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E vão 9

Há coisas do caneco. Estava aqui a rever umas coisas no blog, a dar uns toques na formatação dos textos, e abro um artigo de há três anos, dedicado ao meu aniversário enquanto Geocacher. E pensei para com estes botões… “Deixa cá ver em que dia é este aniversário, pode ser que me dê os parabéns a mim próprio outra vez quando for a ocasião…”

E começo a ler e é isto que encontro: “Seis. Seis anos. Faz hoje precisamente seis anos que me registei no Geocaching.com e pouco depois caia a primeira cache. Foi precisamente a 31 de Julho que encontrei a 16 (silly name, isn’t it?) [Loulé].”

Espera! 31 de Julho! Mas 31 de Julho é hoje. Que coincidência incrível! Ironicamente não me ocorre nada para dizer. Sinto-me como o aniversariante que se levanta de copo na mão, enquanto a multidão entoa a cantilena… “discurso!… discurso!… discurso!…”. E depois, não sai nada. Bem, uma coisa é certa, se hesitava em ir até Faro à Geomariscada, fica já decidido. É a pequena excentricidade do dia.

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A estória de hoje, tal como a de uma vida, inicia-se em Alvalade. Estamos nos idos de Julho, apesar do tempo não estar especialmente quente. Saio de casa, passo a praça de Alvalade e chego à Reis de Portugal #08 – D. Pedro I. Foram centos de vezes, as que vi aquelas pedras de calçada, aquela escolinha primária de outros tempos, ainda activa, servindo geração após geração. Os meus irmãos, lá para meados da década de 50, aprenderam ali a ler e escrever. Eu, não. Mas entrei nas instalações um punhado de vezes, quando nos meus dezassete anos devorava quilómetros de pista ao serviço de um pequeno clube de atletismo que tinha um protocolo com a escola para usar o seu ginásio.

O destino seguinte é um dos segmentos da rua das Murtas, aquela via que abraça o antigo Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos, seguida diariamente e desde há décadas por condutores apressados, a caminho ou de regresso dos seus postos de trabalho, muitos sem sequer fazerem uma ideia do nome da rua. Mas eu sei, porque não só segui os seus passos como vivi ali a umas centenas de metros. E a primeira vez que me recordo de ter pisado o seu passeio foi muito, mas mesmo muito tempo antes de uma comunidade de ciganos ter ali assentado arraial para não mais sair, hoje instalados num par de edíficios para si construidos ao bom estilo de habitação social.

O que eu não sei é do que tinha mais pavor: se, uns anos mais tarde, de ver o meu carro avariar-se defronte dos olhos expectantes da “ciganada”, se nos primórdios, quando descobri que o que se encontrava no final da passeata à qual a minha mãe me conduzia pela mão era uma freira endominhada com uma seringa na mão, aguardando para ma espetar nas tenras carnas em nome de uma saúde que eu não compreendia. E foi ai, à beira desse tenebroso convento – mais sombrio ainda para um meu irmão que estudou ali em regime interno no início dos anos 50 –  que fui encontrar a Reis de Portugal #16 – D. Sebastião.  Uma daquelas caches que apenas coincidentemente desempenhou um papel mais interessante do que o de adicionar um “found” à contagem dos que ali param o carro à beira, naquele local desolado sem eira nem beira.

Seria ali que o meu plano me levaria para um traçado mais convencional, de regresso à Avenida do Brasil e a outras paragens. Mas havia caches ali tão perto… a tentação, a imensa tentação…  porque não desafiar a sorte e encontrar uma passagem que servisse o raro trânsito de um peão naquele emaranhado de vias rápidas e acessos que abraçam a Segunda Circular? E a ALTA DE LISBOA ali tão perto. E depois, mais outra, logo acima. Ficou decidido. O dia ia decorrer de forma bem diferente do que o esperado.

Ao aproximar-me daqueles enormes letras… ALTA DE LISBOA… senti-me transportado para diferentes níveis do passado, em simultâneo. Fui até meados dos anos 80, quando tantas vezes conduzia o meu Ford Cortina 1600 GT por ali, por estradas que já não existem, demolidas pelas fabulosos obras de urbanização deste mega-projecto frustrado. E até finais dos anos 90, quando me foi encomendada a elaboração do primeiro website dessa Alta de Lisboa que então existia apenas no papel. Enquanto trabalhava pela noite dentro, com os planos das primeiras urbanizações das quais me recordo apenas do romântico nome de Quinta das Conchas, estava longe de imaginar que tinha entre mãos a génese do monstro que iria destruir uma vasta parte de Lisboa tal como eu a conhecia. Aquelas quintas centenárias, os campos sem fim, e também os menos charmosos bairros de lata da Musgueira. As ruas e estradas que dominava como a palma da mão, em breve seriam substituidas por vastas alamedas usadas por quase ninguém, vítimas do colapso demográfico que já então se devia adivinhar, consequência dos hábitos da vida urbana de passagem de século e do corte no fluxo do meio rural para a grande cidade em consequência do esgotamento dessa matéria-prima que são as pessoas com energia e interesse em mudar de vida.

Caminhei em direcção à Quinta da Musgueira Sec.XVIII com a surpresa do testemunho no terreno daquilo que já conhecia da fotografia aérea. Esta nova cidade, materializada ali como que por artes mágicas aos olhos de quem deixou passar uma década e meia sem uma visita. A Quinta da Musgueira teve um impacto sobre mim. Que coisa mais bizarra aquela, um pedaço do passado cristalizado no meio de um futuro suspenso que provavelmente nunca será. Aquele pórtico, encimado por esferas de pedra que já tanto viram e que agora dizem bom-dia a cada nascer do sol às torres fajutas que as rodeiam. Posso imaginar os tempos dificeis que tiveram os proprietários da quinta durante os tempos de ouro das barracas da Musgueira, que testemunhei e vivi. Recordo-me de uma noite, ainda antes de ter um carro que pudesse conduzir, em que eu e um par de amigos perdemos o último autocarro da Charneca para o Campo Grande, e que, portanto, tivemos que nos fazer à estrada. Ao chegar à central da Carris da Musgueira pensámos poder apanhar um qualquer autocarro perdido que se movesse em circulação irregular. Enquanto esperávamos defronte da cancela, começaram a chover pedras, vindas de um alto que ainda lá está (ou foi rebaixado ou a memória de um momento de tensão o tinha avolumado), arremessado por habitantes de todos os tamanhos e idades, impulsionados por ódio social e sentido territorial. Concentravam-se defronte do bar ou sede do glorioso Águias da Musgueira, e privados de outra actividade desportiva, practicavam agora o arremesso de pedra aos desconhecidos-claramente-de-bairros-priviligiados.

Mais ou menos deste ponto partiu o apedrejamento da Musgueira

Mais ou menos deste ponto partiu o apedrejamento da Musgueira

Na minha ingenuidade, pensava que a Alta de Lisboa era um bairro moderno entregue a gente de bem, filhos de uma classe média e média alta, como indiciaria a localização central e a construção recente dos edíficios. Uma espécie de Parque das Nações em segunda versão. Afinal já tinha estado na Quinta das Conchas e mais coisa menos coisa foi esse ambiente que ali fui encontrar. Mas afinal não. Há também uma face negra na nobilissima Alta de Lisboa, e senti-a ainda antes de a penetrar. Aquelas sentinelas na extremidade de cada rua eram afinal as mesmas, umas gerações à frente, que se posicionavam nos acessos do bom velho bairro da lata. Hesitei quase imperecetivelmente antes de continuar a caminhada, mas afinal os anos de experiência ensinaram-me bastante sobre sentir os ambientes e lidar com eles. Longe vão os tempos em que a menção a Musgueira se equiparava à promessa do Inferno na Terra.

Passei por aquelas ruas onde se aglomeravam idosos reformados e jovens entregues a actividades pouco lícitas. Carros de aspecto suspeito, crianças ranhosas, ciganos de reputação duvidosa, casas envelhecidas precocemente, lixos acumulados nos campos, tudo isto enquadrado por restos do mundo anterior. Já o Águias da Musgueira evoluiu bem, com um complexo desportivo de fazer inveja a muita gente, campo de relva sintética que faz esquecer o pelado de outros tempos.

Quando me afastava, um jornal passou por mim, esvoaçando, uma versão para pobres daquele saco de plástico de American Beauty, e enquanto se afastava, sorriu para mim, e mostrou-me o que tinha a dizer, em paragonas de primeira página:  “Desilusão, Tristeza e Lágrimas”.  Como é que aquele objecto inanimado definiu daquela forma genial o momento e as redondezas, no seu passado, presente e futuro?

Apanhei o jormal mais à frente, quando recuperava fôlego dos volteios no ar.

Apanhei o jormal mais à frente, quando recuperava fôlego dos volteios no ar.

Sai pelo outro lado, já muito perto da RSB Aeroporto – Fire Department/Bombeiros, e reparei com surpresa que estava a pisar o asfalto da movimentada estrada que nos meus tempos vinha desde a Segunda Circular e servia todas aquelas populações e outras adiante. Hoje practicamente não tem trânsito, usada apenas por aqueles que se deslocam às ruas desoladas na nova Musgueiras que há-de ter um nome pomposo como Quinta-Não-Sei-Das-Quantas. Foi uma surpresa das grandes e das tristes. Que saudade daqueles tempos que foram de ouro para e estrada e para o cronista.

"(...)  a pisar o asfalto da movimentada estrada que nos meus tempos vinha desde a Segunda Circular e servia todas aquelas populações e outras adiante. Hoje practicamente não tem trânsito."

“(…) a pisar o asfalto da movimentada estrada que nos meus tempos vinha desde a Segunda Circular e servia todas aquelas populações e outras adiante. Hoje practicamente não tem trânsito.”

Por fim a mencionada cache. Colocada, creio, junto ao local onde existiu uma virtual que foi das primeiras de Portugal, lá para 2002. E do sítio onde se desenrolou um dia um pequeno drama pessoal, uma relação de sete anos de idade terminada ali mesmo, num descampado que se estendia um pouco mais em direcção às pistas do aeroporto e que como tantas outras coisas destas paragens desapareceu para dar lugar a algo diferente.

Nem queria acreditar que tinha caminhado até ali. Eram quase 5 km, sabia-o bem, de outros tempos, olhos postos no conta-quilómetros quando a gasolina, se bem que infinitamente mais barata (0,30 Eur) tinha um custo real muito superior, um luxo reservado para dias especiais. Estava agora a entrar na Charneca, e ia encontrar na LISBON AIRPORT- Plane Spotters 17 um pouso muito curioso, nunca canto nunca explorado, por estranho que me parecesse. Uma vista gloriosa para os aviões, com direito a um trio de poltronas improvisados. Mas foi um triste DNF, o que me motivou para a multi-cache Parque do Amor que já tinha colocado de fora das intenções, por ser demasiado longe e por ser uma multi-cache. Mas afinal era já ali à frente, e assim como assim, já que o dia não tinha começado por seu uma caçada às memórias para tinha por ai evoluido, porque não palmilhar mais uns quilómetros e abrir o bau maior.

Uma das poltronas improvisadas, para ver os aviões passar.

Uma das poltronas improvisadas, para ver os aviões passar.

Charneca. A inesquecível Charneca. Aquela relação, terminada aos sete anos de idade, mencionada ali atrás, vivia, por assim dizer, por aqui. No Bairro dos Sete Céus, um pouco escondido de quem passa por este espaço. Quantas noites me viram por aqui andar, vindo de um serão, à vez cheio de paixão, de sonhos e de expectativas, de descoberta mútua e conversas sem fim… outros eram serões de arrufos, de discussões vindas da inevitável colisão de personalidades, de medos, inseguranças e ciúmes. Mas a memória é assim, benévola, e mesmo esses momentos de raiva lhe ficam marcados com uma saudade….

As noites daquele primeiro Verão, o de 1984, são as de mais doce memória. Às vezes vinha sozinho, outras, com o Augusto ou o Tó Maia; a namorada do primeiro também ali vivia, e a do segundo era amiga inseparável das outras duas, de modo que se formava ali um grupo com pouso pontual nos Sete Céus.

Nos anos 80, e provavelemente nos 90, não havia tal coisa como um Parque do Amor. Eram terrenos baldios, que se atravessavam por um ou dois trilhos bem pisoteados pelos que iam de casa para a paragem de autocarros e de regresso. A tempos, viam-se ali festas de casamento cigano que duravam dias a fio.  No bairro junto ao vértice mais distante do agora Parque, constituido por três ou quatro torres vivia um casal-modelo que eram, de forma mais pontual, parte do grupo: o Timóteo e a São.

Percorri aquele espaço tão bem requalificado, recolhendo os elementos para resolver a multi-cache. Correu tudo bem, e enquanto ia para cá e para lá, ia desenvolvendo aqueles “flashbacks”. Ouvia o assobiar expedito daqueles autocarros – os “laranjas” – que faziam a rota 1 e 17. E sentia-me a entrar e mandar-me com pompa para o melhor lugar disponível, preparando-me para uma viagem alucinante, como sempre o eram aquela hora, até Alvalade ou lá perto. O via-me sentado ali à beira, olhando para o relógio pela centésima vez na última meia-hora, esperando, sempre, por ela, que mais uma vez estava atrasada, e da emoção de a ver chegar, com aqueles olhos rasgados de chinesa que não era, e o enorme sorriso.

 A cache foi encontrada com sucesso. Estava naturalmente cansado, e sabia que tinha o caminho de volta à minha espera, ainda com mais umas quantas a que deitar unha. Mas não consegui resistir. Estava ali tão perto, tinha que ver, pela segunda vez desde há vinte anos, aquele bairro que quase foi a minha casa durante tanto tempo.

Atravessei a Azenha dos Milagres, que era uma passagem estreita, claustrofóbica, dominada por uma pela casa apalaçada, a Quinta dos Milagres. A casa ainda lá está, em surpreendente bom estado, mas o muro do lado oposto foi todo derrubado, e agora aquela atmosfera opressiva de quem corria perigo só por lá entrar desvaneceu-se. Mais flashbacks, de nada em especial, para além de mim a lá passar vezes sem conta. Uma vez, no dia em que regressei dos meus testes para admissão aos pára-quedistas,em Tancos, meti ali o carro, como costumava fazer. Mas vinha alguém em sentido contrário. Tive que recuar e raspei a pintura toda. Foi violento e ficou-me na memória.

Dou de caras com as sete ruas dos Sete Céus, trepando aquela colina que ali está desde sempre. No seu sopé, o campo da bola do Charneca está reduzido a uma ruina sem fim. Vejo o primeiro patamar, onde numa noite de santos populares eu e os meus amigos tivemos que enfrentar mais um extremo de territorialismo da rapaziada local, dessa feita terminando tudo em bem, entre abraços e convites para experimentar as sardinhas.

Subo o eixo principal, o que dá acesso a todas as ruas do bairro, imaginando sem na verdade saber o que iria encontrar no topo. Onde me lembrava de ver campos sem fim, há agora casas e urbanizações igualmente sem fim. E para todos os lados. Todas aquelas tardes preguiçosas no terraço do primeiro andar, nas carícias e abraços dos doce dezoito anos, não poderam ser hoje o mesmo… de novo, a bucólica paisagem marcada por campos e quintinhas deixou de existir. A ilha de paz que era o bairro dos Sete Céus transformou-se num castelo cercado. A perder de vista existem torres residenciais e o asfalto cortou de morte a paisagem natural que ali estava antes do virar do século.

Decidi passar em frente da casa. E ia pensando o que seria daquela gente, dela e da irmã, e dos seus pais. Queria tirar uma fotografia da casa, nem sei porquê, talvez para ter uma memória visual para abraçar em dias de especial nostalgia. Mas de repente, aconteceu algo surpreendente: um senhor conversa com um grupo de pessoas que está na varanda de uma casa, e naquele segundo vejo-a e não posso compreender como ninguém mudou… nem ela, nem o pai, ao seu lado… as outras pessoas já não pude ver, porque quis passar anónimo e se olharam para mim e não me reconheceram, vinte e tal anos depois, não quis desafiar a sorte e passei à distância, captando uma nota solta daquela voz que nunca será esquecida.

O encontro deixou-me abalado. É violento, quando estamos placidamente a visitar o nosso passado, e sem aviso o passado transforma-me em presente, e tudo se confunde, deixa de fazer sentido. As referências ficam invertidas, há uma intrusão, um choque de mundos. É como passear por um museu e num instante os figurinos e tudo o resto ganhar vida.

Nós, há muitos, muitos anos atrás

Nós, há muitos, muitos anos atrás

Durante um par de quilómetros caminhei distraidamente, de forma automatizada, sem mais nada ver e com o pensamento desordenado, fazendo um esforço para repôr as coisas nos seus lugares naturais. Acho que não o consegui, nem mesmo à medida que encontrava as caches Avião vai, Avião vem…, L.N.E.C., Parque Desportivo São João Brito e Antigas Instalações Emissora Nacional/RDP. a caminho de casa. Foi preciso chegar a noite, e os sonhos, para a mente reganhar alguma ordem e acordar no dia seguinte, já com o passado que na véspera se tinha transformado em presente de novo na sua posição devida… lá está, a de passado, mesmo que um passado com apenas umas horas de distância.

Antes de mais, tenho que esclarecer uma coisa: não acredito nisto dos Prémios GPS. E por duas razões, a primeira, pessoal, é que as caches que me dão mais gosto não são as que andam nestas andanças de nomeações; contentores XPTO dispenso-os bem, sobretudo quando contribuem para complicar o que deveria ser simples – o achamento, e depois, as caches ditas “de aventura”, que são aquelas que deviam ser chamadas de caches “de partir o pescoço”, também as evito, quanto mais não seja porque gosto de levar ao máximo as probabilidades de acordar no dia seguinte com o pescoço no lugar. O segundo motivo é mais lógico e racional: o país é finito e já está cheio de caches. Se há uns anos havia muitissimos locais divinais à espera de receber uma cache que levasse os jogadores a descobri-los, hoje a saturação faz-se sentir. Cada vez mais as marcas a bater são os tais containers e o grau de periculosidade. Não há volta a dar: as caches novas em sítios de grande interesse são cada vez mais escassas e tendem a acabar.

Mas eles estão ai, os Prémios GPS, e porque não participar? Leva uns poucos minutos, não custa nada e não faz mal nenhum. O pessoal da GeoPT engedrou um bem pensado mecanismo, bastante funcional, que permite uma votação sem problemas. Quando vejo a lista das caches a votação (não as nomeadas, mas aquelas em que, tendo-as visitado, posso efectivamente votar) tenho a confirmação do meu cepticismo. Algumas, nem me recordo delas. Outras sim, despertam-me um sorriso quando remexo nas minhas memórias, mas nenhuma, absolutamente nenhuma, se consegue comparar às grandes caches que ao longo destes últimos 9 anos fui encontrando. Vejamos:

Nr 1 – Limeira [Ghost village] (Faro); muita gente sabe que me pelo por vestígios de uma vida ida. Adoro sentir os “fantasmas” que habitam estes locais, imaginar vidas que foram, cheias de alegrias e agruras. Muitas das caches que mais me entusiasmaram foram encontradas em sítios assim. E a Limeira, localizada não muito longe de uma estrada que uso bastante, foi uma surpresa absoluta. Ali viveu uma comunidade, sabe-se lá durante quantos séculos. E hoje, é apenas lar para o vento que vai uivando, vergando as ervas secas que estão onde antes provavelmente se encontrava cereal. Aconselha-se uma visita num final de tarde cheio de sol. Aquela paisagem, devastada em 2004 pelo enorme incêndio que lavrou por toda a região, vai-se regenerando, e oferece um panorama deslumbrante.

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Nr 2 – Heróis,Vilões, Justiça / Heroes,Villains, Justice (Lisboa); Quem estudando um mapa observe a sua localização, sem mais nada, não terá expectativas nenhumas. Mas o gosto está mesmo em chegar lá sem saber bem o que se vai encontrar e dar com aquilo. Foi o que me ac0nteceu, e como sempre, quando as expectativas não são elevadas, a surpresa tem mais impacto. O que posso dizer deste local, eu, que sou fã de banda desenhada e adoro um bom mural? Fez-me lembrar as caminhadas por Bruxelas, de GPS na mão, procurando os murais dedicados aos heróis da banda desenhada belga, espalhados pela cidade. Aqui, estão todos reunidos, num banho de côr e vida bidimensional. À espera do feliz geocacher que se deslocar até lá.

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Nr 3 –  O Sr. Polícia (Santarém) ; sabia à partida que se tratava de uma daquelas caches de container XPTO. Em princípio evito-as, mas aquela estava ali à beira da estrada onde forcosamente ia passar. Ia decidido a dar-lhe os cinco minutos que [quase] sempre é o “budget” de tempo que dedico a cada uma. Mal não havia de fazer. Mas afinal, foi chegar e encontrar. Nem 10 segundos. Assim sim. É verdade que visitar aquele local não me trouxe nada de novo. Mas mesmo assim ganhei um sorriso fugaz mas saboroso.

Nr 4 – Georibatejo (Santarém); tudo o que escrevi para a Nr 3 poderia repetir agora. Mas com algumas vantagens para a Georibatejo (Santarém): o container não será tão elaborado, mas pelo menos oferece um pequeno passeio campestre, passando-se junto a uma antiga estrutura – uma vacaria, se bem me lembro – que pode ser explorada. Há também um pequeno desafio para encontrar o acesso correcto. Também aqui a cache foi encontrada de imediato, mas mais não posso dizer sob o risco de cometer o crime de “spoilerismo”.

Nr 5 – Ermida de Santo António (Beja); esta cache, localizada em Almodôvar, exigiu duas visitas antes de ser encontrada. Afinal, estava escondida exactamente como pensava que estaria, mas por alguma razão estranha não a detectei aquando da primeira deslocação. Às vezes, como a minha mãe dizia, parece que o Diabo nos tapa os olhos. Terminei a expedição com uma pintura de carro riscada – porque diabo aquele poço se encontra no meio do asfalto? – mas gostei do local, da pacata ermida quase abandonada, nos limites da cidadezinha. Agora, sinto que esta cache só foi escolhida por mim porque não há mais nada melhor para escolher. Não posso dizer que seja especialmente interessante. É apenas uma das muitas caches simpáticas que encontrei no decorrer do último ano.

Nr 6 – Praia da Marinha – Lagoa (Faro); como sabemos, pelo menos os que conhecem o Algarve, a região é na realidade uma praia contínua interrompida aqui e acolá por arribas e falésias. Ou seja, tecnicamente resulta em centenas, literalmente falando, de praias. Com a saturação geral de que o Geocaching padece a todos os níveis, também nestas pelas praias as caches se multiplicaram. São agora às dezenas, e não posso dizer que me empolgue especialmente encontrar mais uma cache em mais uma praia algarvia. Tal como na escolhida para nr 5 acabei por assinalar esta por falta de melhor escolha. Reconhecp-lhe um mérito superior à da maioria daquelas muitas caches atribuidas a cada praia da região. Implica um esticar de pernas num percurso de extensão bem equilibrada, que visitei com um amigo de Malta que acolhi por uma semana em minha casa. Gostei dos painéis interpretativos da flora e da fauna local, e de descobrir que existe ali um percurso pedestre devidamente marcado.

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Esta estória passa-se algures na Arrábida, em cache cuja identidade já se desvaneceu no tempo. Mas o lugar foi ali para os lados de Setúbal, entre a cidade e a serra. A cache levou o carro por estradas menos próprias, de terra mal batida, muitos calhaus e rasgos. Por fim, a aproximação final, a pé… e, já pelo meios dos matos, a coisa de 30 metros, começo a ouvir vozes… “scchhhh…. ouço gente… que chatice, devem ser caçadores, aqui, só pode…!”. Mas não nos ficámos… continuámos a avançar, e o som de humanos à conversa intensificou-se. E a curiosidade a incitar a mais um passo, a agulha do GPS a apontar para ali, e os metros estimados a descer. Quando finalmente foi obtido contacto visual, ficou claro que não se tratavam de caçadores, só podiam ser na nossa estirpe… geocachers.

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Mas estes geocachers tinham um comportamento estranho. Em vez de esquadrinhar a área, de GPS na mão e sentidos antentos, estavam sentados bucolicamente em volta de uma toalha de piquenique e mastigavam com gosto enquanto iam falando. Se fosse a valer, a emboscada seria letal. Foram apanhados completamente desprevenidos, não diria de calças na mão, mas certamente de boca cheia. À nossa aproximação sorridente levantaram-se logo. Eram os Lamas. Perguntei se já tinham encontrado a cache. Que não, que a coisa estava complicada e então decidiram fazer uma pausa para repôr o nível energético. E foi nessa actividade que os surpreendemos.

Eventualmente o tesouro apareceu. Algo afastado do ponto zero, talvez 10 ou 12 metros, o que naquele terreno de mato denso é a morte do artista. Deu ainda bastante trabalho, mas nesse dia, mais do que a memória de mais um found ficou a imagem daqueles três mosqueteiros a banquetearem-se candidamente exactamente sobre o ponto zero.

P.S. – Após escrever o texto, fiz uma pesquisa um pouco mais cuidada e acabei por identificar a cache. Foi na The Spirit of Saint Louis, e a cena passou-se no dia 12 de Março de 2006. Até está aqui o meu log original, ainda em inglês, como era costume naquela época.

A Voz do Céu

Nos dias que correm tudo no Geocaching se banalizou. Incluindo o encontro casual com outros geocachers. Aquilo que antes era uma festa e que inspirava longas conversas e trocas de contactos, hoje tende a resumir-se a um acenar de cabeça e adeus. Mas esta história é do antigamente, dos tempos em que não era muito frequente encontrar outros parceiros de hobby…. e passa-se na Bicas Beach [Aldeia do Meco] em Março de 2006, quando ainda era costume escrever-se os logs em inglês.

O carro ficou no parqueamento recomendado, ainda a umas centenas de metros do ponto zero. O passeio fez-se bem, o dia estava invernoso, cinzentão, trazendo uma aura especial aquela paisagem oceânica. Já na zona da cache, pensei subitamente ter encontrado… ena pá… que container tão grande.. e tão bem escondido, debaixo de pedras, num alvéolo rochoso. Abro-o à espera de encontrar o característico logbook e… nada disso, a caixa estava cheia de ferramentas e utensílios de pesca. Quem será que deixou aquilo ali ao abandono, para todo o sempre….?

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De volta à pesquisa, acabo por encontrar o desejado tesouro… mas não muito longe de nós, lá por cima, um parapente evoluia, com o piloto naturalmente curioso com as nossas actividades. Foi uma questão de esperar que tivesse que manobrar, e, apanhado pelas costas, cache para fora, logbook assinalado e tudo devolvido ao seu esconderijo.

Já a caminhar para o carro, pensamento alheado, ouço de súbito uma voz imperiosa vinda dos céus: “ENTÃO!?! ENCONTRARAM?!!. Acho que fiquei tão pasmado que mais reacção para além de um sorriso amarelo e um menear de cabeça não consegui desencantar. Mais à frente, o inesperado interlocutor esperava-nos, engenho voador devidamente parqueado no seu espaço operacional. Afinal não era um muggle comum. Era, isso sim, outro geocacher, e dos tesos… quem encontrou alguma das suas caches sabe do que falo. Era o SamCam, que já conhecia de nome, e que, pelo que fiquei a saber, era intrutor de parapente e estava ali no seu trabalho. Ficámos à conversa por um bom bocado, até que os seus próximos instruendos se acabaram de aprontar e lá teve que se despedir para dar a aula seguinte.

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Há umas semanas houve um certo alvoroço na chamada “comunidade portuguesa de Geocaching”. A razão? Terem aparecido fezes, ordinariamente conhecidas como “merda”, no interior de uma cache. Na ocasião, quem atentasse nas vozes, seria levado a pensar, entre outras, duas coisas: que era acto inédito e que se tratava de um ajuste de contas muito pessoal, entre membros da dita comunidade. Ora, inédito, certamente não era. E quanto á segunda possibilidade, sinceramente, tenho bastantes dúvidas. Com mais facilidade um “muggle” javardo pespega com uma destas do que um bem asseado geocacher, mesmo aqueles de mente conspurcada, que os há. Mas adiante, o que eu queria mesmo era retirar uma certa nota conspiracionista a estes inconvenientes episódios, porque o que tenho hoje para contar está comprovadamente despido de qualquer factor comum. Trata-se isso sim, do mais porco dos elementos aleatórios. Senão vejamos…

A cena passa-se durante a minha visita de Maio de 2012 a Praga. Como alguns saberão, Praga é a minha segunda cidade, capital de uma Pátria adoptiva a que tantgo quero. E portanto não sertá de estranhar que por lá me desloque com bastante à vontade, conhecendo bem a rede de transportes públicos e procurando caches em cantos rebuscados da urbe. Ora neste dia, não particularmente bonito, nem particularmente frio, nem particularmente nada, em suma, completamente banal, sai eu para uma pequena caçada que implicava quatro ou cinco caches. A primeira, era um ajuste de contas. No ano anterior tinha lá estado e não tinha encontrado nada. Agora, o contentor está de volta, num novo local, ligeiramente afastado da posição original. Trata-se de um local sem nada de especial, à beira de uma via rápida e de uma ponte que a atravessa. Desta vez encontro-a e em poucos segundos. Aquele sorriso de vitória que todos conhecemos desenha-se-me nos lábios. “Estás ai…”. É um ovo de plástico, alojado numa reentrância de uma árvore. Apanho-o, desco-o à altura do peito e é nesse ponto que o abro… uma surpresa que dura milésimos de segundo… a caixinha estava cheia de líquido, que desaba sobre o meu corpo e pernas, apenas ressalvadas por um instintivo desviar. Água… talvez tivesse ficado mal fechado e a chuva tivesse feito das suas..? Errr. não. O cheiro é ligeiro mas não deixa enganar. Acabei de ser brindado com um duche de urina. Pronto, fecho o ovo, deixo no local onde o encontrei, dou o “found” como “found” e afasto-me a matutar na minha má sorte.

A cache seguinte não fica nas imediações. Vejo o autocarro certo passar por mim, levanto os olhos, vejo uma paragem a uma centena de metros e corro. Entro ofegante. Passados alguns minutos apeio-me e reinicio a caminhada que me levará ao próximo “found”. Esta cache é dedicada a um pequeno clube de futebol e está colocada no muro que demarca o seu campo desportivo. Encontro-a sem qualquer dificuldade. Está escondida atrás de um painel publicitário e é de tamanho regular. Abro a caixa e, maravilha… cheia de bosta, felizmente já algo seca, pelo que o cheiro é suportável. Abro-a e fecho-a mais depressa do que o diabo pisca os olhos. Tive sorte dentro do azar. Não me caiu em cima nem me conspurcou para além da memória visual que ficou.

Portanto, se um dia encontrarem fezes numa cache, dêem-se como felizes. Isso não será nada, em comparação com este espectacular um, dois. Ou dois em um. Duche de urina, caixinha de merda, no espaço de meia-hora, separados por 3 ou 4 km.

 

Talvez começar pelo príncipio: quando a Groundspeak implementou o sistema de “Favorites”,  já eu tinha há muitos anos uma lista chamada “Caches Favoritas”. Esse rol era aliás uma evolução de uma ainda mais antiga lista que denominei “Top 10 Caches”. Como o seu nome indica, pretendia ai reunir as dez caches que mais me tinham agradado. Mas a verdade é que passado algum tempo as dez já iam em vinte e tal e, sem conseguir decidir-me pela eliminação de uma mão cheia delas, mudei o nome da lista, tornando-o mais liberal, e segui em frente.

Ora foi portanto com naturalidade que encarei a instauração dos “Favorites” como uma  terceira geração desta minha lista. Só que, já se vê, mesmo sem a rigidez das dez primordiais, esta minha lista tinha mesmo assim critérios muito exigentes. Muito mais do que a Groundspeak burilou com o seu ratio de um favorite para atribuir por cada dez achamentos. Credo! Por cada 10? Nem pensar que me disponho a distinguir uma cache em cada dez que encontro. O meu ratio real será talvez de 1 em cada 100. Ora deixem-me lá ver… tenho 5.640 founds e 101 “favorites” atríbuidos. Já é uma bela liberalização do meu critério inicial, mas mesmo assim completamente à margem dos padrões correntes.

Depois, não sou grande entusiasta do próprio conceito. A Groundspeak passou anos a negar a implementação de um sistema de classificação de caches, e acabou por o fazer. Só que, como em tantos outros contextos, vingou a corrente ditadura do pensar positivo. Passo a explicar: nesta era Facebook, onde “Like” se tornou parte da linguagem corrente, não existe uma contrapartida, um “dislike”. Está-se a tornar socialmente proibido não gostar ou discordar. E isso é uma ditadura, porque como em qualquer ditadura existem duas vias legais:  apoiar ou ficar silencioso.  Ora o sistema de “favorites” é precisamente isso. É-nos permitido gostar de caches e manifestar esse gosto. Não nos é permitido expressar opinião oposta. À boa moda salazarista, ou se vota a favor, ou não se vota. É esta a liberdade que se tem na hora de abordar a avaliação de uma cache que acabámos de encontrar.

Por fim, já ando um bocado enjoado dos resultados prácticos da “favoritizações”. Para uma cache se distinguir, das duas uma: ou é tudo acerca do contentor, esquecendo que este não deveria ser nunca um fim em si, ou é sobre uma cache que colocam em risco o pescoço de quem a pretende alcançar. E disto não varia muito. Ora como eu não sou dado nem a uma coisa nem a outra, resta pouco para mim como beneficiante da informação que decorre da atribuição de “favorites”.