desprevenidos, não diria de calças na mão, mas certamente de boca cheia. À nossa aproximação sorridente levantaram-se logo. Eram os Lamas. Perguntei se já tinham encontrado a cache. Que não, que a coisa estava complicada e então decidiram fazer uma pausa para repôr o nível energético. E foi nessa actividade que os surpreendemos.

Eventualmente o tesouro apareceu. Algo afastado do ponto zero, talvez 10 ou 12 metros, o que naquele terreno de mato denso é a morte do artista. Deu ainda bastante trabalho, mas nesse dia, mais do que a memória de mais um found ficou a imagem daqueles três mosqueteiros a banquetearem-se candidamente exactamente sobre o ponto zero.

P.S. – Após escrever o texto, fiz uma pesquisa um pouco mais cuidada e acabei por identificar a cache. Foi na The Spirit of Saint Louis, e a cena passou-se no dia 12 de Março de 2006. Até está aqui o meu log original, ainda em inglês, como era costume naquela época.

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A Voz do Céu

Nos dias que correm tudo no Geocaching se banalizou. Incluindo o encontro casual com outros geocachers. Aquilo que antes era uma festa e que inspirava longas conversas e trocas de contactos, hoje tende a resumir-se a um acenar de cabeça e adeus. Mas esta história é do antigamente, dos tempos em que não era muito frequente encontrar outros parceiros de hobby…. e passa-se na Bicas Beach [Aldeia do Meco] em Março de 2006, quando ainda era costume escrever-se os logs em inglês.

O carro ficou no parqueamento recomendado, ainda a umas centenas de metros do ponto zero. O passeio fez-se bem, o dia estava invernoso, cinzentão, trazendo uma aura especial aquela paisagem oceânica. Já na zona da cache, pensei subitamente ter encontrado… ena pá… que container tão grande.. e tão bem escondido, debaixo de pedras, num alvéolo rochoso. Abro-o à espera de encontrar o característico logbook e… nada disso, a caixa estava cheia de ferramentas e utensílios de pesca. Quem será que deixou aquilo ali ao abandono, para todo o sempre….?

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De volta à pesquisa, acabo por encontrar o desejado tesouro… mas não muito longe de nós, lá por cima, um parapente evoluia, com o piloto naturalmente curioso com as nossas actividades. Foi uma questão de esperar que tivesse que manobrar, e, apanhado pelas costas, cache para fora, logbook assinalado e tudo devolvido ao seu esconderijo.

Já a caminhar para o carro, pensamento alheado, ouço de súbito uma voz imperiosa vinda dos céus: “ENTÃO!?! ENCONTRARAM?!!. Acho que fiquei tão pasmado que mais reacção para além de um sorriso amarelo e um menear de cabeça não consegui desencantar. Mais à frente, o inesperado interlocutor esperava-nos, engenho voador devidamente parqueado no seu espaço operacional. Afinal não era um muggle comum. Era, isso sim, outro geocacher, e dos tesos… quem encontrou alguma das suas caches sabe do que falo. Era o SamCam, que já conhecia de nome, e que, pelo que fiquei a saber, era intrutor de parapente e estava ali no seu trabalho. Ficámos à conversa por um bom bocado, até que os seus próximos instruendos se acabaram de aprontar e lá teve que se despedir para dar a aula seguinte.

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Vistas da primeira cache encontrada

Corria a Primavera de 2004, que já deixava adivinhar um Verão quente e seco. Há apenas dois anos tinha-me mudado para a casa na franja da serra do Caldeirão, junto à qual criei posteriormente a cache Cerro do Botelho. Um dos meus vizinhos – e nestes ambientes, um vizinho pode estar a 700 metros de distância como era o caso – tinha-me mostrado um dos seus “gadgets”, um GPS de mão Garmin eTrex Legend. Fiquei fascinado com as possibilidades. E como sempre acontece nestas situações, passado poucos dias encomendei o meu próprio dispositivo. Foi então que, ao procurar esclarecer uma dúvida na Internet, dei de caras com uma referência a “Geocaching”. Depois, foi encontrar o website oficial, que ainda hoje utilizamos, e entusiasmar-me com o conceito.

Não sei quantas caches existiam no Algarve por essa altura. Talvez umas 15 ou 20. Dessas, umas 5 estariam num raio de acção razoável, a partir de casa. Entretanto, 2004 estava a ser um ano cheio de novidades. O GPSr seria uma adição menor, quando comparada com a primeira moto 4 da casa, uma Polaris Trailblazer 250 cc com motor a dois tempos, que ainda hoje conservo como “backup”.  Ou o Suzuki Samurai, actualmente encostado, com necessidade de uma reparação de escovas de motor de arranque. Foi um Verão glorioso, assombrado pelo enorme incêndio, talvez o maior do último século em Portugal, que lavrou descontroladamente durante sete dias, percorrendo, numa diagonal, cerca de 120 km. E foi precisamente nesses dias negros que encontrei a minha primeira cache.

Com um moinho de vento no caminho do sinistro, lá para o concelho de Almodôvar, as saídas de moto 4 para controlar o rumo das coisas eram permanentes. Na realidade, as chamas passaram por cima do moinho, que tinha acabado de ser recuperado, sem causar danos de monta. Mas se nos primeiros dias a nossa preocupação incidia apenas sobre esse projecto paralelo na serrania alentejana, ao fim de uma semana as chamas começavam a aproximar-se de forma ameaçadora de casa, e isso seria um caso mais sério. Por fim, quando uns 4 ou 5 km nos separavam do incêndio, um esquadrão de meia dúzia de pesados Canadair, num ribombar incessante entre curtas indas e vindas do oceano para Alportel, acabaram por debelar, por fim, as labaredas. No dia seguinte, ao fazer um reconhecimento dos estragos, encontrei um cenário de guerra… na aldeia de Alportel uma coluna de viaturas de bombeiros sem fim estendia-se, com dois e até três camiões de largura, enquanto os soldados da paz se estendiam num descanso merecido por todos os recantos sombreiros: sobre bancos, sob bancos, em cima das viaturas, no seu interior ou simplesmente no chão.

Portanto, foi na sequência desta experiência dantesca, com o terraço da piscina ainda coberto de cinzas e com o sol a aparecer de novo sobre a nuvem de fumo que durante dias a fio o obscureceu, que partimos para a primeira cache. Já não sei porque foi aquela a escolhida. Seria talvez a mais próxima? Nas imediações de Loulé, serra acima, na estrada que leva a Salir, encontra-se um alto. Aí, num moinho em ruínas com um especial no seu topo, o Afonso Loureiro havia plantado uma micro cache: a 16 (silly name, isn’t it) [Loulé]. Uma explicação, reirada da “listing”:

Porquê 16?, Bom, este moinho serve de ponto de referência no controlo de falhas geológicas em todo o Algarve, com GPS. Geralmente os pontos de referência estão montados nos marcos geodésicos. Nessa altura têm o nome do marco. Nalguns casos, há mais que uma falha entre dois marcos e é necessário um ponto noutro local, que recebem números como nome. É o caso deste. Para estudar a falha que passa a Sul de Loulé materializou-se um ponto neste moinho. Recebeu o nome poético de 16. É uma espécie de homenagem ao trabalho desenvolvido na minha faculdade.
Se subir ao topo do moinho verá um anel de inox chumbado no lado Sul. Serve para fixar a antena GPS exactamente no mesmo sítio, de campanha para campanha. Afinal de contas procuram-se deslocamentos de alguns milímetros.

Para ser sincero, deverei admitir que não guardo uma memória especial desse dia, nem das emoções sentidas ao avistar a caixinha. Era mais uma tarde de um início de Verão tão preenchido. O local era desconhecido para nós. As vistas impressionaram. Depois, foi entrar na estrutura semi-destruida e procurar. Recordo-me que foi simples. Num instante o container foi avistado. Era um “film canister”. O momento não foi tão mágico como seria de imaginar, considerando o entusiasmo que me manteve no jogo até aos dias de hoje.  Estava-se no dia 31 de Julho. No primeiro de Agosto, encontrei a minha segunda cache, Fonte da Taipa, que ainda existe, ao contrário da maioria que fui encontrando nesse primeiro ano. Depois, no decorrer desse mês, mais duas, apenas. Ao fim de um ano e meio, atingi a histórica marca de … 100 caches encontradas. E era isto um início cheio de excitação.


A logar a segunda, Fonte da Taipa

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No cume

Há caches assim, entram no imaginário de uma pessoa, agarram-se como lapas, e só são exconjuradas quando encontradas. Por vezes, deixado esse momento para trás, dissipam-se, perdem o seu lugar não só nos sonhos do geocacher, mas também na memória, e, aos poucos, de ponto que se vai reduzindo com a passagem do tempo, terminam num pequeno nada. Contudo, há as outras, as que com a sua conquistam se solidificam, fazem-se monumento, impassível ao efeito dos anos vindouros. Essas, são as caches mito, objecto de histórias repetidas, ganhadoras de fama intemporal. Não há muitas. Cada vez vão nascendo menos dessa estirpe, mas, em Portugal, um grupo de geocachers surge associada à descoberta de uma mão cheia desses locais mágicos, e à sua partilha através da criação de caixinhas. O seu nome? Greenshades.

Bem ou mal, a minha base de dados indica a existência de dez criações deste grupo de autores. Encontrei seis, uma delas entretanto arquivada. E dessas, cinco foram experiências únicas, inolvidáveis. A última, The Nest of Jonathan Livingston Seagul, “caiu” recentemente.


A caminho, saltos e traulitada

Já não me recordo quando nem como. A verdade é que ficou combinada uma pequena expedição à Costa Vicentina, com passagem pelas caches que se atravessassem pelo caminho a partir de Vilamoura. Na realidade, de Costa Vicentina a expedição teve pouco, quiçá porque muito se interpôs, pequenas paragens, desvios menores. Algumas caches banais e um par de “assim assim”, até chegarmos às imediações do prémio grande do dia: The Nest of Jonathan Livingston Seagull.

Não se rola muito para além de Vila do Bispo antes de se deixar o asfalto. Desde esse ponto são 4 km numa linha recta. Durante os minutos que demoramos a vencer essa distância a minha mente está absorta, dividida entre a paisagem bravia que se vai desenrolando diante dos nossos olhos e a reflexão sobre os anos que este momento demorou a acontecer. Quando cheguei ao mundo do Geocaching, no Verão de 2004, esta cache já tinha nascido há mais de um ano. Atemorizado pelas quatro estrelas e meia de classificação de terreno, fui adiando uma visita. Depois, o emaranhado de caminhos de terra batido e o facto de nem sempre andar por aquelas paragens com uma vitura TT, contribuiram para o atrasar de uma expedição que ameaçava tornar-se um fantasma caminhando eternamente à minha frente. Os relatos na primeira pessoa não ajudavam. Que era impressionante, que era a melhor cache em Portugal… ora eu, aprendida que estava à custa de experiência própria que o que geralmente era considerado bom não era coisa para me agradar, fui tomando estes testemunhos como uma derradeira advertência. Mas, por outro lado, o bichinho não deixava de roer. Não faço ideia se era curiosidade, se era o alter ego do eu prudente a querer falar mais alto. O que sei é que durante estes sete anos, a imagem de uma falésia de cume afiado e água espumosa a fustigar as suas faces me vieram à ideia de forma espaçada mas presistente. Quando oProdrive me convidou para esta expedição – logo ele, um dos maiores entusiastas desta cache – sabia que seria feito. E foi assim,  comigo a matutar no receio, mais feito respeito do que pânico, das alturas, que chegámos ao local.

O Atlântico. Essa entidade omnipresente em quase todas as manifestações culturais deste nosso povo. O mar,  essência da portugalidade – a que muitos chamarão agora de tuganismo, ou coisa que o valha – e alma deste país. É acima de tudo o poder desta massa infinita, estendida a perder de vista, que domina aquelas paragens. E se for cego, o ribombar das vagas nas duras rochas não me deixará ao engano. É o mar que ali está. Mesmo assim, se não tiver esse sentido, será o vapor carregado de perfume a que chamamos de marezia que trará a mensagem. É o mar que ali está. Em poucos locais da nossa bela costa se consegue sentir esta presença quase etérea. Lembro-me de me sentir pequeno, muito pequeno, em dias de tempestade no cabo da Roca ou nos areais do Guincho. Mas hoje não é dia do rei Inverno juntar forças com o todo poderoso mar. É simplesmente um dia de verão, plácido em todo o lado, menos neste canto, onde as águas, atiçadas pelo soprar de um vento ululante (ou será o oposto…?) atacam sem cansaço a terra.


Green… shades

Os meus companheiros de viagem apontam-me a direcção. Eles já lá estiveram. Eu sou o convidado de honra, o iniciado da Irmandade do Rochedo, com o coração a bater desordenadamente perante emoção e desafio. Vamos lá então. Sigo em último na linha de caminhantes que se estende por umas dezenas de metros. Somos seis, mas apesar de tudo o seguir na cauda não se prende com o receio que pudesse sentir. Gosto sempre de caminhar atrás, para apreciar ao meu ritmo a envolvência. Fotografar sem empatar, e, depois, sem necessitar de mal-dizer a perna curta com que os meus genes me dotaram. Continuamos a andar, em frente, depois, curva ascendente em cotovelo, e a mesma linha numa cota mais acima, e de repente estamos lá. O quê? É só isto? Tanta algazarra, tantos medos passados, tanta fama, tantas estrelas por causa disto? Soubesse eu que o desafio físico era tão reduzido e já há muito tinha vindo acertar contas com este meu papão quase privado. Mas se a provação não foi a esperada, a experiência foi muito mais. Metafísica. O dia estava a correr mal. Algumas caches muito mal amanhadas e um par de DNF’s imediatamente antes. E poucas encontradas. Muito tempo entre elas, demasiado à procura de cada uma. Bastaram contudo alguns minutos neste ambiente e todas as mágoas de alma foram lavadas. Mais houvesse e teriam, também elas, ido, arrastadas pelo caudal curandeiro daquela terapia sensorial. É simplesmente magnífico, e, sei disso sem que uma palavra tivesse sido proferida, todos os constituintes do grupo sentiram o mesmo. Silêncios partilhados, olhos fixos nas águas.  Até ser tempo de voltar para trás.

Antes da abordagem a esta cache, tinhamos conduzido o cachemobile por caminho menos acertado, e demos por nós no promontório anterior (de quem vem de sul). Foi um óptimo erro, porque me permitiu apreciar o desafio de uma certa distância, apreciando a dimensão global da coisa, com o trilho, lá em baixo, muito pequeno, insignificante. Depois, encarrilhando a viatura na estrada acertada fomos gracejando: que ali calhava mesmo bem uma cache para  que a The Nest of Jonathan Livingston Seagull não padecesse das dores desgastantes da solidão de noites a fio, apenas ela a sua precária base sólida e as águas todo em redor, à espera, sempre à espera, das próximas mãos humanas que a libertassem, mesmo que por apenas um mero par de minutos, tempo necessário para uma exploração breve de conteúdos e uma rubrica no livro de registos.


A Greenshades começa aqui e acaba lá em cima, mesmo no topo

Vinhamos já de regresso ao carro, deixando o estreito trilho para trás e abordando o trecho que se desenvolve em terrenos perfeitamente sólidos. O Prodrive tinha parado, olhar apreciativo, fixo na majestosidade daquela outra massa rochosa. E eu sabia o que lhe ia na ideia. Como é, vamos a isto? A mim, incomodava-me um pouco a proximidade de uma outra cache, e logo uma senhora gigante do nosso Geocaching, uma a que muitos chamam – e com toda a justiça – de a melhor de Portugal. Hesitei, hesitei muito. Mas deixei-me arrastar pela emoção do momento, tão especial, que ali se vivia. Vamos lá então a isto. Ele, foi lá acima, ao carro, buscar um “container” sempre preparado para estas ocasiões. Metade do grupo ficou ali, aguardando, roubando mais umas golfadas daquele ar único. A outra metade, avisada pelo Prodrive, foi aparecendo. E juntos esperámos pela chegada da nova cache.

Há duas formas de se vencer o desafio novo que naquele dia foi criado. A mais curta, é mais radical, e nenhum de nós a tentou: é uma questão de conduzir até ao ponto a que inicialmente chegámos, antes de percebermos que estávamos no acesso errado à The Nest of Jonathan Livingston Seagull. Há um trilho logo desde ali, mas estreito, sinuoso e desprotegido. A outra, que escolhemos, parte do acesso à cache que tinha acabado de encontrar, e inicia-se com uma abordagem simpática, no meio de uma vegetação incrivelmente verde, progredindo depois para o promontório onde se caminha com o mar pela esquerda. É também um espaço exíguo, mas faz-se bem, e onde a coisa se torna mais periclitante, existe uma corda de auxílio. Logo à frente, todos os outros prosseguiram, mas eu, que não gosto muito de alturas, acobardei-me e deixei-me estar. Vi o último elemento do grupo dobrar a esquina que parecia ser para o fim do mundo conhecido, e fiquei sozinho. Estava frio. Apesar de em todo o território de Portugal Continental estar um calor abrasador, ali, estava de facto frio. O vento soprava, arrastando consigo partículas de água gelada, e recuei um pouco, procurando uma nesga de sol. Nisto vi-os, lá em cima, a acenar para mim. E nesse momento, vi também uma outra possibilidade de ascensão, que implicava os super poderes de uma cabra alpina, mas que não implicava vistas para precípicios. Cheguei quando eles já desciam, mas ainda a tempo de chegar à conversa com o Billy VespasFriendsAlgarve, que me passou o GPS para a mão. Sem fazer ideia de onde o container estava, apenas com as coordenadas e um GPS, senti legitimidade para encontrar esta nova cache, claro, sem me passar pela ideia reclamar um FTF, esse vago conceito que deixou de ter piada depois de tantos o levarem tão demasiadamente a sério. Concluido o acto, desci por onde tinha subido, desta vez com o Billy a acompanhar-me. Logo, nos juntámos aos outros. Iamos ainda debatendo quem seria o progenitor oficial da nova cache e qual o nome a dar-lhe. Eu, expressei um certo constrangimento na situação: sentia que de certa forma tinhamos acabado de usurpar o merecido protagonismo da  The Nest of Jonathan Livingston Seagull. E foi então que o Prodrive atirou a sua sugestão de baptismo, que venceu todas as minhas resistências: vamos criar um tributo aos Greenshades. Vamos chamar-lhe simplesmente Greenshades? Excelente! Até pela dupla significância: não sei se mais alguém se apercebeu das tonalidades esverdeadas do mar naquele dia. Green… shades….

Nesse dia ainda encontrámos mais 2 ou 3 caches. Mas seriam pouco mais que nada, surgindo na sequência desta experiência. Aliás, nada voltaria a ser como era. A  The Nest of Jonathan Livingston Seagull lá ficou, mas, agora, nos termos em que o Prodrive  Jr colocou as coisas, agora com a irmã-gêmea dedicada aos GreenShades.


Terminada a magia, prestes a partir

P.S. – Participaram nesta expedição, para além de mim, o Prodrive, organizador e condutor; Zaya, minha metade de equipa quando me decido a fazer Geocaching em equipa; Billy, meia VespaFriendsAlgarve; Prodrive Jr, cujo nume diz tudo; Andrea, Couchsurfer, não Geocacher, que me abrigou um dia em Milão e agora veio devolver-me a visita.

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Esta é a história do achamento de uma cache banal, e de como o comum se transforma em extraordinário quando menos se espera… e tudo começa em 1969…

Nesse derradeiro ano da década de 60 do século XX, tinha eu quatro anitos. Mas já ia lendo, ensinado em casa mesmo antes de começar a frequentar a escola. Por essa altura, o meu pai, desenhador por gosto e ávido consumidor de banda desenhada, comprava a revista Tintin, que em Portugal ia no seu segundo ano. Oficialmente, era para o meu irmão mais velho, mas suspeito que era ele próprio, o nosso progenitor, que retirava o maior gosto daquele cerimonial, o de semanalmente procurar a revista nos escaparates, comprá-la, levá-la para casa.

Como é natural as minhas memórias desses dias são muito esparsas, resumem-se a momentos isolados, cenas de uma vida de outros tempos. Mas a revista Tintim faz parte delas. Lembro-me ainda hoje de pormenores incríveis: em que número se iniciava determinada história que era mais do meu agrado, as capas das edições com páginas que me interessavam especialmente… e a leitura… no café, com o meu pai… nas férias, a excitação da chegada mais complicada do número daquela semana.

Nesses tempos ganhei uma estima pela banda desenhada franco-belga, que naturalmente dominava a revista, e os seus heróis ainda hoje são os meus favoritos: Michel Vaillant, Tintim, Astérix e Obélix, Lucky Luke, Bruno Brazil, Tanguy e Laverdure, Coronel Clifton, Tunga, Cavaleiro Ardent… tantos e tantos… incluindo… Dan Cooper.

O major Dan Cooper, da Força Aérea Canadiana, foi criado em 1950 por Albert Weinberg, para a revista Tintim. As suas primeiras histórias tiveram uma abordagem temática quase fantasiosa, com muita exploração espacial, incluindo uma expedição aos satélites de Marte. Mas com o tempo Weinberg adoptou uma linha mais realista, baseada num mundo em evolução, fortemente marcado pela Guerra Fria. Entretanto, uma das histórias que me ficou na memória, envolve um Dan Cooper em destacamento NATO na Alemanha, pilotando F-104 Starfighter, que em finais dos anos 60 era talvez o interceptor mais utilizado na Aliança Atlântica (tinha uns 19 ou 20 anos quando construi um modelo na escala 1:32, com o esquema de cores e as insígnias da República Federal da Alemanha), apesar dos muitos problemas técnicos, alguns resultando em acidentes fatais, de que o avião padecia. O “álbum” chama-se Céus da Noruega, porque Dan Cooper se vê transferido para aquele país, em missão de colaboração com a Força Aérea local… e ali se apaixona por uma bela norueguesa, que se vê em dificuldades depois de se despenhar na Lapónia, para angústia do nosso herói.

Ora estava eu já de saída de uma breve visita ao mesmo país, quando me apercebo da existência de duas “caches” nas imediações do aeroporto de Sandefjord Torpe. 60 minutos até ao encerramento do portão de embarque. Terei tempo? Hesito, antes de ser tomado pela febre da “cache”, aquele transe que me empurra para além de qualquer racionalidade, me faz procurar “caches” quando tudo indica que deveria prosseguir caminho… uma, no parqueamento do aeroporto, fácil. A segunda, mais afastada… e caminho, em passo rápido apesar da carga completa às costas… meço o tempo, para o poder desdobrar em dois e calcular as possibilidades de regressar a tempo ao terminal. Primeiro marcho paralelo à estrada, depois interno-me num pequeno bosque à beira da vedação do aeroporto, e finalmente chego… e é então que o vejo…

Se esta cache – Silverbird –  pretendia ser sobre um Dakota D47 que se encontrava parqueado ali bem junto da vedação, facilmente visível, já não o é. Nem tenho a certeza, porque o texto é apenas em norueguês, essa aberração meio ignorância meio nacionalismo, que grassa também, e de que maneira, por cá. Mas seja como for, o que vi ali, de chofre, foi um F-104 com as insígnias da Real Força Aérea Norueguesa, sem mais nem menos, exactamente a mesma aeronave da história que tanto me encantou, há mais de quarenta anos.

O tempo, como já se sabe, não era muito. O momento foi intenso, mas não pode ser saboreado condignamente. Contentor encontrado, assimatura deixada, houve apenas oportunidade de uma fotografia rápida, e pus-me a galope, de regresso ao aeroporto, onde, para que conste nos registos, tudo correu bem, e pude apanhar o meu vôo Wizzair para Praga.

E sabem que mais? Sem saber porquê, quando vinha no autocarro para Torpe, chegou-me ao pensamento tudo isto, como uma vaga bruma premonitória… Dan Cooper… Noruega… F-104… e a imagem deste avião… lembro-me que me ocorreu que era uma pena, ter vindo a este país e não ter visto um avião destes. Ideia bizarra, dadas as circunstâncias, e que afinal se materializou, dando lugar a mais um momento mágico de Geocaching.

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No âmbito do concurso Os Grandes Plásticos do Século, dei por mim a escolher as minhas caches favoritas, de entre as selecionadas para irem a votos. Das quase 4.000 caches que levo encontradas, apenas 73 se encontravam na tal lista, e dessas era-me pedido que ordenasse vinte por ordem de preferência. E aqui está o resultado:

1 Os Calvarios [Mertola] (Beja) – 2005
2 S. Miguel do Rio Torto 2 (Abrantes) (Santarém) – 2007
3 Hanging Gardens of Babylon [Setúbal] (Setúbal) – 2002
4 The Jump of the Water (Arouca) (Aveiro) – 2004
5 The Lost Nazi Mine [Arouca] (Aveiro) – 2005
6 Convento de Monfurado [Montemor-o-Novo] (Évora) – 2008
7 Convent of the Storks [Figueira da Foz] (Coimbra) – 2002
8 The Jewell of Saphire (Évora) – 2003
9 Half a Mountain (Setúbal) – 2003
10 Vinhos da Arealva (Setúbal)
11 J-ATBASH-te Banho? [VN1000F] (Beja) – 2004
12 Sal da Cobra [Figueira da Foz] (Coimbra) – 2006
13 The Lonely Lookout (Lisboa) – 2003
14 Sanatório Albergaria [Loures] (Lisboa) – 2005
15 Cave of Santa Margarida [Setubal] (Setúbal) – 2002
16 A Ponta do Cabo [Cabo Espichel] (Setúbal) – 2008
17 kit sobrevivencia-peninha (Lisboa) – 2005
18 Navarone’s Fortress [Trafaria] (Setúbal) – 2006
19 The Ways of Water (Santarém) – 2002
20 Forgotten Gardens [Oeiras] (Lisboa) – 2007

Da observação deste quadro, retiram-se duas conclusões:

  1. 70% das minhas escolhas incidem sobre caches criadas antes de 2007, e 0% sobre caches criadas nos últimos dois anos.  Tanto mais interessante quanto nos últimos dois anos terei talvez encontrado 50% do  meu total de “founds”. No final, quando os resultado global das votações for revelado, se verá se a impressão que a qualidade do Geocaching tem caído a pique a par com o aumento quantitativo de tudo o que está envolvido é uma obsessão privada ou algo mais real, apesar de raramente assumido.
  2. As minhas preferências ignoram o factor “contentor”. Sempre disse que os fãs dos contentores XPTO fariam melhor em se reunir no quintal das traseiras de um qualquer membro, levavam as suas criações artísticas, faziam a festa de forma económica, sem gastar gasolina e tempo, e tinham o seu prazer privado em condições ideais. Enquanto isso, continuarei a valorizar o jogo pelo seu valor intrínseco, pela descoberta de locais fantásticos e pelo desafio em os alcançar. Sinceramente, não consigo aceitar que uma cache se encontre a votos só porque um tipo um dia decidiu deitar-se sob um banco junto a uma igreja em Portugal – igual a milhares de tantas outras – e tenha escavado um alvéolo na madeira para albergar uma caixa. Não quando olho para a lista que acabei de indicar e para tantas outras caches que não pude incluir nas minhas preferências de voto.

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Os tons melífluos da música de Diana Krall embalam-me, enquanto escrevo estas linhas, e, com um vislumbre, confirmo sobre o parapeito da janela à minha frente que a chuva continua a cair. A luz amarelada de um candeeiro de mesa tinge o tampo de trabalho com uma tonalidade em perfeita conformidade com o ambiente. Do meu lado esquerdo um pequeno aquecedor eléctrico esforça-se por combater o frio que se entranha por cada ranhura, por cada superfície do apartamento. Não, decididamente o tempo não está para brincadeiras. Hoje não é dia para cachar. E o leitor não imaginará o significado que esta simples conclusão encerra. Não se limita a estabelecer uma relação de causa-efeito entre as condições metereológicas e a impossibilidade de se sair lá para fora com um GPS na mão. É de facto uma conclusão. É um ciclo de setenta e um dias que termina. Quase dois meses e meio. E, durante esse período de tempo, todos os dias, sem excepção, o Papacaches – não o impostor, mas sim este que vos escreve – saiu lá para fora e foi-se a elas.

Setenta e um dias. Cinco países. Duzentas e quarenta e oito caches. Tudo começou em finais de Setembro. Depois de algumas interrupções, que serviram, por assim dizer, de exercícios de aquecimento, foi no dia 28 desse mês que se iniciou o ciclo que duraria até hoje. Primeiro dia em terras da República Checa, que aproveito para visitar um museu que se encontra aberto ao público apenas durante o Verão. É uma oportunidade única, pois na chamada época alta não posso estar afastado de Portugal. A “jóia da coroa” do Museu Técnico do Exército é o chamado “tanque cor-de-rosa”. A história conta-se em poucas palavras: com a aproximação do fim dos dias do regime comunista, em finais da década de 80 do século passado, um artista emergente, ainda estudante, decide juntar um grupo de amigos e pintar de cor-de-rosa um tanque de guerra que se encontrava exposto numa praça da cidade de Praga, em homenagem aos militares soviéticos que  “libertaram” a capital do país, em 1945.  O artista dava pelo nome de David Cerny –  hoje um nome bem conhecido – e a acção foi conduzida pela calada da noite. No dia seguinte, as autoridades, chocadas com a afronta, devolveram as cores devidas à velha máquina de guerra. Mas a malta das Belas-Artes não se ficou, e alguns dias volvidos, pimba, ai está o cor-de-rosa de novo. Por fim o Estado cedeu, e no local do tanque (que se encontra actualmente exposto no Museu) foi erigida uma fonte. A cache do tanque cor-de-rosa: Ruzovy Tank.

A gestão das caches durante estes setenta e um dias foi feita de forma cuidadosa. Com base em Praga, mantive as caches mais próximas de casa para dias em que pudesse estar fisicamente diminuido. Não me podia esquecer que nas duas séries que tentei anteriormente foi a gripe que me fez desistir da brincadeira. Desta vez a bicharada não atacou, e passei os dois meses de Praga em boas condições físicas. Mas outros elementos me suscitavam alguma prudência, mantendo sempre esta reserva em locais de excelente acessibilidade: podia chegar um nevão, ou dias com temperaturas bastante abaixo de zero. Ou, simplesmente, aquelas alturas em que não apetece sair de casa.

Nos dias solarengos parti para as orlas da grande cidade, para os bosques que envolvem Praga. Nessas alturas dei-me ao luxo de “consumir” mais do que uma cache. Três, quatro… cinco, por vezes. Sem abusar, para não esgotar os recursos. Porque apesar de se encontrarem cerca de mil caches num raio de sete quilómetros do centro da cidade, um bom número delas não me está acessível (algumas, por serem mistérios que não estão ao meu alcance; outras, por se tratarem de multi-caches com versão apenas em checo)… e de qualquer modo, há três anos que “caço” nesta coutada, e a zona já não está de todo virgem.

Mas não foi apenas Portugal e Rep. Checa que me viram encontrar caches neste ciclo infernal. Os dias passados em Cracóvia, na Polónia, não foram especialmente produtivos (o tempo não ajudou e o jogo tem fraca presença nesse país), mas o ritmo manteve-se. Na Suécia as coisas correram bastante bem. Uma semana em Nikoping e Estocolmo revelou um Geocaching de excelente nível, muito bem implantado, e quase sempre com consideração pelo viajante que não domina a língua local. Por fim, de regresso a Portugal, houve tempo para alcançar duas caches nas imediações do aeroporto de East Midlands, no Reino Unido.

As memórias destes dois meses e meio são extensas, e está fora de questão apresentá-las num espaço de comunicação com estas características. O resumo está feito, resta realçar mais uns quantos fragmentos desta enorme tela. Certo dia, as actividades sociais foram tão intensas que já a noite tinha caido e nenhuma cache se encontrava ainda capturada. Isso não seria um grande problema, numa cidade repleta de contentores adequados para cachadas nocturnas se…. não estivesse já com uma grande bebedeira. Quiseram os deuses que um ténue fiozinho de lucidez me iluminasse com a memória de uma micro-cache mesmo ali a duzentos metros do pub. E quando chegou à hora de sair, ali vou eu, com passo quase certo mas mente muito turva, direito à esquina por onde pressentia o cheiro a cache. A coisa podia ter corrido muito mal, e o ciclo teria terminado ali. Mas há destes dias em que a sorte nos bafeja, e no primeiro sítio onde jogo a mão, sinto de imediato o doce contacto do plástico. Adversidade ultrapassada! A cache alcóolica:  Prazske legendy – O Lokytkovi.

Noutra ocasião, deixo o tempo correr, e quando dou por mim, são quase meia-noite, já estou um bocado “alegre” e não existem caches na zona. Mas o que tem de ser, tem de ser, e não obstante o frio que se fazia sentir, lá vou eu, a pé, para um percurso de cerca de três quilómetros, cidade dentro, direito à cache mais próxima, que por sinal já tinha resultado num DNF no ano passado. De novo a sorte acompanhou-me, porque a meio caminho “encontrei” um eléctrico nocturno que me encurtou a marcha, e, chegado ao local, a danadinha revelou-se com relativa facilidade. 

E pronto… para não me estender, está contada esta história. De como passei setenta e um dias consecutivos a encontrar caches. Porque adoro ver os números subir e superar os meus próprios limites. Um pouco de tudo é saudável. Já dizia o nutricionista, e eu, tomo a liberdade de extender o princípio ao Geocaching.

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