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Cachadas Nocturnas

Uma saída depois do sol-posto é uma experiência nova para o geocacher iniciado. Chegada a noite tudo parece diferente, e os processos habitualmente empregues na caçada depressa se revelam inúteis. É complicado obter mentalmente pontos de referência. A noção de distância torna-se difusa. Os mais assustadiços sentem-se nervosos com as sombras que os envolvem e que parecem ganhar vida. E depois de chegados ao local onde a cache se encontrará escondida, a escuridão dificulta a procura. Na cidade, apesar da calma reinante e do natural decréscimo de muggles às horas tardias, o Geocacher tende a sentir-se inseguro, enquanto os viandantes pontuais o observam com expressão desconfiada.

Em termos mais pragmáticos, talvez a principal desvantagem do Geocaching seja a privação da experiência visual. Sem luz solar, o Geocacher não pode apreciar o meio envolvente. É por esta razão que procuro limitar as minhas saídas nocturnas a locais que já conheço sobejamente ou a caches desenhadas para funcionar pela noitinha. De resto, é preciso ter algum estofo para enfrentar o desconforto instintivo que a noite causa no comum dos mortais. Uma caminhada por um trilho serrano às duas da manhã faz disparar os níveis de adrenalina no corpo, especialmente se o geocacher seguir sozinho. Os ruídos naturais são absorvidos de outra forma, o restolhar da vegetação pode causar um sobressalto. A escuridão torna-se ameaçadora. Mas tudo isto contribui para o carácter único da experiência. Afinal, porque carga de água nos deixaríamos arrastar para uma caminhada destas a horas indecentes, senão pela emoção da procura da caixinha?

Claro que existem saídas mais simples, em meio urbano ou em caches à beira da estrada, durante as quais o geocacher nunca perde o contacto com o habitáculo acolhedor do seu cachemobile. Aí, a fruta é outra. Tendem a ser expedições para acumular mais umas quantas caches à lista de achamentos, e não tanto para apreciar os locais para os quais os seus criadores pretenderam chamar a atenção. Podem seguir-se à paródia de um jantar de Geocachers, ajudar a ultrapassar uma noite de insónia ou preencher um par de horas em aberto na nossa agenda. Mas por regra são caches procuradas, por assim dizer, para encher chouriços, para a desbunda.

Contudo, existem notáveis excepções, e essas são representadas pelas caches especificamente concebidas para serem caçadas de noite. Em princípio, considerando as suas características e as técnicas empregues, nem poderão ser “atacadas” em pleno dia. É que o uso de fitas reflectoras ao longo de um percurso exige escuridão quase total, e, já agora, uma lanterna capaz de produzir um foco de luz intenso. Com estes ingredientes estão asseguradas algumas experiências notáveis. A alteração dos ambientes costumeiros resulta na geração de emoções novas, e não é raro os velhos praticantes guardarem umas quantas cachadas nocturnas entre as suas memórias mais acarinhadas.

No plano técnico, há a acrescentar que a procura de um contentor à luz de lanterna transforma o simples em complicado e o complicado em simples: se por um lado a perda da noção do espaço evolvente pela privação de luz dificulta a pesquisa, também é verdade que a utilização de uma lanterna incrementa os níveis de concentração na análise da pequena área que iluminamos a cada momento. Além disso, as fortes sombras projectadas, por estranho que pareça, tornam mais fácil identificar elementos estranhos, nomeadamente quando as caches se encontram escondidas em muros, meios rochosos ou árvores.

Nunca é demais sublinhar que os cuidados de segurança devem ser duplicados numa caçada nocturna. Um passo em falso pode projectar o geocacher por uma ribanceira da qual a existência nem suspeita, ou fazê-lo mergulhar num poço a céu aberto que se mantém na obscuridade até ser tarde demais. E depois, há a eterna questão dos muggles, esses velhos “inimigos” do geocacher. Se a discrição deve ser uma constante no comportamento do caçador de caixas, pela noite a recomendação ganha outro significado. As pessoas estão mais alertas para movimentações estranhas, e o foco da lanterna é um indicador de actividades que à luz do dia passariam completamente despercebidas. Já não se encontra apenas em causa a segurança da cache. É preciso respeitar os habitantes locais, pormo-nos na sua situação: certamente que se habitássemos num local ermo, nos sentiríamos preocupados e mesmo angustiados se de tempos a tempos sentíssemos estranhos chegar a altas horas da noite, munidos de lanternas, e internarem-se nos matos ali mesmo à beira da casa, desenvolvendo sabe-se lá que actividades. De novo, respeito e civilidade impõem-se no comportamento do geocacher. Se cachar de noite, seja discreto, para bem do jogo e por respeito para com o próximo.

P.S. – Não, este artigo não foi redigido segundo as regras do Acordo Ortográfico.

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Quando os primeiros computadores pessoais apareceram no nosso mercado, há cerca de 25 anos, corri a procurar financiamento familiar e, seguidamente, para a loja. Chamava-se Euro PC Schneider, e estou certo que muitos ainda se lembrarão deste modelo, que durante algum tempo sofreu a concorrência do PC1 da Olivetti. Criavam-se naquele dia os aliçerces de um terrível conflito interno que desde essa altura me tem corroído as entranhas: de um lado, uma intrínseca preguiça mental e uma incapacidade de encontrar pouco mais do que um fiozinho de inteligência lógica na minha mente; do outro lado, um amor pela informação e pela sua racionalização e organização, enfim, mais ou menos o que em termos técnicos se chama “epistemologia”.

Tudo isto para dizer que quando chegaram as caches Whereigo, fruto de um casamento feito divórcio entre o gigante do mercado de unidades GPS de aventura e a Groundspeak, senti imediatamente um arrepio: sabia que mais sangue ia correr dessa ferida eterna, criada no dia em que, com a desculpa (parcialmente honesta) de que era preciso para os meus estudos universitários em História, entrou lá em casa o primeiro PC em que pus as unhazinhas. Pois então, Whereigo. Criar uma uma aventura interactiva que culminaria numa cache e  cujos limites eram apenas a imaginação do seu criador. Um conceito tentador, quase irresístivel.

Com entusiasmo, fiz o download do software oficial de desenvolvimento dos cartridges (denominação original para as aplicações Whereigo). Deu-me alguns problemas. Já não me recordo dos detalhes, mas ao fim de algum tempo cansei-me e coloquei-a de lado. Foi muito depois que, nem sei porquê, me mordeu de novo o bichinho. Talvez porque tenha descoberto uma nova aplicação, alternativa, ou talvez tenha descoberto esta opção por me ter ferrado o vício outra vez. O seu nome: Urwigo (pelo menos mais uma alternativa está dísponivel – o Earwigo – que se trata de um programa baseado exclusivamente na web. O seu uso é reservado, mas pode ser obtido acesso contactando o geocacher sTeamTraen).

A criação de programas alternativos talvez diga algo sobre os problemas com a aplicação original que, vítima ela própria do divórcio entre a Garmin e a Groundspeak, se encontra, aparentemente  para sempre, em fase Alpha. Já me disseram mais do que uma vez que o principal problema na criação de uma cache Whereigo reside na qualidade da ideia de base. No meu caso, foi imediato. Assim que comecei a brincar com o programa, pensei durante dois segundos e veio-me a inspiração: iria projectar memórias da minha meninice, numa justaposição com o presente, num cenário espacial delimitado pela aldeia onde passei tantos momentos felizes, de seu nome, Sapataria. Naquela aldeia, localizada a cerca de 30 km a Noroeste de Lisboa, tinha a minha família adquirido algumas propriedades. Com regularidade iamos todos até lá, passar uns dias. Mais tarde, quando os meus pais se separaram, passei a visitar o meu pai que lá permaneceu alguns anos. Entre os 20 e os 27, visitava a última casa que conservávamos quando queria passar algum tempo com uma das namoradas que passaram pela minha vida por essa altura. Depois, acabou. A família decidiu largar esse último bastião, e eu, na flor da vida e cheio de energia, centrado noutras realidades, encolhi os ombros e concordei.


A mesma pessoa, o mesmo local. 37 anos de permeio.

Portanto, no que toca à cache e à aventuar interactiva, apesar da ideia ter chegado sem esforço, tinha ainda que a validar em diversos vectores antes de começar a levá-la a sério:

  1. Não  visitando o local há quase 20 anos, será que mantinha ainda o que então me encantava? Será que havia viabilidade para construir uma aventura em dois layers temporais, ou as mudanças destas duas últimas décadas teriam minado essa possibilidade de forma letal? Ultrapassei estas dúvidas com um exame atento da fotografia aérea disponível no Google Earth. Para grande surpresa, as mudanças estruturais foram reduzidas.
  2. Será que conseguiria reunir, em qualidade e quantidade, material gráfico que pudesse ser utilizado na concepção da aventura gráfica? Os meus arquivos pessoais tinham algumas fotografias dessa época. Estamos a falar dos primeiros anos da década de 70 no século passado. Uma altura em que felizmente o meu pai tinha o seu gosto pela fotografia ao rubro, no qual envolveu o meu irmão mais velho. Assim, um telefonema à minha irmã angariou logo uma dúzia de imagens da Sapataria nesses tempos, seguidas por mais um par de dezenas, que ela obteve do nosso mano.
  3. E quanto à manutenção da cache final? Tentei delegar na minha irmã (a pessoa que comigo partilha uma ligação emocional à aldeia) mas ela recusou. Que tinha criado uma barreira de segurança emocional, que se recusava a reavivar memórias perdidas, a enfrentar as mudanças na Sapataria, a arriscar estilhaçar recordações sagradas. Mas a verdade é que, por fim, acedeu, e, mais para a frente, acompanhou-me mesmo na recriação do percurso que funcionou como teste final desta Whereigo.



Instantâneos da vida quotidiana numa pequena aldeia da região saloia em meados dos anos 70

Viabilizado o projecto no plano teórico, era tempo de tomar algumas decisões práticas:

  1. Iria ao local recolher elementos para a construção da aventura ou trataria de tudo remotamente, recolhendo coordenadas e apurando o percurso através do Google Earth. A Sapataria fica a uns 350 km da minha base em Portugal. Estava excitado com a ideia de colocar o projecto a rolar, e sem possibilidade de me deslocar lá nas semanas seguintes. Decidi-me pela opção menos fiável, mas mais simples e imediata: construiria toda a aventura sem visitar o local, e quando estivesse tudo pronto, faria uma simulação no terreno, na perspectiva do jogador, e apuraria o que fosse necessário apurar.
  2. Em que língua escreveria os textos da aventura? Idealmente, criaria um “cartdridge” em português e um outro com uma versão internacional em inglês. Pensei nisso, cheguei a decidir nesse sentido, mas mudei de ideias, mais por força prática do que por decisão ponderada. É que começei a escrever em inglês, e quando olhei apercebi-me da trabalheira que seria criar tudo aquilo em modalidade bílingue. De resto, se tivesse que optar apenas por uma língua, seria sempre pela que daria acesso  à cache a jogadores de todo o mundo. Mesmo que não acreditasse que muitos se aventurariam na Sapataria.
  3. Qual seria a extensão do passeio? Bem… deixei a aventura correr por si. Se quando chegasse ao fim do desenvolvimento visse que tinha ficado exageradamente curta ou demasiado longa, adaptaria algo para corrigir os desvios. Mas acabei por ficar satisfeito com o resultado final, que saiu de forma natural: 4 ou 5 km, uma distância a percorrer em 2 ou 3 horas. Razoável para uma tarde ou uma manhã de Geocaching sem pressas, como se pressepõe que será o estado de espírito ao abordar uma Whereigo.

Depois, em termos de decisões, foi uma torrente. Mas de carácter mais operacional, cuja descrição não tem cabimento num texto destes, e cuja maioria, de resto, já foi esquecida. Um dos principais problemas ao construir uma aplicação Whereigo é que estamos a trabalhar com um programa que não conhecemos, e cujo funcionamento e possibilidades temos que descobrir à medida que avançamos. Mesmo agora, que consegui concluir a “Sapataria”, teria que começar do ponto zero se me decidisse a avançar para a construção de uma segunda aventura Whereigo. É muito diferente dominar um programa que utilizamos todos os dias do que ter um conhecimento práctico aprofundado de software com que lidámos durante uns dias e depois foi colocado na prateleira.

Assim, sem um plano delineado no papel, como faria um bom informático de gema, a criação desta Whereigo foi constítuida de avanços e recuos, à medida que iam sendo descobertas as possibilidades (muitas) e as limitações (poucas) do software. Alguns detalhes ameaçaram conduzir-me à loucura. Mas melhor ou pior as coisas foram avançando e o projecto foi ganhando forma, cada vez mais sólida, mais volumosa, até ter sido dado por concluida a fase doméstica.

Na teoria, a coisa estava acabada. Os passos do geocacher tinham sido ensaiados no emulador para PC vezes sem conta. Tudo batia certo, como um relógio suiço. Mas estava ciente que certamente muita coisa me estava a escapar. Havia tantos detalhes, tantas variáveis. De certeza que não era possível cobrir tudo, prever todas as possibilidades. Mas de momento nada mais havia a fazer.



Eu, quase há quarenta anos atrás, e as nossas casas

Visitei a minha irmão, numa pequena aldeia nas imedições da Ericeira. E juntos fomos à Sapataria. Não só era necessário testar no terreno a cache Whereigo, como precisava de recolher imagens modernas que poderia ainda incluir na aventura interactiva. E depois, claro, era preciso plantar no local final o contentor com o logbook e os tarecos usuais. O dia foi bem escolhido. Os deuses da metereologia presentearam-nos com uma tarde cheia de sol e temperatura amena, ideal para a pequena caminhada que viria a suceder. A minha irmã, super excitada com tudo aquilo. O Geocaching não era novo para ela, mas a ideia de partilharmos as nossas memórias familiares com o resto do mundo tinha-a deixado eufórica, e quando começou a jogar (ela foi a cobaia em absoluto – dei-lhe o aparelho para as mãos, expliquei-lhe os rudimentos e deixei as coisas correr…) e a ver as imagens e a ler os textos ninguém mais a conseguiu agarrar.


A minha irmã e braço direito neste projecto, a meio do teste final

Quando chegámos ao ponto final, estava positivamente surpreendido: de tanta coisa que podia ter corrido mal, e apenas num ponto havia um pequeno “encravanço”. Algumas imagens não apareciam na ordem devida, mas tudo isto eram arestas simples de limar. Claro que ainda havia espaço para problemas posteriores, mas agora teriam que ser geocachers a detectá-los, com a rodagem natural do jogo. Para já, estava terminado. Depois de encontrar um nicho adequado para abrigar o contentor, sabia que a cache estava pronta para ser submetida para publicação.

Hoje, quase um ano depois, esta cache tem 50 founds, 2 DNF’s. Uma média GCVote de 4,5 e 21% de logs marcaram-na como “Favorite. Sobretudo, foram registados logs de grande qualidade, que me encheram de alegria e motivação. Poucos foram os problemas assinalados: é certo que em determinado momento, existe um pequeno “andar para trás e para a frente” que é capaz de resultar desinteressante para quem procura a cache, e que estarei disposto a eliminar quando me sentir com coragem para reentrar nos meandros técnicos de uma Whereigo; há também o aspecto desta Whereigo ser apenas uma cache, e não seguir os principios das cartrdidges… eu explico: segundo o conceito inicial, uma Whereigo (não sendo obrigatoriamente uma cache) deveria, uma vez completada a aventura, ser “desbloqueada” com uma chave obtida na última fase, fornecida pelo programinha; ora no estado para o qual o Wherigo, como projecto autónomo, regrediu, considero perfeitamente irrelevante este aspecto de “desbloquear” o cartdrige. A cache é que importa, e as coordenadas são dadas como prémio no final da aventura.

Surpreende-me que não tenham surgido problemas técnicos, nomeadamente incompatibilidades. Uma Whereigo pode ser jogada com recurso a um GPSr Garmin habilitado (Colorado, Oregon), com um PDA com PocketPC ou com telemóveis com Symbian (perdoe-me se me esqueci de algo). Ora eu testei apenas com o meu Nokia 5800, e correu tudo bem. Esperava que viessem a surgir problemas com outras combinações de hardware, mas tal nunca sucedeu. Tanto melhor.

Agora, começa-me a aflorar a ideia de partir para uma sequela. Depois das recordações da meninice na Sapataria, as memórias da adolescência nas férias de Verão em Vila Nova de Milfontes. Uma outra Milfontes, onde não existia uma ponte sobre o Mira, onde apenas existiam duas pequenas pensões e um restaurante, onde a estrada acabava no barbacã e o passeio até ao farolinho se fazia a pé, pela areia.

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A Dica

Ao visitar o fórum da Geocaching@Pt deparei-me com um tópico (“O Papel da Hint”) que inspirou este meu texto. Na realidade há já muito tempo que penso sobre o que é que alguns cromos andam a fazer das “hints” das suas caches, e hoje não será tarde nem cedo para articular esses pensamentos. Vamos partir do presseposto de que é consensual que “hint” significa “dica”, e que uma “dica” é um pedaço de informação com valor utilitário na prossecução de algo, no nosso caso, da descoberta de uma cache. Poderia abrir um dicionário e transpôr para aqui uma definição toda janota, mas creio que não é necessário porque até aqui todos estaremos de acordo.

Não vou também demorar-me com problemáticas que considero vãs, como “deverá a dica ser lida antes, durante ou depois da caçada”. Cada qual fará como lhe aprouver. A dica está lá, acessível a todos os que a queiram ler, faz parte integrante do conceito, portanto não é mais nem menos do que  uma ferramenta à disposição do geocacher. Tal como o Google Earth ou a Wikipedia. Quem quiser usar, usa, no momento em que achar melhor.

O que eu quero abordar, na talvez utópica esperança de fazer reflectir quem agora ou no futuro se iniciar nas lides deste jogo, é uma questão de conteúdos. O que deverá, ou, melhor ainda, o que não deverá, ser uma dica. Ao longo dos anos tenho observado uma série de distorções do conceito, reconhecendo quatro categorias que costumam mexer com os meus nervos:

  • as que contêm um nico de texto ainda mais enigmático do que a localização da cache, duplicando assim o stress e a preocupação do geocacher, que a partir do momento em que a lê não só tem que resolver o problema do esconderijo desconhecido do contentor como tem agora a adicional preocupação em deslindar a “dica”;
  • as que descrevem algo tão pequeno ou escondido que quando se encontrar aquilo que está descrito na hint, então é porque já se encontrou a cache;
  • as que têm um texto que de dica não tem nada, como por exemplo “ver spoiler” ou “não esquecer de consultar o horário de abertura”;
  • As redundantes, que num mar de pedras dizem “debaixo de pedras” ou num terreno cheio de arbustos dizem “no arbusto”.

Cada cabeçudo terá o seu finca pé, e quem cria dicas assim, certamente não se convencerá facilmente a corrigir a sua linha “editorial”. Mas quem se prepara para criar as suas primeiras caches poderá reflectir… uma dica serve para ajudar, e apenas isso. Convém que ajude. E já agora, não custa nada incluir uma versão em inglês do que quer que se escreva. Este jogo é global e nunca sabemos quando um geocacher estrangeiro pode procurar uma nossa cache. Só depois de se viajar para países de mentalidade tacanha – como a Alemanha – é que se percebe a falta que faz uma dica que possamos compreender, especialmente em cenário urbano e com caches de dificuldade mais complicada.

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Bons Containers

Um dia de sol, bem raro nesta parte do mundo. Logo, um apelo irrecusável para sair e passar o máximo de tempo fora das quatro paredes. Geocaching. Uma parte da cidade ainda por “trabalhar”: Hostivar, um conjunto de bairros tipicamente de subúrbio, uma espécie de Olivais de Praga. Pelo caminho, entrar e sair do eléctrico para limpar umas quantas rebeldes que tinham sido deixadas para trás. Por lá, é caminhar num meio urbano tristonho, de uma cidade que foi em tempos risonho e hoje está decadente. A cada prédio, a cada espaço verde, fica a sensação dos fantasmas de outros tempos. Das pessoas que foram aqui felizes e já não o são. Das esperanças e expectativas construidas, feitas em pó no correr dos anos, que se foram acumulando, maltratando corpos e destruindo ilusões. Hoje as lajes daqueles relvados estão cobertas com as folhas que vão caindo das árvores plantadas. Antes seria diferente concerteza, com as correrias da miudagem, rebentos da geração que primeiro abordou estas partes.

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E assim, uma após outra, as caches na linha de fogo foram caindo. Até à penúltima, dois containers notáveis, mas nada de verdadeiramente interessante, feitas as contas. Mas para o fim estava guardado o melhor bocado. Depois da tarde passada entre mongos urbanos, é com gosto que me aproximo de um pequeno bosque. Mas quando chego à orla e vejo o trilho que se interna entre as árvores, em direcção à cache, começo a ficar verdadeiramente fascinado. O Outono é sempre bonito nestas paragens, mas aquele pedaço específico é do melhor que tenho visto. As cores são indescritiveis, e a falta da câmara fotográfica é um erro imperdoável. Pondero regressar, munido do aparelho. Não importa que o local seja o fim do final de Praga. É belo para além de qualquer adjectivo. A luz entra em mil diagonais, filtrada pela folhagem resistente, já castanho dourado, mas ainda pendente, agarrada a uma última réstea à vida que já foi, sem saber ainda que logo estarão também no solo, ombro a ombro com as companheiras de um Verão glorioso. O tapete estaladiço que cobre o caminho é um espelho do céu possível, o que é formado pelas ramagens sobre as nossas cabeças.

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Chego a um primeiro cruzamento onde o trilho se multiplica, mas a direcção a seguir é evidente. A paisagem diversifica-se, torna-se verde por um momento, é um pequeno prado que se atravessa antes de mais um mergulho na densa floresta deixada intacta pelo monstro da edificação, um fenómeno tão presente nesta grande urbe que é a capital dos Checos. E nisto estou lá, junto à cache. A “hint” dita: “debaixo da pedra”. E vejo-a, a magna laje, ali mesmo. Mas… não… “wrong one”. Esta é a laje sepulcral de um qualquer animal de estimação, certamente um cãozito que por estes caminhos costumava passear com o seu dono, e encontrou aqui a sua derradeira residência. Está lá tudo… a laje encabeçada por uma cruz com uma coroa de azevinho e uma incrição… mas… esperem… o nome do animal é GC1HFH6. Acreditam que nem em checo um animal se pode chamar GC1HFH6? Pois é! É a cache. Acabaram-se as palavras, é  o melhor container que já vi… ficam as imagens.

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Prefácio: as técnicas descritas podem revestir-se de graus distintos de subjectividade, e, em última instância, serem desaconselhadas por alguns com perspectivas distintas. Trata-se portanto de uma colecção de conselhos de cunho pessoal e não dogmático. Ah! O título fala em cache física porque se refere a tesouros com um contentor, que têm uma existência real e palpável. Não é uma alusão à ciência química… digo… física.

Lição 1: As linhas condutoras. também conhecidas como guidelines, para os amigos. Justas ou injustas, se não forem respeitadas a cache não será publicada, kaput, finito, the end. É por isso o único passo verdadeiramente imprescindível. Ler aqui as guidelines.

Lição 2: O contentor. Altura de desfazer uns pseudo-dogmas que com o tempo se ajeitaram entre nós: que eu saiba nada é obrigatório na altura de criar a caixa e respectivos conteúdos. A stashnote (papelinho onde se explica o que é o Geocaching, caso a nossa criação venha a cair nas mãos do inimigo), as prendinhas, e, sobretudo, o saco de plástico. O que é preciso é um logbook. E mais nada. Tudo o mais vem por dedicação e amor, não por obrigatoriedade:

  • Pois que se coloque o livrinho para os logs dentro de um contentor, e que este seja uma obra prima de criatividade ou um tupperware da melhor qualidade. Caixas de metal são má ideia devido à facilidade com que a ferrugem as começa a roer.
  • Algo para o visitante escrever as suas impressões poderá dar jeito. Uma esferográfica, caneta, lápis… sendo que este último é mais resistente a tudo, e dimensionável segundo o tamanho do contentor,  recomendo-o. Já agora, seja lá o que for, não lhe fará grande diferença viver fora do saquito de protecção extra em que quase todos botamos o logbook… e assim se evitar que o bico do elemento de escrita rompa esse plástico.
  • Que se imprima a folhita a explicar o que é o Geocaching, de preferência em português e inglês, para que o achador casual da cache possa resitir à tentatação de a magoar.
  • Que se ponham lá para dentro uma colecção de prendinhas capazes de interessar à maioria das pesssoas, sem esquecer que algumas coisas são interditas à luz das linhas condutoras. Nada de camisinhas de Vénus, que as crianças podem ficar curiosas fora de tempo; nada de caramelos ou outras coisas para comer, que a bicharada vai concerteza danificar a cache para chegar até elas.
  • Até se podem deixar artigos de manutenção antecipada dentro da caixinha: lápis extra, sacos de plástico de reserva (vide ponto seguinte), um segundo logbook.
  • Se for conveniente, que se envolva tudo num saco de plástico. Não porque é costume, por favor. O saco de plástico é boa ideia se ajudar a camuflar a cache. Um saco de plástico cinzento para uma cache escondida entre rochas cinzentas é boa ideia. Eventualmente, apesar de algumas teorias em contrário, é capaz de ajudar a proteger da água da chuva. Mas nesse caso, será uma patetice colocar um saco a envolver uma cache deixada num buraco onde nunca chega água: nem precisa de camuflagem nem de protecção, e só se está a criar um naco de lixo que com o tempo se começará a desfazer e a espalhar por ali. Ah! Se o cenário aconselhar à colocação de um saco, nem pensar em dar nós! Para além de irritar toda a gente, pode entrar para a lista negra do MAN (Movimento Anti-Nós, liderado pelo mullah Portelada). E não queremos que lhe acontença… isto!

Lição 3: Selecção. Agora que a caixinha está pronta, há que a botar no ninho. Não vou aqui falar do local onde criar uma cache, que isso cada um sabe da sua vida. Mas uma vez que está decidido a partilhar com a comunidade um local que gosta, não há razão para que o ponto exacto do esconderijo não seja cuidadosamente pensado. Por exemplo, não existe nenhuma razão para a deixar em linha de vista directa para a entrada de uma esquadra de polícia (já encontrei três nessas condições), de uma vigia de incêndios ou da portaria onde se abriga um agente de segurança. Olhe bem em seu redor e imagine o local noutras circunstâncias. Se é Domingo, as coisas poderão ser diferentes aos dias de semana. Depois, considere o impacto ambiental que a invasão de geocachers terá no ponto. Há uns anos, quando tinhamos visitas nas nossas caches de tempos a tempos, não era preciso especiais preocupações neste aspecto. Actualmente, com as caches a poderem ter mais de uma dezenas de “founds” no primeiro dia, e centenas por mês, é preciso imaginar o que esses pares de pés todos poderão fazer a um canteiro, a um jardim… e o que esses pares de mãos todas poderão causar a um muro de pedra centenário. Sobretudo nas cidades, tente encontrar um local à prova de destruição. Mesmo duzentos geocachers totalmente educados e sensibilizados não poderão evitar de deixar marcas, no seu todo.

Lição 4: Informação. Até pode parecer que agora só falta preparar a página com toda a informação sobre a nossa cache. Reparou na palavra “toda”? Pois bem. Como sabemos não e obrigatório nem nada que se pareça, mas disponibilizar informação sobre o local onde está a cache ou o evento a que alude, seja ele uma igrejinha ou a marcação do local onde se deu uma batalha é coisa simpática. Mas para além do “background” é vital que não se esqueça de fornecer todos os dados essenciais à acção do geocacher. Se a área só está acessível dentro de um determinado horário, se uma maré bloqueia o acesso durante parte do dia, se ir de calções é sentença de morte para a patinhas… tudo isso importa, e muito ao geocacher, e tenho cá para mim que mantê-lo na ignorância até ao momento em que ele chega apenas para constatar que não poderá alcançar a cache é mau.

Lição 5: Universalidade. O ideal é que todos falássemos Esperanto. Mas o mundo não é ideal e a generalização linguística sempre foi vista como uma ameaça à soberania e ao poder dos Estados, bem secundados pelos seus cidadãos. Assim, ao longo dos tempos, o latim, o francês e o inglês, por esta ordem, foram constítuidos línguas francas na nossa civilização. Hoje, como se entendem os finlandeses, árabes e croatas, os russos, portugueses e coreanos, os chineses, peruanos e húngaros? Quando uns viajam até aos outros, esperarão que se fale na sua língua materna? Deverão aprender a língua? E quando aqueles recebem estes, é legítimo esperarem que tenham aprendido a sua língua? Não, não e não. As fronteiras demoram segundos a serem cruzadas, aprender uma língua leva anos. Mas comunicar é vital. Como é possível articular este problema? Aprendendo pelo menos a língua franca, que nos nossos tempos, goste-se ou não, é o inglês. E no Geocaching, é a mesma coisa. O jogo é universal, criado e baseado num país de língua inglesa, e com um website em inglês. Criar uma cache sem uma versão internacional, perceptível pela esmagadora maioria dos viajantes é mau. Raia o banditismo se a ausência for fruto de uma bacoca convicção nacionalista ou qualquer outra ainda mais rebuscada. É apenas inconveniente no caso de se dever a distração ou incapacidade linguística. Para resolver este último problema, não faltam voluntários para a ajudar na tradução, aproveite a boa vontade alheia. Porque, quanto mais não seja, um dia poderá ter a possibilidade de procurar cache num outro país e não vai gostar de ser tratado como tratou os outros. Ah! Tradutores automáticos, esqueça. Os resultados são simplesmente anedóticos.

Lição 6: Manutenção. Digam lá o que lhes parece mais correcto: quando se pensa em “criar um filho”, está-se a falar de uma noite em que nos deu o cio e lançámos a nossa semente em ventre fértil (ou vice-versa) deixando uma barriguita a crescer durante nove meses, ou de anos a fio a cuidar de um ente desprotegido que precisa da nossa atenção constante? É a segunda não é? Pois então com as caches é a mesma coisa. Criar implica cuidar. Não é só deixar para lá a caixa e ir à vida. É preciso assumir o compromisso. Aquela cache vai precisar do nosso cuidado paterno. Não se mudam as fraldas, mas muda-se o logbook. Não precisa de roupa nova à medida que cresce, mas precisa de containers novos à medida que os anteriores se vão partindo. De resto, tudo isto consta das linhas condutoras. Esperar que os outros tomem conta das nossas criações é tão injusto como contar com os vizinhos para cuidarem das nossas crianças.

Lição 7: Coordenadas. Parece evidente. E é. Ao criar uma cache tem de fazer todos os possíveis para publicar as coordenadas correctas. Mas de tão evidente que é, mesmo assim, às vezes as coisas sucedem de forma diferente. Recolher as coordenadas através de ferramentas como o Google Earth, NÃO! Os resultados podem ter variações de dezenas de metros em relação ao ponto real. Se usar um GPS como deve ser (para estes efeitos), não se limite a tirar as coordenadas. Faça-o várias vezes, anotando-as sempre. Aproxime-se várias vezes. Desligue o GPS e torne a ligar. Deixe-o a marinar em cima da cache durante uns minutos e depois tire a coordenada. Por fim, faça a média de todos os valores obtidos. A gente agradeçe.

Lição 8: Maluqueiras, não! Publicar uma cache antes dela estar no local ou botar as coordenadas sem as verificar, NÃO. Parece claro mas a experiência diz que nem toda a gente se lembra disso. Resultado: hordas de pessoal a ir à procura no sítio onde a cache ainda não vive, ou a trepar uma encosta cobertinha de silvas enquanto a caixa se abriga debaixo da aba de um moinho no monte oposto, a rir-se de tudo aquilo.

Lição 9: Adaptação. É preciso meter uma coisa na cabeça: por vezes aquilo que para nós parece evidente, não o é para a esmagadora maioria das pessoas. Isto, no contexto corrente, significa que talvez cometamos erros na criação da nossa cache, erros esses que só serão descobertos pela interacção real com o “mercado”. O que é necessário é saber reconhecer que onde há muito fumo é capaz de existir fogo, e se ao fim de 20 logs, 10 referem um problema, talvez o que neles é indicado seja merecedor da nossa atenção e correcção. Uma cache classificada com 2 estrelas de grau de dificuldade que tem tantos “not founds” como “founds” se calhar é na realidade mais díficil do que isso, e não custa nada reconhecer o erro e corrigir. Se quando fomos deixar uma cache não sucedeu nada de especial, mas se os geocachers repetem nos logs o aparecimento de cães ameaçadores na área, talvez devamos considerar mudá-la de local. É preciso adaptar o nosso fruto inicial ao feedback que vamos recebendo nos logs.

Lição 10: Dar tempo ao tempo. Se começou a practicar Geocaching há pouco tempo, é boa ideia ganhar algum calo nestas andanças antes de criar. Os benefícios da aprendizagem são parte do senso comum, e quanto mais caixinhas encontrar mais aprenderá sobre a arte de bem criar uma cache. Se não conseguir refrear o entusiasmo e partir logo para as suas próprias criações, as probabilidades de cometer erros de palmatória elevam-se. E não há nexexidade. Nem para si, nem para os outros. O Geocaching não vai a lado nenhum, estará aqui à sua espera passado uns meses, quando já tiver visto de tudo e aprendido por experiência própria como se cria, mal ou bem, uma cache.

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Prefácio: as técnicas descritas podem revestir-se de graus distintos de subjectividade, e, em última instância, serem desaconselhadas por alguns com perspectivas distintas. Trata-se portanto de uma colecção de conselhos de cunho pessoal e não dogmático.

Lição 1: um, dois, três. Tempo, tiempo, timing. Como em música. Um, aproximação. Esta é óbvia. Vai-se espreitando o GPSr e chega-se ao denominado ponto zero. O conselho vem a seguir: Dois, detecção. Começa a trabalhar só com os olhos. Pode ser que a coisa se resolva desde logo. Senão, terás que se proceder a trabalho manual. Mas uma coisa é certa: se há muggles, aconteça o que acontecer, não saques a cache pra fora ao primeiro contacto. Trabalha como um actor, não reveles emoções, continue à procura. Se alguém te estiver a “morder” não vai saber ao que andas e muito menos que já encontraste. Mantem a macacada durante um bocado. Agora que já sabes onde está, poderás esperar por uma aberta nas atenções para, num movimento rápido e preciso, proceder à extracção e posterior devolução. Com tudo isto, tudo o que o muggle conservará na ideia é que esteve ali um tipo estranho, mas não fará ideia dos seus propósitos e muito menos cheirará a cache. Trata-se de uma técnica de base a ser empregue em conjunto com algumas das que se seguem.

Lição 2: a monotonia é rainha. Se os muggles, na sua pérfida curiosidade, te mancaram, cansa-os. É um facto observável que a curiosidade se esgota na monotonia. Ninguém observa durante muito tempo algo que não lhe renova o interesse. Isto para o Geocacher significa: descobre o ponto zero, se possível topa o container sem lhe mexeres e abanca-te. Torna-te estátua. Finge estares em meditação ou lê. Passado alguns minutos tornaste-te parte da paisagem a a curiosidade muggle vai-se esbater. Funciona com todos os seres vivos deste mundo.

Lição 3: justifica-te. Não, não leves um megafone para apregoar aos sete ventos que andas à cata de caixas escondidas. Simplesmente fornece aos muggles uma razão válida para estares ali a fazer o que fazes. Uma máquina fotográfica e um interesse extremo por algo próximo do ponto zero costuma servir. Se procuramos algo numa estrutura metálica, vamos fingir que somos apaixonados pelo que estamos a ver. Tirar fotografias como se não houvesse amanhã. Geralmente isto obtém o seguinte resultado na mente retorcida do muggle típico: “o que é que aquele gajo está ali a fazer!? Ahhhh! Tira fotografias. É turista. Ou então é estudioso daquilo. Tá bem”.

Lição 4: a bandeira é a morte do artista. E sim, eu sei que a malta não anda por ai armada em porta-bandeira. A bandeira em questão é outra, também conhecida por “peixarada”, “barraca” ou, de forma linguisticamente mais elaborada, “dar nas vistas”. Ou seja, apesar de ser elementar, eu sei que há pessoal que se esquece que o que está a fazer deve ser discreto. E vai dai, fala alto, levanta calhaus à vista de todos, olha para o GPS. “Eh pá o ponto zero é aqui carago!”. Ora por muito pouca vocação que o muggle tenha para ser uma “pain in the ass”, não há alminha que resista a sê-lo perante este convidativo cenário. Portanto, malta, nada de dar bandeira! É meio caminho andado para a destruição de uma cache.

Lição 5: a bandeira pode não ser a morte do artista. A aplicar com moderação e apenas em último caso. Ok, já vimos qual é o ponto zero. Quiçá até já fisgámos visualmente o contentor. O que fazer se do lado de lá da estrada está uma esplanada cheio de zézinhos locais? E que tal dar alta bandeira no vector diametralmente oposto ao da cache? Que tal chegar ao cachemobile, mandar umas “ca*****das” para o ar e começar a preparar para mudar o pneu, enquanto quase todo o team se dirige para o carrito com ar revoltado e pespegando uns murraços controlados na chapa? Não é preciso ser um génio para saber que neste momento, todos os atentos olhos estão derretidos de gozo na cena do carro. E enquanto isto, um voluntário do team resgatou a cache, assinou o log e devolveu-a à paz da eternidade esperada. As variantes da bandeira são inúmeras, limitadas apenas pela imaginação. Esta técnica tem um inconveniente óbvio: só pode ser practicada com um número considerável de elementos.

Lição 6: livre-directo. Também aqui é preciso uma equipa composta, e quantos mais melhor. A coisa é simples e explica-se numa linha: tá ali!? Pessoal, forma barreira. Um pouco para a direita…. mais um bocadinho… pronto! Não mexe mais! Deixa tar. E, perante este véu de invisibilidade, o membro da equipa selecionado para o efeito tratará dos negócios sem qualoquer risco para a operação ou para a cache.

Lição 7: matar de vergonha. É preciso um nível de lata acima da média, e tem um leque de variantes que pode ser enriquecido gradualmente pelas mentes mais retorcidas. Em suma, trata-se de criar um sentimento de constrição no observador que o leve a olhar decididamente para outro lado ou, na melhor das hipóteses, a fugir para bem longe. E como? Há quem proceda à abordagem directa e pergunte literalmente “está a olhar tanto para mim porquê, há algum problema?”. Outra ideia: vamos urinar ou fingir que nos preparamos para tal. Esta funciona! Já a experimentei e deu os resultados esperados. Se a team é um casal de namorados, dêem-lhes fogo! Até ao grau necessário. Mas nesse caso, haja o que houver, não tenham nada a haver com os preservativos que vão aparecendo nas caches.

Lição 8: descontração. Esta é, como diziamos na Marinha, uma IP (instrução permanente). Ou seja, é para se usar sempre, em conjunto com uma ou mais das restantes lições deste breve guia. Quanto mais descarado for o geocacher (desde que deixe o alarido à porta) menos chamará a atenção de olhos estranhos. Porque aquilo de um tipo se aproximar com passo hesitante, olhando para todos os lados com aspecto amedrontado ou prudente, é como mel para abelhas. Em menos de nada, todos os muggles da região vão estar de antenas levantadas. Parece que sentem. Até os que estavam de costas se viram para ver o que se passa ali.

Lição 9: a multidão é amiga. Parece mentira mas é verdade. Mil vezes melhor procurar uma cache entre um mar de muggles do que a ir buscar a uma praça vazia com dois muggles à conversa na esplanada. O geocacher, mergulhado na multidão, perde identidade, torna-se invísivel, é mais uma partícula de água naquele oceano, e ninguém repara nele. Que o digam todos os que já procuraram e encontraram a cache Fernando Pessoa. O único problema é conseguir fisicamente chegar ao local. Ser “mordido” por um muggle é impossível. Por um? Qual um… a massa é tão uniforme que nem os muggles são individualizados, quanto mais o geocacher. Por isso, deixem os complexos em casa. Quantos mais melhor. Até porque os muggles têm esta agradável característica de se distrairem uns aos outros.

Lição 10: inspire confiança. Se se achar à altura, chegue à fala com o “inimigo”. Seja o tipo simpático, caia no goto do muggle. Tope-lhe a onda e comporte-se em conformidade. Os tipos ali não gostam dos da cidade? Então nos da cidade vamos cascar. Olá!? Um símbolo do Benfica? Não importa se somos lagartos ferrenhos, o Simão é o maior do mundo! O muggle anda ao peixe e não desgruda da falésia onde queremos procurar? Mostre-se interesse pela pescaria. Este método pode não resolver o problema, mas mal, nunca fará, e com sorte a quebra do clima de desconfiança permitirá uma pequisa desafogada ou a recolha de elementos preciosos: o muggle está mesmo em cima do ponto zero, mas agora já sabemos que dali por meia-hora se vai pôr na alheta para almoçar.

Lição 11: o GPSr é mau. Convenhamos que para a maioria do povo, o GPS é um aparelhómetro estranho, implicado numa teia de conceitos que, se explicados sem bases, podem ser de complicada apreensão. Não é portanto de estranhar que a utilização de um GPSr em locais públicos desperte curiosidades. Perigo! Isso é a última coisa que queremos. Por conseguinte, recomenda-se a consulta discreta ao bichinho. Nada de andar por ali de Garmin ou Magellan em punho em grandes passadas e com olhar inquiritivo para o que temos na mão. Se estamos num lugar semi-isolado e chega alguém que nos apanha em compenetrada consulta, o disfarçe clássico é fingir que se trata de um telemóvel e lá vai disto: levante-se o “tijolo” para o ouvido e converse-se com as almas do além. Já vi fazerem-me isso. E posso garantir que há poucas coisas neste mundo mais hilariantes do ver tentarem conosco o truque.

Lição 12: o iô-iô é suspeito. Habituar um muggle à nossa presença na paisagem pode ser trabalhoso, mas geralmente consegue-se. As coisas pioram é se temos que o fazer duas vezes. Apesar de tudo, eles não são parvos e não engolem sucessivamente a mesma pastilha. Se ficaram inicialmente curiosos ao ver um tipo bizarro ali, até se podem distrair. Mas se sentem que o bicho se afasta, isso fica-lhes registado. Nem pensar em regressar! É uma sentença de morte! Não há coisa que seja mais suspeita aos olhos de um muggle do que alguém que chega, vai e… regressa. Isso já é crime classificável como “andar a rondar”. Assim, sempre que for fisicamente possível, tenta logar no local. Desde que isso não implique riscos adicionais, o que pode suceder em algumas caches. Há uma excepção à regra exposta nesta lição: quando se trata de uma multidão, o geocacher não chega a ser uma entidade e os observadores estão em constante renovação. Ai, não há problema, pode ir e vir quantas vezes lhe apetecer.

Posfácio: se és um gajo alternativo, punk ou rasta, ou simplesmente és fora do comum, no alto dos teus quase dois metros de altura ou na largura herdada de uma vida passada nos McDonals deste mundo, esquece este artigo.

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